Amor sem Medias - Capítulo 14 - Lips
Eu não poderia estar mais nervosa. Acordei cedo, com a esperança de que Micael ainda não tivesse acordado e eu pudesse tomar meu café tranquilamente. Só em pensar no nome dele, as lembranças do que aconteceu na noite anterior dominavam minha mente, e imediatamente senti meu rosto corar. Fiquei alguns minutos na cama, tentando processar tudo aquilo. Ainda não estava acreditando que tivesse realmente acontecido.
Levantei-me da cama e me espreguicei. Saí do meu quarto, ainda um pouco sonolenta e fui até o banheiro do segundo andar, ao lado dos quartos.
Me olhei no grande espelho, não estava com uma aparência muito boa. Me ver com aquela roupa, ou melhor, quase sem roupa, também me fazia lembrar de ontem á noite. Me sentia estranhamente quente. Percebi que em meu pescoço havia alguns chupões, e iam descendo até meus seios... Com as pontas dos meus dedos, toquei levemente as marcas que ele havia deixado em mim, traçando uma trilha em meu corpo. Fechei os olhos. Conseguia lembrar claramente da sensação de ter os lábios dele beijando meu pescoço, minha boca, meu corpo... Não, não posso pensar nessas coisas. Abri a torneira e joguei um pouco de água gelada no rosto, para ver se acordava para a realidade. E a realidade é que eu estou perdida, nunca mais vou conseguir olhar nos olhos deles.
Fiz minha higiene matinal, voltei ao meu quarto, vesti uma roupa qualquer, e então desci.
Chegando na cozinha, parei. Meu coração parou por um segundo ao ver que ele estava ali. Estava sentado de costas para a porta e Rosa terminava de arrumar tudo sobre a mesa. Ainda dava tempo de voltar para o meu quarto e fingir que estava dormindo, e só vim tomar o café quando ele terminar. Qualquer coisa era melhor que ter que encará-lo. Virei meu corpo e quando ia dar o primeiro passo para voltar para a escada, ouvi Rosa me chamar.
― Sophia, querida. Venha tomar o café, aproveite que está quentinho. ― Ela falava com aquela voz doce e maternal, impossível de recusar.
Droga, lá se vão minhas chances de escapar do constrangimento de encarar Micael. Me virei lentamente, e com um sorriso forçado entrei na cozinha.
Escolhi a cadeira vazia mais longe possível da que Micael estava sentado, e evitava ao máximo olhar em sua direção. Rosa me serviu e eu agradeci, ela saiu da cozinha logo depois.
Tomava meu café silenciosamente, e ele também. Não nos olhávamos.
― Sobre o que aconteceu ontem... ― Ele começou a falar, mas eu o interrompi, o fuzilando pelos olhos.
― Não aconteceu absolutamente nada, e não há nada sobre o que falar. ― Disse seriamente e me levantei. Saí da cozinha, quase correndo, deixando meu café quase todo, e morrendo de raiva misturada com vergonha.
Cheguei até meu quarto em segundos, me tranquei lá dentro e me joguei sobre minha cama, sem saber o que fazer. Me arrependia profundamente de ter aceitado essa proposta, e pensava seriamente em arrumar minhas coisas e da minha filha, e irmos embora daqui.
Não, não podia fazer isso. Eu já tinha entrado nessa, agora teria que ir até o fim. Por mais que depois da noite de ontem isso seja terrivelmente constrangedor.
Isso tinha que acabar, hoje mesmo. Não podíamos conviver com esse clima horrível pra sempre. Estava decidido.
Comecei a procurá-la pela casa. Procurei em todo canto, mas não a achava. Procurei em seu quarto, no quarto de Emmy, na sala, na piscina, na cozinha, no escritório, na sala de música, em todo lugar... Porque eu tinha que ter uma casa tão grande?
Depois de vários minutos, finalmente a achei. Suspirei, aliviado. Tinha que admitir que a ideia de ela ter ido embora passou sim por minha mente, e me deixou desesperado.
Sophia estava no jardim, mesmo de longe podia vê-la. Ela estava sentada em um banco de balanço, e conforme eu ia me aproximando de onde ela estava, podia vê-la melhor. O sol brilhava intenso no céu, a grama estava verde, e as flores colorindo o enorme jardim. A brisa de ar fresco invadindo meus pulmões trazia uma sensação de paz.
