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Do dia a dia
Aurora e Bernardo decidiram morar juntos, não me perguntem quando (ou qual a razão), estou tão por fora quanto você. Uma coisa é fato, eles tinham certeza de que era aquilo que queriam. Ela com 20, ele com 22, ambos recém formados – ele arqueólogo, ela bacharela em cinema – e devidamente empregados, pra quê esperar? E esperar mais o quê? Noivado, casamento? Desde quando aliança é certificado de maturidade para vida em comunhão? Ao menos é assim que eles pensam.
– Feriado de Tiradentes, 6h, o despertador toca pela segunda vez –
– MEU DEUS, VÃO ME DEMITIR, EU TÔ ATRASADO, MUITO ATRASADO!
Ela, acordada desde a primeira vez que o dito cujo tocou, fala calmamente, enquanto toma seu chá de hortelã:
– Tu sabe que, bem, hoje é feriado, certo?
– Feriado?
– Feriado.
– De quê?
– Tu é bom em história, hein? Tiradentes.
Ele, depois de suspirar aliviado, continua a conversa:
– Que coisa, não? Hoje é que dia?
– Sexta.
– Se hoje é sexta e feriado, por que tas acordada?
– Alguém precisa levantar cedo pra ter crise existencial nessa casa.
– Mas é um aparta... Ah, entendi. Termina esse chá e deita aqui.
– Pra quê?
– Meu pé ta frio, tu colocasse o ar no modo Alasca.
– Ah, lasca!
Eles riram do trocadilho sem graça, ela pôs a xícara na escrivaninha, se deitou e dormiram... Até que ele acordou, 30 minutos depois.
– Lembra que eu não te pedi em namoro?
– Hein?
– Eu perguntei se tu queria comer comigo até tua fome acabar.
– Nunca acabou.
– É verdade. O que ta na minha cabeça é: eu não fazia idéia que chegaríamos até aqui.
– Eu achava que não chegaríamos nem a um ano juntos.
– E olha a gente aqui, brigando pra ver quem vai encarar a fila da lotérica, fazendo rodízio no supermercado...
– Casados há cinquenta anos, com menos de trinta e sem juiz ou igreja.
– Casados PELOS PODERES DE GREYSKULL!
Não, a vida deles não é perfeita. Volta e meia brigam porque alguém não lavou o que era pra lavar, esqueceu de pagar uma conta, ou até mesmo porque eles são humanos e, assim como qualquer casal normal, têm ciúmes um do outro e isso pode gerar pequenas confusões, você sabe. Ela não tem hora certa pra trabalhar, ele trabalha durante o dia, muitas vezes só se veem na hora de dormir, mas quem liga? O que importa, que é a vontade de estar junto, a noção dos esforços que fizeram pra chegar ali, a consciência de que viver a dois não é fácil como fritar ovo, sustenta essa decisão louca de morarem juntos tão cedo. Não sei você, mas eu queria ter a coragem deles.
Save you
Aurora estava inquieta. Para ela, passar uma noite completamente sozinha seria a prova de que sim, estava pronta para um voo solo. Porém, cada vez que pregava os olhos, se assustava com algum barulho. Podia ser o vento fazendo as folhas da pitangueira bater em sua janela ou a pia do banheiro que estava com vazamento, parecia que havia mais alguém em casa.
Ela, que estava deitada desde às 22h, deu uma olhadinha na sua cabeceira, a fim de ver a hora. Tomou um susto: "Merda, 1h!" Deveria ligar pro namorado? Achou ridículo, onde já se viu, uma mulher daquele tamanho apelar desse jeito? Além disso, já havia dado boa noite e feito todo aquele ritual de bons desejos noturnos.
Bernardo, por sua vez, crente de que sua namorada estava no milésimo sono, testava o limite de seus tímpanos, ouvindo Simple Plan como se o mundo estivesse prestes a acabar, entretido no Zelda. Algo interrompeu o refrão de Jet Lag, mas ele nem deu muita atenção, acha que o celular travou, como era de costume, e continuou jogando, a música voltou a tocar: "Esses celulares da Samsung..." Momentos depois, a música foi interrompida novamente, ele acabou cometendo um suicídio no jogo. Aborrecido, verificou o celular e viu duas chamadas não atendidas. Imediatamente, retornou as ligações:
– Aurora, o que aconteceu? Perdoa, tava ouvindo música, achei que o celular tinha travado, enfim...
Ela respirou aliviada por ele ter retornado e disse:
– A cagona master que você escolheu pra ser sua namorada tá com um puta cagaço pra dormir sozinha. Te juro que já escutei até tambor bater nessa casa depois que nos despedimos.
– Hmmm... Aí resolveu ligar pro caçador de fantasmas formado em 10 temporadas de Ghost Hunters?
– Tu não deveria se orgulhar tanto por ter assistido todos os episódios de uma série do SyFy...
– Tudo bem, então. Espero que Grey's Anatomy te ajude a dormir essa noite, ou melhor, esse resto de madrugada. Boa noite.
– NÃO DESLIGA!
– Não grita, isso é um telefone.
– Desculpa... É... Vem pra cá, por favorzinho. Eu juro que faço doce de banana amanhã pra tu tomar com café à tarde, mas não me deixa nesse assombro arretado, não.
– Proposta tentadora... Aceito se você assistir o resto da última temporada de Hannibal comigo.
– Argh... O homem come gente, pô.
– OK, boa noite.
– Tá, assisto. Vem logo.
