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Observei a imensidão da cidade. O que seria feito daquilo tudo...? Não era possível que depois de uma história cheia de guerras, pestes, invenções, a raça humana terminasse num abandono completo. Era ridículo. Esperei. Nada. Voltei a pensar na possibilidade de estar morto. Antes de virar pó, percorria espaços guardados na memória. A cidade. Os animais. Não. Não era possível. Eu nunca tinha ido ao Aeroporto de Cumbica. Eu o via claramente, não poderia estar imaginando, muito menos estar morto. Não. Ter entrado numa outra dimensão do tempo também não era possível. Os animais se mexiam normalmente. Se por acaso eles estivessem também paralisados, seria uma hipótese forte: o meu tempo, o de Mário e o de Martina estaria superacelerado, dando a impressão de tudo parado. Mas não. Os animais, a poeira, os relógios, contestavam esta teoria. Então, que merda estava acontecendo?! Uma meia dúzia de cachorros andando juntos atravessaram a pista lentamente. Estavam calmos e despreocupados. O último deles era um filhote, que pulava, brincava com os outros, parava e corria para alcançá-los. Eles não sabiam o que estava acontecendo. Fiquei com inveja deles. Encontrei Martina deitada no sofá, com um livro na mão.
- Por onde você andou?
- Por aí. Examinando a cidade. Está abandonada, vazia...
- Seu amigo ainda não apareceu - disse irritada.
- Daqui a pouco ele aparece. Ele precisa disso: ficar sozinho.
Era verdade; eu conhecia Mário como ninguém.
- E, mas a gente tem de ficar junto!
Ela estava mesmo irritada. Me sentei na sua frente, estiquei as pernas sobre a mesa e relaxei. Pausa.
- Você ouviu algum avião a jato sobrevoar a cidade hoje? - perguntei.
- Não - respondeu sem tirar os olhos do livro.
Será que imaginei aquilo? Suspirei de cansaço; muito cansaço. Martina parecia atenta ao livro, ou pelo menos fingia muito bem. Pausa. Ela não estava muito a fim de papo. Mesmo assim, perguntei honestamente:
- Você acha que morremos?
Percebi que o dia estava rendendo mais. O tempo demorava para passar e, pior, não tinha muito o que fazer. A vista da janela parecia uma pintura: estática. Fui dar uma volta. Passou a ventar umidamente. Em seguida, pingos grossos começaram a batucar no cape. Chuva. O ritmo mecânico dos limpadores de párabrisa me mantinham atento. Eu gostava de chuva principalmente quando estava dentro de um carro. Dirigia com cuidado para não ser surpreendido por carros largados no meio da rua. Parei em frente ao edifício do Nariz, um traficante que fazia ponto no cursinho da Bela Vista. A chuva aumentou escondendo o enorme prédio com formato de um “S“, um agitado cortiço. Não tinha nada para fazer. Peguei o machado, abri a porta e corri até o hall me desviando dos pingos. Não cheguei a me molhar muito. Olhei ao redor; não havia ninguém. Um forte cheiro de mijo por toda parte. As paredes estavam descascadas, pichadas com vários palavrões. O lixo, amontoado no chão. Um agitado e sujo cortiço. Caminhei até o elevador chutando uma sandália perdida. Era um vício: chutar coisas perdidas no chão. Subi até o décimo andar e procurei o apartamento do Nariz entre dezenas de portas. Não me lembrava do número, mas não seria difícil, já que a maioria dos seus fregueses deixava recados escritos em código no batente da porta. Nariz era batuqueiro da Vai-Vai, escola de samba vizinha ao cursinho. Ficamos amigos por causa do seu ofício. Era um bom profissional, diferente dos outros mal-humorados traficantes da região, que trabalhavam sempre apressados e nervosos, como se houvesse um policial escondido em nossos bolsos. Nariz servia a sua clientela diferentes tipos de maconha e deixava experimentar sem nenhuma pressa. O estranho era que ele próprio não sabia avaliar a qualidade da mercadoria. Se eu dissesse que era bom, ele me segurava nos braços e dizia orgulhoso:
- Você sabe, Alemão, que só trabalho com coisa boa.
Mas se eu dissesse que era ruim, ele concordava. Se desculpando, afirmava que havia uma tremenda crise no mercado. Engraçado é que eu também não sabia avaliar se era bom ou não. Era inexperiente. No entanto, sempre chutava: um dia dizia que era bom, outro, que era ruim. E tudo bem. “Alemão“ era como ele chamava os que não eram negros. Uma vez fomos fumar no estacionamento. No meio do baseado, pintou não sei de onde um Tático Móvel. Engoli aquele cigarro aceso. Eles desceram do carro de arma na mão.
