Boa Fúria eletrónica de Manuel e Bicho Carpinteiro com surpreendente “tradição aumentada” - Sonoridades 2024 (1ª parte) | Reportagem Completa
Bicho Carpinteiro, a maior surpresa do evento // © Foto de Neia Gomes A Câmara Municipal de Santo Tirso em parceria com a produtora 1Bigo realizaram mais uma edição do Sonoridades, neste ano aconteceu a sétima edição. Tal como nas edições anteriores os concertos realizaram-se no Centro Cultural Municipal de Vila das Aves.
A programação iniciou-se com a pop-eletrónica de Manuel Fúria & Os Perdedores na última quinta-feira, 2 de maio.
Na sexta-feira, 3 de maio, atuou o duo Bicho Carpinteiro e tiveram a companhia de alguns elementos do Grupo Etnográfico de Vila das Aves.
Já no sábado, 4 de maio, foi a vez do brasileiro Luca Argel. Este ano coube a Rita Vian, no domingo 5 de maio, a performance de encerramento deste evento.
Pela primeira vez marquei presença em todos os concertos. Em 2023 assisti a dois concertos: de O Gajo e André Henriques cuja reportagem pode ser lida aqui. Na sequência de ter sido uma experiência muito positiva, foram dois belíssimos concertos, decidi repetir a ida ao acolhedor Centro Cultural Municipal de Vila das Aves e replicar a experiência por quatro.
Dia 1 - Manuel Fúria & Os Perdedores
Manuel Fúria & Os Perdedores foi o projeto que se apresentou na primeira jornada e foi, para mim, uma estreia completa. Para uma quinta-feira à noite, numa vila bastante sossegada, ter a sala bem composta foi um bom prenúncio. A tal não será alheio o facto de Manuel Fúria, lisboeta de nascença, ter crescido e estudado em Santo Tirso nomeadamente no Instituto Nun'Alvres.
Manuel Fúria não é um nome desconhecido do panorama musical português: fez parte da banda Os Golpes entre 2008 e 2011, mais tarde iniciou a sua aventura a solo com o projeto Manuel Fúria & Os Náufragos.
Ambiente denso em palco // © Foto do Município de Santo Tirso Esteve quatro anos afastado das lides públicas reapareceu, em 2022, com esta sua nova empreitada intitulada de Manuel Fúria & Os Perdedores tendo em vista a finalidade “de fazer música de dança pura e dura”, como o próprio assim o explicou. Por isso não foi de achar extraordinário um interlúdio pré-entrada com sons de “Da Funk”, tema conhecido dos míticos Daft Punk.
Entrada essa que ocorreu às 22:10h por entre um acentuado fumo no qual Manuel fez-se acompanhar por um músico que se ocupou das teclas, da bateria eletrónica e dos samples. Entre o jogo de luzes bem vivas e cintilantes em ritmo apressado e o referido fumo nem deu para notar a cara dos artistas, em destaque somente as suas silhuetas. Só mesmo mais para a parte final é que deu para reparar na t-shirt que vestia aludindo "Os Perdedores".
Músico de apoio de Manuel Fúria // © Foto do Município de Santo Tirso Editado em 2022 “Os Perdedores” foi o trabalho discográfico saliente neste concerto. Um universo dançante entre synth-pop e o eletro-pop com um intenso travo retro(cedendo) às décadas 80 e 90 com letras cantadas em português. Fúria revelou que muitas destes temas foram inspiradas pelos caminhos do "profícuo concelho de Santo Tirso". Uma zona que bem conhece e curiosamente disse também ser estranho para ele atuar perante caras familiares sobre situações que o artista viveu nesta região nortenha.
Deste trabalho discográfico tocou, por exemplo, “Catedral de Notre Dame”, “Católico Menino Manco” ou “Blandina de Lyon”, entre outras. Efetivamente foi o foco central da atuação.
Manuel Fúria em versão duo // © Foto do Município de Santo Tirso Os primeiros pezinhos de dança de Manuel surgiram em “Interlúdio”, ele que fez questão de afirmar: "Não vim para falar, vim para pôr a música a tocar".
Em “O Novo Normal”, a última antes do encore, o público colaborou e entoou o refrão “Eu tenho de me esvaziar” de maneira bastante afinada para agrado do artista. No bis Manuel recuou a 2017 e ao álbum ‘Viva Fúria’ tendo interpretado “Canção Infinita” para satisfação de alguns membros do público que a requisitaram.
A atuação decorreu perante um público atento e sentado confortavelmente, sem grandes manifestações, excetuando umas salvas de palmas aqui e acolá nomeadamente na transição dos temas.
Manuel Fúria e a sua expressividade // © Foto do Município de Santo Tirso Pela primeira vez assisti a um concerto deste músico e não saí desiludido. Manuel Fúria tem uma abordagem refrescante indo buscar elementos do universo eletrónico criando, à sua própria maneira “tuga”, algo divergente do que existe no mercado com o seu particular cunho e timbre vocal.
Dia 2 - Bicho Carpinteiro
Rui Rodrigues (viola beiroa, cavaquinho, bombo tradicional, sintetizador e voz) e Diogo Esparteiro (viola toeira, cavaquinho, bombo tradicional e voz) são o duo que compõe o projeto Bicho Carpinteiro.