Bernardo já sabia o que estava à espera dele: uma menina de 17 anos que desliga a luz e sai correndo pra cama, jurando estar sendo perseguida por monstros e demônios. Isso lhe fazia rir e agradecer por ela ter aceitado seu pedido. Ele chegou na casa da namorada, trocou de roupa e ambos se deitaram.
– Oh bem, tu sabia que fica parecendo um coelho doidão quando tá nervosa?
– Tu sabia que é mais legal quando tá calado?
– Mai óia que braba...
– Tão braba quanto tu é afoito, nojento!
– Disse a cagona que me fez sair de Maria Farinha pra Nárnia, oh, Janga, de madrugada, porque tava escutando zoada do além. Beleza, pô.
– Cala a boca!
– Tá certo.
E ele a beijou. Com fúria, com verdade, com desejo, com força. Beijou com uma intensidade tão única que nem o mais sincero "eu te amo" seria mais verdadeiro que aquele, totalmente ao modo deles. Ela retribuiu o beijo com um cafuné tentando equilibrar a selvageria daquela entrega. O beijo findou, eles se olharam, sorriram e tudo o que dava pra ver naquele quarto escuro era o brilho daquela troca de olhares.
– Bem, tu fica mais linda depois que me beija, sabia?
– Vamos dormir antes que tu me deixe sem graça de novo.
Ela lhe cheirou no pescoço, acariciou seu rosto, virou e dormiu. Ele, doido por ela e com ela, fez uma trilha de beijos iniciada na sua nuca, percorrendo toda a coluna, findando na lombar. Acarinhou seu contorno da clavícula à cintura com as costas das mãos, chegou perto de seu ouvido e cantou com cuidado:
– Sometimes I wish I could save you and there's so many things that I want you to know... I won't give up till it's over. If it takes you forever, I want you to know.
Não existe razão nas coisas feitas pelo coração
Aurora e Bernardo se conheciam há um ano; estudavam no mesmo colégio e tinham alguns amigos em comum. Ela sempre foi a garota desastre; embora muito inteligente, se atrapalhava demais com tudo. Já ele, dono de um intelecto encantador, gostava de admirá-la com olhos de caçador de borboletas. A química entre os dois era tão forte que mantinham um caderninho com todas as frases/piadas absurdas as quais eles ouviam e falavam.
Certo dia eles queriam muito sair, mas os outros estavam todos ocupados demais para acompanhá-los. Então, pela primeira vez, eram só Aurora com Bernardo e vice-versa. Foram ao Museu da Abolição; ele, por dentro de tudo que envolve História, fez questão de explicar tudo pra ela e respondia cada pergunta feita (com certa vergonha por algumas serem óbvias), observando o encanto dela pelas obras a cada resposta dada.
Saindo dali, sentaram-se em uma praça ali perto e conversaram, riram, por horas. Aurora o observava como se sentisse cada palavra que saía da sua boca; encantada estava. Bernardo percebeu e sorriu algumas vezes, meio avermelhado. Algum tempo se passou e foram cada um pra sua casa.
Algum tempo se passou e as coisas permaneceram como sempre entre os dois, então, quase um mês depois do episódio do museu, ele percebeu que os outros tinham razão em tirar onda com os dois: havia um sentimento maior que amizade ali.
Então ele combinou algo com os amigos, iam todos sair juntos, mas ele não estaria lá e realmente, não estava. Aurora preocupada por ele não ter dado notícias desde a tarde do dia anterior, perguntava aos outros sobre Bernardo, mas não obtinha respostas. Conformada ficou, pois viu que não adiantava perguntar.
Estavam no ônibus, na linha Rio Doce/Piedade, sentados nas duas fileiras de trás, do meio pro lado direito. Quando ele parou em frente ao Centro de Convenções, algo inesperado aconteceu. Bernardo entrou, pela porta do meio, com um caixinha de som tocando O Amor e o Ocaso, de Vespas Mandarinas, numa mão e na outra, uma caixinha e um girassol. Ele dizia o seguinte:
Senhores passageiros, me perdoem a interrupção da vossa paz e silêncio, mas eu preciso contar a todos que conheci alguém. Ela, cujo nome significa “raiar do sol”, é para mim o Caio da Jout Jout. Sei que poucos entenderam, mas – disse olhando pra ela – de quem eu falo, entende perfeitamente. Essa garota, que deveria entrar no Guiness Book como recordista mundial em ganhar hematomas sem nem percebê-los, é a melhor companhia. Gosta de ouvir minhas chatices históricas, econômicas e filosóficas, o faz com os olhos brilhando, prestando toda a atenção.
A essa altura do campeonato, Bernardo já estava parado em frente a Aurora, que estava tendo uma crise de risos por estar nervosa. Todos do ônibus os observavam atentamente, curiosos sobre qual seria o próximo passo do rapaz. Então ele a entregou a flor, dizendo:
Descobri, da melhor forma, que você é meu sol. Pouco mais que um metro e sessenta e cinco de sol. Aurora, quero permanecer sendo teu amigo, vendo teu amanhecer. Esse pedido que vou fazer agora é bem inesperado e incomum, mas deve ser feito. Não se preocupe, não estou aqui a me candidatar como seu namorado na frente de tanta gente que nunca vi na vida!
Aurora sorriu, estava com os olhos marejados e curiosa pra saber que raio de pedido seria aquele. Bernardo, com todo cuidado, abriu a caixa e a direcionou à menina:
Minha doce Amélie, conheci essa maravilha numa tarde daquelas contigo. Você, como sempre, cumpriu sua promessa e me levou pra comer sushi pela primeira vez. Agora, preciso saber: você aceita comer comigo até sua fome acabar?
