Mais um batráquio em vias de extinção
Nunca é fácil chegar ao fim de um ciclo, mas hoje anunciamos a descontinuação do SAPO Blogs no dia 30 de junho de 2026. O SAPO Blogs surgiu,
Deixo também a imagem do artigo, pois a hiperligação deverá ser quebrada lá para o final do ano.
Será talvez algo estranho lamentar o encerramento de uma plataforma que já não uso, e que optei por não utilizar quando regressei à blogosfera há pouco mais de dois anos; um pouco, se quisermos, como lamentar o encerramento de salas de cinema ou de outros estabelecimentos da cidade que nunca se frequentaram, ou aos quais há muito deixámos de ir (ainda há dias falava disso aqui a propósito do fim do Alvaláxia). Mas tal como o desaparecimento de um cinema, de uma livraria, ou de uma pastelaria de décadas leva consigo um pedaço da história do seu bairro e uma comunidade dispersa que por lá ia passando, o encerramento do portal de Blogues do Sapo, com eliminação do arquivo, leva consigo para o vazio cibernético largos milhares de blogues mantidos por tanta gente ao longo de mais de duas décadas. Sim, social media killed the blog stars, bem sabemos: os blogues, em tempos frenéticos, caíram em desuso perante a voragem algorítmica e a conveniência das redes sociais, do soundbyte de 180 caracteres, do vídeozito filmado na vertical com um jingle manhoso; poucos são os resistentes que insistem em escrever um pouco mais sobre seja o que for, como poucos são aqueles que insistem em ler esses textos. E é pena: o conceito de blogue é maravilhoso pela liberdade que proporciona, pelo espaço que dá, pelo vagar que pode impor. No seu auge, a blogosfera foi um espaço caótico, desordenado, e maravilhoso.
Percebo a decisão da Sapo (Altice), ainda que me pergunte quanto custa de facto manter um serviço destes a funcionar, ou pelo menos manter os arquivos online. É uma pena que não sejam desenvolvidos mais esforços pela preservação digital destas plataformas; uma Torre do Tombo em zeros e uns, se quisermos (gastamos dinheiro público em coisas mais inúteis). Receio que aos historiadores do futuro falte imensa informação destes tempos, e informação preciosa: no nosso caso particular, muita da nossa classe política e mediática actual ganhou mediatismo a partir da blogosfera política de 2002 a 2014, mais coisa menos coisa; será uma pena num futuro não muito distante ser impossível de obter este contexto precioso. Haverá alguma literatura, claro (a FFMS editou um livro sobre o assunto há quase cinco anos), mas ficam a faltar as fontes primárias.
Mas mesmo dando a política de barato: tanta gente anónima (como eu) foi deixando pensamentos e ideias em espaços pessoais, e contribuindo com uma gotinha de água para este vasto oceano que é a Internet. É também isso que se perde.