Músicos já com imensa tarimba, Rui fez parte dos Donna Maria e Dazkarieh por exemplo. Já Diogo tem a vida musical marcada por projetos como Royal Bermuda ou Pás de Problème.
Diogo Esparteiro // © Foto de Neia Gomes Nesta incursão nortenha à Vila das Aves foram apoiados por Tom Neiva na percussão.
Mal cheguei à sala de espetáculos deparei-me com muitas pessoas em modo de espera no hall de entrada, sobretudo gente de faixas etárias mais elevadas. A tal não achei incomum pois o Grupo Etnográfico de Vila das Aves teria uma participação no concerto desta sexta-feira, 03 de maio. A sala ficou muito bem composta porém não teve todos os lugares ocupados.
Fui o primeiro a fazer a entrada dentro do auditório e mal tomei o meu lugar, central dentro das primeiras filas, deparei-me com um imenso layout em palco bastante recheado de instrumentos. Instrumentos tradicionais (de corda e percussão como bombos) cruzam-se com um sintetizador e um portátil que fez de “caixinha mágica” ajudando à introdução de sons samplados. Tal fez subir a minha expetativa e logo aí antevi uma noite bem especial e diferenciada.
Tom Neiva na percussão // © Foto de Neia Gomes O trio de músicos entrou pelas 22:11h por entre as palmas iniciais do público. Deu para notar que seria um concerto com direito a projeções vídeo, infelizmente muitas dessas produções audiovisuais passaram um bocado despercebidas devido ao jogo de luzes encobrirem a tela. Este projeto Bicho Carpinteiro é recente, o álbum homónimo de estreia foi editado muito recentemente, em novembro de 2023. Os temas deste trabalho discográfico que têm vindo a exibir ao vivo nos últimos meses um pouco por todo o país.
"Bruma" é a faixa de abertura deste disco e foi igualmente escolhida para início desta atuação. Logo aí deu para sentir ligeiramente a boa vibração que o resto da noite iria ter, mesmo um “bom feeling”, expressão a fazer lembrar a canção da malograda Sara Tavares falecida na reta final de 2023.
“Aioioai” aparece à terceira interpretação sendo a primeira com vozes. Este foi o tema que elencou oficialmente o projeto tendo sido o single de debute. Em “Beco das Flores” já o público participava ativamente com palmas bem ritmadas.
Rui Rodrigues tomou conta das honras das partilhas com o público tendo revelado que o som deste projeto é "música tradicional portuguesa com eletrónica" onde existe uma clara “inspiração tradicional” resultando numa “tradição aumentada” na qual agregam a modernidade com o antigo.
Rui Rodrigues // © Foto de Neia Gomes Às sonoridades típicas que os diversos instrumentos de cordas e percussão (como bombos) proporcionam oferecem ainda uma camada extra pelo generoso contributo de sons digitais emanados dos sintetizadores, beats e vocalizações pré-gravadas. Uma fusão bem proporcionada entre passado tradicional e modernidade eletrónica. As vozes da dupla são a cereja no topo do bolo.
“Os Lobos” de Rino Lupo é um filme mudo já com mais de 100 anos foi musicado pelos Bicho Carpinteiro e um dos temas foi interpretado enquanto passavam imagens dessa película. Este foi o primeiro momento diferenciado da noite. O seguinte foi a participação especial de 8 elementos do Grupo Etnográfico de Vila das Aves, coletividade que conta com cerca de 50 elementos no total. Estes músicos “juntaram-se à festa” e colaboraram em três temas, em "Ventos da Arada" e na interpretação de duas canções tradicionais. Eles que ensaiaram presencialmente uns tempos antes e como é da praxe nortenha foram tratados de modo superlativo. Já a química foi fácil e Rui acabou por confessar que nem foi necessário um empenho enorme.
Bicho Carpinteiro com os elementos Grupo Etnográfico de Vila das Aves // © Foto de Neia Gomes O tema que deu origem aos Bicho Carpinteiro, não está editado, chama-se “Solidão” e foi tocado. Por esta altura, a generosa e positiva vibe sentida entre o palco e o público, a constatação da boa disposição de Rui, Diogo e Tom eram fatores reveladores da agradável noite que todos estavam a usufruir.
Com "Violas Temperadas" e "Larai Larai" já estávamos na fase mais mexida deste set no qual a banda deixou o público à vontade caso quisesse sair do lugar e bailar. A banda nem saiu de palco pois o encore foi solicitado imediatamente pelo público e acedido graciosamente de imediato. “Aioioai” foi novamente entoado para um bonito final pelas 23:26h.
Este meu baile de estreia com os Bicho Carpinteiro efetivamente revelou-se uma surpresa graciosa, a qual acolhi de bom grado. Certamente irei repetir a experiência com uma expetativa superior.
Este texto contempla com as experiências nos concertos de 2 e 3 de maio, respetivamente de Manuel Fúria e Bicho Carpinteiro, sendo a 1ª parte no contexto do ‘Sonoridades’ 2024. A 2ª parte que contempla a visão sobre dos concertos dos dias 4 e 5 de maio, respetivamente de Luca Argel e Rita Vian pode ser consultado aqui.
Panorama do auditório // © Foto de Neia Gomes Texto: Edgar Silva Fotografia: As de Manuel Fúria: Município de Santo Tirso As de Bicho Carpinteiro: Neia Gomes - @neia_art