As pessoas riram, todas elas, inclusive um casal sentado na cadeira alta à frente deles (logo após, se olharam docemente). Aurora, atrapalhada como sempre, pegou um dos sushis da caixa, enfiou na boca e disse:
Espero que ela nunca acabe!
Ali iniciou-se o primeiro dia do resto de suas vidas. Sem pressa ou pressão, de uma forma bastante peculiar, os meios finalmente se tornaram um inteiro.
Sereia
Felipe não tentou falar comigo no caminho pra casa, me viu tão entretido nos meus pensamentos que preferiu se atentar ao trânsito e à playlist do carro. Ele é um bom amigo, agora não to mais com raiva e sim muito grato, porque se ele tivesse feito o que eu pedi, eu não teria sido agraciado com a presença de Marina.
– Mano, – ele disse ao parar na frente da minha casa – se precisar tamo ae.
– Eu sei, valeu.
Dei um abraço nele e entrei em casa, ainda eram 21h e minha mãe estava se arrumando pra sair. Ela é linda, por dentro e por fora. Me ouve, me cuida, sempre esteve presente. Depois do divórcio ela mudou muito, mas sempre se tornando melhor a cada dia. Tão desenrolada, queria ter puxado a ela.
– Dona Manuela tá se arrumando pra quê?
– Cinema com as amigas, meu bem.
– Era pra ter ido pro show, tocou a música do teu filme.
– Que graça teria ir pro show sem ninguém pra dançar comigo?
– E eu sou ninguém agora, mãe?
– Te amo, ninguém. Agora vou indo antes que me atrase.
– Te amo, mãe, você é linda. A bença?
– E você puxou a mim! Deus abençoe!
Confesso que ainda não me acostumei com essa nova fase da minha mãe, mas fico feliz por ela. Sai com as amigas sempre que pode, trabalha sem estresse, se cuida. Espero ser assim em alguma fase da minha vida e poder ter uma vida normal. É um saco passar mal quando tenho que ir a um lugar fora da minha zona de conforto, não importa o quanto eu queira estar naquele lugar. A pressão cai, o estômago dói, a cabeça parece que vai explodir de tão alto que é o fluxo de pensamentos. Eu detesto ter que tomar remédio pra tudo. É remédio pra ficar calmo, remédio pra ficar feliz, remédio pra dormir bem, remédio pra conseguir tentar ter a vida normal que eu tanto quero. Quando o psiquiatra me receitou esses medicamentos, tomei sem fé e reclamando sempre, mas graças a Joana eles fizeram efeito porque ela me fez entender que se eu não aceitasse que preciso deles como uma bengala de apoio à terapia, eles jamais fariam efeito e eu passaria a vida tomando como se fosse placebo.
Minha mãe me ajuda muito no tratamento, meu quarto é a prova disso. Ela fez questão de ir conversar com Joana pra me entender melhor, então sentou comigo na minha cama e pesquisamos sobre meios de aliviar a tensão do ambiente. Procuramos muito até achar um papel de parede listrado de cinza e verde, que representam, respectivamente, calma e saúde. Compramos uma estante branca e organizamos meus livros, jogos, filmes e bonecos, os que eu nem lembrava que existiam pedi pra ela dar aos alunos dela. Assim, nos livramos de muita coisa, principalmente das mil prateleiras que enchiam minha parede. Ela comprou incensos e pedras de energia, organizou na minha escrivaninha e quando estava tudo pronto, descobri no meu quarto o melhor lugar do mundo. Já não me sentia asfixiado e ainda pude presentear algumas crianças que não têm condições de comprar essas coisas que eu tenho de sobra. Fazer por onde me sentir uma pessoa melhor também faz parte do meu tratamento.
Tomei banho pensando que se eu não tivesse procurado tratamento, minha mãe não teria falado com Joana, eu ainda me sentiria sufocado no meu quarto, os remédios ainda não fariam efeito, eu não teria ido sozinho à livraria, não seguiria Bárbara, Felipe não me levaria pro show e eu não conheceria Marina. Às vezes me impressiono como cada detalhe da vida é escrito com clareza e geralmente a gente nem percebe que tudo está conectado. Vivemos com tanta pressa.
Depois de me secar, me trocar e me acomodar na cama, fui checar o celular. No WhatsApp, mensagem de Bárbara me pedindo pra salvar o número dela e me convidando pra um passeio no Antigo no sábado. Disse que iria ver se podia e dizia no outro dia, mas queria mesmo era perguntar se Marina tinha Whats também. Bloqueei a tela do celular e pensei em terminar meu TCC, aí lembrei que sou ansioso e ele já está pronto, sendo revisado. Escrever sobre como conhecer a geografia local ajuda o desenvolvimento escolar e social foi fantástico. Logo eu, que sempre fui taxado como quem estudaria Sistemas de Informação ou Ciência da Computação, me realizei em Licenciatura em Geografia. As pessoas vivem querendo enquadrar as outras em pré conceitos... Ah, que cansaço da sociedade. Melhor ir dormir antes que o Justiceiro me possua.
