#ariadne5 Entrei na Universidade com meu nome de batismo, mas já estava no processo de identificação. As modificações corporais foram acontecendo ao longo do curso.
A maior parte dos estudantes não estava acostumada com um aluno trans-masculino. Logo de início encontrei uma resistência, um enfrentamento de discussão. Comecei a perceber algumas coisas que, naquela época, acreditava não serem assédio. Obviamente isso se intensificou depois do nome social. Fui uma das primeiras pessoas a pedir oficialmente o uso do nome social na universidade.
Às vezes alguns professores comentavam muito sobre "nome" na aula, sem conexão com o tema da aula. Se referiam à troca de nome como algo banal, sem importância. Eu sentia essa incisividade. Essa fala me atacava diretamente.
Um professor durante todas as aulas parava a explicação pra perguntar: "Iago, você resolveu o problema com seu nome? Iago, estão te confundindo." Era sempre no meio da aula. Fora quando me usava como exemplo nos comentários. Até que um dia não aguentei. Ele chegou a falar que estavam me confundindo com uma tal de Isabela (que é meu nome de registro). Foi o ápice.
Registrei o episódio no departamento do meu curso e a resposta foi que ia haver um diálogo com ambos. Não sei se tiveram. Comigo não teve. Chegaram a dizer que o chefe desse professor tinha conversado com ele, mas nada mudou. Durante o curso também comecei a virar objeto de estudo. Situações do tipo: agora que tem uma pessoa trans vamos usar esse espaço e essa pessoa para discussão. Eu, como aluno, como trans, sentia isso. Você se torna o exemplo da turma. É pessoal. Pra mim é um assédio. Uma pressão psicológica. Várias vezes pensei em desistir do curso porque não queria ir pra aula. A gente para de querer pesquisar. De querer vivenciar a universidade.
Todos os dias o estranhamento, os cochichos, os olhares, as piadinhas, os risos. Isso tudo faz parte desse meio. São sempre as pessoas achando que tem uma coisa para ser avaliada em você. Sempre o aval delas. Todos com o direito de te fazer uma piada.
"Eu tenho o direito de te seguir com o olhar. De não te ouvir."
Já deixei de tirar dúvidas com professores. Eu me esforçava. Eu ia pra aula, vim pra essa entrevista, mas se pudesse faria tudo em casa. Pra que ninguém me veja enquanto não eu me sentir bem. Existe um duelo entre o que sou e o que estou me tornando. Uma mudança. Enquanto não resolvo meu físico não consigo ser visto. Essa força entre oposições. É um processo doloroso, porque é interno. Já deixei de usar a praça, de praticar um esporte. Só vou se estiver acompanhado.
As pessoas não acreditavam quando eu falava sobre os assédios. Diziam que era exagero. Assédio é tudo aquilo que me tira do estado normal, alguém está fazendo algo a que não está autorizado, que não tem permissão. Uma professora me perguntou se eu usava o banheiro feminino. Respondi que sim. "É mais limpo, é mais claro. É um banheiro." Entendo que às vezes tenho que orientar meus tios, outras pessoas, sobre como tratar, como lidar. Mas no dia a dia é sempre pautada a justificativa de que pessoas não têm conhecimento.
Ouvi de colegas que equiparar problemas não é a saída, mas sinto que muitas oportunidades me foram negadas pelo simples fato de eu ser uma pessoa trans. Perdi bolsas acadêmicas mesmo tendo competências iguais as outras pessoas, contato com professores, entrevistas de emprego. O critério de avaliação quase nunca é o currículo. Mas nunca dizem isso. A universidade me acolheu no nome social, e tive a sorte de ter acompanhamento de um médico que atendia pelo SUS. A primeira vez que procurei o psicólogo foi horrível, ele acreditava que a transição não ia atrapalhar meu rendimento na graduação. Mas eu vivia com as notas baixas. Nas moradias estudantis tive a sorte de morar numa casa com pessoas que me receberam bem, no entanto, chega uma hora que é sufocante, porque a transição hormonal traz muita agressividade, muita falta de paciência.
Lembro que com a greve dos caminhoneiros fiquei sem usar os hormônios, e meu corpo teve que ler essa mudança. Isso tudo pro meio coletivo é difícil. Às vezes não quero estar no meio de ninguém. Hoje acredito que o caminho está sendo buscado. Mas não estou feliz. Tem muita coisa a ser alcançada. Tem a questão do nome, as cirurgias, para quem almeja. Pretendo fazer algumas cirurgias, mas o sistema não funciona muito bem. Há uma série de laudos. Meu nome foi retificado só na graduação, dentro da universidade. Lá fora eu ainda carrego o espectro do passado.
Estou esperando.