Ela estava de olhos fechados, e com fones de ouvido. Acho que não percebeu minha presença ali, pois não se mexeu. Devagar, me sentei ao seu lado. Ao fazer isso, a cadeira balançou um pouco pelo movimento, e então ela percebeu que tinha alguém ao seu lado.
Assustada, abriu os olhos. Me surpreendi ao ver que estavam um pouco avermelhados ao redor da íris incrivelmente azul. Ela estaria chorando? Um enorme sentimento de culpa me invadiu.
Quando viu que era eu, fechou os olhos novamente e voltou a ouvir sua música, ignorando completamente minha presença ali. Ok.
― Hey. ― Eu disse e esperei uma resposta dela, mas de certa forma sabia que ela iria me ignorar. Estava surpreso por ela já não ter se levantado e fugido de mim. ― O dia tá lindo hoje, não acha? ― Tinha que puxar assunto de algum jeito, por mais ridículo que seja o assunto. Ela novamente abriu os olhos, me encarando, sem acreditar no que eu disse.
― Essa é a pior maneira de se começar uma conversa. ― Ela sussurrou, e olhou desconcertada para seus pés. Tirou seus fones de ouvido.
― Nós moramos na mesma casa, e pro meu pai estamos “casados”. Uma hora ou outra você vai ter que falar comigo. ― Disse.
― Não se eu puder evitar. ― Ela disse, e me olhou desafiadoramente.
― Viu? Já tá falando comigo. ― Disse e sorri para irritá-la. Ela bufou e revirou os olhos.
― Como você é chato! ― Ela exclamou, irritada. Eu apenas ria. Estava feliz, ela tinha voltado a falar comigo, mesmo que esteja irritando ela.
― Chato que você amou beijar. ― Eu disse e agora ela parecia envergonhada. Me arrependi de ter dito isso. Droga, sempre estrago tudo. Tenho que lembrar de falar antes de pensar.
― Aquilo foi um erro. Um erro terrível. Não vai acontecer nunca mais. ― Ela disse, com um olhar profundo.
― Por quê? ― Meu coração doía só de pensar na ideia de não poder mais beijar aqueles lábios perfeitos, tocar aquele corpo macio, sentir aquele cheiro inebriante... Era inevitável, eu estava viciado. Viciado nela.
― Porque está tudo errado. Você tem namorada, e nós não somos... ― Não deixei que terminasse de falar.
― Eu não me importo com nada disso. ― Disse. Realmente não em importava.
― Mas devia. ― Ela disse, séria.
― Eu devia era fazer outra coisa... ― Sussurrei, e ela me olhava sem entender. Olhava fixamente para seus lábios e eles pareciam muito mais convidativos que o normal. Irresistíveis, na verdade. Ela usava um batom num tom de vermelho vivo, deixando seus lábios ainda mais provocantes.
Conforme eu aproximava meu rosto do seu, ela ia fechando os olhos. Podia sentir sua respiração quente e descompassada varrendo meu rosto.
Meus lábios estavam entreabertos, pois estava muito difícil respirar com ele se aproximando de mim desta maneira. Meu estômago revirava de forma engraçada. Sabia o que iria acontecer, mas não podia parar. Meu corpo parecia ter congelado ali.
Senti os lábios dele roçando com os meus. Seus lábios envolveram meu inferior, sugando-o delicadamente, e depois fez o mesmo com meu lábio superior. Eu mantinha os olhos fechados, aproveitando cada momento daquele beijo. Sentia os lábios dele umedecendo os meus de uma forma absurdamente deliciosa e passei a acompanhar os movimentos, provocando nele a mesma sensação. Não havia pressa, não precisávamos provar o quanto nos desejávamos, podíamos aproveitar cada sensação calmamente.
O que eu estou pensando? Não posso cometer mesmo erro duas vezes. Se eu deixasse me levar aconteceria a mesma coisa que ontem, ou até pior. Mas eu era fraca demais, e não conseguia pensar direito com os lábios dele colado aos meus. Senti a língua dele pedir, delicadamente, passagem para o interior de minha boca, e sem hesitar eu a deixei entrar, encontrando a minha que esperava ansiosa.
