A Rede.
Naquela manhã, a rede acordou diferente. Ele apenas a recolheu, aceitando o que não entende.
Correu para fora da pequena casa de madeira sem pintura, sem ornamentos, carregando a rede nos ombros como fazia todos os dias.
Nestor era o nome dele. Quarenta e seis anos, pescador desde que se lembrava. Nunca conheceu a cidade grande. Sua vida sempre foi o interior, o cheiro de terra molhada, histórias contadas ao pé da fogueira e o alimento que tirava da roça quando o mar não colaborava.
Criou dois filhos ali mesmo, com o pouco que tinha e a força que sobrava. Hoje, já homens feitos, ambos viviam longe na tal "cidade grande" que ele jamais viu.
Ficara apenas Nestor na casa que construíra com as próprias mãos.
Ele ainda se orgulhava disso, mesmo que a casa, como ele, parecesse envelhecer sozinha.
Antes mesmo que o sol tocasse o chão, o pescador saía correndo até o seu bote. O riacho ficava ao lado de sua casa, o que facilitava bastante para remar até o ponto em que costumava pescar.
Não importava a hora em que acordasse (Nestor já tentou de tudo), quando chegava no local de pesca, os outros pescadores já estavam lá. Pareciam troncos fincados no fundo daquele riacho, esperando o peixe que nunca vinha para ele.
Sem mais floreios, Nestor pegou a rede. Ela parecia… Diferente outra vez. Não estava como quando acordou.
Os nós estavam mais apertados do que deveriam, como se alguém tivesse puxado cada laço durante a madrugada. As cordas pareciam mais pesadas, encharcadas apesar de não terem tocado água alguma. Algumas partes estavam mais longas, outras curtas demais, como se a rede tivesse crescido e encolhido ao mesmo tempo.
Era a mesma rede, ele reconhecia cada remendo, mas algo nela tinha se reorganizado por conta própria. Uma estranheza impossível de apontar com o dedo.
Ele passou a mão por entre as cordas, procurando um defeito. Não encontrou nada. Apenas a jogou no riacho na esperança de pegar algo.
Olhando para o lado, Nestor viu os outros pescadores. O dia mal havia começado, e eles já empilhavam peixes brilhantes nos caixotes, corpos longos e escamas vivas. Nestor sabia os nomear antes mesmo de pensar. Mas saber não mudava nada.
O vento passou sobre o riacho, quebrando a superfície lisa. Sua imagem se desfazia em pedaços na água, como se nem ela conseguisse segurá-lo inteiro.
Foi então que sentiu um peso. A rede dançou perturbando a superfície da água. Ele deu uma sorte grande! Parecia ser um cardume inteiro pego de vez.
Animado com o acontecimento, ele começou a sorrir alegremente dando gritos de vitória.
Os pescadores ao redor pararam para ver Nestor e sua briga pra puxar a rede. As veias do seu braço saltaram, e seu rosto ficou avermelhado de tanta força que fez.
Os pescadores estavam bem sérios, cochichando coisas com companheiros de barco, braços cruzados e olhares atentos. Alguns até reajeitaram as próprias redes, deixando próximas a de Nestor.
Mas quando Nestor finalmente puxou a rede, a verdade veio seguida de risadas. Não tinha nada.
Ele suspirou e encarou os demais rindo entre si. Fingiu não se importar, e outra vez lançou a rede. Enquanto esperava, sua respiração se alterou levemente. Parecia que algo pesava no seu peito. Ele não sabia o quê.
A correnteza passou leve. A rede boiava estranhamente imóvel, sem acompanhar o balanço da água. Era como se o riacho corresse em volta dela, evitando tocá-la.
Nestor franziu o rosto. Apertou o cabo com mais força, sentindo o fio áspero contra a palma da mão. A rede… Estava parada demais.
— Vamos…
Murmurou, puxando um pouco, só pra testar. A rede não veio. Não era o peso do peixe, era outra coisa. Uma resistência firme, como se ela própria se recusasse a voltar.
Nestor lançou um olhar rápido aos outros pescadores. Agora, nenhum ria. Apenas observavam de longe, como se temessem se aproximar.
Ele puxou outra vez, com mais força.
A rede cedeu alguns centímetros… E depois travou de novo.
O cabo vibrou na sua mão, uma vibração quase imperceptível. Nestor recuou um passo. Por um instante, teve a sensação absurda de que a rede respirava.
— Que que cê tem, hein?
A água ao redor escureceu levemente como se algo turvasse a superfície.
Nestor sentiu o coração acelerar.
Quis chamar alguém, mas não chamou.
Aquela era a sua rede, a sua pesca.
A sua vergonha ou a sua chance.
Firmou os pés no fundo raso do bote e puxou com tudo que tinha. A rede veio, rápido demais.
Não havia peso nenhum.
Nenhum peixe.
Nenhuma folha.
Nada.
Mas, no tecido embolado, havia algo que não estava lá antes. Um nó. Um único nó novo, bem no centro, mais apertado que todos os outros. Um nó que ele nunca fizera. Nestor o encarou, sem tocar.
E, por algum motivo que ele não saberia explicar, sentiu como se aquele nó o encarasse de volta.
Nestor respirou fundo, tentando ignorar as risadas abafadas atrás de si.
Guardou a rede no fundo do bote e remou um pouco mais para a lateral do riacho, um ponto onde raramente alguém pescava. Não adiantou muito.
— Ei, Nestor!
