Ajeito o paletó de lã que meu melhor amigo me emprestou para que eu pudesse fumar meu cigarro sem ter uma crise de frio. São Paulo pode ser muito gélida em Agosto, sobretudo quando a noite já é alta e estamos em um terraço que toca as nuvens. Pra falar a verdade, eu nem fazia questão daquele cigarro. Eu nunca faço. Só fumo quando quero me sentir mais blasé, como em um filme noir. As vezes isso funciona como uma espécie de apoio moral ou estético. O motivo de eu estar fumando agora é exatamente esse. Na verdade, o que não falta são motivos. Complicações amorosas, familiares e psicológicas. Sem falar no tédio absurdo que a gente tenta mascarar.
Pela porta de vidro vejo meus amigos do coração comendo pedaços de pizza e amassando limões para a caipirinha. Hoje é dia de festa, e em pouco tempo um monte de conhecidos e desconhecidos estarão aqui para encher a cara e serem nossos melhores amigos por uma noite.
Amanhã teremos mais contatos no facebook. E se tudo correr bem, uma bela de uma ressaca.
- Ô moça, você não vai dar um shot com a gente? – pergunta o dono da casa abrindo os braços e gingando como um mestre-sala na minha direção. Quando ele fazia isso, já tinha começado a beber.
- Um é muito pouco, meu querido! – respondo.
- Aí sim! Assim que eu gosto! – diz ele passando o braço em volta do meu ombro e me levando para o balcão da cozinha.
Arriba, abajo, al cientro y adentro! Todos viramos nossos copinhos em um gole só. Não era tequila, mas pinga. Meu grupo de amigos gosta de prestigiar o produto nacional com essa saudação em espanhol. Chega a ser ridículo o tipo de coisa que você faz quando toma os primeiros porres na oitava série, e usa dessas saudações como uma forma de se sentir um pouco mais experiente. De qualquer forma, continuava divertido. A gente sempre diz isso antes do primeiro shot em grupo. Pela nostalgia, simplesmente.
Prendo meu cabelo em um coque e balanço a cabeça até soltá-lo. Não tenho certeza se esse truque me deixa bêbada mais depressa como dizem, mas pelo menos o meu cabelo fica mais bonito quando emaranhando.
Eu finjo que é uma questão etílica, mas meus amigos secretamente sabem que esse é o tipo de coisa que faço por vaidade. Como beber vodka pura com gelo, ou whisky. Acho o gosto detestável, mas me sinto como uma atriz hollywoodiana dos anos quarenta. É meio parecido com a história do cigarro.
Ainda é cedo e não estou bêbada o suficiente para querer retocar o batom. Depois de um certo ponto na noite, as garotas costumam achar que o maior elixir de beleza do mundo é um bom batom vermelho. Quer dizer, o tipo de garota que vai nas mesmas festas que eu e que tem vergonha de assumir que faz chapinha e passa maquiagem antes da aula, por achar que isso as classificaria como aqueles dos chamados “outros colégios”.
Não há uma regra para definir o “nós” e o “eles”, mas todo mundo sabe quem é quem. Nós, os dos colégios moderninhos, onde se discute aborto e legalização da maconha nas provas de história, e onde os uniformes são substituídos por roupas da Richards e da Osklen, que fingem ser desarrumadas, mas claramente nos classificam como os “riquinhos descolados”. Somos os que usam transporte público, que não gostam de shopping center e vez ou outra, cortam o próprio cabelo ou vão a uma passeata. Muito disso é para fazer média, mas muito disso é porque, lá no fundo, essas coisas nos fazem sentido.
Eles, os dos colégios caros, mas conservadores, onde a diretora brigará com você por causa de um chinelo havaiana, e onde quase todas as garotas não vivem sem secador, ou os caras sem academia. É o tipo de escola onde seus colegas vão querer viajar pra Cancún na formatura. Sei lá. Pelo menos “eles” são os burgueses assumidos, embora nem se deem conta disso. Já “nós”, gostamos de posar de vanguardistas alternativos e socialistas em potencial, mas sem abrir mão das festas no Alto de Pinheiros e das saias compridas da Farm.
Eu achei que essa história fosse acabar com a formatura, mas não foi bem assim. É a mesma coisa. Há os que pagam noventa paus para encher a cara de vodka adulterada em alguma festa cheia de caras de camisa social e meninas de salto alto, em algum salão decorado por organizadores de eventos. E como não poderia deixar de ser, também há aqueles que preferem pagar um real na pinga de quinta categoria e apreciar a beleza da livre circulação de maconha e outras "cositas más"no campus da faculdade. Como eu disse, a mesma coisa. Os mesmos podres, só o alisamento do cabelo é que difere. No final das contas, a ressaca é a mesma.