O beijo foi gradualmente ficando mais intenso, exigente, quente e febril. Nossas línguas se chocando em um confronto quase desesperado. As mãos dele subiram da minha cintura para minha nuca, e me puxou, aprofundando mais ainda nosso beijo. Uma onda de calor e desejo invadia meu corpo, e chegava a me deixar tonta. Minhas mãos afagavam os cabelos macios dele. Não conseguia mais resistir...
Por que eu sempre tenho que perder o controle com ele? Estava completamente e definitivamente louca.
― Eu vim que avisar que... AI MEU DEUS! Me desculpe, eu realmente não queria... ― Ouvimos Rosa se desesperar ao nos ver aos beijos, beijos não muito descentes.
Me levantei apressada, tropeçando em meus próprios pés. Estava assustada, meu coração palpitando descontrolado, minhas bochechas estavam queimando, e eu estava consequentemente muito atrapalhada. Fiquei de pé numa rapidez incrível e tentava ajeitar meu vestido, mas minhas mãos tremiam demais para fazer isso.
― A gente tava... Conversando. ― Micael tentava explicar para Rosa, ainda ofegante e a voz um pouco rouca. Se eu não tivesse tão envergonhada e em estado de choque, certamente daria uma desculpa melhor que a dele.
Eu cruzei os braços sobre o peito, numa tentativa falha de disfarçar a vergonha que eu estava sentindo. Vi que Micael, agora de pé ao meu lado, mexia os dedos e as mãos nervosamente. Eu, por minha vez, continuava com os braços cruzados sobre o peito. Tinha a estranha sensação de que minha voz tinha me abandonado.
Depois de muito tempo, pelo menos pra mim foi muito tempo, em absoluto silêncio, me dei conta que Rosa tinha vindo avisar algo.
― O que você queria nos avisar, Rosa? ― Perguntei, e minha voz soou estranha. Minha garganta parecia seca, minhas mãos ainda tremiam levemente. O nervosismo não tinha passado totalmente.
― Oh, sim. ― Ela parecia sair de um transe. Senti que meu rosto permanecia ruborizado. ― Vim avisar que a Emily já acordou, e ela tava chorando.
Minha filha! Oh merda, como eu pude fazer isso? Estava aqui aos beijos com aquele idiota e minha princesinha estava lá chorando, precisando da mãe. Tinha vontade de estapear meu próprio rosto.
Não esperei nem mais um segundo, atravessei o jardim apressadamente e fui para dentro, ver minha Emmy.
Assim que Rosa também voltou para dentro da casa, me sentei novamente. Um enorme sorriso bobo atravessava meu rosto. Ainda podia sentir o gosto dos lábios dela nos meus, e era terrivelmente delicioso. Lamentava não ter mais sua boca colada com a minha, mas sentia que cada vez que nos beijávamos, mais nossa situação ficaria mais complicada.
Ainda não conseguia entender como tudo estava mudando. Ela só veio pra cá á três dias, e já conseguiu mexer com minha mente de uma forma absurda.
Mais dois dias haviam se passado.
Depois do episódio no jardim, não comentávamos nada sobre o que tinha acontecido. Nos tratávamos formalmente, e nos falávamos apenas quando era necessário. Na verdade, acho que fingíamos que nada tivesse acontecido entre a gente.
Mas, todas as noites, ela aparece nos meus sonhos. Sonhos não tão descentes. E todas as vezes que a vejo, imagino a continuação de meus sonhos. O que geralmente resulta em vários banhos gelados por dia. Chegava á ser torturante vê-la todo dia, tão próxima, e não poder tê-la pra mim. Ás vezes tinha vontade de puxar ela e terminarmos aquilo que começamos.
Meu pai também não veio nos visitar nesses dias, estava sempre na empresa. Por causa disso, eu podia ficar mais em casa, já que ele estava lá para cobrir meu turno. Admito que estava gostando de ficar mais em casa. E eu estava amando ter uma criança em casa. Emily era o centro das atenções por aqui. Sophia e Rosa aplaudiam cada gracinha nova que ela fazia, e eu acabava me envolvendo. Não tinha absolutamente nenhuma experiência com crianças, então tentava não me intrometer muito, mesmo que tivesse vontade de fazer o contrário. Peguei ela no colo algumas poucas vezes, mas não tinha jeito para segurá-la, e acabava entregando a menina para a pessoa que estivesse mais próxima a mim. Mas tenho que confessar que estava me aperfeiçoando.
Já estava de noite, e eu tinha acabado de receber uma ligação do meu pai. É, as coisas vão mudar um pouquinho daqui pra frente...
