E bão importa a numeração que tu veste, se está feliz do jeito que está e se tua saúde está em dia, então que se foda toda a opinião escrota das pessoas e isso inclui a da sua família e parentada.
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E bão importa a numeração que tu veste, se está feliz do jeito que está e se tua saúde está em dia, então que se foda toda a opinião escrota das pessoas e isso inclui a da sua família e parentada.
Diário de uma Lgbt - 08/09/2017
Eu não deveria adiar tanto o tempo de escrever aqui no Tumblr, sendo que sempre soube o quanto me ajudava.
As pessoas do meu convívio podem achar que está tudo muito melhor e tentar me botar pra cima por meus pais estarem aceitando minha namorada e até mesmo gostando dela.
Mas o que eu sinto continua sendo uma pressão forte, fazendo com que a questão do armário esteja sempre em voga e sempre me sufocando.
Eu sinto que já passei um processo muito difícil lidando com meu pai e minha mãe, que são pessoas que me amam mais que tudo, mas que não sabem nada de coisas lgbt tendo que explicar, etc etc... Cansativo, me desgastou e na verdade, agora, eu queria que as coisas se acalmassem.
Agora eles gostam da minha namorada porque foi uma pessoa inserida no contexto de solidão deles, que trouxe atenção, trouxe carinho, coisas que eles sempre quiseram por serem pessoas isoladas do mundo, isoladas das suas famílias, pessoas incrivelmente sozinhas.
Eu, agora, posso dizer a qualquer pessoa que tenha alguém como parente ou amigo que tem homofobia, que investigue o porquê da homofobia... Porque no meu caso foi realmente não ter existido uma representatividade positiva em 50 anos de vida dos meus pais. Ou simplesmente nem terem ouvido falar de pessoas gay na família, ou nos amigos, ou até mesmo vistos como pessoas diferentes que só se vê como prostituta na rua. Quando a gente traz uma pessoa LGBT pra dentro de casa, a gente mostra que não é nenhum bicho de sete cabeças. E é isso que falta em toda família tradicional brasileira. Mas a gente não vai fazer isso a la loca porque não dá pra colocar a saúde mental/física de alguém lgbt sem pensar em possíveis consequências.
Aqui em casa, posso dizer que quando falam em casal lésbico na rua, pros meus pais não vai vir apenas duas mulheres sexualizadas, vai vir eu e minha namorada de mãos dadas, se abraçando enquanto olha filme aqui no sofá de casa. Falo isso com certeza porque minha mãe, agora que minha namorada foi morar noutra cidade e eu sofri muito, ela entendeu que é amor o que a gente tem e não “sem vergonhice” como ela sempre achou, porque ela disse que amar não é fácil, ficar longe não é fácil.
É muito bom ela compreender o amor lésbico, mas mesmo assim a gente tá na rua e ela fala _do nada_ “como seria bom se tu levasse um namorado pra tua avó conhecer”, ou esses dias ela falou que viu na TV umas pessoas procurando uma outra menina para namorar um casal. Ela disse que “vai estragar a coisa do casal que é sagrada e querer colocar uma terceira pessoa na relação”, ou seja, a mente aberta não vai surgir de um dia pro outro e vai ser necessário alguém pra guiar ou explicar e essa pessoa não quero que seja eu, porque já estou cansada. Não quero ser professora mestre doutora em explicar cultura LGBT para héteros. Mas me incomoda profundamente que toda vez que ela desconstrói algo mínimo, como entender amor entre duas mulheres, ela surge com outras milhões de coisas não desconstruídas que deveriam ser mais fáceis já que o recado básico já tá dado e não acontece.
Hoje aconteceu que de novo ela insiste que eu “tenho que assumir pra família toda a minha namorada.” Primeiro que seria me assumir pra família, porque eu sou a personagem que a minha família tem interesse, não a namorada e segundo que fica me forçando a seguir uma escada imaginária na ordem de “assumiu para os pais, próximo degrau assumir para tias, próximo degrau, assumir pra avós, próximo degraus assumir para...” e eu não quero isso.
Isso pode ser bom pra alguma pessoa lgbt? Pode e que ótimo. Mas não pra mim e não agora e estar me forçando me deixa cada vez mais ansiosa, até mesmo pra calcular quando minha namorada poderá me visitar.
