Na capital, são muitos os que se autoproclamam videntes ou profetas, todos dispostos a revelar seu futuro em troca de um par de pratas. Seja por curiosidade ou por crença, você decide dar ouvidos.
Os dedos que contornam as linhas da palma pertencem a uma quiromante. Há uma estrela em seu Monte de Mercúrio, ela diz. Uma oportunidade que mudará sua vida está se aproximando–isto é, se você tiver a coragem de agarrá-la com ambas as mãos.
A TERCEIRA TASK
Seus personagens terão a oportunidade de protagonizar a próxima etapa do plot central! Teremos um sistema de pontuação baseado em atividade que vai durar por um mês, e no final deste mês um vencedor khajol e um changeling serão elegidos. Ambos terão um papel central na história que se desenrola, e receberão grande um prêmio em IC.
AS RECOMPENSAS:
O khajol vencedor será o primeiro humano a domar um dragão, e o changeling vencedor será o primeiro meio-feérico a hospedar um deus da Fé de Luguya.
Os prêmios serão desenvolvidos a partir de plot drops da central, com protagonismo dos vencedores. Não daremos mais detalhes pois queremos manter algumas surpresas!
Não se preocupe: mesmo que você não vença a task, teremos outras oportunidades para destaque no futuro.
COMO FUNCIONA:
Os pontos contarão a partir das 13h do dia 20/03 até às 23:59 do dia 20/04. Encorajamos que participem com múltiplos personagens para otimizar as chances de vencer, mas não permitiremos que dois personagens do mesmo player ganhem em ambas as categorias, porque todo o mundo merece a chance de brilhar.
O QUE VALE PONTO?
POST DE LORE PARA O ADRLORE: Vale 4 pontos. Mínimo de 15 linhas, enviados para o chat da central, limitado a dois por personagem.
STARTER: Vale 4 pontos. Mínimo de oito linhas, inclui starters abertos e fechados, sem limite.
TURNO: Vale 3 pontos. Sem mínimo de linhas ou limite de quantidade.
STARTER CALL: Vale 3 pontos. Mínimo de três vagas por call, limitado a dois calls por personagem.
POV: Vale 3 pontos. Mínimo de 15 linhas, limitado a três por personagem.
PLAYLIST: Vale 2 pontos. Mínimo de 5 músicas, limitado a uma por personagem.
POST DE HEADCANONS: Vale 2 pontos. Mínimo de dez headcanons, limitado a dois por personagem.
LISTA DE CONEXÕES: Vale 2 pontos. Apenas listas novas contam, mínimo de cinco conexões, limitado a uma por personagem.
ASK DE NPC RESPONDIDA: Vale 2 pontos. Enviadas pela central, limitado a duas por personagem.
MUSING/EDIT: Vale 1 ponto. Reblogs contam, limitado a três por personagem.
ASK ENVIADA PARA NPC: Na conta do Jester, limite de duas por semana, oito ao todo.
COMO CONTABILIZAR:
Pedimos que preencham a nossa planilha com os links das postagens feitas, para que possamos conferir e calcular os pontos. Uma planilha deverá ser feita para cada personagem inscrito. Clique neste link para duplicar a planilha template!
VAI PARTICIPAR?
Responda neste post com o nome do(s) personagem(ns) inscritos, para sabermos com quantos podemos contar! As inscrições ficarão abertas até o dia 22/03, para que ninguém perca muito tempo hábil para pontuar.
Contamos com a participação de todos, e boa sorte!
ㅤ ⏾ 𝑻𝑨𝑺𝑲 𝑰𝑰 :ㅤthe reapingㅤ,ㅤ𝑡𝘩𝑒 𝑝𝑜𝑒𝑡ㅤ𖬺ㅤ𝘩𝑖𝑠 𝑟𝑜𝑡𝑡𝑒𝑛 𝘩𝑒𝑎𝑟𝑡.
⸻ dive from a hundred feet , from heaven to the ground in less than zero.
A água do cálice era fresca como a de uma nascente, e um gole bastaria.