Acordar é sempre um desafio. Preciso colocar uma música pra tocar, respirar fundo, listar o que eu preciso fazer fora da cama e aí sim conseguir sair dela. Sempre acho que meu dia vai dar ruim, mas tento dizer que vai ficar tudo bem porque talvez, mentindo em voz alta, a mentira vire verdade. Levantei, tomei meu banho, e fui procurar alguma coisa pra comer. Infelizmente minha mãe já saiu pra trabalhar, comer conversando com ela é uma das poucas coisas que me passam segurança pra enfrentar o dia.
Quinta-feira já foi um dia produtivo, mas fim de faculdade é sempre recheado de buracos no horário, ainda mais quando você é ansioso e tentou adiantar tudo que dava pra adiantar. Engraçado, antigamente eu não conseguia fazer nada justamente por ser ansioso. Qualquer coisa era um sofrimento, minha mente ficava a 100 km/h, eu não conseguia me concentrar em nada... Mas então criei metas e já não é impossível realizar algumas atividades.
Houve um tempo em que eu não saía de casa porque estava muito ocupado administrando mil vidas no The Sims na tentativa de fugir da minha vida. Digamos vivi um fugere urbem moderno. Porém, à medida que eu avançava na terapia, jogar The Sims foi perdendo o sentido. Não tinha emoção, não tinha objetivos que fizessem diferença, era só eu manipulando vários bonecos, criando a sociedade que eu queria estar inserido fora do computador. Demorei pra entender que quanto mais eu jogava, mais me frustrava. Aí Felipe me mostrou Skyrim, parece com The Sims, mas tem toda uma história, objetivos, interações e não me dá o poder de criar um mundo ao meu modo, que é o mais importante.
Joguei por algumas horas e resolvi dar uma olhada no Rotten Tomatoes. Acho incrível como tem gente que deixa de ir pro cinema por causa de palavras escritas por desconhecidos que se consideram superiores intelectualmente. Gosto não era pra ser individual? Não tem até um ditado que diz “gosto não se discute”? Que coisa. Fora que esse pessoal do Rotten Tomatoes representa um compilado daqueles bigodudos de filme de época que veem o mundo através de monóculos e não aceitam que os filmes da DC ultimamente estão sendo melhores que o da Marvel. Ao mesmo tempo em que penso dessa maneira, me questiono “quem sou eu pra falar alguma coisa se meu filme favorito é O Auto da Compadecida?”.
Resolvi dar uma volta de bicicleta, desde que soube que praticar exercícios ajudam meu corpo a se sentir melhor tive mais prazer em sair de casa. Saí sem um destino certo, só querendo sentir um ventinho e suar um pouco, mas em uma determinada rua, avistei uma figura reconfortante de longe. Marina. Marina e sua risada afogadora de pescadores. Inconscientemente, pedalei sem tirar os olhos dela. Estava conversando com um porteiro que parecia um conhecido de longa data, deve morar nesse prédio. E foi hipnotizado pela risada e o sorriso daquela vocalista estonteante que eu levei um tombo.
Não percebi que estava pedalando em direção a um gelo baiano e o baque foi feio, ela correu em minha direção, acho que nem sabia que o tombado era eu. Me senti uma igreja de Olinda.
– Oi, tu tá bem? – disse ela, com feição preocupada.
– Sim, foi só uma quedinha, obrigado.
– Vem, deixa eu te ajudar a levantar!
– Obrigado! – eu disse, segurando sua mão pra sair do chão.
– Eu te conheço de algum lug... já sei, do show, o amigo de Bárbara!
– Eu mesmo, tudo bem?
– Vai ficar se eu te fizer uns curativos. Meu Deus do céu, que queda feia! Vem, eu moro ali do outro lado, deixa eu te ajeitar.
Olhei pra mim mesmo e vi que estava com os braços e pernas ralados porque caí de barriga. Que legal, queria parecer àqueles paqueradores de filme e to parecendo protagonista de comédia pastelão. Se antes eu já não tinha chance com ela, agora eu to na friendzone sem nem ter tentado alguma coisa.
– Precisa não, Marina, são só uns arranhõezinhos... – falei com tão pouca fé que ficou visível que eu não achava que tinha sido besteira, afinal to todo estrupiado.
– Me chame de Mari e você vem sim! – ela sorriu e me puxou pela mão. Poxa, não dá pra lutar contra sereias e ela tá quase sendo uma medusa. Eu quase esqueci minha bicicleta largada no chão. No fundo do mar não dá pra pedalar, certo?
Peguei a bicicleta e a segui até seu prédio. Cada passo que eu dava, era uma pontada no estômago. As borboletas estavam se jogando contra a parede, parecia que iam sair pelo meu umbigo a qualquer momento. Comecei a suar frio enquanto ela sorria sem abandonar o ar de preocupação. Ela nem parece que é de verdade. Vasculhando sua pele com os olhos, achei uma libélula tatuada acima do sem cotovelo direito. Ela fica cada vez mais fascinante, como pode?
Entramos no elevador e meu coração disparou a ponto de arder no peito. Acho que desmaio antes de chegar no sétimo andar. Bem, sete é meu número da sorte, apesar de que eu nunca tive sorte em nada, independente do número. Ela ficou verificando meus machucados, comentando o quanto a queda foi feia e perguntando se eu conseguia mexer tudo direitinho. Como eu vou não me apaixonar? A próxima música de Soulstripper será escrita por mim e se chamará A Sereia, com certeza.
