Audição IndieSpensável #1 com André Henriques
‘Audição IndieSpensável’ é uma rubrica que vai dedicar-se a dar um destaque de bandas e/ou artistas a solo relevantes no panorama musical nacional mais virado para os universos mais indie e alternativos. Será dado o destaque a bandas e/ou artistas já com algum reconhecimento no meio embora não sendo propriamente do tipo mainstream. Daquele tipo que não surgem na televisão com frequência e que as suas músicas passam em todas as rádios, o destaque é sempre dado mais pelas rádios especializadas e não nas rádios nacionais de âmbito geral.
~ "Radiografia musical" a André Henriques
André Henriques é um músico português de 43 anos, já feitos este ano. Este artista é sobretudo conhecido pela sua carreira como parte integrante dos Linda Martini na qual é vocalista e guitarrista. André em colaboração com Cláudia Guerreiro e Hélio Morais são os membros fundadores que dão continuidade a esse projeto e que festejaram o marco histórico de 20 anos de banda com a digressão ‘20 anos • Merda & Ouro’. Além de fazer parte de uma das bandas de maior relevância no panorama nacional desde o início deste século, André Henriques vem igualmente empenhando-se, ao longo dos anos, na escrita de canções. A intérprete Cristina Branco é uma das que tem beneficiado dessa produtividade artística.
André Henriques em atuação com os Linda Martini @ Westway LAB 2023 | mais fotos clicar aqui A vida de André Henriques levava um rumo certo e definido (pelos parâmetros mais formais da sociedade) formou-se e entrou no mercado de trabalho na área da consultoria. Numa entrevista à Time Out afirmou: “Ao fim de uns anos começas a pensar se mereces mais vinte e tal anos daquilo até te reformares, ou se os teus filhos merecem que chegues a casa infeliz e sem vontade de ir trabalhar na segunda-feira. O que fiz foi um risco do caraças mas foi mesmo aquela coisa de ‘vou saltar’. Olhar ao espelho e perceber que não posso fazer uma coisa que me deixa infeliz.” Nesse primeiro salto deu-se o surgimento dos Linda Martini.
Na reta final de 2019, a sua carreira musical, voltou novamente a saltar para uma renovada aventura, agora com fundações bem mais seguras. Foi em outubro de 2019 o anúncio de debute da carreira a solo de André Henriques.
Nas semanas seguintes até final de 2019 foram lançados os singles "E de repente" e "Uma Casa na Praia". Foram ótimos prenúncios desse ‘Cajarana’ editado finalmente a 13 de março 2020. Aos 40 anos (em 2020) os dados estavam lançados. A promoção desse álbum foi atraiçoada pela entrada de Portugal numa fase de “twilight zone” poucos dias depois.
Segundo o artista ‘Cajarana’ e as suas 12 canções são: “um exercício de humildade, fazer canções simples sem cair na tentação de as limar e as reescrever vezes sem conta. É um disco de impulso que quer expor a fragilidade das canções. Como se elas exigissem o cuidado de quem escuta para não se partirem antes de chegar ao fim.”
A imprensa especializada (e não só), nos balanços usuais de final de ano, este disco de estreia a solo foi eleito como um dos melhores editados em 2020. Uma distinção perfeitamente natural.
A equipa headLiner formada por Edgar Silva (na escrita) e por Jorge Nicolau (na fotografia) fizeram reportagem do concerto de André Henriques em Fafe no qual o álbum ‘Cajarana’ foi tocado na íntegra. Essa reportagem pode ser consultada aqui.
Editado no passado dia 23 de setembro ‘Leveza’ surge como novo capítulo na carreira a solo de André Henriques e conta com 12 novos temas. Vem na sequência da sua mudança de casa, de rotinas e enquadramento social. Agora está a morar a cerca de 40 minutos da capital portuguesa para a zona da Ericeira.
Este segundo álbum espelha e incorpora todo esse universo díspar e nos quais os singles "Os Fantasmas de Amanhã" e "As Janelas São de Abrir", lançados nos primeiros meses do ano, deixaram pistas fortíssimas.
‘Leveza’ conta com a participação do baterista e percussionista Domenico Lancellotti (Orquestra Imperial, Adriana Calcanhotto) e o multi-instrumentista Ricardo Dias Gomes (Caetano Veloso). A gravação aconteceu na sua totalidade em Lisboa, no estúdio Cave. A mistura e masterização passou pelo Brasil no estúdio Dois Irmãos (Rio de Janeiro), um trabalho efetuado por Daniel Carvalho.
Edgar Silva do headLiner teve a oportunidade de assistir à “estreia mundial” de várias das novas canções num concerto ocorrido no Centro Cultural da Vila das Aves no passado dia 1 de maio. Este concerto de André Henriques foi incorporado no evento Sonoridades. Essa reportagem pode ser consultada aqui.
Agora podem ler uma entrevista feita ao artista efetuada via e-mail.
~ Entrevista a André Henriques
headLiner (Edgar): Tive o gosto de ver-te em formato banda em Fafe (2020) e a solo na Vila das Aves (2023) na primeira vez que tocaste algumas das canções mais recentes. Foram ocasiões bastante bonitas de enquadramento bem diferente. A solo o artista expõe-se mais, consegue ter uma fragilidade intimista que não existe com banda. Para ti, como artista habituado a fazer parte dos Linda Martini, tocar a solo com as suas músicas é motivo de um nervosinho complicado de gerir? Ou todos estes anos de estrada já dão uma experiência à prova de (quase) tudo?
