Parecia uma noite comum de quarta-feira, eu me preparava para sair, curtir um cinema no dia mais tranquilo das sessões, e bem acompanhado. Banho tomado, cabelo penteado, pelos aparados e dentes escovados. Eu quis mais, a companhia merecia tudo perfeito, escolhi um bom jeans, uma camiseta nova, uma meia limpa e o tênis com cadarço. Passei meu melhor perfume, não esfreguei para não estragar a fragrância na pele. Mas ainda faltava algo, queria dar aquele ar de asseio, passar a impressão de novo, de limpo, de cheiroso, de refrescante. Olhei para o porta coisas do banheiro e vi ele, ali parado, quase ao fim, azul, me convidando para ter um hálito fresco e renovado. Era isso, faltava o Listerine! Cool Mint! Perfeito, era isso que eu queria, no primeiro beijo deixar aquela impressão de "se cuida assim da boca, o resto deve ser tão bom quanto" - esse devia ser o slogan da Johnson & Johnson! Segurei o frasco, 300mls, apertei as laterais indicadas para a abertura correta do produto, ele se deslacra, simples e eficaz. Deixo a tampa na pia, olho para o produto azul da cor do mar, então olho para sua abertura, seu bocal, meço mentalmente a quantidade exata para sua eficácia satisfatória. Mas então meu erro, uma falha que quase me custou a vida, um deslize básico e infantil, como beber água direto da garrafa na geladeira, sem sem importar com o próximo. Erro normal e contínuo de quem mora sozinho, e aí esta o perigo, esta sozinho! Viro rapidamente o frasco na minha boca, contra meus lábios, e deixo entrar a quantidade já medida e esperada, mas algo acontece, não esperava por isso, no meu anseio por frescor a medida foi errada, injusta para minha boca, eu errei! Quando viro meu rosto para o teto, com a cabeça para trás, aquele líquido inocente, com sua ardência suportável, se torna meu inimigo! Num reflexo de meus próprios músculos faciais, a garganta se contrai, a traquéia se abre, as válvulas que regulam minha respiração e controlam o que é ar versus o que é líquido ou sólido se confundem e respiram aquele líquido azul e até então inocente! Meus pulmões se enchem de frescor ardido, meu cérebro ordena pânico, que eu sigo sem hesitar. Pânico, sou todo eu agora! Num reflexo de desespero, forço uma tosse, que se torna incontrolável, forte, molhada e ardida. Espirro uma mistura de Listerine, saliva e meu oxigênio, um jato azul toma conta do espelho, escorrendo como sangue real. Me contorço para aguentar tamanho incomodo, tosses e cuspidas não bastam, aquilo esta em mim, no meu corpo e em meus pulmões, o pouco que desce pela garganta chegando ao estômago não importa. Nas recomendações claramente diz "não ingerir", não diz nada sobre "não respirar" mas descubro que é muito mais fatal, penso na hora que isso deveria vir em tarja preta na lateral. CUIDADO: NÃO RESPIRAR, PODE CAUSAR MAL ESTAR E ATÉ MORTE A sensação a ser descrita é de uma falta de ar, pulmões em ardência, incapacidade e uma quase morte por afogamento, por Listerine. Sobrevivi enfim, me olhei para o espelho e vejo uma imagem assustada, olhos vermelhos e em prantos, respiração desregulada, em tons azuis. Mais do que isso, vejo um vencedor, alguém que que chegou em seu limite, em seu ponto de ruptura e encontrou forças para lutar. Agora vou viver plenamente minha vida e aproveitar cada segundo que me resta, tive uma segunda chance e não vou perde-la, jamais. Um cheiro de menta paira o ar!