Chegamos ao seu apartamento, ela me disse pra sentar e por me ver tão nervoso, disse que seria rapidinho e eu seria livre. Quem disse que eu quero ser livre dela? Mesmo quase morrendo de nervoso, eu quero ficar preso aqui. Mesmo que possivelmente eu fique apenas como um móvel que ela nem lembra que existe, enquanto ela ama outras pessoas diante dos meus olhos. Poderia tocar Can’t Take My Eyes Off You enquanto a observo, seria a trilha perfeita, mais ainda se fosse ela cantando. Ela me dá um copo de água e pergunta se quero suco de abacaxi com hortelã, aceito. Além do suco, ela trouxe uma caixinha vermelha e soro. Me entregou o copo e sentou-se na minha frente, no chão. Me pediu pra manter a calma que ia doer pouco. Bom, pelo menos sei que ela não mente, outra pessoa diria que não vai doer e ponto.
Da caixa ela tira gaze, elixir sanativo e esparadrapo. Limpou as feridas das minhas pernas de forma extremamente cuidadosa e atenciosa. Depois da gaze com soro, foi vez das borrifadas de elixir... Puta que pariu! Sacudi involuntariamente a perna e ela me olhou procurando um vestígio de dor, sorri de desgosto pra não piorar minha vergonha, ela sorriu de volta com gosto e voltou a me cuidar. Quando terminou, cobriu as feridas com gaze e prendeu com esparadrapo. Fez da mesma maneira nos meus braços e, na testa, pôs band-aid.
– Tá liberado, Manoel. Vou te chamar um Uber, é muito arriscado tu pedalar desse jeito. Outro dia tu vem aqui e pega tua bike. Tu mora perto, né?
– Sim, umas ruas mais pra lá.
– Que ótimo, a gente pode se ver mais vezes. Me dá teu número pra a gente se comunicar.
Dei meu número, ela chamou meu uber, fez questão de me acompanhar até o carro e de só entrar no prédio depois dele partir. Que a cada partida o risco do meu coração ser partido diminua, nunca lidei com isso e não quero ter que lidar agora que to aprendendo a lidar comigo. Amém.
Depois de tantas aventuras, me senti um personagem idiota do Cartoon Network, o Mutano por exemplo. Não tomei banho, apesar de detestar me deitar sujo, porque detesto mais ainda a água e o sabão batendo nas feridas. Só coloquei meu calção de dormir e peguei meu celular. Tinha mensagem dela, “quando chegar, me avisa”, fiz questão de avisar que havia chegado bem e agradeci o cuidado, ela perguntou se eu queria ir buscar minha bike amanhã, concordei, ela disse que seria legal pra a gente conversar com calma e disse que precisava adiantar o que ela atrasou cuidando de mim, desejei um bom fim de dia e liguei a TV.
Maratonei The Big Bang Theory até começar a cochilar, desliguei a tv e fiz minha prece, tendo certeza que por pior que aquele dia tenha sido, ele foi ótimo e eu veria a meio sereia meio medusa em breve e sem passar vergonha, eu espero.
Show
Hoje é quarta e eu gostaria de dizer que tô feliz e dormi bem, mas tive pesadelos a noite toda. Aparentemente os sonhos de aparecer pelado em lugares inadequados ganham nova roupagem, é um nude vergonhoso pra cada medo que a gente sente. A princípio eu tava me sentindo um galã de novela a caminho do show e todas as garotas me olhavam admiradas, só que, à medida que eu andava, suas feições ficavam mais sérias até o ponto em que cheguei ao local do show e Bárbara disse no microfone “Por que você tá pelado?”. Nesse momento, olhei pra baixo e vi que realmente estava, em seguida olhei pro caminho que fiz até o show e todas as minhas roupas estavam nele e assim que senti vergonha e começaram a rir de mim, graças a Deus, acordei.
Soulstripper é minha banda favorita. Três caras compondo sobre garotas e todos os problemas que vêm com elas (esse é o nome do primeiro álbum, inclusive) e um Raj (aquele indiano de The Big Bang Theory) assinando embaixo como se tivesse vivido cada história. Achei que seria uma boa ideia ouvi-la enquanto me arrumo e tomo coragem pra fazer o que, possivelmente, vai ser a maior merda da minha vida. Abri meu guarda-roupa e esperei aquele negócio da roupa perfeita começar a brilhar e flutuar na minha direção, mas a realidade é que não tenho camisas legais e por serem todas entre cinza e preto a impressão que dá é que não tomo banho e tô sempre com a mesma roupa.
Acabei vestindo uma camisa da casa Stark, Game of Thrones deve agradar todo mundo. Na hora que me vi pronto em frente ao espelho começou a tocar “o conto do nerd e seu coração partido”, seria um sinal? De qualquer forma, desliguei o som e saí mesmo parecendo que ia desmaiar a cada passo que eu dava em direção à parada de ônibus. Eram 16:45 e eu esperava Felipe, um dos meus poucos amigos e o único que tem carro. Dá pra dizer que ele é minha versão melhorada – ou que eu sou uma versão piorada dele. Tava tão perdido pensando e olhando pro chão que realmente me assustei quando ele buzinou na minha frente.
– Tá cada vez pior hein, fio?
– Tô é nervoso, isso vai dar merda, eu quero voltar pra casa. Me deixa em casa.
– Não gastei gasolina, que tá R$4,00 o litro, pra chegar aqui e te deixar na tua casa que é na outra rua. A gente vai pra esse show e se der merda eu vou rir, mas depois vou sofrer junto. Juro.
– Mermão, isso vai dar merda. Tô sentindo um negócio na barriga, que agonia da porra.
– No shopping tem banheiro e papel higiênico, se a gente deixasse de fazer as cosias toda vez que tu sentisse essa gravidez de ET a gente não ia nem na esquina.
