A lei que impede a utilização de sacolas plásticas pelos estabelecimentos comerciais entrou em vigor em Belo Horizonte. Com isso, as pessoas passaram a utilizar sacolas ecológicas, biodegradáveis.
Eis que ouço, em ambiente familiar, uma inusitada palavra, ao menos para os meus ouvidos, para designar essas sacolas ecológicas: "bornal". Quando ouvi esse vocábulo, a primeira coisa que me veio a cabeça foi o que seria um bornal e se esse uso era correto. Não queria acreditar que era possível que existisse uma palavra como essa ou que se poderia utilizá-la após tantos anos abandonada. Mas tive de dar o braço a torcer ao olhar a significação no dicionário:
bor.nal
sm 1 Saco de pano ou couro para provisões, ferramentas etc. 2 Farnel. 3 Saco ou artefato próprio em que se mete o focinho das cavalgaduras, para nele comerem; embornal.
Também ouvi o uso dessa última definição, "embornal", que possui um significado semelhante:
em.bor.nal
sm (em2+bornal) 1 Saco que se prende em torno à boca de animais domésticos para lhes dar de comer; cevadeira. 2 Náut Buraco na borda, junto às trincanises, para escoamento das águas do convés. 3 Sacola com alça, que se leva pendida do ombro.
E acabo me deparando com o sinônimo "capanga":
ca.pan.ga
sm (quimbundo kapanga) 1 Valentão a soldo de uma pessoa para protegê-la; cacundeiro, guarda-costas, jagunço. 2 Indivíduo assalariado para assassinato, coerção ou ataque inescrupuloso; assassino profissional. sf 1 O total das compras de diamantes realizadas pelos capangueiros; partida de diamantes. 2 Bolsa pequena que se leva a tiracolo para conduzir pequenos objetos, chamada também bocó, ou mocó. (Esta última é a acepção original). 3 Folc Avental ou bolsa usado nas cerimônias do toré. 4 Pequeno embornal com o qual se apresenta o Oxossi, que traz também um polvorinho.
(Estas definições foram retiradas do Dicionário Michaelis.)
É curioso como existem palavras tais como essas que simplesmente caíram em desuso com o passar do tempo. Pelo menos nas grandes cidades ou relegadas aos integrantes da geração nascida antes do surgimento do computador pessoal (ou ainda a certos grupos de pessoas, uma vez que, ao que me parece, o bornal continua a ser usado com frequência por militares para designar utensílio por eles utilizado). Milhares de vocábulos saem a todo instante da utilização diária das pessoas, sendo substituídas por sinônimos ou simplesmente porque o objeto ou a prática a qual são relativas também desapareceram. E na maioria das vezes, ninguém percebe.
O retorno da utilização de uma sacola própria para a compra em estabelecimentos comerciais poderá fazer o bornal, o embornal ou a capanga voltarem à boca dos indivíduos? Acho difícil. As lojas não vão querer chamar as sacolas, que ganham até uma arte externa toda especial, de qualquer um desses nomes. Optam pela sacola ecológica, e fica nisso mesmo. Mas ainda há a esperança de que o bornal ou seus sinônimos voltem a ser ditos nas ruas. Estou até pensando em começar a ensaiar seus usos. Não são apenas as pessoas da era pré-internet que podem falar. Seria muito interessante ver as gerações tecnologia retomarem certas palavras do passado, mas não esquecidas pelo dicionário. E viva a japona, o ruge e o laquê!!!