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An attempt at Sunday comics
Tallest man in the smallest car... I miss drawing them
If he had a better chair he could've saved his eyes
How did people do accounting before the creation of 21th century computers? The fact there's a single accountant at all in The Waste is witchcraft
To me the world ended in the 70s, so gay rights weren't achieved before The Final Fall, and probably weren't even a focus before then because of the wars and raising tensions. In a way the apocalypse allowed people to express themselves more freely, cause things like social norms and acceptance didn't matter when survival became a luxury. You either make it through the day or die, so you might as well be yourself and let others deal with it. (rant ab warlords below)
This attitude would carry on throughout the following generations, but those who lived in the past have a harder time adjusting. The Farmer's one of these people, holding onto lost hate and judgement that keeps him from questioning what the new world could offer him. He looks for hypermasculinity that only Immortan Joe offers, covering himself in weaponry to compensate for his fragile view of his own manliness and identity.
In fact, both Immortan Joe and The Bullet Farmer are dressed to represent some aspect of masculinity; The Immortan has his medals and intimidating mask with teeth, and The Farmer has bullets and guns wrapped around every inch of himself. Their behavior is similar, with Joe being possessive and demanding while The Farmer is domineering and takes charge when he feels necessary. They present the pride, violence, assertion and aggression that was expected in their time.
Then there's The People Eater, who's almost the exact opposite. His attitude is more pompous and judgmental than outright cruel, he's more comfortable with sexuality and openly expresses it whenever, and his clothing is quite fancy (for the wasteland at least) and open when compared to the others' overwhelming halloween costumes. He's never explicitly mocked for being this way; in fact no one really seems to care. The Eater has followed the rest of The Waste in its view of expression and tolerance, only being in touch with Joe, not out of desperation and a need to be reminded of what once was, but out of necessity for resources. And even then, he still holds a high position despite his lacking interest in everything Joe views and values.
It's just interesting that The Immortan Joe and The Bullet Farmer is trying to rebuild some version of the patriarchy when The Farmer doesn't benefit/hurts himself in the process, and The People Eater is the pinnacle of what a patriarchy goes against (open sexuality and expression from social norms).
Maybe The People Eater is tolerated and used to show what's expected. Like, you can be different as long as you provide something. And The Eater's rank does show this as well, with him being seen as the least important/listened to despite him running the refinery and being the reason their cars move. You can be different, but you won't be rewarded as much as you could if you just followed what was expected. The Farmer knows this and actively hides part of himself through violence and a justice system with a twisted sense of what's right and wrong.
SALVATION.POINT
A Salvação se esconde nos lugares mais improváveis.
George tinha aceitado que seu dever nessa nova vida era ser um herói. A decisão, claro, tomou por base a vontade irremediável de Matias de ser um kamen rider e o quanto ele devia a Risa por tudo (por tudo mesmo). Ele estava concentrado em se tornar o melhor que pudesse nisso (em ser herói) e estava lendo o calhamaço que Risa havia alegremente lhe entregado. Cerca de oitocentas páginas sobre como ela acreditava que BulletEater funcionava, em todos os mais intrincados detalhes.
Aparentemente todos se davam melhor com BulletEater do que ele, justamente ele, quem devia ser o que entendia melhor essa máquina infernal. Claro que tudo isso era culpa dele mesmo, que insistia em ser obtuso quanto a tudo em sua vida, inclusive no que dizia respeito a aceitar sua própria personalidade. George continuava silenciosamente lendo enquanto Matias estava debruçado sobre BulletEater, arrumando sabe-se-lá-o-quê na armadura. Definitivamente todos se davam melhor com Bullet do que ele. Claro que BulletEater tinha, aparentemente, salvado sua vida, mas... Bem, isso ainda não resolvia o problema de ele ter basicamente morrido e voltado a vida por conta de uma máquina alienígena, demoníaca, ou seja-lá-o-que BulletEater e Metalsupreme fossem.
“Eu sempre achei que você tinha terminado com a Risa por conta do... Passado dela.” Matias falou, quebrando o silêncio. “Eu não devia ter... Você sabe... Eu não devia ter quebrado os seus dedos e eu nem me lembro direito do que mais eu quebrei naquele dia.”
“Eu...” George marcou o livro com a caneta e olhou para Matias. “Eu sinto muito. Eu mereci a sova que você me deu. Não precisa ficar remoendo isso. Você tinha razão, eu fui um babaca hipócrita que achou por bem ser escroto com boas pessoas.”
“Eu te dei um Ippon Seoi Nage muito bom naquele dia.”
“Você e essas suas coisas de nerd.”
“Jiu-Jitsu não é coisa de nerd. Aprendi a me defender depois que um cara me trancou no meu armário no sexto ano.”
“Nerd.” George riu um pouco por saber que conseguia fazer Matias fazer cara feia.
“Tá. Mas... Por que você nunca me contou tudo?”
George olhou para Matias e respirou fundo. Ele tinha prometido a si mesmo que seria mais verdadeiro, mas isso era tão difícil!
“Ah.” Matias falou, como se descobrisse algo novo. “Entendi.”
George sentiu um calafrio e levantou-se, derrubando o livro no chão. O som da caneta rolando pelo chão parecia tão ameaçador que George não conseguiu sequer abrir a boca. Ficou parado no mesmo lugar, com as duas mãos erguidas para frente, como se num gesto de “calma” que nunca chegou a ser dito.
“Eu... Eu tenho que pensar sobre isso, George. Eu acho que...” Matias respondeu a pergunta que George nunca teve coragem de fazer. “Eu não quero forçar nada e sei que você também não forçaria. Eu ainda amo Risa, você sabe. Mas a cada dia que passa esse sentimento vai ficando mais platônico, menos romântico.”
“Eu não sei se sou a pessoa indicada para essa conversa...”
“Você é a pessoa mais indicada porque você está na mesma situação que eu.” Matias praticamente gritou, para surpresa de George que raramente via o ruivo desprender a voz mais alto do que o seu tom calmo costumeiro. “Porque eu passei pelo que estou fazendo você passar. George, eu sinto muito.”