Assim que entendi que não adiantava lutar pra voltar à minha casa (e não sair nunca mais de lá), calei minha boca e fiquei olhando todo o caminho pela janela. Antes de me concentrar no problema que estava prestes a entrar no meu livro de vergonhas, percebi que no som do carro tocava 1Kilo. Felipe só escuta músicas da moda, deve ser por isso que faz sucesso com as garotas, enquanto eu só escuto o que quase ninguém conhece ou gosta.
Depois de sofrer um pouco com isso, me lembrei que ele tava dirigindo não só o carro como também a mim, em direção da minha morte. Olhei pra ele, que estava cantando a música que estava tocando no som, e fiquei puto. Que tipo de amigo deixa o outro ser empurrado de um penhasco tão alto que nem dá pra saber o que tem lá embaixo? Ele mesmo, Felipe.
Voltei meus olhos para a janela e avaliei as possibilidades, porque a morte é inevitável até quando não é literal e, se tratando de mim, nesse caso tinha grandes chances de ser literal sim. Queria ligar pra Joana, queria beber a maior jarra de vinho Carreteiro à medida que ingeria uma salada de remédios tarja preta deitado no colo dela, queria simplesmente ir pra casa e me esconder em jogos online como faço há anos. Por que caralhos não posso fazer nada disso? Cadê o livre arbítrio? Eu não posso me matar, mas as circunstâncias podem, é isso?
Quando dei por mim, estávamos passando do Espaço Ciência. Me deu um negócio ruim no estômago, eu queria vomitar e não tinha ânsia, tava com dor de barriga mas não queria ir no banheiro, suava horrores e sentia minha garganta secar cada vez mais. Queria ter desmaiado, mas a vida não seria boa comigo a ponto de dar um motivo sério pra Felipe não me levar pra aquele shopping que tinha acabado de se tornar meu purgatório.
Ele estacionou e a situação mudou de purgatório pra inferno. Desci do carro e andei até a nova praça de alimentação sem falar nada. Felipe tentava me acalmar, me distrair, mas eu sentia tanta raiva por ele ter me levado lá que nem conseguia absorver nada do que ele falava. A cada passo que eu dava em direção ao local do show, sentia estar queimando por dentro e meus pulmões apertavam cada vez mais. Aquele não seria um jeito legal de morrer.
Fomos chegando perto e a música ficava mais audível, era a música que o amigo gay cantava no ensaio do casamento em O Casamento do meu Melhor Amigo. Filme nada másculo, eu sei, mas é o favorito da minha mãe. Devo confessar que aquela versão era melhor que a de Aretha Franklin. Chegamos e procuramos um lugar pra sentar no fundo da praça, ainda não tava cheia então foi relativamente fácil. Eu continuava mudo, mas agora porque estava tímido até pra falar com o meu melhor amigo.
Finalmente observei a banda. Eram dois caras e três garotas. Bárbara era baixista, a baterista era loira dos cabelos cacheados, o guitarrista tinha os cabelos encaracolados e escuros, no vocal era a menina bronzeada com o cabelo preto na altura dos ombros e o outro cara era alto e usava óculos, estava na administração de um notebook e do teclado. Se eu não soubesse que todos fazem parte da mesma banda, jamais os imaginaria fazendo alguma coisa juntos, são muito diferentes entre si.
De Aretha, foram pra Bee Gees. Mais uma vez, fazendo uma música antiga parecer ter sido lançada ontem. Poxa, eles eram muito bons, mais do que eu jamais seria em qualquer coisa nessa vida e isso me fazia querer mais ainda correr pra casa ao mesmo tempo que me paralisava ali. Bárbara estava com o cabelo preso, inclusive sua franja, tocava sorrindo despreocupada, de olhos fechados e cantarolando em muitos momentos. Ela era o Transformer mais foda, enquanto eu era aquele caminhãozinho que vem com bois coloridos.
Eles começaram a tocar Belchior e mais um casal se levantou pra dançar no meio da praça, dessa vez eles eram adolescentes. Eram, no total, três casais se balançando como coqueiros em dias de brisa tranquila na praia e aquela voz encantadora junto com um arranjo ainda mais gostoso que o original.
– Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo!
– Essa tu usa pra pegar coroa? – primeira frase desde o carro, nada amistosa
– Algumas coisas eu escuto porque gosto. Belchior tá nessa lista. Qual delas é Bárbara?
– A do baixo.
– Ela parece ter saído de Steven Universo ou algo assim.
– Ou Jovens Titãs... Ela toca baixo como quem toca harpa, nem parece que é pesado.
– Seria pesado pra você, que nunca quis aprender a tocar nada. Pra ela, que visivelmente ama o que faz, não pesa. Achei que tanto tempo de terapia tivesse te feito enxergar que as coisas não têm o mesmo peso pra todos.
– Eu sou o Charlie Brown e você é Lucy, Márcia e Patty Pimentinha em uma pessoa só.
– Mas você não acha que não há tempo para o amor, Charlie Brown?
– Boa referência, mas eu só consigo pensar que seria melhor eu não ter saído de casa. Na verdade, acho que ainda dá tempo de voltar, possivelmente ela nem nos viu e mesmo que tenha visto, não sabe nada além do meu primeiro nome.