Sophia tinha saído com Lua e a prima dela. Ainda não tinha chegado.
Eu, por minha vez, estava deitado no sofá, com uma bacia de pipoca ao meu lado, assistindo um filme na TV.
― Tchau meninas! ― Me despedi, saindo do carro. Acenei para Lua e Mel.
Segurava Emmy com um dos meus braços e com o outro carregava as sacolas com as compras que havíamos feito. Lua e Mel tinham me arrastado para o shopping, mas admito que foi bom fazer umas comprinhas.
Fui para dentro de casa. Assim que entrei na sala, larguei as sacolas no chão e me joguei no sofá com Emmy, cansada. Percebi que Micael parou de prestara atenção no filme e me olhou quando eu entrei.
― Hey. ― Ele me cumprimentou, hesitante. ― Como foram as compras? ― Eu realmente estava estranhando todo esse interesse dele em querer começar uma conversa.
― Er... Boa. Foi bom passar um tempo com Mel e Lua. ― Disse, ainda sem compreender.
― Meu pai ligou. ― Micael disse, e eu continuava sem entender absolutamente nada. ― Tem novidades.
Okay, agora ele conseguiu me deixar curiosa e confusa ao mesmo tempo.
― Como assim? ― Disse, franzindo as sobrancelhas. Mica se ajeitou no sofá, ficando mais ereto, e então ele respirou fundo, como se buscasse coragem dentro de si.
― Ele ligou pra avisar que vai vir passar uma semana aqui com a gente. ― Ele disse e eu continuava sem entender.
― E...? ― Perguntei, o incentivando a continuar.
― E isso quer dizer que “atuar” o tempo todo, durante uma semana inteira. ― Ele disse, como se fosse óbvio.
Já era estranho que ter fingir que somos casados durante algumas horas em que ele vinha pra cá, e agora que Leandro vem passar uma semana, vamos ter que fazer isso o tempo todo. Ainda mais depois de nos... Beijarmos.
Era realmente estranho pensar nisso.
― Er... Tudo bem então. ― Disse, fingindo não me importar. Me levantei, com Emmy nos braços. ― Será que... Bem, será que você pode ficar com ela um pouquinho? É só enquanto eu tomo um banho rápido. ― Pedi, sem graça. Era a primeira vez que pedia algo desse tipo, e estava receosa.
― Ficar com ela? ― Ele meio que parecia não acreditar.
― É. Tem brinquedinhos espalhados por toda a casa. E se ela chorar, o que é pouco provável, é só dar a chupeta pra ela. Não vou demorar muito no banho. ― Eu disse. Coloquei Emmy no colo dele, que a pegou sem jeito. Ri. Me abaixei e depositei um beijinho na testa de Emmy. ― Mamãe já volta, tá amorzinho?
Eu realmente não sabia o que fazer. Emmy estava em meu colo, e se jogava pra ir pro chão. Até que eu vi que não era isso, ela só queria o mordedor dela que havia caído no chão. Me abaixei e o peguei.
― Aqui. ― Eu entreguei o mordedor á ela, que o pegou com suas mãozinhas pequenas e gordinhas. Emily imediatamente levou o objeto á boca. ― Ei, você acha que sua mãe gosta de mim? ― Sussurrei para a pequena, mesmo sabendo que ela não responderia. Ri de mim mesmo, e de como era bobo. ― Como você acha que eu sou como pai? É, eu sei. Mas eu dia eu vou aprender, ainda to me aperfeiçoando. ― Eu falava com ela.
Alguns minutos se passaram, e eu finalmente consegui segurar Emmy sem que minhas mãos tremessem, com medo de derrubá-la. Emily até que estava quietinha, e eu estava orgulhoso de mim mesmo por estar conseguindo tomar conta dela.
Emmy levantou os olhos, olhando para algo atrás de mim, e sorriu. Me virei, seguindo seu olhar e percebi que era Sophia. Emmy esticava os braçinhos em direção á sua mãe, e Sophia a pegou prontamente.
― Oi meu amor. ― Sophia falava com a filha em seus braços, dando um beijinho nela em seguida. ― Er... Bem, obrigada por ficar olhando ela. Agora eu vou colocá-la pra dormir, boa noite. ― Ela disse, com um sorriso sincero nos lábios.
― Boa noite. ― Sorri em resposta.