George sorriu um pouco. Ele realmente merecia levar um soco e mereceu todos os golpes de jiu-jitsu perfeitamente executados por Matias. O que ele não merecia era ser o foco de qualquer afeição de Matias. Ele estendeu os braços novamente, fazendo um gesto de “tempo”.
“Matias, eu não disse em nenhum momento que eu tinha algum interesse romântico em você. Somos melhores amigos e é isso. Acredite, você não está me fazendo nada e eu não estou interessado em você.” George achou que mais uma mentira não faria mal - se essa mentira fosse para fazer com que Matias se mantivesse por perto.
“Ah certo! Como sempre, eu li os sinais errado!” Matias coçou a cabeça. “Desculpe, George, eu não quis deixar você constrangido.”
“Não deixou.” George respondeu sem tripudiar. Os anos de mentiroso profissional tinham tornado sua expressão de paisagem perfeita.
“OK. Então, quando você arranjar um namorado ou uma namorada... Apresente para mim. Deve ser uma pessoa incrível para aguentar suas sandices.” Matias apontou para George e deu uma piscadela.
Você nem imagina o quanto ela é incrível, George pensou e desejou ter alguma coragem para contar toda a verdade. No entanto, sua vontade, no momento, se resumia a tentar aceitar tudo o que estava acontecendo, inclusive seu novo estado de “homem morto”.
Matias tinha conseguido captar as ondas de rádio da guarda nacional e da polícia através de um sistema de rádio amador. George estava ouvindo as informações enquanto tomava uma sopa enlatada.
“Aglomeração no píer. Repito, muitas pessoas no píer. A Estátua da Liberdade está descongelada. Câmbio.”
Essa frase fez com que George despertasse do transe e elevasse o volume do rádio.
“Capitão, eu já estou vendo as pessoas, perdemos contato com os policiais que estavam a pé. Não vamos chegar perto demais, parece que é outro ataque. Câmbio.”
“Entendido. Mantenham as posições no ar, vamos mandar outra tropa de choque para o local. Câmbio, desligo.”
George largou a sopa e desceu a escada de metal aos pulos, abrindo a porta de metal que dava para o laboratório de Risa.
“O cara que congelou NY voltou, só pode ser!” George bradou.
“Caraca.” Matias largou um monte de papéis no chão, enquanto Risa ergueu os olhos do microscópio.
“Temos que ir lá.”
“George, calma. Você tem certeza disso?” Risa perguntou.
“Você ouviu o mesmo que eu. Tem pessoas em perigo!”
“Isso pode ser coisa daquele cara. A gente vai para lá, Risa.”
“Eu não posso impedir vocês, só posso pedir para tomarem cuidado.” Risa deu de ombros. “Peguem esse cara e, dessa vez, tentem voltar inteiros.”
“Roger that!” Matias prestou uma continência e correu até MetalSupreme.
George se sentiu vivo. A sensação dentro de BulletEater era de completa liberdade. Ele não era tão rápido quanto MetalSupreme, mas era espetacular. George leu algumas estatísticas no canto da tela, enquanto BulletEater media a temperatura do local. Ele teria que se acostumar com as informações rolando no canto da tela, mas no momento ele somente ignorava a maioria delas, dando atenção apenas naquelas que BulletEater marcava com uma tarja vermelha. Bullet tinha entendido que George não lidava muito bem com excesso de informações e, pelo visto, já tinha entendido que esse era o melhor jeito de se comunicarem.
“Valeu, Bullet.” George murmurou. A resposta foi um pequeno sinal de positivo em vermelho no canto da tela, algo que fez George sorrir. Ele podia dar conta disso!
Chegaram até o cais em frente à Estátua da Liberdade. George cerrou o punho para que Matias parasse antes de chegar à aglomeração de pessoas. Pararam sobre um dos prédios e passaram a analisar a situação. A informação 376 pessoas apareceu no canto da tela e George focou no meio da multidão, em que três mulheres pareciam passear entre as pessoas sem que elas fossem tocadas.
“Supreme, você está vendo aquelas três mulheres?” George falou, sentindo-se praticamente um super herói por usar um codinome.
“Sim, vi. Parece que elas estão controlando essas pessoas. E a Estátua está mesmo descongelada e a temperatura da cidade está se elevando.”
“Quantos graus?”
“Em Celsius ou em Fahrenheit?”
“Porra, Matias. O que eu souber, caramba.”
“59 Fahrenheit.”
“OK, ao menos não estamos mais congelando aqui fora.”
“Mas a amplitude térmica... Tá, nem vou comentar isso, você via me chamar de nerd.”
“O que é amplitude térmica?”
“A temperatura variou muito rápido, pessoas podem morrer desse jeito.”
“OK, isso parece ruim.”
“É péssimo. A Supreme está me dizendo que as pessoas estão sendo controladas mentalmente.”
“E a gente?”
“Os exoesqueletos protegem a gente e também a nanotecnologia. O blá-blá de ciência todo tá salvando as nossas bundas no momento.”
“OK. Menos mal. O que fazemos? Tem algum plano mirabolante nas mangas?”
“Nenhum no momento.”
<LEITURAS ORGÂNICAS LOGO ABAIXO.>
Matias apontou o olhar para o local em que Supreme mostrava as leituras, pelas marcas de calor, duas pessoas estavam escondidas na caçamba de lixo.
“Bullet. Tem duas pessoas escondidas ali embaixo. Temos que resgatá-las antes que elas também sofram com a possessão mental.”
“OK. Quer que eu vá?”
“Eu vou. Fica de olho na multidão. Me avisa das mudanças.”
“Certo. De olho.”