Pensa na ansiedade que um ser LGBT tem que passar todo final de semana, pensando que alguma tia possa vir e ver tua namorada contigo, sendo que tu simplesmente não quer que ela veja, tu simplesmente não quer ser desgastada de novo pra uma pessoa que te ama menos que teus pais que tu já passou por isso porque realmente considerava DEMAIS eles... Eu não nasci pra ser militante de bom grado, tem gente que gosta de militar pra todo mundo e talvez com elas a gente mude o mundo, obrigada à essas pessoas. Mas eu não consigo no momento. Eu milito com meus pais explicando porque eu considero demais eles e queria que mudassem, tem que ser muito especial pra eu poder gastar alguma energia. O que não é o caso de eu querer falar pra sei lá quantos membros a minha família tem. Aí vem minha mãe falando que _ELA_ não aguenta mais ter que esconder da família. _ELA_ a LGBT que sofreu 23 anos? Ah, por favor, ficar toda hora me relembrando uma coisa que eu já acordo de manhã pensando e vou dormir pensando, pra que alimentar minha ansiedade? Daqui a pouco um psicólogo só não dá mais conta.
Às vezes, numa família de héteros como a minha, eu me sinto tão sozinha. Numa família tradicional gaúcha mais ainda. Por isso amo muito meus primos que são mais chegados, valorizo quem não vai me desgastar e talvez me apoie, porque já está triste seguir caminho sem ninguém te entendendo, mas agora não sinto que seja o momento de me abrir pra ninguém que não convive comigo direto. Eu deveria estar focada em final de curso e na minha independência financeira, mas sempre fico ansiosa e perco algumas horas do meu dia pensando em coisas ruins, isso não me faz bem.
Na bem da realidade, lá no fundo, a gente só quer ser deixados em paz.
EU GANHEI EU GANHEI EU GANHEI
Pois é... Antes eu usava um filtrinho nas fotos, tentava disfarçar as coisas... Aí conheci alguns IGs (@postadaxmarcada @jimefrontera @juliasouzaj entre outros) o que me fez abrir os olhos, a me assumir... Tenho marcas, tenho +40, sou gorda... Mas tenho saúde, tenho vida! Tanta gente lutando pela vida, e eu vou reclamar se quê? Graças a Deus, hoje estou feliz e não troco minha vida por nada! É hora de viver, de ser feliz!!! Ame-se! Deus Te fez perfeita! . . . #assumida #bela #beleza #belezainterior #feliz #abencoada #deusnosproteja #deusnosabençoe #deusnosama #blessed #quarentona #quarentena #isolamento #emcasa #vida #serfeliz #felicidade #semfiltro #aceite #viva #amorproprio #amese #perfeita https://www.instagram.com/p/CBI-Bo3gB8I/?igshid=1h0dc40vxahmg
Diário de uma LGBT - 03/06/2018
Normalmente eu venho aqui pra escrever quando eu tô muito triste ou com muita raiva. Dificilmente é alegria, porque alegria a gente compartilha com os outros e contagia todo mundo com coisas positivas. Infelizmente vim tirar o feriadão de 4 dias, enfrentar 16h pra chegar até minha cidade natal e depois 16h pra voltar pra cidade de trabalho e tenho algumas coisas tristes em que fico pensando sobre e meus pais, eles não mudam. Meu pai mudou um pouco. Mas minha mãe eh a mesma coisa. Por causa da depressão. Aí eu acho estranho meus pais não terem papas na língua Minha mãe falar que meu pai fica no grupo dos colegas de trabalho do whats que só vê putaria que ela nunca imaginou que existia E que ela fica triste de ver tanta coisa horrível que Deus não agradece Que teve um vídeo que as lésbicas ficavam fazendo uma fila beijando a bunda uma da outra e não acabava nunca a fila Que eh uma vergonha Umas mulheres tão bonitas. Com tanto homem querendo. Aí eu falei que uma vez eu e a Robs estávamos na rua em Jaragua e um bebum ficou inticando conosco e chamando de linda. Aí ela fala que o cara tinha razão. Duas mina linda e ele sem nenhuma. Pq se fosse ela solteira vendo dois homi lindo ia ficar triste.
Pode falar... eterna criança!!! #somesmo #assumida (em Chicago, Illinois)
DIÁRIO DE UMA LGBT - 26/04/2018
Se eu estivesse participando do grupo de vivências Lgbt, teria umas histórias engraçadas pra contar.
Atualmente estou trabalhando em uma multinacional de engenharia em um setor muito bom, com pessoas simpáticas e atenciosas. Estou gostando bastante, inclusive os homens, mesmo sendo mais velhos 35, 40, 50 anos... são muito educados e alguns até falam coisas que não se deve falar por ser machismo, ou seja, não são tão machistas quanto eu esperava. Chocante.
Se assumir é uma coisa engraçada, porque normalmente você lgbt faz para os héteros. Porém os héteros nunca terão que fazer para você.
Como estou numa cidade nova, com pessoas novas, resolvi me assumir abertamente para qualquer um que viesse puxar papo e caísse em algo pessoal assim. Foi uma decisão, e foi uma decisão que está me trazendo experiências engraçadas, e não mais tristes como foi com os meus pais no começo.