Sob o céu pontilhado de estrelas na ilha de Eldrathor, cada um dos cadetes no primeiro ano da terceira série foi instruído a se deitar no pátio central, seus ovos de dragão em mãos. O que o acompanhava a seis anos tinha tons de marrom-avermelhado, parecendo esculpido em quartzito, seu relevo bruto e não polido. Tadhg o aninhou contra o peito com surpreendente delicadeza antes de fechar os olhos.
Ao abri-los, a familiar noite gelada de Wülfhere tinha sido substituída pelas cores vibrantes do Sonhār. Nunca antes tinha visto um céu tão azul, e tudo o que sabia sobre a geografia do lar dos feéricos de súbito lhe parecia inútil, já que os Reinos do Sonho Profundo eram um mistério que nem as disciplinas do Instituto tinham desvendado. O sol ao leste indicava ser ainda o começo da manhã. Diante de si havia uma montanha, seu cume alto o suficiente para desaparecer entre a neblina e sem sinal algum de uma trilha a seguir, as formações rochosas que a compunham tendo uma matiz familiar. Às suas costas tinha uma estrada de terra batida ladeada de árvores floridas, o serpentear de seu caminho cortando uma floresta e desaparecendo ao fim de horizonte no que parecia uma planície infinita. Não haviam outras alternativas de rumos a seguir. Uma opção parecia fácil, e a oposta parecia a certa.
Talvez já estivesse perdendo o juízo mas, com um sorriso, se lembrou do conselho dado por Cillian antes de deixar o castelo rumo à cerimônia. Tente não morrer. Se seguisse a orientação naquela situação em particular, acabaria como um fracassado–por sorte, era particularmente bom em ignorar o que o mais velho dizia. Não tinha feito promessa alguma, e o desafio que tinha diante de si e que deveria aterrorizá-lo só acelerou o seu pulso em antecipação. O perigo pouco fez para o dissuadir. Sabia o que fazer. Seu dragão era um terrador, e aquele era seu lar–o que significava que era hora de visitá-lo para um chá da tarde. Esperava que a companhia fosse bem-vinda, ou acabaria por se tornar o lanche.
Seus pés o guiaram com a certeza de quem seguia o próprio destino, e as largas passadas logo foram substituídas pelo tatear contra as pedras quando o terreno se tornou íngreme demais para andar, procurando por arestas firmes o suficiente para sustentar o seu peso enquanto o caminhar dava lugar à escalada. Conforme ganhava altura, a realização de que um mero deslize lhe custaria a vida o atingiu–não tinha equipamento de segurança, ou esperança de sobreviver a uma queda caso os dedos escorregassem. A noção não o assustou: aquela era a realidade para a qual tinha sido preparado na última década. Não hesitou.
Os músculos ameaçaram enrijecer, e o suor a escorrer por entre os dedos quase o fez despencar mais de uma vez. A altitude era como um peso no ar, tornando cada respiração custosa, e poucas eram as oportunidades para descansar no caminho até o topo. Não tinha água ou comida, e o silêncio absoluto que o engolia só era interrompido esporadicamente pela melodia dos pássaros. De novo e de novo, lembrou a si mesmo que estava naquele plano apenas como uma projeção. Sua alma não deveria ter fome ou sede, mas havia um desencontro entre o que sentia e a razão.
Quando a parede rochosa se transformou em um aclive, a neve passou a cobrir o terreno íngrime, e o frio o lembrou de casa. Ele e o dragão tinham algo em comum. Não havia vegetação alguma ao alcance dos olhos, e o branco que se estendia até onde podia ver refletia a luz do dia com intensidade suficiente para cegar. Tentar enfrentar o obstáculo fez com que as vistas ardessem, as lágrimas causadas pela sensação congelando em seu rosto. A prova agora era de confiança. Para prosseguir, o pedágio era depositar a própria vida cegamente nas mãos do dragão a quem procurava. O preço a pagar era claro: se quisesse continuar em seu caminho, teria que estar disposto a sacrificar a própria visão.
