Um momento muda tudo por Inaye Santos
Muitos anos antes a tecnologia avançou de modo que robôs se assemelhavam perigosamente aos seres humanos. Ainda eram robôs, suas vozes tinham uma vibração computadorizada, faltavam emoções (o que nos tornavam tão humanos), mas a inteligência, a incrível coordenação motora e a convivência os tornavam quase normais.
Ela pensava sobre a possibilidade de aderir a nova moda quando as ruas começaram a encher sua memória de lembranças – e a maioria ela gostaria de esquecer. Se sua mãe não estivesse tão debilitada, provavelmente não dirigiria até aquela casa novamente. Não depois de tudo o que passou ali. Mesmo com a tecnologia avançada, memórias ainda eram memórias: às vezes tão dolorosas e poderosas que o tempo parecia não ter passado.
Abriu a porta da frente com sua velha chave. A casa era exatamente a mesma, um dos fatos que ela mais odiava. Havia uma enfermeira na sala, ela cuidava de sua mãe todos os dias, que agora repousava suavemente na cama que estava no canto do que antes era a sala de estar. Parecia ainda mais frágil, a pele fina como papel preenchida pelas rugas, os lábios pálidos e ressecados, sua altura reduzida a quase nada, tão diferente de quando ela era pequena e achava sua mãe a mulher mais alta do mundo. Um momento muda tudo.
– Oi – ela cumprimentou.
– Boa tarde, Anne. – A enfermeira respondeu.
– Como ela está?
A enfermeira balançou sua cabeça em negação. Todas sabiam que o fim estava próximo, mas aquilo não tornava as coisas mais fáceis. Nem mesmo para Anne, que tinha razões o suficiente para nem estar ali. Pelo menos é o que ela pensava vez ou outra, quando a raiva era o sentimento predominante.
– Mãe? – Ela chamou, aproximando-se da cama e sentando na beira – Mãe?
Não haviam muitas coisas que sua mãe poderia responder. Com a saúde tão debilitada sua comunicação resumia-se em piscadas, resmungos e apertos de mão. Anne envolveu a mão dela com a sua.
– Eu estou bem – Anne disse mesmo que ninguém tenha perguntado – Estava me perguntando se comprar um daqueles novos robôs doidos era uma boa ideia...
A matriarca apertou levemente sua mão.
– É, também acho que seja. Vou presumir que isso foi uma concordância, pois estou realmente querendo um. – Ela tentou sorrir da sua própria piada – Mãe... Está tudo bem, sabe?
Elas sabiam sobre o que era aquilo. Anne não tinha coragem de dizer tão claramente que estava tudo bem se sua mãe desistisse e morresse, porém todos sabiam que mais tempo naquela agonia era apenas prolongar um grande sofrimento.
– Só quero que você saiba disso. Que está tudo bem.
Um momento muda tudo.
Três dias depois Anne fumava em frente a lápide de sua mãe. Pensava na grande possibilidade de aquilo ser proibido, mas não havia nenhuma placa que provasse isso, nem se quer uma alma viva estava ali. Sua família nunca foi boa em relações sociais, a prova era aquela: além das duas enfermeiras que cuidaram de sua mãe, um padre e ela, ninguém mais velou por seu corpo ou o sepultou.
Ela tinha raiva daquilo, havia mais gente no enterro do seu progenitor. Claro que ninguém sabia tudo o que havia acontecido, adultos eram bons em esconder suas sujeiras embaixo do tapete enquanto as visitas circulavam por suas salas. Mas colhemos o que plantamos, não é mesmo? Sua mãe, após tudo, entrou em depressão profunda e enquanto sua filha permaneceu ali ela havia tentado ser uma boa mãe, tarde demais para Anne, mas tentou.
Anne foi para a faculdade, emendou um emprego atrás do outro, conseguiu um bom, outro melhor, comprou um pequeno apartamento e durante esses anos sua mãe adoeceu cada vez mais, mas em silêncio.
– Já não tivemos sofrimentos demais? – Foi o que ela disse quando Anne questionou o segredo.
Sim, tiveram.
Estava cansada de tanto sofrimento, sinceramente. Alguns bons anos de paz deitada em sua cama, acariciando um gato, fumando e bebendo um vinho era tudo o que ela queria. Sem mais dramas, tragédias, a merda que fosse. Era muito pedir por alguma serenidade no seu oceano rebelde?
Provavelmente sim, já que seu pedido nunca foi realizado.
Chutou o montinho de terra que os coveiros haviam acabado de colocar – e só depois pensou que aquilo era desrespeitoso – e apagou o cigarro na sola da sua bota, jogando o resto na lixeira mais perto entre a lápide e a saída do cemitério.
