Felipe não tentou falar comigo no caminho pra casa, me viu tão entretido nos meus pensamentos que preferiu se atentar ao trânsito e à playlist do carro. Ele é um bom amigo, agora não to mais com raiva e sim muito grato, porque se ele tivesse feito o que eu pedi, eu não teria sido agraciado com a presença de Marina.
– Mano, – ele disse ao parar na frente da minha casa – se precisar tamo ae.
Dei um abraço nele e entrei em casa, ainda eram 21h e minha mãe estava se arrumando pra sair. Ela é linda, por dentro e por fora. Me ouve, me cuida, sempre esteve presente. Depois do divórcio ela mudou muito, mas sempre se tornando melhor a cada dia. Tão desenrolada, queria ter puxado a ela.
– Dona Manuela tá se arrumando pra quê?
– Cinema com as amigas, meu bem.
– Era pra ter ido pro show, tocou a música do teu filme.
– Que graça teria ir pro show sem ninguém pra dançar comigo?
– E eu sou ninguém agora, mãe?
– Te amo, ninguém. Agora vou indo antes que me atrase.
– Te amo, mãe, você é linda. A bença?
– E você puxou a mim! Deus abençoe!
Confesso que ainda não me acostumei com essa nova fase da minha mãe, mas fico feliz por ela. Sai com as amigas sempre que pode, trabalha sem estresse, se cuida. Espero ser assim em alguma fase da minha vida e poder ter uma vida normal. É um saco passar mal quando tenho que ir a um lugar fora da minha zona de conforto, não importa o quanto eu queira estar naquele lugar. A pressão cai, o estômago dói, a cabeça parece que vai explodir de tão alto que é o fluxo de pensamentos. Eu detesto ter que tomar remédio pra tudo. É remédio pra ficar calmo, remédio pra ficar feliz, remédio pra dormir bem, remédio pra conseguir tentar ter a vida normal que eu tanto quero. Quando o psiquiatra me receitou esses medicamentos, tomei sem fé e reclamando sempre, mas graças a Joana eles fizeram efeito porque ela me fez entender que se eu não aceitasse que preciso deles como uma bengala de apoio à terapia, eles jamais fariam efeito e eu passaria a vida tomando como se fosse placebo.
Minha mãe me ajuda muito no tratamento, meu quarto é a prova disso. Ela fez questão de ir conversar com Joana pra me entender melhor, então sentou comigo na minha cama e pesquisamos sobre meios de aliviar a tensão do ambiente. Procuramos muito até achar um papel de parede listrado de cinza e verde, que representam, respectivamente, calma e saúde. Compramos uma estante branca e organizamos meus livros, jogos, filmes e bonecos, os que eu nem lembrava que existiam pedi pra ela dar aos alunos dela. Assim, nos livramos de muita coisa, principalmente das mil prateleiras que enchiam minha parede. Ela comprou incensos e pedras de energia, organizou na minha escrivaninha e quando estava tudo pronto, descobri no meu quarto o melhor lugar do mundo. Já não me sentia asfixiado e ainda pude presentear algumas crianças que não têm condições de comprar essas coisas que eu tenho de sobra. Fazer por onde me sentir uma pessoa melhor também faz parte do meu tratamento.
Tomei banho pensando que se eu não tivesse procurado tratamento, minha mãe não teria falado com Joana, eu ainda me sentiria sufocado no meu quarto, os remédios ainda não fariam efeito, eu não teria ido sozinho à livraria, não seguiria Bárbara, Felipe não me levaria pro show e eu não conheceria Marina. Às vezes me impressiono como cada detalhe da vida é escrito com clareza e geralmente a gente nem percebe que tudo está conectado. Vivemos com tanta pressa.
Depois de me secar, me trocar e me acomodar na cama, fui checar o celular. No WhatsApp, mensagem de Bárbara me pedindo pra salvar o número dela e me convidando pra um passeio no Antigo no sábado. Disse que iria ver se podia e dizia no outro dia, mas queria mesmo era perguntar se Marina tinha Whats também. Bloqueei a tela do celular e pensei em terminar meu TCC, aí lembrei que sou ansioso e ele já está pronto, sendo revisado. Escrever sobre como conhecer a geografia local ajuda o desenvolvimento escolar e social foi fantástico. Logo eu, que sempre fui taxado como quem estudaria Sistemas de Informação ou Ciência da Computação, me realizei em Licenciatura em Geografia. As pessoas vivem querendo enquadrar as outras em pré conceitos... Ah, que cansaço da sociedade. Melhor ir dormir antes que o Justiceiro me possua.