- Mão na cabeça, os dois! Quietinhos...
Sentiram o cheiro, examinaram nossos olhos, mas não encontraram nada.
Onde é que está o bagulho? - perguntou um deles rindo.
Não sabíamos de nada, já ouvimos falar de maconha, tá bom, já fumamos, uma vez, não, não conhecíamos nenhum traficante, éramos estudantes do cursinho, estávamos ali passeando, temos família, sim senhor, não, não somos vagabundos, não senhor. Documento, claro, documento. Nome, pai, mãe, RG, data de nascimento, sim senhor, não senhor... Ficamos um bom tempo naquela situação. Eu cagava de medo. Nariz era rude com os caras, falando no mesmo tom, declamando alguns chavões de Direito. Um deles não se conformava. Queria dar um pau na gente ali mesmo. O filho da puta me dava chutes na canela. Doía demais. Era um covarde, filho da puta. O que parecia ser de patente mais alta era o mais calmo e objetivo. Sabia que não tinha provas contra nós. Fez um longo discurso moralista; pedindo para não nos envolvermos com traficantes ou drogas, que deveríamos estudar para o bem do Brasil. Nos ameaçou caso nos encontrasse mais uma vez naquele ponto. Finalmente foram embora, depois de o inconformado me dar um último pontapé na canela. Filho da puta!
- A partir de hoje, você é meu sócio - declarou Nariz apertando a minha mão.
Sabia que o termo “sócio“ não queria dizer que iríamos repartir os dividendos do seu negócio. Sócio era a categoria que adquiria o direito de filar alguns baseados sem pagar. Era o segundo escalão nesta estranha ligação: consumidor e vendedor. Encontrei a porta do meu “sócio“. Dei uma machadada na madeira e consegui entrar. Fácil. Não havia ninguém dentro do apartamento. A sala tinha uma TV em cores, um jogo de sofá de plástico imitando couro e um enorme poster do Palmeiras na parede. Fui até a cozinha procurar a panela de pressão dentro do forno. Era onde ele guardava a mercadoria (o lugar ideal, pois qualquer problema, era só ligar o forno). Na panela havia de tudo: quase um quilo de maconha, vários pacotinhos de cocaína, uns comprimidos e ampolas. Enfiei tudo dentro de um saco e fui embora. Descendo de elevador, me assustei com um raio que caiu por perto. A luz foi enfraquecendo até apagar. Tudo escuro. Merda! Apertei os botões do painel, mas nada aconteceu. Bosta! Forcei a porta até abri-la. Estava parado entre um andar e outro. Não era meu dia. Com um pulo consegui alcançar a saída de emergência e ficar na parte de fora do elevador. Tudo escuro. Apalpando, senti a porta pesada de um andar qualquer. Enfiei o machado.
- O Mário apareceu? - perguntei entrando.
- Não! - respondeu secamente Martina, sem tirar os olhos do livro. O mesmo livro. Subindo a escada, ouvi quando perguntou:
- Onde é que você esteve?
Numa noite, ficamos com a sensação de que de um momento para o outro a porta se abriria e Mário, com um enorme sorriso, iria nos explicar as razões do que estava acontecendo. Mas nada dele. Martina lia. Vez ou outra eu provocava:
- Vamos jantar fora?
Ela ficava parada, concentrada nas páginas do livro. Tentava enxergar através de seus olhos. O que estava pensando? Eu tinha mania de fazer isso. Imaginar o que os outros estavam pensando. No fundo, no fundo, meu grande sonho era ser telepata. Desses que dão shows na TV. Entraria com uma belíssima assistente loira. Ela vestida com uma roupa transparente, sexy. Eu, de fraque e cartola. Ela circularia pela platéia, escolheria um espectador e perguntaria: “Mestre Rindu, o que esse homem está pensando?“. E eu responderia e acertaria na mosca. Aplausos. Eu me inclinaria e adivinharia outros pensamentos. Este foi meu grande sonho. Para falar a verdade, eu queria mesmo era saber o que os outros pensavam. Eu era tão confuso. Pensava em quinze coisas ao mesmo tempo, embaralhava as idéias e era difícil de tomar decisões. Se eu soubesse o que as pessoas pensavam, eu diria as palavras certas, as palavras que elas queriam ouvir. Um dos meus maiores problemas era que nunca dizia as palavras certas, na hora certa, com a pessoa certa.
Mas isso faz muito tempo.
Marcelo Rubens Paiva – Blecaute
Há alguns meses, a internet descobriu que “Eva” (ou “Minha pequena Eva”, é um mistério), a música mais famosa da Banda Eva que não é especificamente da Banda Eva, mas sim uma canção italiana anteriormente regravada no Brasil em português brasileiro por uma banda de rock - é uma música sobre o fim do mundo. E também é uma música de Carnaval, cuja letra perdeu um pouco desse sentido apocalíptico dentro do ritmo de axé.