Matias desceu com suavidade pela parede, utilizando o sistema antigravitacional de MetalSupreme para pousar sem fazer qualquer ruído. Além de rápida, a máquina prateada conseguia levitar alguns centímetros no ar, possibilitando que ele não fizesse muito ruído ao se mover. Matias ainda tinha vontade de testar isso em cima da água; ele podia apostar que Supreme devia se mover com toda a graciosidade em cima de qualquer superfície.
Chegou até a caçamba e levantou a tampa com cuidado, para ser recebido por uma corrente de gelo que o fez cair para trás.
“Matias! Tudo bem aí em baixo?”
“Mantenha-se na posição, eu cuido das coisas aqui.” Matias fez o possível para não soar apavorado. Se o homem do gelo estava ali, ele não queria que George morresse de novo porque ele não conseguiu ser rápido o suficiente.
<DOIS JOVENS. GÊNERO: MASCULINO. O RAPAZ COM PODERES DE GELO TEM 18 ANOS E 7 MESES. O OUTRO RAPAZ TEM 14 ANOS E 2 MESES.>
“Supreme, é a mesma leitura de antes?”
<NÃO RECONHEÇO ESSAS LEITURAS GENÉTICAS. PESSOAS DESCONHECIDAS.>
Com essa certeza, Matias tornou a ficar de pé e abriu a parte de cima da caçamba de uma vez só, revelando os dois rapazes, escondidos entre os pedaços de gelo e dos sacos pretos. Quando o rapaz loiro ergueu a mão, Matias o puxou para fora, com um único movimento, fazendo o outro rapaz gritar.
“Aiden!” Pela voz, esse era o mais novo, afinal ela saiu fina e esganiçada.
“Calma, eu estou aqui para ajudar.” Matias falou e sentiu sua mão esquentar. “Você faz fogo também?” Matias resmungou, abanando a mão.
“Não fizemos nada. Só queremos fugir daqui.” Ele tinha olhos de um azul tão claro que Matias se viu obrigado a piscar algumas vezes. Os olhos dele pareciam acesos como pequenas lâmpadas de led azuladas, brilhando mesmo nesse beco escuro.
“Eu sei. Eu quero ajudar.” Matias esticou a mão para frente, dando um passo para fora de Supreme. “Sou igual a vocês. Humano. Vem aqui, deixa eu te dar uma mão.” Matias estendeu a mão para Aiden, que pareceu relutar antes de segurá-la. O capuz de Aiden caiu revelando os cabelos claros, presos no topo da cabeça num coque desgrenhado. Se Supreme não tivesse dito que era do gênero masculino, Matias poderia ter jurado que se tratava de uma moça; bastante invocada e de lábios finos, mas uma moça ainda assim.
“Taran, venha logo.” A voz tinha um relance de tenor, masculina, mas não muito grossa. Definitivamente, Matias podia ter lido completamente errado. O outro rapaz correu e se jogou nos braços do mais velho, que o abraçou defensivamente.
“Vou tirar vocês dois daqui. Sou Matias e essa é MetalSupreme.”
“Sua armadura tem nome?” O jovem loiro perguntou, com um sorriso breve em seu rosto.
“Eu explico isso depois, mas se vocês estão fugindo daquelas donas mal encaradas, preciso tirar vocês daqui agora.” Matias voltou-se para MetalSupreme, que lançou-se sobre ele, cobrindo-o como um tecido que se junta à pele.
“Uau.” Matias ouviu o rapaz loiro suspirar e sorriu para si mesmo. Devia parecer bem incrível mesmo. Estendeu um dos braços para puxar a escada que estava presa numa das saídas de emergência.
“Subam por aqui. Meu parceiro, BulletEater está lá em cima.”
Os dois obedeceram enquanto MetalSupreme subiu pela parede, sem qualquer som. Ao chegarem lá em cima, George continuava no mesmo posto.
“Eu já ia descer, pensei que... Quem são esses... Supreme?” George quase falou o nome de Matias.
“Aiden e Taran.” Matias apresentou.
“Estamos fugindo daquelas mulheres e tem mais um cara na Estátua da Liberdade. Eles... Eles ameaçaram a gente...” Aiden tentou ser claro, mas balbuciou e sentiu que estava chorando.
“Mano.” Taran o abraçou e começou a chorar também.
“Taran.” Aiden passou a mão nos cabelos ruivos do irmão mais novo. “Eu preciso que vocês garantam a segurança do meu irmão. Eu ajudo no que for preciso.”
“E o que você pode fazer, Elza?” George falou de maneira jocosa e começou a rir. Antes que Matias pudesse corrigi-lo, Aiden fez um arco de fogo esticando as duas mãos ao lado do corpo.
“Ele pode fazer mais coisas, eu garanto. Ele quase me congelou lá embaixo.” Matias bateu no ombro de George, que deu um pequeno pulo, por conta do susto.
“Qual é o plano?” Aiden olhou para onde eram os olhos de MetalSupreme e Matias sentiu-se corar. Era um olhar muito intenso para uma pessoa tão pequena.
“Temos que dispersar aquelas pessoas.” Matias falou. “Mas, há um controle mental delas e...”
“Você precisa de uma distração? Preciso que algum de vocês fique com Taran por perto, assim eu posso fazer algo mais drástico.”
“Drástico. Você mete medo, garoto.” George falou.
“Você vai ficar com medo quando vir o que ele faz quando está com raiva.” Taran riu um pouco.
“OK. BulletEater e Taran são um time, eu e você somos outro. Sobe nas minhas costas que a gente chega lá bem rápido.”
Aiden segurou-se numa das travas prateadas das costas de MetalSupreme, enquanto BulletEater apanhou Taran nos braços. Supreme era muito rápida, chegaram lá em poucos segundos e Aiden fez com que todo o ar ao redor deles se transformasse numa densa nuvem acinzentada.
“Mas o quê...?” Era a voz de Veda, Aiden reconheceu na hora. Esticou os braços como se fosse atirar com um arco, a flecha de gelo parou bem na frente do rosto de Veda. “Que droga é essa?”
“Caia fora da minha cidade.” Aiden acertou um soco bem no rosto de Veda, que caiu no chão.