Seu carro era usado, velho e pequeno, mas parecia que pertencia a ela desde sempre. O banco traseiro estava cheio de livros, sacolas, blusas de frios, alguns sapatos pelo chão do carro. No espelho havia um personagem pendurado que sempre ficava balançando como se dançasse algo estranho, havia uma carteira de cigarros no painel, para sempre ter uma ao seu alcance. Era seu.
Dirigiu sem rumo. Não estava pronta para voltar ao seu apartamento, nunca mais pisaria na casa da sua mãe (os advogados que lidasse com aquilo), sua vida era frustrante o suficiente para não ter alguém que fosse seu amigo verdadeiramente e não estragaria seu lugar favorito indo até lá com roupa fúnebre, bota cheia de terra e logo após o enterro da última pessoa de sua família.
Eram quase três horas da tarde, a cidade era grande o suficiente para o comércio ainda estar a todo vapor, as ruas razoavelmente cheias, os parques também apesar do tempo nublado. Em uma das ruas comerciais, repletas de lojas de tecnologias, roupas, restaurantes e o que mais fosse, havia a loja que permeava seus pensamentos recentes. Um momento muda tudo.
– Procura algo em especial? – Uma das atendentes a abordou.
Estava perdida naquela loja há alguns minutos, tudo encantava e enchia seus olhos. Tantas tecnologias, das mais úteis até as mais idiotas possíveis, preenchiam as prateleiras e expositores da loja, se fosse um pouco mais impulsiva, Anne, com certeza, compraria o cofre de panda que comia as moedas.
– Para falar a verdade, buscava por um daqueles robôs high tech, mas acabei ficando distraída.
Anne notou os cabelos castanhos e volumosos da mulher, assim como seus olhos escuros e pele pálida. “Ellie” estava escrito na placa da identificação.
– Sempre acontece comigo, mesmo vendo tudo isso todos os dias – Ellie foi simpática e sorridente – Nossa coleção de robôs high tech para pessoa física fica no segundo andar. Quer conhecer?
- Sim, claro.
Enquanto Ellie a guiava através da loja, Anne sentiu o impulso ridículo de conferir se não estava fedendo a cigarro. Era sempre uma tortura sentir atração por qualquer pessoa, porque nunca dava certo. Seu coração e sua alma eram corrompidos demais para interações humanas.
– Temos vários modelos – a atendente começou a explicar – Alguns mais caros que outros, claro. Os que têm funções intermediárias são os mais procurados e os com melhor custo benefício. Acabam tendo tantas funções que a maioria não são usadas mais de uma vez.
– Parece ótimo.
– É sim! O modelo mais simples traz funções básicas, é mais para quem procura ele para fazer tarefas de casa ou cotidianas. Tem a possibilidade de você comprar ele e depois fazer upgrades até alcançar nosso modelo mais caro, mas algumas funções acabam ficando bem limitadas por causa do material ou da coordenação motora.
Ellie continuou explicando algumas coisas, mas a mente de Anne já estava viajando longe. Era péssima com tecnologias, não sabia nem ao menos o que estava fazendo ali realmente. Morava apenas com um gato, seu apartamento estava sempre organizado e passava a maior parte do dia longe de casa. O maior atrativo era o fato de que teria alguém para conversar e provavelmente não enlouquecer com a solidão ou morrer sem que seu corpo fosse descoberto um mês depois por alguma vizinha que reclamava do cheiro.
– Pessoalmente, sempre indico o modelo intermediário mesmo. Minha mãe, que é cega, tem ele e é incrível. Facilitou muito a vida dela e a do meu pai também – a atendente deu de ombros – Agora eles curtem a aposentadoria sem nenhuma preocupação, já que o robô cuida de tudo.
– Parece... ótimo. – Anne repetiu, sem conseguir pensar em algo melhor para dizer.
A vendedora avaliou Anne por alguns instantes, ponderando algo.
– A maioria das pessoas compraram pela moda mesmo...
– Estou justamente reavaliando se preciso dele. Moro sozinha, não teria bagunça para ele limpar ou grandes compras para ele fazer.
– Você pode levar alguns informativos sobre eles e pensar melhor sobre isso, em outra hora.
Os olhos de Anne arregalaram-se um pouco, estava tão destruída assim? O quão sua aparência estava bagunçada para que Ellie tirasse essa conclusão. A atendente voltou a falar enquanto entregava vários panfletos, revistas, um código QR e falava sobre o site da empresa.
Anne estava quase na porta, sua mente confusa e seu corpo pedindo por um cigarro, quando uma mão em seu ombro a parou. Ellie estava lá novamente, estendendo algo em sua direção. Aquele momento mudava tudo.
– Esse é meu telefone – ela disse timidamente – Se você precisar de... Ahn... Se você tiver dúvidas.
As coisas ficariam bem para Anne.










