Após longas horas de vôo o avião inclinava para pousar. Distraíra-se de diversas maneiras: Livros, música, um filme que passava na televisão à sua frente. O homem que vinha ao seu lado não parava de dar olhadelas furtivas para o seu decote, ela ignorou. Mas finalmente chegara. A cidade dos sonhos. Incrível, havia fantasiado aquele momento por tanto tempo, e agora não havia nem um furor de excitação em si. Há alguns meses atrás, chegaria querendo ver tudo, querendo conhecer e explorar. Agora só queria pegar um taxi, ir direto para Oxford, instalar-se em seu quarto e ficar sossegada esperando que o segundo semestre começasse e ela pudesse, mesmo que atrasada, começar suas aulas. Ao descer do avião percebeu que chovia fortemente. Não estava preparada para isso. Ao deixar o seu país o sol era forte. Claro, como não havia pensado nisso. Quando no Brasil era verão, em Londres era inverno, e todas as suas roupas de frio e guarda-chuva encontravam-se na mala lacrada. Ignorando o frio que sentia, saiu do aeroporto e foi esperar um taxi. Vinha para Londres para ficar com os padrinhos, seus únicos tutores legais após a morte de seus pais em um acidente de carro, pouco mais de um mês antes, mas passaria seus dias de fato na faculdade e provavelmente só veria os padrinhos nos fins de semana. “Good Morning” ouviu uma voz de homem, carregada de sotaque britânico, fria e elegante. Virou-se para olhá-lo. Era jovem, loiro e belo. Contrastando com a voz, os olhos azuis pareciam tomados de calor. O reconheceu do avião, estivera sentado algumas poltronas atrás dela e também carregava uma mala, menor que a dela. Em um ato de cavalheirismo, foi para o lado da garota, de modo que o guarda-chuva também a protegesse e ela agradeceu, sorrindo para o estranho. Não falaram mais nada até a chegada do taxi, que ela sugeriu que eles dividissem e, em alguns instantes, descobriram que o seu destino era o mesmo. À altura que chegaram à Oxford, as palavras jorravam sem parar de suas bocas, e a chuva já se abrandara em um pequeno chuvisco, de modo que, ao invés de irem para os seus quartos, pagaram o taxi, encostaram as malas e começaram a andar pelo campus, ainda vazio por conta das férias de inverno, na qual os alunos provavelmente iriam passar o natal com suas famílias. Conversaram por mais de uma hora e ela descobriu que ele era órfão desde os três anos e mal se lembrava dos pais. Morara com os avós até ir para a faculdade e estava no Brasil visitando amigos, embora o seu português fosse um fiasco. Em tão pouco tempo, criaram uma afinidade como nunca haviam criado com pessoas que conheciam há anos. Realmente haviam gostado da companhia um do outro, e nem sequer perceberam quando a chuva voltou a se intensificar, continuaram andando, absortos em sua conversa.
Sorriu para ele e, assim, tomaram caminhos diferentes, mal sabendo que estariam na vida um do outro por muito, muito tempo. E a garota que havia deixado no Brasil uma realidade terrível, agora estava prestes a encarar o melhor momento de sua vida. Por que não há, não há lugar como Londres.