“Deu ruim!” Marian gritou. “Derrubaram a chefe!”
“Eu disse. 98% de chance de um encontro inesperado.” Vic pontuou. “Tire a gente daqui, Marian, agora.”
“Tá bom, Vic!” Marian obedeceu e as três sumiram no ar.
“Teletransporte! Essas pessoas não brincam em serviço!” Matias gritou.
Aiden dispersou a cerração e as pessoas pareciam confusas e aturdidas ao redor deles. Assim que algumas delas começaram a olhar ao redor, os primeiros gritos de terror começaram e Matias sabia que MetalSupreme não era exatamente uma coisa normal para se ver em NY.
“Melhor a gente sair daqui.” Matias apanhou Aiden no colo e correu, antes que o rapaz loiro pudesse argumentar. Pararam perto de BulletEater, que ainda estava no meio do caminho. “Aiden resolveu a parada.”
“Caramba.” George exclamou. “Tudo?”
“Eles vão fugir.” Aiden se debateu nos braços de MetalSupreme, que o colocou no chão. “E podem voltar para nos atacar!”
“Teletransporte. Controle mental... Eu acho que a gente não tinha chance.” Matias pontuou.
Aiden arqueou uma sobrancelha e deu de ombros. Fez um gesto para que BulletEater deixasse Taran no chão. Assim que o menino ruivo tocou o chão, correu para abraçar o irmão mais velho.
“Taran também consegue nos transportar para os lugares, mas é limitado. Eu não posso exigir que ele faça de novo.”
“Caramba. Vocês dois têm poderes?” George levou uma das mãos até a cabeça. “Isso é insano! Quer dizer, por isso que estava tendo essa confusão?”
“Aquelas pessoas têm poderes e pelo jeito não gostam que outras pessoas com poderes atrapalhem os planos delas. Mas, isso é só uma teoria. Não é como se fossem meus amigos ou como se eu e meu irmão tivéssemos participado dessa festa que fizeram.” Aiden respondeu sem hesitar.
“Será que tem envolvimento com o cara que congelou NY?” George questionou.
“Eu não sei, mas disseram que estavam aqui para ‘limpar a bagunça’... O que quer que isso signifique.”
“Isso é bastante aberto, Aiden. Você sabe os poderes deles?”
“Na verdade, eu não tenho ideia. O lance de se transportarem eu entendo em parte porque é um dos poderes do Taran. Tirando nós, não é como se eu conhecesse mais pessoas com habilidades.”
“Justo. Eu e BulletEater vamos lá averiguar, vocês ficam aqui.”
“Por que vocês querem fazer isso? Lutar assim... Qual o motivo?” Aiden não tinha muitas papas na língua.
“Porque é o certo a ser feito e nós somos heróis.” Matias falou e George conseguia perceber o quanto ele se orgulhava dessas palavras.
“Heróis?” Taran balbuciou.
“Somos BulletEater e MetalSupreme, os protetores de Nova Iorque.” Matias respondeu, colocando as mãos na cintura.
George suspirou com aquela frase. Aquilo deveria ser o que Matias sempre tinha sonhado fazer no final das contas, parecer um herói de revistas em quadrinhos.
“Nesse jogo podem ter outros. Se vocês vão, eu também vou.” Aiden respondeu.
“Eu também!” Taran gritou, com entusiasmo.
“É muito perigoso, prefiro que você se esconda.”
“Mas e se elas machucarem você, irmãozão?”
“Tenho certeza que esses heróis, MetalSupreme e BulletEater, não vão deixar isso acontecer. Você precisa ficar escondido.”
“Eu... Tá bom. Eu vou ficar escondido.”
“Ótimo. Eu venho buscar você assim que resolvermos isso.” Aiden deu um beijo na testa de Taran e voltou a olhar para os dois armadurados. “É melhor que vocês saibam o que estão fazendo de verdade.”
“Essa é a graça da coisa: nós não temos a menor ideia.” Matias falou e George conseguiu ouvir o amigo sorrindo com essa frase.
“Eu não sei se isso é uma boa ideia.” Aiden falou, olhando para a Estátua da Liberdade.
“Sou obrigado a concordar com... Seu nome é Aiden, certo?” George interrompeu a conversa. “Não sabemos os poderes dessas quatro pessoas e eles teriam não apenas uma vantagem numérica, mas a vantagem de já se conhecerem e de saberem suas habilidades. Com toda a licença, não sei se Aiden e o outro guri tem realmente habilidades, ou se isso é apenas uma fantasia.”
“Eu também não sei se posso confiar em vocês.” Aiden olhou diretamente para BulletEater e George podia jurar que tinha visto aqueles olhos ficarem vermelhos como chamas. “Taran e eu vamos embora.”
“Não. Nem pensar. Concordo em nos escondermos de novo, concordo em deixar para lutar outro dia, mas discordo de deixar vocês dois sozinhos com uma ameaça dessas aqui na cidade.” Matias falou. “Vocês dois vem com a gente e eu prometo, promessa de escoteiro, que não vamos fazer nada de ruim com vocês. O George aqui é policial.”
“MetalSupreme! Não podemos usar nossos nomes assim!”
“Eles já sabem que meu nome é Matias, George. Mostra a cara para eles e vamos chegar a um consenso.”
George, a contra gosto, fez o que Matias mandou, mostrando seu rosto ao abrir apenas uma parte do exoesqueleto. Aiden sorriu e balançou a cabeça.
“Dois bobos. Realmente, não tem como vocês serem ruins.” Aiden riu e Taran ficou olhando o irmão. “OK. Vamos com vocês, mas lembrem-se que não viram nem 10% do que eu posso fazer.”
“E nem você sabe do que somos capazes.” George voltou a fechar o exoesqueleto e notou que Aiden não parecia sentir medo. Esse cara podia parecer uma princesa Disney, mas com certeza não estava para brincadeira.