Cada música tocava me deixava mais extasiado e nervoso. A sensação de o show estar mais perto do fim me deixava em pânico porque eu falaria com ela de novo e, possivelmente, não teria a mesma sorte e desenvoltura que da outra vez. Pensei em inventar dor de barriga pra sair dali com Felipe, mas ele me conhece e saberia de cara que era mentira. Suspirei desanimado e tentei curtir o show. Quando acabou, percebi que cantei todas as músicas e até não me sentia tão mal. A essa altura do campeonato, já tinha aceitado minha morte.
A praça foi se esvaziando e algumas pessoas passavam pelo palco pra elogiar a apresentação, enquanto eu nem conseguia me levantar da cadeira. Comecei mexer as pernas cada vez mais rápido, minhas mãos suavam e eu tava de novo com a sensação estranha na barriga, até que Bárbara me viu. Sorrindo, acenou pra que fôssemos ao seu encontro.
– Merda! Já era difícil falar com uma pessoa, agora vou ter que falar com cinco?
– Tu não tá sozinho, cara. Eu tô aqui.
– Isso deixou de servir de consolo no momento que eu quis voltar pra casa e tu não me levou.
– Vai por mim, foi o melhor que eu podia fazer por tu. Um dia tu vai me agradecer por isso.
– Se eu fosse tu, esperava esse dia deitado no caixão.
Sem o baixo e centenas de pessoas atrapalhando minha visão, vi que Bárbara estava de All Star vermelho, short jeans e uma camiseta do Titio Avô. Que alívio, achei que só eu assistia esse desenho.
– Oi, estranho! – ela disse, com um sorriso amistoso.
– Closer?
– Sim, e isso te torna oficialmente estranho. – que risada bonita, caramba!
– Esse é Felipe. Felipe, essa é a Bárbara.
– Parabéns pelo talento, tu e teus amigos juntaram uma galera da porra aqui. – engraçado como Felipe flerta até sem estar flertando...
– Obrigada, Felipe. Deixa eu apresentar vocês ao resto da banda. – TORTURA MEDIEVAL À VISTA!
Ela chamou os amigos pra perto e todos sorriram e apertaram nossas mãos.
– Amanda, a baterista. Júlio, o guitarrista. Pedro, nos teclados e tecnologias. E, por fim, nossa voz, Marina.
Com toda certeza os antepassados de Marina são sereias. Ela é estonteante. Como eu não percebi isso durante o show? As definições de muita areia pro meu caminhão foram atualizadas e oficializadas. Eles conversaram sobre como foi o show, como é ter uma banda, como se conheceram e eu só conseguia ficar mais constrangido cada vez que ela me olhava. Não consegui falar nada além da despedida e do meu número, que dei pra Bárbara. Fui pra casa morrendo afogado que nem meu caminhão morrerá no dia que tanta areia quiser caber nele.
Terapia
Depois de uma segunda-feira mais emocionante do que eu poderia esperar no Shopping Tacaruna e uma noite de ansiedade que mal me permitiu dormir, chegou o dia de caminhar pela infinita Rua da Hora em busca do consultório de Joana. Faz três meses que vou lá toda semana e ainda consigo me perder no caminho, será que deveria dizer isso a ela? Pois é, meses de terapia e nem sei o que devo dizer à minha psicóloga, mas já é um grande avanço ela ser uma mulher.
Bárbara não é ruiva, mas a música A Ruiva, de Soulstripper, toca na minha mente toda vez que me lembro dela, ou seja: o tempo todo. Talvez Joana goste de saber que fiz contato com uma mulher que não é ela, minha mãe ou namorada de algum amigo meu. Assino a ata confirmando que não desisti de vir às sessões e em poucos minutos ela me chama.
– Cheguei a achar que você não viria.
– Por que, tô atrasado? Desculpa, essa rua é tão grande e tudo é tão parecido e – ela me interrompeu, como sempre faz quando fico nervoso tentando justificar o que eu nem sei se tem justificativa.
– Calma, só achei mesmo, você tá no horário. E então, temos alguma novidade?
– Sim, mas antes, aproveitando minha primeira resposta nervosa com medo de atraso, continuo me perdendo a caminho daqui.
– São três meses sem ter faltado nenhuma sessão, no mesmo lugar. Talvez devêssemos trabalhar essa sua distração. Bom, antes quero saber da novidade.
– Segui uma menina no shopping ontem.
– Antes de eu te perguntar como você passou de ansioso pra stalker, te aconselho a se deitar. Pelo o que te conheço, vai passar a sessão olhando pela janela por estar tenso ao falar sobre uma garota.
Joana era sempre muito objetiva e observadora. Nas primeiras sessões eu achava que ela queria me matar com esses olhos castanhos de profundidade não desbravada. No começo ela me intimidava, parecia uma grande general que sabia todos os meus pecados, mas queria que eu os listasse. Depois, vi seus vinte e sete anos brilharem em sorrisos; me sinto no melhor lugar do mundo durante as sessões. Como sei que ela sempre tem razão, me deitei despreocupado no seu sofá turquesa.
– Continuo sendo um ansioso.
– Você precisou de algum apoio pra tomar essa atitude?
– Rivotril.
– Antes do remédio, como se sentia?
– Pernas tremendo, mãos suando, respiração ofegante e pensamentos desordenados.
– Você acha que garotas ainda são um problema?
– Passei de álcool pra remédio controlado, a resposta deve ser sim.
– Me conte a história.
Contei a ela detalhadamente os momentos de tensão que vivi antes de descobrir que a menina se chama Bárbara e toca em uma banda. Olhando-a de rabo de olho, vi algumas de suas expressões. Passou de chocada para, aparentemente, encantada. Então somos dois embasbacados com minha atitude.
