Dia 28: O teatro dos fantasmas
Cara, hoje eu peguei o meu nível de loucura e levei pra passear. Eu tava na cozinha, fazendo aquele café solitário de sempre, e me peguei explicando pra "ela" por que eu mudei a marca do pó. "Viu? Esse aqui é mais forte, do jeito que eu gosto, sem aquela frescura de baunilha que tu trazia". Eu parei, olhei pro lado e, por um segundo, eu quase esperei ela retrucar, dizer que eu sou um chucro e me dar aquele beijinho de lado.
Eu comecei a inventar diálogos, meu. Eu pergunto como foi o dia dela e eu mesmo respondo, imitando aquele jeito calmo que ela tinha de falar. "Ah, o trabalho foi corrido, mas o buffet tá quase pronto". Aí eu respondo com uma piada ácida, ela ri na minha imaginação, e a gente fica ali, fingindo que o mundo não acabou.
É patético, cara. Eu tô criando uma versão dela na minha cabeça pra não ter que encarar o fato de que a versão real não quer saber se eu tô vivo ou morto. Eu discuto com o fantasma dela, peço desculpa pro vazio, explico o que eu senti naquele dia da briga... é como se eu tivesse tentando consertar um vaso que já virou poeira no chão.
O foda é quando o diálogo acaba. Quando eu percebo que a voz dela é só o eco do meu próprio desespero batendo no azulejo da cozinha. Aí o silêncio volta, mais pesado, mais frio, rindo da minha cara por eu ser o diretor de uma peça onde o par romântico já pediu demissão e foi brilhar em outro palco.
Desce outra aí, meu. Hoje eu preciso de barulho, de gente falando, de rádio ligado no talo. Qualquer coisa que abaixe o volume dessas conversas que eu tô tendo com quem não tá mais aqui.