“Eu não sei mesmo, mas depois de tudo o que eu sobrevivi, não tem muita coisa que possa me dar medo. Posso me assustar, mas não é como se eu ficasse muito tempo aterrorizado.”
“Sobreviver é uma palavra forte.” Matias pontuou.
“Você nem imagina o quanto.” Aiden falou entre os dentes, segurando a mão do irmão mais novo com firmeza.
“Sem brigas. Levamos vocês e pensamos em um plano.” George falou.
“OK. De acordo.” Novamente, antes que Aiden tivesse a oportunidade de reclamar, Matias o apanhou no colo. “Não. Eu me apoio em você, mas você não me segura desse jeito. Nem pensar.” E com isso Matias resolveu atender ao pedido. Não queria ser chamuscado de novo.
Taran logo ergueu os braços para BulletEater o pegar.
“Eu não me importo. Vai ser legal viajar super rápido. A carona é bacana.” Taran sorriu e segurou no pescoço de BulletEater. “É melhor que andar.”
Assim os quatros sumiram entre as ruas de Nova Iorque.
SPEED.OF.SOUND
All we need is speed.
George abriu os olhos depois de muito tempo. Tudo parecia um estranho sonho sem qualquer sentido: o mundo estava opaco demais, tudo estava frio demais... Não era verão? Por que tudo estava tão frio, então? Ele tentou virar o corpo, mas terminou sentindo um enjôo terrível tomá-lo tão abruptamente que ele teve de vomitar por longos e pavorosos segundos. Ao terminar, George olhou para cima, para ver um par de mãos o apanhando e o segurando com força, mas ao mesmo tempo com muito carinho.
“George!” A voz de Matias era a familiaridade que lhe faltava em tamanha estranheza.
“Matias, eu...” Sua voz saiu dura e falha, como se não falasse há anos.
“Tudo bem. Calma. Tudo bem.” Matias repetia as palavras como um mantra e George foi tomado pela lembrança: ELE ESTAVA MORTO. Ele tinha morrido. O impacto da lâmina de gelo o acertou diretamente no coração. Ele estava morto. Ele devia estar morto.
“Eu morri.” As palavras saíram como um murmúrio inaudível. George sabia que Matias o ouviria, Matias sempre ouvia tudo. Matias sempre sabia de tudo.
“Não, você não morreu.”
“Eu sei que eu morri.” George cheirou o pescoço de Matias, como se quisesse saber que estava vivo de verdade. Não era um sonho, Matias sempre estava cheirando a sabonete e a talco, esse era o cheiro com que George tinha se habituado depois de tantos apertos de mão, depois de tantas vezes que se pegava cheirando sua própria mão para lembrar-se de que Matias sempre estava ali.
“BulletEater protegeu você.”
Sim. Aquelas máquinas infernais. George engoliu seco e afastou-se de Matias, para olhá-lo nos olhos. Será que Matias tinha morrido também? Era isso? Estavam no inferno por terem mexido com os instrumentos do fim do mundo? George chorou e, para sua surpresa, sentiu Matias abraçá-lo, afagando-lhe o cabelo.
“Tudo bem. Calma. Tudo bem.” O mantra foi repetido e George finalmente relaxou, afogando-se nas sensações que Matias o oferecia de tão bom grado. “Você está vivo, George.”
George continuou de olhos fechados, segurando-se a Matias com a mesma intensidade que um animal agonizante agarrava-se ao oxigênio. Ele estava vivo. Era uma segunda chance, ele poderia fazer tudo diferente. Ele queria fazer tudo diferente.
“George!” George reabriu os olhos quando ouviu a voz de Risa. Ele olhou para cima, para ver Risa em roupas de frio, abaixando-se para ele. “Você está aqui!” Ela parecia aliviada e George sentia-se mal por ter feito Risa sofrer mais uma vez.
“Estou.” George forçou um sorriso, mas falhou por conta das lágrimas que continuavam a encher seus olhos e deixarem sua vista tão cansada.
Risa o abraçou e ele se afastou alguns segundo depois, para tentar se levantar. Os dois o ajudaram e o colocaram numa cadeira próxima. George finalmente conseguiu olhar para BulletEater que agora estava fechando o exoesqueleto. O senso de realidade o fez querer vomitar novamente, mas logo Matias o estava dando um copo de água (gelada demais) e o enxugando com cuidado.
“O mundo acabou?” George finalmente teve coragem de perguntar.
“Não exatamente.” Risa respondeu.
“Ou ele acaba ou ele não acaba. Não tem meio termo.” George quase se reprimiu por ser tão cético e tão duro. Era exatamente por ser tão cáustico assim que ele e Risa não tinham dado certo. Se ele fosse mais amável... As coisas seriam diferentes.
Risa olhou para o chão e saiu da sala. George sentiu-se péssimo, afinal, como sempre, ele estava estragando a vida de Risa. Pelo que seria a primeira vez em muito tempo, Matias não estava o repreendendo por isso. George desejou que tudo fosse diferente, completamente diferente.
“George, você se lembra...?”
“Lutamos contra um cara que mexia com gelo. Ele era muito forte. Eu morri.”
“Você não morreu, George.”
“Mas eu sinto como se tivesse morrido, Matias.”
Matias não respondeu. Ele apenas se afastou de George e apontou para os vários monitores pendurados nas paredes. Uma sequência de dados e de informações pintaram as telas e George enfiou o rosto entre as mãos.
“Matias, você é o cérebro, eu sou só os punhos. Você vai ter que me explicar tudo isso.”
Matias virou-se para George com um olhar tão compassivo que George desejou ser um pouco mais inteligente, só para variar. Ele queria tanto que Matias fosse feliz. Ele queria tanto não ser um peso morto para Matias.
“BulletEater e MetalSupreme são exoesqueletos, mas também são criaturas vivas. Ainda não sei ao certo o que eles são, mas... Eles mexeram conosco em nível intracelular. Nós não somos mais humanos, George.”