Eu não vou na primeira opção por uma questão de gosto. Não gosto de gastar muito em ingressos e nem de usar salto alto. É verdade que os garotos das festas que frequento me dão nos nervos. Podem ser mais egocêntricos que os mauricinhos, e quando isso acontece, vomitam um monte de referências difíceis que nem eles entendem, e usam o feminismo como desculpa para deixar você a ver navios. Uma vez um cara desses me disse que adorava os romances do Matisse. Não tive coragem de corrigir o coitado. Disse que precisava achar uma amiga e saí dando risada da cara dele.
O pior mesmo é quando você se dá conta de que é igualzinha a eles. Por isso que é necessário beber o shot de abertura antes da festa. Só de imaginar que em alguns instantes a sala do meu melhor amigo estará abarrotada desses dois tipos de gente, minha animação decai um pouco. É preciso estar bem bêbado para acreditarmos que somos tão bons como dizemos ser. Sorte a minha que trago o copo cheio e sei engolir a apatia que sinto por mim e pelo meu mundinho sem jamais engasgar.
Pra que praguejar e maldizer nossa hipocrisia se daqui uma hora estarei dançando na sala como se não houvesse amanhã, ou combinando um cafezinho futuro com algum conhecido com quem mal converso? Não. O mundo, as pessoas, tudo: tudo já é chato demais para que deixemos de brindar.
Os primeiros convidados começam a chegar. Meu sangue está quente, já não preciso do paletó. Estou vestindo uma blusa preta e uma calça de seda indiana que uma amiga me emprestou. Ajeito minhas sobrancelhas no espelho e limpo os lábios molhados de vodka com as costas da mão. Meus olhos parecem enormes com as camadas e camadas de rímel negro. Tenho uns olhos claros que lacrimejam por qualquer motivo. Isso é bom as vezes, porque a cor fica mais bonita. Mas na maioria das vezes, é uma porcaria, e todo mundo acha que eu estou chorando. Não é difícil eu chorar. Principalmente se for por raiva.
Quando alguém resolve me dar uma bronca que eu SEI que não mereço, por um motivo de bosta, e estraga o meu dia, eu sempre choro de raiva.Aí eu vou para o meu quarto e fico soluçando , ou então fujo para o MASP ou a Praça do Pôr-do- Sol. Nessas horas, eu quero morrer, ou juntar qualquer graninha e ir embora. Viver em outro país. Me casar com o primeiro bocó que aparecer e tchau. Mas é foda. Eu sei que eu não conseguiria arranjar dinheiro para isso tão cedo. Que porcaria de emprego eu teria para me sustentar? Agora, no primeiro ano da faculdade? Eu fui mimada demais na vida para me contentar com pouco. Eu gosto de comer comida japonesa e não fico sem creme hidrante. Quero ir ao bar de quinta a domingo com meus amigos e poder repor minhas maquiagens da MAC quando elas acabarem.
E me casar aos 19 anos? É fácil assim. Pena que eu sequer tive competência para arranjar um namorado até hoje. Aliás, minha mãe adora jogar isso na minha cara. Ou não, ou eu tenho mania de perseguição e acho que é ela que me fode com isso, quando na verdade, é minha própria cabeça. Sei lá. Na verdade eu tenho uma história muito linda sobre tudo isso, com um cara legal e tudo o mais. Assim como todo mundo tem. Pode perguntar. Depois de uns goles, quase toda garota gosta de contar sobre um amor do passado.