Na primeira semana as pessoas já tem interesse em conversar com você, saber de onde é. Como eu sou amiga de um colega que também era da minha cidade, já possuía uma companhia para não ficar excluída na hora do almoço, por exemplo. Mas isso fez com que uma colega pensasse que por ele ser menino e eu ser menina nós poderíamos ser um casal (pois eu estava me mudando para a cidade e ele já estava aí). Engraçada foi a cara dela quando eu contei que estava trazendo minha namorada para morar comigo. Ela continua sendo muito legal comigo, nada mudou e isso é muito bom.
Outros colegas também perguntaram com quem eu iria morar na nova cidade. Simplesmente respondi: com minha namorada e mais um amigo. Alguns não demonstram reação nenhuma quando eu falo isso, o pessoal está um pouco mais mente aberta e não dá bola.
Porém hoje, o pessoal que divide a sala com esses meus colegas que já sabem de mim, tentaram “socializar” comigo de uma forma estranha.
Começou quando a instrutora da ginástica chegou no escritório para os 15 min de ginástica laboral falando sobre a quantidade de casal que se formou dentro da própria empresa e já tem muitos anos de casados. A empresa oferece alguns presentes para os funcionários quando os mesmos se casam, assim como oferece presentes de aniversário, etc... Aí muitos da minha sala falaram que se conheceram dentro da empresa e tudo mais.
Uma das colegas falou que conheceu o esposo dela oferecendo carona de guarda-chuva em um dia chuvoso saindo do trabalho. Então aí começaram as brincadeiras com o menino estagiário dos colegas falando que ele deveria levar o guarda-chuva e esperar uma moça para dar carona, qualquer dia desses. Daí riram bastante, deram uma descontraída no clima, alguém falou que o menino não deveria namorar alguém da empresa e sim alguma médica que ganhasse muito dinheiro pra sustentar ele... Algumas ideias bem bobas.
Até aí, normal pros padrõezinhos. Nada de diferente eu esperaria, mas então alguém apontou pra mim e disse que isso valia o mesmo... Que eu poderia pegar um guarda-chuva no dia de chuva e esperar algum moço para dar carona e virar meu esposo.
Eu apenas ri, assim como todos os que não sabem de mim. Porém os que já sabem deram uma risadinha bem falsa, por isso eu ri mais ainda. E fiquei feliz de saber que uma grande parte dos colegas já sabem e me fazem sentir acolhida de qualquer jeito.
Depois fui falar com meu colega sobre não estar mais triste pela heteronormatividade e sim achar engraçado, porque sei que essas pessoas não vão mudar muito, mas que talvez depois que saibam de mim se sintam mais conectadas com alguém lgbt para não haver homofobia. Na empresa não se fala muito em homofobia, até o momento, se trata de preconceitos no geral que não são admitidos.
Mas o louco foi a resposta do meu colega falando que entende que as pessoas me julguem hétera porque segundo as estatísticas as chances de ser lgbt são menores. Totalmente engenheiro e impessoal. Fiquei reflexiva quanto a isso.
No fim tudo o que importa é que me sinto orgulhosa de sair na rua com minha namoradinha, encontrar algum colega de trabalho e falar que é minha namorada. Para uma cidade que apoia Bolsonaro e é extremamente religiosa é pouco, mas é empoderador igual.
21/08/2017 - Diário de uma LGBT
Não sei como chegamos aqui, mas é estranho. Desde que fizemos um almoço de domingo para minha namorada meus pais parecem estar mais amáveis com ela. Meu pai precisa de muita atenção, se alguém der isso pra ele está bom, por enquanto. Ainda temos muitas discussões, principalmente com minha mãe, sobre coisas horríveis que ainda fala.
Esses dias ela disse que se eu fosse pra outra cidade atrás de um macho era aceitável, mas de mulher não era.
Daí o no outro dia ela fez bolo pra eu comer com minha namorada.
Não dá pra entender.
Péssimo são meus tios e o resto da família que é super interessado em saber se estou namorando mais do que nunca, sendo que nem participam da nossa vida de dia-a-dia.
Tudo melhorou até hoje, porém sempre tem alguns momentos críticos que o machismo, valores que eles trazem muito antigos que me desmotivam muito. Às vezes eu penso que não dá pra se apegar cegamente em algo bom que foi dito e fingir que não tá ouvindo as coisas ruins que estão sendo faladas em seguida. Tentar não absorver as coisas ruins, mas sempre ser forte para explicar que não é assim que a vida funciona, que dar pitaco em relacionamento alheio é errado e que o amor é que deve prevalecer, não julgamentos.