Matias falou aquilo de maneira tão simplória, no entanto George estava completamente desesperado com a notícia. Não era nada bom. Ele não estava feliz em não ser humano.
“O que você quer dizer...?”
“Nanorobôs, nanotecnologia... Eu não sei ao certo. Preciso pesquisar mais, entender melhor o que está acontecendo. Eu ainda estou tentando descobrir o que esses exoesqueletos são e o que fazem... por ora vou chamar de milagre, mas isso soa piegas.”
“Milagre...” George balbuciou e olhou para Matias. Ele aceitaria um milagre se pudesse fazer tudo ser diferente. Era uma segunda chance. “Você faz a ciência com a Risa, eu sou só o cara estúpido que soca as coisas.”
“Isso não é verdade, George. Você é um grande estrategista! Você é um policial, caramba. Você já salvou um monte de gente! Eu sou o cara que não para num emprego porque não consigo manter o foco por mais de dois minutos! Você, George, é o cara que resolve as coisas, o cara que salva as coisas!”
“Eu sou o que você acredita que eu seja, Matias.” George falou. Ele tinha prometido que faria as coisas de maneira diferente dessa vez, então começaria agora.
“Certo.” Matias fez uma expressão surpresa. “Eu vou precisar fazer alguns testes em você. Eu não sei como seus sinais vitais estão depois que você saiu de BulletEater.”
“Tudo o que precisar.”
“OK.” Matias sorriu e George agradeceu por sua segunda oportunidade na vida.
George descobriu que NY estava imersa numa era glacial desde o ataque. Aparentemente o cara do gelo tinha sumido sem deixar rastros, mas a cidade estava a quase um mês enfiada numa camada de gelo eterna. A cidade quase toda tinha sido evacuada, mas ninguém mexia com o Bronx, pelo visto. George descobriu que ele tinha sido reportado como KIA (Killed in Action, morto em ação) assim como grande parte de seus colegas de repartição. Não tinha recebido honras ou um enterro, mas... Ninguém recebeu, na verdade. O caos era grande demais para se pensarem em meras formalidades. Era mais importante salvar quem ainda estava vivo e George entendia isso muito bem, afinal tinha jurado proteger e servir.
George agora estava dentro de Bullet, testando algumas ações e comandos que consistiam basicamente em absorver armamentos e reformá-los para uso do exoesqueleto. Bullet não conversava muito com George, tudo era resumido em frases pequenas ou em palavras breves. George já tinha aceitado que agora era um monstro, o seu eu humano tinha morrido e não tinha sequer recebido um enterro digno. Mas, George tinha que aceitar isso; havia pessoas lá fora que precisavam de heróis dispostos a darem suas vidas para protegê-los.
Enquanto estava comendo uma mistura de atum com ovo, em silêncio, sentiu a mão de Matias pegar em seu braço. Ele olhou para o rapaz de cabelos acobreados, que o encarava com o pesar da preocupação que somente Matias conseguia expressar.
“Estou bem.” George murmurou a mentira. Ele tinha prometido que faria as coisas de maneira diferente dessa vez, mas aqui estava ele, repetindo os mesmos erros de sempre. Mentindo, como sempre, por medo que Matias soubesse de todas as coisas que ele insistia em esconder dentro de seu coração.
“George, você sabe que não me engana.”
George sabia muito bem que Matias não era enganado por suas mentiras, então, porque ele ainda insistia em fingir? Ele saiu do transe e piscou algumas vezes, como se visse a luz do dia pela primeira vez.
“Matias. O que nós somos agora?”
“Nós somos nós mesmos, ué.”
A resposta era simplória, mas tirava um peso enorme das costas de George. Ele suspirou e sorriu para Matias.
“Então... Agora somos iguais aos seus heróis, não é?”
“Só se você quiser.”
“Eu estou com você até o fim, Matias.”
Matias sorriu e apertou o braço de George, que colocou a mão oposta sobre a mão de Matias, como se fechando um pacto só deles. George estava decidido agora. Se não era mais humano, se não era mais policial... Ele era agora o herói que Nova Iorque precisava ter. Estava disposto a morrer mais mil vezes se fosse para proteger e servir seu povo.
“Você acha que esse cara do gelo continua por aí?”
“Eu sei que ele continua por aí. E acho que tem mais pessoas assim escondidas, George.”
“Então... Agora vamos brincar de Batman e Robin?”
“Eu não acho que a gente funcione assim.” Matias riu por conta da referência. “Talvez sejamos mais parecidos com... Demolidor e o Justiceiro?”
“Só se eu puder ser o Justiceiro. Você definitivamente é o mocinho aqui.” George riu um pouco. Era uma forma de aceitar toda essa situação, uma maneira de digerir que não estava mais vivo no sentido real da palavra. Esse milagre que BulletEater tinha trazido para ele era a redenção, sua nova jornada de herói, uma forma de pagar por todos os seus pecados.
“Não faça isso só por minha causa, George. Eu já exigi demais de você e...”
“Você nunca exige demais de mim, Matias. Eu fui um cachorro a minha vida inteira. Eu destruí meu relacionamento com a Risa, deixei nossa amizade aos pedaços. E ainda assim você confia em mim...? Como você pode, Matias?”
“Você é meu melhor amigo, George.”
“Eu não mereço ser seu amigo, Matias. Você merece amigos muito melhores, pessoas que sejam dignas da sua confiança.”
“Ainda assim você é meu melhor amigo. Eu já te disse que você é um desgraçado mais de uma vez. Eu quase quebrei o seu braço por causa da Risa. E ainda assim, sou seu amigo.”
“Eu não mereço.”
“George, que conversa é essa?”
“Eu nunca fui verdadeiro com você, Matias.”
“Corta essa, George.”
“Eu sou diferente agora. Eu me sinto diferente agora.”
“George...”
Antes que George pudesse falar mais alguma coisa, Risa entrou na pequena copa e, olhando a tensão suspensa no ar, deu alguns passos para trás.