Acordar é sempre um desafio. Preciso colocar uma música pra tocar, respirar fundo, listar o que eu preciso fazer fora da cama e aí sim conseguir sair dela. Sempre acho que meu dia vai dar ruim, mas tento dizer que vai ficar tudo bem porque talvez, mentindo em voz alta, a mentira vire verdade. Levantei, tomei meu banho, e fui procurar alguma coisa pra comer. Infelizmente minha mãe já saiu pra trabalhar, comer conversando com ela é uma das poucas coisas que me passam segurança pra enfrentar o dia.
Quinta-feira já foi um dia produtivo, mas fim de faculdade é sempre recheado de buracos no horário, ainda mais quando você é ansioso e tentou adiantar tudo que dava pra adiantar. Engraçado, antigamente eu não conseguia fazer nada justamente por ser ansioso. Qualquer coisa era um sofrimento, minha mente ficava a 100 km/h, eu não conseguia me concentrar em nada... Mas então criei metas e já não é impossível realizar algumas atividades.
Houve um tempo em que eu não saía de casa porque estava muito ocupado administrando mil vidas no The Sims na tentativa de fugir da minha vida. Digamos vivi um fugere urbem moderno. Porém, à medida que eu avançava na terapia, jogar The Sims foi perdendo o sentido. Não tinha emoção, não tinha objetivos que fizessem diferença, era só eu manipulando vários bonecos, criando a sociedade que eu queria estar inserido fora do computador. Demorei pra entender que quanto mais eu jogava, mais me frustrava. Aí Felipe me mostrou Skyrim, parece com The Sims, mas tem toda uma história, objetivos, interações e não me dá o poder de criar um mundo ao meu modo, que é o mais importante.
Joguei por algumas horas e resolvi dar uma olhada no Rotten Tomatoes. Acho incrível como tem gente que deixa de ir pro cinema por causa de palavras escritas por desconhecidos que se consideram superiores intelectualmente. Gosto não era pra ser individual? Não tem até um ditado que diz “gosto não se discute”? Que coisa. Fora que esse pessoal do Rotten Tomatoes representa um compilado daqueles bigodudos de filme de época que veem o mundo através de monóculos e não aceitam que os filmes da DC ultimamente estão sendo melhores que o da Marvel. Ao mesmo tempo em que penso dessa maneira, me questiono “quem sou eu pra falar alguma coisa se meu filme favorito é O Auto da Compadecida?”.
Resolvi dar uma volta de bicicleta, desde que soube que praticar exercícios ajudam meu corpo a se sentir melhor tive mais prazer em sair de casa. Saí sem um destino certo, só querendo sentir um ventinho e suar um pouco, mas em uma determinada rua, avistei uma figura reconfortante de longe. Marina. Marina e sua risada afogadora de pescadores. Inconscientemente, pedalei sem tirar os olhos dela. Estava conversando com um porteiro que parecia um conhecido de longa data, deve morar nesse prédio. E foi hipnotizado pela risada e o sorriso daquela vocalista estonteante que eu levei um tombo.
Não percebi que estava pedalando em direção a um gelo baiano e o baque foi feio, ela correu em minha direção, acho que nem sabia que o tombado era eu. Me senti uma igreja de Olinda.
– Oi, tu tá bem? – disse ela, com feição preocupada.
– Sim, foi só uma quedinha, obrigado.
– Vem, deixa eu te ajudar a levantar!
– Obrigado! – eu disse, segurando sua mão pra sair do chão.
– Eu te conheço de algum lug... já sei, do show, o amigo de Bárbara!
– Vai ficar se eu te fizer uns curativos. Meu Deus do céu, que queda feia! Vem, eu moro ali do outro lado, deixa eu te ajeitar.
Olhei pra mim mesmo e vi que estava com os braços e pernas ralados porque caí de barriga. Que legal, queria parecer àqueles paqueradores de filme e to parecendo protagonista de comédia pastelão. Se antes eu já não tinha chance com ela, agora eu to na friendzone sem nem ter tentado alguma coisa.
– Precisa não, Marina, são só uns arranhõezinhos... – falei com tão pouca fé que ficou visível que eu não achava que tinha sido besteira, afinal to todo estrupiado.
