Pós verdade
Estudei muito a pós verdade e não há muito o que dizer. Ilustro.
Palavras inflam e perdem a relação com a realidade. A realidade existe, objetiva. A interpretação é que se perde porque a representação se tornou o nosso meio de contato com o mundo então tanto faz, tudo pode ser, da mesma forma que estou agora no Havaí, posso estar em Londres. Nos dois lugares ao mesmo tempo.
A ciência já mostra que isso é possível em nível quântico. Na escala métrica estamos quase lá. Daqui a pouco poderemos ver o futuro também.
Sentimos os membros fantasmas, tudo indica, desde a primeira amputação. Nós não vamos embora, não vamos a lugar nenhum. Ficamos aqui onde estamos e somos agora, uma vasilha em contato indireto com o mundo, sustentado por sinapses cerebrais e outros mecanismos desse corpo que vos escreve.
Recomendo aqui uma tríade de mídias que discutem o mundo onde a verdade factual não é primordial.
https://www.youtube.com/watch?v=nz6u7xRznjY Trailer do filme do Adam Curtis, disponível na íntegra no YouTube
Número Zero - Umberto Eco. Ele escreve o livro pouco antes do termo “pós verdade” se cunhar, mas é sobre ela que ele fala nesse livro que retrata os bastidores de um jornal que não tem a intenção de ser impresso. A ideia é escrever notícias tão escandalosas que pagariam para que o jornal não saísse. Algo assim. O desfecho é maravilhoso e descreve uma situação sustentada por evidências tão frágeis que podem se desfazer a qualquer instante, mas que fica lá, entre a mentira e a verdade simplesmente porque é impossível de saber a realidade com o que temos de informação.
“Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela”. - UEco
A terceira mídia é esse blog. Eu minto, mas você sabe que eu minto, não sabe?
Uma lição que Hannah Arendt me passou há alguns anos quando era sua aluna foi que o perigo desse mundo não é que a mentira vai prevalecer, mas “o cinismo que torna impossível a distinção do que é real e o que não é”. Lembro da realidade com nostalgia, não porque não existe, mas porque já não posso reconhecê-la. Graças a Deus, não somos a medida desse Universo. Somos medidores, preguiçosos, como boa parte dos jornalistas desse século (que deviam ser YouTubers).