“Risa, espere!” George levantou-se e Risa arregalou os olhos em surpresa. “Desculpa por tudo. Eu fui um idiota. Eu não aceitei você do jeito que você é, Risa. Eu sou uma pessoa horrível e sei que você tem todo direito de me odiar” George passou a mão nos cabelos negros que agora estavam mais longos, afinal ele não tinha mais razão para cortá-los. “Eu fui racista, eu fui homofóbico, eu fui tudo o que podia ser de pior em um ser humano durante muito tempo. Eu era assim porque eu me recusava a ver quem eu era de verdade. Eu me recusei a perceber que eu era... Eu era... Igual a você, Risa. Eu também sou diferente. Eu também não faço parte do grupo em que eu queria me encaixar.” George pausou quando Risa o tocou no ombro.
“Olha, George, comigo, pelo menos você não foi racista. Você nunca ficou citando a cor da minha pele como se fosse um problema. E minha cor de pele não me define, George. Então pode ir parando por aí!” Risa respondeu, com a voz muito mais ríspida do que gostaria. Ela engoliu seco para tentar soar mais suave. “Eu sempre pensei que você simplesmente não me aceitava como eu era.”
“Eu aceito você, mas não quero que você me perdoe nem que você volte atrás. Eu só quero que você seja feliz. Eu não mereço o amor que você sentiu por mim, não mereço que você tenha me contado tudo sobre você quando eu não fiz o mesmo...” George esticou o braço para tocar na moça, mas voltou atrás, deixando o braço pender ao lado do corpo.
Risa, no entanto, apanhou o braço de George e sorriu um pouco. Ela pegou a mão de George e o puxou para mais perto.
“Está tudo bem, George, eu nunca fiquei ressentida. Eu... Eu devia ter contado tudo no momento em que você disse que queria sair comigo.”
“Você não precisava ter contado, Risa. É muito pessoal.”
“Eu precisava contar sim.” Risa ergueu um pouco a voz. “Eu posso ser mulher agora, mas você precisava saber de tudo, George.”
George chorou. Deixou tudo o que ele tinha guardado sair de uma vez só, o que fez Risa exasperar-se, abraçando, George.
“Desculpe, George, eu não queria magoar você...”
“Risa. Eu ainda amo você, mas você não merece sofrer por mim.” George balbuciou.
“George...?” Risa olhou para George, confusa.
“Você é a melhor amiga que eu poderia ter. Sinto muito por ter destruído tudo isso” George falhou em sorrir, mas Risa balançou a cabeça, entendendo o que George queria dizer.
“A gente poderia ter resolvido todos esses mal entendidos antes.” Risa secou algumas lágrimas dela. “Quer dizer... Eu pensei que você era um cara escroto, racista e que odiava qualquer coisa remotamente gay e agora... Eu me sinto ridícula. Você estava com toda essa guerra interna... Podia ter falado com a gente, George. Nós estamos aqui para isso.”
“Nós estamos aqui para isso, George. Confie mais na gente.” Matias falou, abraçando George por trás. “Sério.”
George suspirou e olhou para o teto. Ele era diferente agora. Ele iria lutar para fazer valer o amor que ele recebia de Matias e de Risa. O novo George é digno de tudo isso porque uma segunda chance não pode ser desperdiçada e agora ele estava disposto a deixar tudo para trás e se tornar essa pessoa que Matias acreditava que ele era. E estava pronto para se tornar uma pessoa melhor para Risa.
ROAD.KILLER
Correr parece ser a única razão para viver.
Matias sentiu que o sono estava o abandonando lentamente. Uma piscada, mais outra piscada. Ele só queria mais cinco minutinhos de sono. Só mais cinco minutinhos para uma soneca! Mas, a realidade é dura demais e o atingiu como um bloco de concreto despencando em seu dedo mínimo: estava ainda preso em MetalSupreme. A respiração passou abruptamente por sua garganta e ele se agitou.
“Calma, calma, Matias.” A voz de Risa estava abafada, claro, ela estava do lado de fora dessa casca! “Supreme falou que você poderia ficar inquieto quando acordasse. Houve uma grande extensão de danos em você e em Supreme.”
“Supreme...?” Matias sentiu a voz sair falhando. “Eu... Eu não entendo.”
<ELA JÁ SABE.> A voz calma de Supreme tomou os pensamentos de Matias. Ele sorriu de leve e respirou fundo.
“Certo. Eu acordei, então meus danos já devem ter sido reparados.” Matias anunciou. Antes de continuar qualquer fala, Supreme começou a mostrar letras no visor.
<OS DANOS NÃO PERMITEM ABRIR O EXOESQUELETO. POR ENQUANTO VOCÊ ESTÁ PRESO AQUI.>
“OK. Preso por mais um tempo aqui dentro. Estaria preocupado caso eu odiasse lugares apertados ou tivesse problemas em ficar no escuro. Como estou bem, muito obrigado, vou ficar aqui curtindo as férias.” Matias lançou uma risadinha, sem qualquer humor, e notou que Supreme mantinha três pontos, um ao lado do outro, na tela do visor. “Sério, estou bem.”
“Deve ser muito difícil essa situação. Ao menos nem Bullet nem George deram qualquer sinal de estarem acordados.” Risa falou.
“Então, você já sabe de tudo mesmo.”
“Você deveria saber melhor do que ninguém que eu não fico surpresa com facilidade.”
“Eu sei. Mas... Isso é no mínimo estranho. Quer dizer, robôs, ou melhor, equipamentos biomecânicos que servem como exoesqueletos e que ainda por cima possuem nível de inteligência? É praticamente um show de horrores. Sem ofensas, Supreme.”
“Não acho tão ruim.” Risa suspirou. “Quando você mesmo é um monstro, todas as outras coisas estranhas do mundo parecem bem normais.”
“Você não é um monstro, Risa.”
“Eu tento me convencer disso. Todos os dias.” Ela murmurou enquanto continuava mexendo nos inúmeros computadores. “Não consegui descobrir a origem de Bullet nem de Supreme, o que me leva a crer que são, de fato, experimentos secretos.”
