Ah Dieux, Oh Language ou Qualquer coisa, Tanto faz.
Adeus à linguagem do Godard é um filme que se pode ignorar totalmente o que está sendo dito, ou melhor, não importa exatamente o que é dito, as palavras estão lá para compor o ambiente, assim como o dutch, os barulhos de puns, o cocô caindo no vaso, o balbuciar francês que muita gente não entende e que não é necessário traduzir.
É um ambiente banal. Sonhei com aquele lugar dos livros, sonhei que Godard contava que eles simplesmente foram nesse lugar e começaram a improvisar com os livros, ou foi uma entrevista real? Não sei, não importa. O ambiente é banal. Ora uma trilha, ora uma casa, ora um cais, ora uma feira de livros. Godard insere um ou outro elemento de estranheza, como o cara da capa preta, que dá um tiro no momento mais experimental do filme, em que a própria montagem, de certa forma, fica a cargo do espectador que pode fechar um olho ou o outro dependendo de qual lado quer ver. Eu, por exemplo, abria e fechava os olhos alternadamente sem parar, mais fascinada com essa nova possibilidade do que de fato com que se passava na tela, que não importava.
Ah sim, uma coisa importante a se dizer para entender o que descrevi acima é que é um filme em 3D. O filme mais experimental em 3D que já vi. Godard usou uma GoPro, 5D e outras câmeras pra fazer esse 3D tosco e interessante.
Tinha o cachorro também, esse membro da família brasileira tão pouco discutido. Porque amamos os cachorros? Porque nos amam. Porque os cachorros nos amam? Porque enxergam além de si mesmos. Livres da consciência, são incapazes de entender a física, não olham para o céu e se perguntam do que são feitas as estrelas. Os cachorros estão de fato na vida, não nesses limbos individuais entre os quais é cada vez mais difícil a propagação desse frágil sinal do qual é feito a linguagem.
A Baleia Mais Sozinha do mundo, The World’s Loneliest Whale, é uma criatura que vaga pelo oceano cantando em 52 hertz, uma frequência que não pode ser ouvida por outras baleias. Ela a é única desse tipo. A descoberta dessa criatura nos anos 60 se bem lembro, causou comoção entre os seres humanos, talvez por nos identificarmos com essa solidão. A gente imagina ela vagando nesse oceano triste e sozinha, porque triste, sozinhos e sem comunicação estamos nós, cada vez menos animais, cada vez mais qualquer coisa, tanto faz.
Ao invés de projetarmos nossa própria catástrofe pessoal sobre uma baleia nunca vista, sem dúvida é melhor ir no cinema e ver como Godard está resgatando o cinema desse período de greve da linguagem. Isso quem disse foi meu amigo Vila-Matas, sobre outra coisa, eu apenas troquei a palavra mundo por baleia nunca vista, Tino Sehgal por Godard, greve das máquinas por greve da linguagem pois achei que vinha a calhar.
Meu amigo lembrava de “Stanislaw Lem e de sua História da literatura bítica, com seus cinco volumes publicados em Paris. Nela, Stanislaw Lem, na sua ficcção sobre o futuro (nesse caso já sobre nosso passado), dizia que ao final dos anos 80, a partir da décima quarta binastia de computadores falantes, demonstrou-se que era uma necessidade técnica dar às máquinas um período de repouso para que estas, livres das ‘instruções programadoras’, pudessem cair num ‘balbuciar’ e em um ‘embaralhar às cegas’, e, graças a essa atividade errática, ajudar na regeneração da capacidade das máquinas (...) me perguntei se por acaso não nos encontrávamos, no âmbito do terreno criativo, num período do qual as engenhocas falantes, que com certeza todos nós éramos, sairíamos mais fortes. Então, por que tanto discurso agourento? Era tão exasperante viver na época do ‘balbuciar’? Talvez estivéssemos num momento de recuperação da fala. Por outro lado, era tão penoso assim ‘embaralhar às cegas’?”
Apesar de não trazer traços desse otimismo, Godard soube se virar. Fez um filme cheio de interrupções, em que ideias não se completam, se amontoam, um filme intragável que foi recebido com entusiasmo, um filme contemporâneo num mundo que sofre de crise de identidade, um filme que pode ser tanto de despedida quanto de saudação ao “balbuciar”, afinal, não pode o balbuciar ser uma nova linguagem, uma linguagem feita de atalhos e de puns?