Porque o Carnaval está ali virando a esquina e porque amo ficção científica, a minha teoria sobre uma das músicas de Lenine é justamente essa.
“O último pôr do sol” é canção famosa do segundo disco de Lenine, foi tema de filme (Caramuru - A Invenção do Brasil) numa cena muito linda em que a personagem de Camila Pitanga se despede de sua “irmã” Deborah Secco, que não consegue alcançá-la no mar. É minha canção favorita de Lenine e é ficção científica pura.
A meu ver, tem o mesmo contexto de fim do mundo de “Eva”, poderia tranquilamente ser uma continuação dessa. Se em “Eva” o eu lírico avisa que o sol não apareceu e sugere que eles subam numa nave para escapar do fim da odisseia terrestre, em “O último pôr do sol” alguém fica, talvez alguém que ame a Eva que escolheu ir embora com outro cara.
O protagonista de “O último pôr do sol” está sozinho na Terra, assistindo aos edifícios abandonados e as estradas sem ninguém, com a lembrança da lua nascendo pelos fios do cabelo da amada, lembranças do que não viveram, memórias inventadas porque interrompidas.
“No dia em que ocê foi embora eu fiquei / sozinho no mundo sem ter ninguém / o último homem no dia em que o sol morreu”
Marcelo Rubens Paiva tem um livro chamado Blecaute. Se eu fosse cineasta, adaptaria só pra colocar essa música na história de três jovens que um dia voltam de viagem e veem São Paulo literalmente parada, paralisada, as pessoas não se mexem, a cidade é toda deles, um tipo estranho de apocalipse, não como o fim do mundo, mas um novo mundo.
Ou também pode ser só mais uma música sobre a perda, o luto, o fato de se sentir sozinho dentro do luto, a inevitabilidade de reconciliação. Música que toca o meu coração é aquela que supõe as mais diferentes interpretações.
Só que a minha é essa.
Obrigada, Lenine.
Três explosões de média intensidade no Sol hoje causando blecautes moderados de rádio. . Three mid-level flares in the Sun today causing moderate radio blackouts. . Credit: NASA/SDO . #nasa #sun #sol #explosao #flare #blackout #blecaute #apagao #uv #radio #astronomia #astronomy #espaço #space #astrogram #observatoriog1 #sdo #today #hoje
Acidente na T-7 causa pane na energia e deixa 3 feridos
Motorista foi encaminhado para o hospital enquanto autoridades investigam a causa
Um acidente parou a Avenida T-7, no Setor Oeste em Goiânia, causando uma queda de energia em toda a região. Uma equipe de Guincho já chegou ao local para desobstruir a via.
O problema aconteceu por volta das 18:30, quando um carro com 2 mulheres e um homem perdeu o controle e atingiu um poste em frente ao supermercado Tatico. As autoridades estão investigando a causa do acidente, mas acreditam ser por um problema técnico no carro.
Segundo o Comandante do 7° batalhão do corpo de bombeiros do estado de Goiás, o acidente não teve mortes, mas deixou os 3 passageiros feridos. O rapaz foi encaminhado para o hospital em estado grave, enquanto as moças recebem tratamento na ambulância. A queda do poste ocasionou um bloqueio total na avenida, fazendo os motoristas invadirem áreas proibidas para se livrar do caos.
Segundo Luís Henrique, morador em situação de rua, que presenciou o acidente, o carro estava em alta velocidade, por isso perdeu o controle: “Esse carro tava rápido demais, quando eu vi falei: Esse carro vai bater! Quase me atropelou, aí ele estourou o pneu dele e saiu girando em cima da ilha aí até bater no poste”, afirma LH.
Outras testemunhas do local afirmaram que o carro não apresentava defeito aparentes, não entendendo a razão da pancada. As autoridades agora estão investigando a causa do acidente, mas acreditam ser por algum problema técnico no carro.
A polícia militar e o Corpo de Bombeiros estão presentes no local, assim como a Secretaria Municipal de Trânsito (SMT), tentando controlar a situação.
Amapá: os impactos do apagão na população da periferia: “me sinto um nada”
Amapá: os impactos do apagão na população da periferia: “me sinto um nada”
O Governo Federal chegou a informar três prazos para normalizar o serviço no estado, mas nenhum foi cumprido – amapá apagão população periferia
Texto: Dyepeson Martins Da Agência Pública
“Vai normalizar 100%” foi a frase mais ouvida pela auxiliar de serviços gerais Francilene Medeiros, de 46 anos, em relação a ativação de geradores termoelétricos para suprir o fornecimento de energia no…
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