Não sabia há quanto tempo estava ali. Na verdade não sabia o dia da semana, o dia do mês ou o mês do ano. As coisas estavam tão confusas, seu cérebro era um emaranhado de emoções e sentimentos, os quais a maioria nem conseguiria descrevê-los em voz alta. Mas estava ali. Acima de tudo, estava ali. Viva o suficiente para sentir tudo aquilo, porém não sentia-se viva o suficiente para realmente viver.
Havia muito tempo que levava aquela sobre-vida. Onde não estava nem ali, nem aqui. Onde sentia-se morta por dentro, mas seus sinais vitais e a dor incessante no peito sempre estavam ali para lembrá-la que não estava de fato morta. Só que na maior parte do tempo, em sua vida longe dali, era mais fácil evitar tudo aquilo.
Era uma agonia estar assim. Algo rasgava seu coração, alastrava-se pelas suas veias, percorria cada centímetro do seu corpo, saia e entrava por cada poro de seu corpo. Se a depressão tivesse um cheiro, com certeza seria um cheiro ruim. E estar ali piorava tudo. Aquele quarto, aquelas paredes, aquela cama, aquelas cores, aqueles passos no corredor. Tudo lembrava ela dos piores momentos de sua vida, os quais ela tentava com todas as forças esquecer, porém nunca obteve sucesso.
Toc-toc-toc. Sabia que era sua mãe, reconheceu o barulho de seus passos, como havia feito tantas vezes antes. Pelo menos esses passos não lhe enchiam de medo. Ela nunca mais escutaria aqueles.
— Está na hora. — Ela anunciou.
Estava na hora. Esperava que aquilo fosse o suficiente para acabar com tudo. Que aquele realmente fosse o ponto final para a tragédia que havia sido sua vida. Que finalmente houvesse alguma paz interior. Um ponto final, para esquecer para sempre.
Levantou-se da cama. Sair daquele quarto era uma benção. Apesar de tudo sua mãe jamais deixaria ela dormir na sala para evitar aquele quarto. Na verdade provavelmente sua mãe ignoraria para sempre tudo, para evitar a dor que sua filha nunca conseguiria evitar.
O cemitério era a próxima parada daquela pequena família, que naquela semana havia diminuído mais ainda.
Era ruim sentir-se grata pela morte de seu próprio pai? A vida toda foi obrigada a demonstrar afeição por alguém que apenas lhe demonstrava o pior da vida. Por alguém que havia corrompido sua alma, corpo e mente. Não queria ser uma pessoa ruim como ele, mas sentia-se grata.
Via o caixão descer lentamente, ser coberto por um punhado de terra. Manteve-se afastada de todos, não prantearia por ele. Por ele havia derramado lágrimas demais, então não merecia nenhuma lágrima por sua morte. Muitos cumprimentavam ela e sua mãe, oferecendo pesames. A única pessoa que sabia de tudo, além da que estava sendo enterrada e a que chorava por isso, era quem segurava sua mão, ao seu lado. Uma única pessoa, em meio a uma vida inteira, também não chorava por aquela partida.
E então estava novamente naquele quarto que tanto odiava.
E pela primeira vez, desde que tudo começou a acontecer, permitiu-se.
Que ele fosse para o inferno, que ela fosse também. Naquele momento ela permitiu-se. Toda a raiva, a tristeza, a indignação, o rancor, o que lhe foi roubado, o que nunca teria, a frustração, o desespero, a dor, aquele era o momento em que finalmente ninguém poderia impedi-la de sentir o que queria. Ninguém que entrasse por aquela porta conseguiria enfrentar a avalanche.
Quebrou um frasco de perfume atirando-o na parede. Atirou outro, porque o sentimento do primeiro havia sido muito bom. O grito que rompeu por sua garganta era uma mistura de dor, ódio e felicidade. Soltou outro grito enquanto atirava sua cadeira em direção a porta, a porta pela qual ele entrou tantas vezes para roubar-lhe a alegria. Ouvi os passos de sua mãe correndo pelo corredor. A porta estava trancada. Atirou a primeira coisa que sua mão alcançou em direção a porta.
Suas roupas foram reviradas, rasgadas, atiradas para todos os lados. Sua cama, aquela merda imunda, estava sendo destruída pelo taco de beisebol, que tantas vezes ela segurou na esperança que ele temesse - e nunca temeu. Os gritos do lado de fora complementavam os seus, sem nunca parar. Ela às vezes sentia vontade de gargalhar, o Diabo que a carregasse depois, estava sim feliz.
E ao mesmo tempo infeliz.
Aquele lugar, que tanto odiava, seria reduzido ao pó se ela pudesse. Mas aquele momento de liberdade e destruição era tudo o que teria.
Móveis, roupas, objetos. Destruiria tudo, destruiria tudo o que vinha do dinheiro sujo de seus pais sujos. Destruiria o tanto que haviam destruído ela, e nunca seria o suficiente. Jamais seria o suficiente.
Mesmo os frascos de vidros, despedaçados em minúsculos pontinhos brilhantes pelo chão, estavam tão quebrados quanto seu coração. Mas ela devia isso aquilo a si mesma e principalmente por sua mãe, que tentava abrir a porta a qualquer custo.
A última coisa quebrada seria o abajur que ele tanto fazia questão de ligar antes de toda merda acontecer. Ao contrário da maioria das pessoas ela não tinha medo do escuro. Ela tinha medo da luz. E de tudo o que acompanhava ela.
E com um último gritou ela pensou que aconteceria. Que havia um fim. Que finalmente aquele pedaço de porcaria quebrado levaria tudo embora. Mas não levou.
Eram gritos misturados com gargalhadas, misturados com lágrimas, misturados com todos aqueles sentimentos, misturados com todas aquelas lembranças que nunca alguém deveria ter.
Mas que ela sempre teria.