Sobre as relações superficiais [e a burocracia das relações reais]
Tem dias que o autoconhecimento não é suficiente para que não soframos por exemplo, de solidão. Quando se é adulto nos encontramos em meio à dificuldade manter amizades mais presentes, constantes. Tá todo mundo sempre muito ocupado. Casados, com filhos, trabalhando demais. E não se pode dizer que quer ver um amigo e bater papo. Ou não se pode fazer isso por que é perda de tempo(?). Tudo precisa ser tão sério. Por que não se pode visitar alguém apenas para conversar, ou ver um filme, comer bobagem ou até mesmo ajudar com algo prático que ela(e) precisa resolver? Estamos burocratizando até a amizade? Estamos burocratizando todas as relações. Ou seria eu, neste momento, carente demais de atenção (sei que vou me arrepender de admitir)?
Sei que às vezes o que eu vejo é superficialidade. Saídas “pra postar” (coisa que também faço). E isso faz com que acreditem que estão felizes (que saímos muito). Mas é uma diversão apenas. E é bom, eu não estou condenando. Gosto demais dessas “saídas”. Mas sabe, elas são inconstantes e não dão conta da profundidade de cada um de nós. De quando precisamos realmente conversar, desabafar. De alguém que escute e nos ajude a raciocinar sobre as escolhas a fazer. Se fala muito em terapia e ela é com toda certeza essencial na vida de todo mundo, mas não substitui a presença de uma amizade verdadeira. Às vezes a gente não quer ficar só com os nossos problemas. A gente quer partilhar o fardo (entendendo que o outro vai nos ouvir e auxiliar, julgando ou não). Não é nem fazer do amigo um terapeuta, nem do terapeuta um amigo. São papéis distintos e ambos importantes em nossa vida.
Só acho importante que a gente esteja atento a forma como as coisas vêm funcionando atualmente. Que a gente não deixe o automatismo (as tecnologias) do cotidiano nos afastar uns dos outros. Porque o que parece facilitar o contato, por (muitas) vezes, dificulta. Nos entregamos às narrativas ficcionais, aos apps que solucionam desejos rapidamente, estimulamos a produção de endorfina e temos nisso um alívio imediato do que nos “falta”. É problemático. Esses recursos são excelentes para interagir, compartilhar, até reafirmar relações. Quando fazemos uso deles para preencher vazios, que deveriam ser preenchidos por seres e narrativas reais, estamos prejudicando toda a interação necessária para o nosso crescimento, nosso desenvolvimento enquanto seres humanos. Sei que soa ficção científica demais, mas infelizmente não estamos longe de ter relações tão frias e robotizadas. E eu acho isso bem triste. Enfim, talvez um desabafo de alguém que sente falta demais de relações de afeto próximas e verdadeiras [e precisa pôr pra fora a melancolia].















