é como ser baleada por um boneco de pano.
você decidiu que outras pernas levariam seu corpo até em casa. outros braços segurariam o que quer que fosse quando o equilíbrio te deixasse só. outros olhos procurariam uma mão amiga que te servisse como muleta. outra boca gesticularia palavras nunca ditas como balas de metralhadora que você jamais lembra de atirar.
aos meus olhos, é tudo um crime e eu te acuso por ser um personagem. você merece a cadeia por fazer tudo sem pensar, sair do próprio corpo e me deixar aqui sozinha. fora de si, você me faz esquecer como chegamos a esse ponto.
me diz, em que momento tu decidiu que era melhor não ser o reflexo que te aponta a cara amassada dos dias seguintes?
a gente prometeu não sumir um do outro. mas você se esconde sempre que viro o rosto e eu não sei mais dizer quantos retornos posso aguentar.
quando você é mar revolto, me leva a lugares que nunca quis ir. o ar faz falta e escondo no fundo do mar todas as explosões do peito. todo controle que queria te dar, mas não devo. sempre foi assim, quando você não é mais você. e nessas noites, eu desejo não ter aprendido a nadar.
a quantidade de água que eu engoliria seria nada comparada ao álcool em que lhe convém se afogar.
e não me olhe. não me toque. não me veja.