André Henriques: Há sempre algum nervosismo nas duas situações. Quando estou com Linda Martini fico mais apaziguado, já são muitos anos e estamos a defender canções que fizemos juntos. Quando estou a tocar canções apenas minhas - a solo ou com banda - sinto um peso diferente. Não há propriamente uma responsabilidade partilhada porque é o meu nome que está no bilhete. De qualquer forma lido bem com isso, nunca são nervos incapacitantes.
headLiner (Luís): Tem sido fácil de repartir o turbilhão de emoções entre a serenidade de André Henriques a solo e o caos dos Linda Martini? Esse contraste de decibéis traz um certo equilibro zen na tua vida?
André Henriques: Talvez traga, sim. Nunca gostei só de uma coisa. Mesmo quando era miúdo e tinha bandas de punk e hardcore ouvia coisas muito díspares. Decidi no primeiro disco “fugir” do rock para não fazer um disco igual a Linda Martini. Não sei se “serenidade” descreve exactamente o que faço a solo. Há uma leveza aparente nestes discos, sobretudo nos arranjos mas os textos que canto não são nada serenos.
André Henriques em Fafe @ 48/20 Cantautores em 2020 | mais fotos clicar aqui headLiner (Edgar): Entre ‘Cajarana’ de 2020, teve o “azar de ser apanhado pela pandemia”, e o mais recente disco ‘Leveza’ de 2023 muita coisa no mundo mudou. Até parece que o tempo pré-pandemia foi há décadas. Que perspetivas são diferentes entre estas edições?
André Henriques: O Cajarana era um disco de fugas. Falava em deixar o trabalho, fugir da cidade e de alguma forma fugir também do som que as pessoas já reconheciam nos Linda Martini.
Este disco foi composto durante uma mudança de casa. Saí da cidade para o campo e essa mudança de perspectiva está muito presente nos textos e também nas escolhas que fiz para os arranjos. Estava à procura de uma coisa menos eléctrica, mais orgânica. Daí a escolha dos sopros e das segundas vozes.
headLiner (Luís): ‘Leveza’ é um belo disco, um dos mais bonitos que ouvimos recentemente. Para ele trouxeste Domenico Lancellotti (Orquestra Imperial, Adriana Calcanhotto) e o multi-instrumentista Ricardo Dias Gomes (Caetano Veloso). Foram escolhas pensadas e propositadas dado que a sonoridade deste disco toca ao de leve na bossa nova?
André Henriques: Quando os chamei não pensei numa sonoridade específica. O Ricardo já tinha co produzido o Cajarana comigo e quando soube que tinha montado um estúdio na casa do Doménico fui lá conhecer e mostrar as canções. Houve um click instantâneo e percebemos logo que era fácil trabalharmos juntos. Não ouço muito de bossa neste disco, mas claro que há qualquer coisa de Portugal e Brasil aqui.
headLiner (Luís): Li numa entrevista que a voz feminina que acompanha o teu disco é da Anna Grabner, uma pessoa “normal” com uma vida “normal”, não é cantora profissional nem nunca gravou nada, é “apenas” uma pessoa que canta bem. Trazê-la para este disco é uma espécie de metáfora para aquilo que queres refletir neste disco? Há outros elementos da “vida real” que transitam para o ‘Leveza’?
André Henriques: Há muita coisa da vida real neste disco, quase todas as canções falam de coisas que vivi nos últimos 3 anos. Logo na primeira canção falo da mudança que é trocar a cidade pelo campo. Os meus filhos e os da Anna andam na mesma escola, e foi aí que a conheci. Ela estava sempre a cantar e tem uma voz muito bonita, daí o convite. Interessou-me também o facto de falar português com sotaque, achei que daria uma dimensão diferente e um complemento interessante à minha voz.
André Henriques em Fafe @ 48/20 Cantautores em 2020 | mais fotos clicar aqui headLiner (Luís): Como tem sido esta mudança para o campo? Cada vez se fala mais da saúde mental e o quanto as nossas rotinas quotidianas refletem isso. Sentes que essa mudança tem um impacto forte na tua?
André Henriques: Era uma mudança desejada há muito, estava mesmo farto da cidade e estou muito contente com a decisão. Queria abrandar e ter um tempo diferente para a família e para as canções. O campo e a praia têm esse lado idílico, mas não são uma panaceia. Tive primeiro que tentar tirar a cidade que ainda trago comigo, e ainda estou a fazê-lo.
headLiner: Em novembro há concertos de apresentação no Porto e Lisboa. Depois há mais datas já acertadas? Como será a promoção do álbum em 2024?
André Henriques: Sim, há mais datas confirmadas e outras à espera. A seu tempo irei divulgar. Nesta tour vou tocar em trio, com o Miguel Abelaira na bateria, o João Abelaira nos sintetizadores e eu na voz e guitarra.
Entrevista elaborada por Edgar e Luís, membros fundadores do HeadLiner.
~ André Henriques ao vivo
» Teatro Maria Matos em Lisboa a 15 de Novembro.
» Plano B no Porto a 17 de Novembro. » Em Viseu a 1 de Dezembro.
» Em Pombal a 8 de Dezembro.
~ Presença WWW de André Henriques
Instagram: @andrehenriques Facebook: facebook.com/andrehenriquesoficial Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2E7WcrOe8ooeTTOVf3YOj6?si=otbuL0-8SlWajQpPjKTfPg