Enfim, quero esquecer isso tudo. Hoje é festa, não é? Eu sou boa em esquecer do mundo. Aliás, todo esse meu círculo de amigos é ótimo nisso. Basta que o fim de semana chegue, e com ele, festas e mais festas. Os problemas da vida e do mundo só são lembrados enquanto gesticulamos nossos cigarros – pode ser um camel ou um malboro light – e dizemos frases ensaiadas, que provavelmente aprendemos em alguma página feminista do facebook. Eu também faço isso. Sou esperta, e, talvez por tédio ou por vaidade, leio muito. Guardo todas as histórias na minha cabeça, e enquanto alguém enaltece Cuba em uma discussão, eu rebato o caso com qualquer episódio de um livro cubano que passou pelas minhas mãos. As pessoas dizem “ caralho, não sabia disso”. É claro que não sabia. Vai ler um livro, e não finja que já devorou a coleção inteira do Marx e Engels. Mas é isso, eu não gosto de ter opiniões formadas e irreversíveis. Eu gosto de fatos. De histórias. Mas o melhor de tudo, é que quando coloco minha inteligência a prova publicamente, eu desminto ou pelo menos deixo em dúvida quem mal me conhece. Eu não tenho cara de quem gosta de ler. Não tenho cara da aluna típica do curso e da Universidade que frequento. Eu sou bonita, de um jeito fácil de entender. Sou praticamente um estereótipo, e se você me emprestar uma bolsa de marca e uma chapinha, me transformo instantaneamente numa bonequinha que parece passar os domingos na hípica com seus puros-sangues. Vou ser assim por muitos anos, e eu sei que a primeira impressão que passo é a de uma patricinha mimada, que não sabe de nada e quer tudo. Alguém que nunca teve uma preocupação na vida, que sempre teve tudo o que pediu ao papai, e uma mamãe que como boa dona de casa de poupança robusta, passa os dias no shopping center enriquecendo meu guarda roupa. Eu e meus queridos amigos somos muito disso tudo. Muito mimados, egocêntricos, vaidosos e com um bom futuro nos aguardando.
Talvez não uma rede de bancos ou uma ilha no Mediterrâneo, mas alguma empresa bacana ou um pedaço de terra do vovô. Mas também temos preocupações. A gente quer mesmo um mundo melhor e faz coisas para tentar mudar isso. Fizemos cursos de teatro, fotografia, e natação. Se você quiser montar uma armadilha caseira para capturar um de nós, basta colocar um CD do Criolo, um copo de Original e um poster do Banksy dentro de uma gaiola e puxar a corda quando alguém entrar. A gente sabe que nem tudo é cor de rosa, e que enquanto bebemos nossa caipirinha, milhões de coisas terríveis acontecem no planeta. Todos, ou quase todos, querem a vida de artistas, jornalistas, sociólogos, biólogos, historiadores, escritores, e todo o resto da extensa lista de profissões de “gente bacana” que não pensa só em dinheiro.
Nem os meus, nem os pais dos meus amigos nos obrigaram a escolher uma profissão que “dê futuro”. Ninguém foi chamado de viadinho quando contou a família que queria fazer a faculdade de teatro. Ninguém foi obrigado a entrar em direito para sustentar os pais na velhice. Isso, nossos avós fizeram por nós. E lá no fundo, papai e mamãe sabem que estamos na cidade mais poderosa, do maior país da América Latina. E que, mais importante do que um diploma de qualquer profissão de status, é a lista de contatos e amigos influentes que podemos ter.
Ser como nós, é mais gostoso do que ser podre de rico. Não somos a classe média que sonha com compras em Miami, e nem os ricaços que já nem vem o que é real, e o que é um colar Cartier. Pertencemos a uma faixa muito estreita da população, gente que só existe em cidades como São Paulo, Rio, e até Nova York. Entre nós, todos são viajados, ainda que não tenham viajado tanto. Somos cultos, engraçados e educados. Somos pensadores e contestadores, mas sabemos nos comportar em um jantar importante com tios reacionários. A gente pode nem saber direito o que está falando, mas sabemos fingir que sim. Nossas ideias políticas e artísticas são ousadas, mas muito nostálgicas, bem como nosso visual, que mistura grifes descoladas e bijuterias hippies. Somos as garotas bonitas, magras “sem esforço”, com vestidinhos floridos, passeando pela Vila Madalena. Somos os garotos com a barba por fazer, meio surfistas, meio sujos, meio lindos. Temos contatos na alta sociedade, ainda que não pertençamos a ela. Damos PT de jurupinga e 51 em algum beco, durante a loucura do carnaval, com a mesma facilidade com que posamos para o fotógrafo daquela balada famosa de terraço bonito.
Nossos colégios foram caros, mas nunca conservadores. Nosso pais sempre se preocuparam conosco, mas nunca foram opressores. Raramente namoramos. Temos casos. Um, dois, três ao mesmo tempo. É normal meninas beijarem meninas, garotos beijarem garotos. O que não é normal é ficar em casa no sábado de noite. Somos jovens, alegres, e queridos. Você provavelmente amaria nos ter como amigos. Bem vindo ao Vale Encantado. Deixe o cabelo ao natural, pegue sua bolsa de couro e nos conte uma história sobre uma aventura com os amigos em Buenos Aires, na Bahia, ou aqui na Cardeal. Se tiver uma cachacinha ou um engradado, traga. Mas não precisa trazer o isqueiro, nós emprestamos o fogo.