“Pensei que iria falar em aliens.” Matias meio riu. Ao menos não estava sentindo dor ao ponto de impedi-lo de rir.
“A verdade está lá fora? Hmmm. Acho improvável, Matias. Por mais que faça parte do time do ‘eu quero acreditar’, você sabe minha crença repousa na capacidade da humanidade de estragar tudo.”
“Exatamente isso.” Matias concordou. “Supreme, quando vou poder sair do meu confinamento lata de petiscos para gatos? Sério, eu adoro você, mas estou começando a querer esticar minhas pernas, respirar ar de verdade e também gostaria de comer um cheeseburguer duplo com tudo que tem direito.”
<TENTAREI REINICIAR OS SISTEMAS E LIBERAR VOCÊ PARA COMER ESSES ALIMENTOS POTENCIALMENTE NOCIVOS À SAÚDE.>
“Muito grato, Supreme!”
O sistema apagou e voltou a reacender. Logo o som das travas abrindo fez Matias sorrir, sem esconder a felicidade. Sentou-se lentamente, saindo do exoesqueleto, que voltou a fechar-se logo após. Fez um gesto que imitava tirar o suor da testa e depois de um longo “ufa!”, voltou-se para Risa. Risa sorriu brevemente, mas logo voltou aos computadores. Matias foi até ela, com uma expressão de preocupação estampando o seu rosto.
“Bullet está ruim.” Matias falou. Não era uma pergunta, afinal ele tinha visto o tamanho do dano causado ao outro exoesqueleto. Aquele pedaço de gelo era cortante o suficiente para atravessá-lo e... Claro, podia existir a chance de George não sobreviver... Quem sobrevive a um negócio desses? Matias sentiu o peso disso tudo em seus ombros.
Claro, ele tinha insistido para que George usasse BulletEater. Depois insistiu para que eles, da noite para o dia, se tornassem super-heróis. E claro, não tinha sequer ponderado que a ameaça pudesse ser demais para eles. Era demais, estava claro. Eles não tinham sido cunhados para serem heróis.
Matias sentiu uma vontade imensa de cair de joelhos ali mesmo e chorar por toda a culpa acumulada. Chorar, entretanto, não traria George de volta. Chorar não iria resolver o problema. E... Repentinamente sentiu frio. E não era no sentido figurado.
“Pois é. NY está congelada.” Risa falou, sem largar os computadores. Ela estava usando um casaco pesado que fazia com que ela se parecesse com um esquimó. “Não pude tirar vocês daqui e não iria largá-los sozinhos. Mas, NY foi evacuada.”
“Quando...?”
“Vocês chegaram aqui faz sete dias. Estou me mantendo com a comida que ainda tinha armazenada, mas... Não tenho como sair. Está tudo um caos.”
“Eu... Eu falhei.”
“Matias.” Risa virou-se para ele, como se tomada por uma fúria incomum. “Você tentou. O fato de vocês dois tentarem derrotar um monstro daqueles já é o suficiente para mim. E vocês dois estarem vivos aqui é uma vitória.” Ela pausou e estava claramente emotiva, com uma lágrima pingando em seu rosto. “Mais de 90% da cidade foi destruída. Pouca gente sobreviveu, talvez sejamos os únicos do Queens ainda vivos. A guarda nacional está arrumando a cidade, mas... Ainda há muito gelo. Sete dias, Matias. Sete dias. E ainda há corpos espalhados pelo chão da cidade inteira...” Ela não conseguiu mais se conter e começou a chorar. “Você podia ser um desses corpos, Matias. Nunca mais diga que falhou! Nunca mais!”
Ele a abraçou e também começou a chorar. Era terrível. Manhattan toda destruída e ele não tinha feito muita coisa. Mas... Risa tinha razão. Eles estavam vivos. Eles sobreviveram. Eles não perderam a guerra, apenas tinham perdido a batalha. Eram inexperientes, não é como se a vida tivesse dessas de “super-vilões” acontecendo o tempo todo. Eles tinham triunfado, ainda que de uma forma tão dolorosa.
“Droga.” Matias murmurou.
Os computadores começaram a emitir sons e Risa os olhou, claramente preocupada. Começou a digitar em um dos teclados e parou.
“Supreme conseguiu dados sobre o cara que destruiu a cidade.” Risa falou, virou-se para Matias com uma expressão assustada. “Ela conseguiu ver tudo, ela conseguiu gravar tudo.” Risa começou a rir. “Não é à toa que ela prefere você, Matias. Vocês dois são completamente iguais, até nisso.”
“O que você quer dizer, Risa?”
“Supreme coletou dados de tudo, algo que você sempre faz sem nem mesmo perceber. É natural para você. Se ela ficasse informando para você tudo isso, você acharia normal, sairia concordando e... Foi isso que aconteceu, né?” Risa estava radiante e Matias levou uma das mãos à cabeça.
“Supreme sempre está com as telas de informação ocupadas. Sempre. Mas me acostumei afinal eu consigo ler muito rápido... Por isso eu sabia que George ainda estava vivo.” Matias pausou. “Obviamente a interface de Supreme é a mais adequada para mim. Como você disse, somos iguais.”
<CORRETO.> As letras de Supreme encheram as telas dos computadores. <COLETEI DADOS PORQUE ENTENDI QUE DEVERIA FAZÊ-LO.>
“Claro. E eu nem percebi que você estava fazendo isso porque consigo ser multitarefa. Isso explica muita coisa.” Matias tremeu de frio e Risa jogou-lhe um casaco pesado. “OK. Vou revisar esses dados e tentar descobrir mais coisas. Obrigado, Supreme.”
Risa puxou a outra cadeira e colocou-a na frente dos computadores. Sentou-se, ficando próxima a Matias e os dois começaram a tentar decifrar o que afinal tinha acontecido com a cidade.