– Me chame de Mari e você vem sim! – ela sorriu e me puxou pela mão. Poxa, não dá pra lutar contra sereias e ela tá quase sendo uma medusa. Eu quase esqueci minha bicicleta largada no chão. No fundo do mar não dá pra pedalar, certo?
Peguei a bicicleta e a segui até seu prédio. Cada passo que eu dava, era uma pontada no estômago. As borboletas estavam se jogando contra a parede, parecia que iam sair pelo meu umbigo a qualquer momento. Comecei a suar frio enquanto ela sorria sem abandonar o ar de preocupação. Ela nem parece que é de verdade. Vasculhando sua pele com os olhos, achei uma libélula tatuada acima do sem cotovelo direito. Ela fica cada vez mais fascinante, como pode?
Entramos no elevador e meu coração disparou a ponto de arder no peito. Acho que desmaio antes de chegar no sétimo andar. Bem, sete é meu número da sorte, apesar de que eu nunca tive sorte em nada, independente do número. Ela ficou verificando meus machucados, comentando o quanto a queda foi feia e perguntando se eu conseguia mexer tudo direitinho. Como eu vou não me apaixonar? A próxima música de Soulstripper será escrita por mim e se chamará A Sereia, com certeza.
Chegamos ao seu apartamento, ela me disse pra sentar e por me ver tão nervoso, disse que seria rapidinho e eu seria livre. Quem disse que eu quero ser livre dela? Mesmo quase morrendo de nervoso, eu quero ficar preso aqui. Mesmo que possivelmente eu fique apenas como um móvel que ela nem lembra que existe, enquanto ela ama outras pessoas diante dos meus olhos. Poderia tocar Can’t Take My Eyes Off You enquanto a observo, seria a trilha perfeita, mais ainda se fosse ela cantando. Ela me dá um copo de água e pergunta se quero suco de abacaxi com hortelã, aceito. Além do suco, ela trouxe uma caixinha vermelha e soro. Me entregou o copo e sentou-se na minha frente, no chão. Me pediu pra manter a calma que ia doer pouco. Bom, pelo menos sei que ela não mente, outra pessoa diria que não vai doer e ponto.
Da caixa ela tira gaze, elixir sanativo e esparadrapo. Limpou as feridas das minhas pernas de forma extremamente cuidadosa e atenciosa. Depois da gaze com soro, foi vez das borrifadas de elixir... Puta que pariu! Sacudi involuntariamente a perna e ela me olhou procurando um vestígio de dor, sorri de desgosto pra não piorar minha vergonha, ela sorriu de volta com gosto e voltou a me cuidar. Quando terminou, cobriu as feridas com gaze e prendeu com esparadrapo. Fez da mesma maneira nos meus braços e, na testa, pôs band-aid.
– Tá liberado, Manoel. Vou te chamar um Uber, é muito arriscado tu pedalar desse jeito. Outro dia tu vem aqui e pega tua bike. Tu mora perto, né?
– Sim, umas ruas mais pra lá.
– Que ótimo, a gente pode se ver mais vezes. Me dá teu número pra a gente se comunicar.
Dei meu número, ela chamou meu uber, fez questão de me acompanhar até o carro e de só entrar no prédio depois dele partir. Que a cada partida o risco do meu coração ser partido diminua, nunca lidei com isso e não quero ter que lidar agora que to aprendendo a lidar comigo. Amém.
Depois de tantas aventuras, me senti um personagem idiota do Cartoon Network, o Mutano por exemplo. Não tomei banho, apesar de detestar me deitar sujo, porque detesto mais ainda a água e o sabão batendo nas feridas. Só coloquei meu calção de dormir e peguei meu celular. Tinha mensagem dela, “quando chegar, me avisa”, fiz questão de avisar que havia chegado bem e agradeci o cuidado, ela perguntou se eu queria ir buscar minha bike amanhã, concordei, ela disse que seria legal pra a gente conversar com calma e disse que precisava adiantar o que ela atrasou cuidando de mim, desejei um bom fim de dia e liguei a TV.
Maratonei The Big Bang Theory até começar a cochilar, desliguei a tv e fiz minha prece, tendo certeza que por pior que aquele dia tenha sido, ele foi ótimo e eu veria a meio sereia meio medusa em breve e sem passar vergonha, eu espero.