A voz era familiar. Grossa, gastada de tanto gritar por causa do sol e do vento.
Era Andrade, o pescador mais velho dali, e o único que realmente falava com ele sem rir. Andrade vinha numa canoa carregada, apoiando o remo no ombro com facilidade invejável. Os peixes dentro do caixote pendiam num barulho úmido, batendo um no outro.
Nestor sentiu o peito apertar. Um dia, ele achou que chegaria naquele nível.
— Tá difícil hoje?
Perguntou Andrade, aproximando o bote devagar. Não era deboche. Foi uma pergunta sincera. E talvez, direta até demais.
Nestor deu de ombros, fingindo naturalidade.
— Mesmo de sempre.
Andrade observou a água por alguns segundos, como se pudesse enxergar lá no fundo a razão da má sorte de Nestor.
No fundo, ambos sabiam que não havia razão nenhuma.
— Você já tentou mudar de ponto?
Disse o velho pescador.
— Já.
— E mudar de rede?
— Já.
— E mudar de hora?
— Já, Andrade. Tentei tudo.
O silêncio caiu entre os dois. A correnteza seguia seu rumo, sem considerar nada do que conversavam. Andrade coçou a barba grisalha.
— Às vezes, Nestor… A gente tem que aceitar que começou tarde demais.
A frase entrou no peito dele como um anzol. Verdade dita de forma simples demais para não doer.
Nestor encarou o homem. Seus braços fortes, a facilidade com que lidava com a canoa, a naturalidade com que parecia pertencer ali.
Ele tentou aliviar o peso com uma piada fraca:
— Tarde demais… Com quarenta e seis?
— Pra pesca, não... Pra certas coisas, nunca.
Parou, suspirou, e completou:
— Mas pra mudar de vida… Às vezes já foi.
A frase ficou parada entre eles, como um tronco preso na margem. Nestor apertou o cabo da rede, mas não puxou. Sentia a pressa dentro do peito, aquela pressa amarga que não serve pra agir, só pra lembrar que você está ficando pra trás.
— Eu ainda penso que posso melhorar.
Nestor disse, e logo em seguida suspirou como se quisesse um alívio do que sentia.
— Pode...
Respondeu Andrade, com sinceridade.
— Só não do jeito rápido que você quer.
Ele apontou para os caixotes cheios em seu bote.
— Isso aqui? Levei anos pra conseguir. E comecei cedo, quando o corpo ainda aguenta as frustrações. Você quer resultado como se tivesse começado ontem… Mas vive como se tivesse desistido faz tempo.
Nestor não respondeu. Não tinha resposta. A água continuava correndo, indiferente ao drama humano que se desenrolava ali.
Peixes passavam, sombras moviam-se sob a superfície, tudo seguindo o próprio ritmo que não era o dele.
Andrade remou para ir embora, mas antes virou o rosto:
— Não deixa o riacho decidir por você, Nestor. Decide você. Antes que a água leve o pouco que ainda dá pra salvar.
E foi.
Nestor ficou sozinho, com a rede no colo e uma verdade pesada. Ele não estava atrasado por falta de sorte. Estava atrasado porque passou tempo demais esperando que o mundo parasse pra ele alcançar. Mas o mundo… Não para.
Nestor respirou fundo. O conselho de Andrade ainda latejava dentro do peito, mas não adiantava fugir, a pescaria sempre terminava do mesmo jeito. Decidiu lançar a rede mais uma vez. Uma última vez naquele dia. Talvez naquela vida.
Segurou o cabo com firmeza, girou o braço e jogou a rede longe. Ela abriu no ar num círculo perfeito, como fazia desde sempre. Afundou devagar, cortando a superfície do riacho sem resistência, como se entrasse em casa.
Nestor esperou. O vento passou, o sol subiu. Os outros pescadores seguiram recolhendo suas capturas, conversando entre si, botando os peixes nos caixotes. Ninguém olhou para Nestor. Nem perguntaram se ele precisava de ajuda. Não riram, sequer lembravam que ele estava ali.
O riacho correu, as folhas passaram boiando, e as sombras dos peixes seguiram o seu próprio caminho.
O mundo não estava contra ele. O mundo simplesmente… Não estava olhando.
Nestor puxou a rede. Ela veio leve e exatamente do mesmo tamanho. Com os mesmos remendos, os mesmos nós, nenhum novo, nenhum apertado demais, nenhum solto demais. Estava vazia.
Ele ficou olhando para a rede desejando ter uma resposta que jamais teria. A água seguia correndo ao redor do bote, sem esperar, nem parar, sem perceber o homem parado ali.
Nestor guardou a rede no colo com um cuidado respeitoso, como sempre fazia no final das pescas. Ela não tinha mudado, o riacho não tinha mudado. Os peixes também não tinham mudado.
Quem esperava mudança sem mover um centímetro, era ele. Ficou sentado por longos segundos, sentindo o balanço leve da água. E pela primeira vez em muito tempo, percebeu:
Ninguém viria salvá-lo. Ninguém viria empurrá-lo pra frente. Ninguém sequer notaria se ele continuasse ali, dia após dia, repetindo tudo de novo no mesmo riacho.
A correnteza passou por ele como se passasse por uma pedra. E, talvez, era isso que ele tinha se tornado: Uma pedra que acredita estar andando só porque a água não para de correr.
Nestor fechou os olhos.
Naquela manhã, a rede acordara diferente. Ele lamentou, sem saber por quê, que só a rede tivesse conseguido.