– Eu ficaria mais feliz se você não tivesse precisado do remédio, mas me diga, como você se sentiu após esse encontro?
– Ainda não consegui absorver. É tão estranho e nada a ver comigo ir atrás de alguém, ainda mais sendo uma garota que nem conhecia. Há uns meses eu precisava de uma lata de Skol pra conseguir perguntar que horas eram e ontem eu... Ainda não entendi o que aconteceu.
– Às vezes coisas acontecem pra que nós consigamos abertura pra viver momentos melhores. Você vai ao show?
– Não sei se aquilo foi um convite.
– Ela apenas avisou que o show da banda dela acontece amanhã. Agora só você pode fazer questão da tua presença lá.
– Eu vou?
– Lembre-se: muito pior do que enfrentar é deixar de viver. Só Deus sabe porque essa menina apareceu, você a seguiu, ela não fugiu e ainda te apareceu esse show pra ir. Não se dê o direito de perder essa oportunidade.
– Obrigado, Jô. Até semana que vem.
Saí daquele consultório me sentindo Shrek no seu curto período como humano. Sei que no outro dia voltaria a me sentir um ogro e isso afetaria minha decisão de ir ao show, mas Joana tem razão, ela sempre tem. O pior teria acontecido ontem quando ela soube que a segui, a não ser que ela seja daquelas que se faz de boazinha e espalha pras amigas os piores momentos do cara. Talvez ela seja e só me queira fazer passar vergonha amanhã. Que merda, por que as piores possibilidades sempre parecem ser as mais prováveis de acontecer?
Ansiedade
Ela estava olhando atentamente para as prateleiras enquanto passeava pelos corredores da livraria Imperatriz, sei disso porque ela passou por mim duas vezes (eu estava lendo Fernando Pessoa, sentado no chão). Já que chamou minha atenção, tratei de me levantar para observá-la.
Era alta, não tanto quanto eu, usava óculos e aquele penteado que contém franja e o cabelo jogado pro lado, que por sinal era tingido por luzes vermelhas encantadoramente flamejantes. Fiquei extasiado. Ela era a melhor música de Magic em forma de mulher.
Visto que não encontrou aquilo que procurava, saiu da livraria sem nem olhar pra trás (graças a Deus, pois eu estava parecendo um stalker, encarando-a). Sentei-me novamente e tentei retomar a leitura, mas trocava as palavras por adjetivos relacionados a ela, como se a conhecesse.
Larguei o livro ali mesmo e saí às pressas da livraria. Não sabia exatamente onde deveria procura-la, mas corri pra a outra livraria do shopping. Esbarrei em todos os lixeiros que haviam no caminho, sem nem saber o porquê de estar correndo pra rever alguém que não conheço. Sei lá, talvez porque ela tivesse aquelas sardas no rosto ou porque ela cantava Phill Veras sem perceber que não estava apenas mexendo a boca.
Cheguei na Leitura e procurei-a discretamente, ou ao menos tentei ser discreto. Aparentemente, ela achou o que queria, pois quando a encontrei estava com dois livros na mão e procurava uma camiseta do seu tamanho. Usei a prateleira de CDs como meu escudo pra ter uma desculpa por estar tão perto.
Olhando pra ela, pensei “Eu não quase tive uma crise de asma pra ficar admirando sem falar nada...”, mas cada vez que tentava dar um passo em sua direção a ansiedade me fazia ficar mais fixo no lugar. Procurei apoio nos meus bolsos e achei rivotril. Bom, cada doido com sua tarja preta, não é mesmo? Tomei o remédio, contei de dez a um, pensei em formas de não parecer um assediador e quando cheguei no zero, fui até ela.
– Seu gosto por vermelho vem dos filmes de Tarantino? – ela se virou com uma cara de “por que esse cara tá falando comigo?” e riu logo em seguida
– Não manjo de diretores, só sei que Pulp Fiction é dele porque achei essa camiseta legal e resolvi pesquisar que danado era. – respondeu, me olhando fixamente
– Achou o que tava procurando? Te vi na Imperatriz... – péssima resposta? Talvez.
– Por que você tá me seguindo? – é, foi uma péssima resposta.
– Gostei do seu cabelo, me lembra fogueiras e eu gosto do São João.
– Quem me dera ter como voltar no tempo pra tu mudar essa resposta. – ela me lembrou porquê passei anos não falando com mulheres enquanto estava sóbrio.
– Gosto de sardas, cabelos coloridos e gente que não cansa de procurar até que ache. – eu disse sem muita confiança, mas era a maior verdade que eu já contei pruma garota.
– Acho que tás falando a verdade, então não vou te chamar de stalker, prefiro chamar pelo nome que não sei qual é.
– Manoel. O teu é..?
– Bárbara. Não saia por aí seguindo garotas. – mal sabe ela que tô tranquilo por fora à base de remédio e por dentro eu nem teria saído de casa.
– Juntando o nome com o cabelo daria uma música de Soulstripper. –possivelmente ela nem sabe que banda é essa.
– Sei que banda é essa não – bingo! – mas preciso ir agora.
– Foi um prazer.
– Minha banda vai tocar aqui na quarta, tchau stalker.
Ela foi embora e eu me perguntei se entrei em alguma espécie de portal que me fez um cara confiante o suficiente pra ir atrás de uma garota e bonito o bastante pra ela não sair correndo, além de me chamar pro show da banda dela.