Tadhg fechou os olhos e caminhou às cegas colina acima, as mãos estendidas na frente do rosto em busca de obstáculos, os pés tateando o terreno com receio de que um passo em falso o levasse a um penhasco. Não o veria se o encontrasse, mas podia sentir sua presença do outro lado do fio que o puxava tal qual a gravidade. Ali, nem o canto das aves o fazia companhia, e o tempo pareceu se dilatar em uma eternidade. A despeito do desconforto na boca do estômago que sabia reconhecer como medo, continuou a dar um passo atrás do outro, a se erguer depois de cada tropeço–até que por fim caiu de joelhos, e o mundo ao seu redor pareceu escurecer.
Pensou estar prestes a desmaiar mas, mesmo caído sobre a neve, sua consciência se manteve alerta, e a curiosidade o deu a coragem para espiar onde estava. Por entre as pálpebras cerradas, notou ter chegado ao topo da montanha no momento em que os primeiros raios do pôr do sol tingiam o pico de laranja. À sua frente estava a silhueta do dragão a quem procurava, perfeitamente imóvel e silencioso, a sombra por ele projetada o protegendo da luz.
Encará-lo diretamente foi como um despertar. Os olhos que o fitavam eram vermelhos como o sangue e o mediam de cima abaixo, tocados por um brilho que juraria se parecer com humor. Ao erguer o queixo e abrir a boca para lhe falar, um rugido o interrompeu, e a terra tremeu sob seus pés sob a força da criatura que agora o silenciava. Talvez ainda não tivesse conquistado o direito de lhe falar diretamente. Tadhg se curvou em uma curta reverência, um cumprimento silencioso no lugar da tentativa irreverente anterior, e a resposta que obteve foi um bater de asas que revirou a neve ao redor, o vento gelado açoitando seu rosto. Sabia o suficiente de draconologia para reconhecê-lo como um macho, e teve a sensação de que o dragão estava brincando consigo: se o fazia como com um irmão ou como com comida ainda estava por determinar.
De súbito, o dragão deu um passo e outro na sua direção até que tinha o focinho ao alcance de seu toque. Interpretou a aproximação como um convite, e estendeu a mão para tocá-lo, encontrando uma fonte de calor sob os dedos mesmo em pleno inverno. Talvez pudesse sentir algo a seu respeito com o contato–a pureza de sua alma ou algum outro clichê igualmente ridículo, e que supostamente influenciava na decisão de o aceitar como montador. Tendo aprendido a lição ao tentar falar, permaneceu perfeitamente em silêncio, mas decidiu se comunicar de outra maneira que não com palavras. Engolindo em seco, escolheu tocar também sua testa contra as escamas, perfeitamente consciente de como seria fácil o engolir de sua só vez. O gesto não era de subserviência, mas sim de cumplicidade, o reconhecendo como seu igual. Aquela pareceu ser a deixa de que a criatura precisava e, sem anúncio prévio, o assistiu se erguer em um voo e, com uma manobra que quase o fez torcer o pescoço para acompanhá-lo com os olhos, entendeu o que ele estava prestes a fazer uma fração de segundo antes de o ver se lançar em uma queda livre montanha abaixo, as asas se encolhendo junto ao corpo de modo a acelerar a descida.
Filho da puta.
Aquela era a prova final, e tinha segundos para a cumprir antes que a oportunidade desaparecesse para sempre–isto é, se tivesse coragem. Não tinha asas, e teria que provar acreditar que as dele eram as suas a partir de agora.
Muito lhe faltava naquela vida. Dinheiro, saúde mental, dignidade–a lista era como um pergaminho a desenrolar. Para compensar, Erianhood o tinha presenteado com uma quantidade proporcional de audácia, e uma disposição incomparável para morrer ao tentar.
Recuou o suficiente para tomar impulso e, com o coração preso à garganta, correu na mesma direção. A neve e o cascalho deslizaram sob seus pés ao saltar, e então estava caindo e caindo e caindo, amaldiçoando todas as leis da física, o rugir do ar em seus ouvidos o impedindo de escutar o bater das asas que vinham em sua direção, e sentiu estar prestes a engasgar no próprio vômito até que–
Com um solavanco, o dragão o pegou no ar em suas garras a apenas metros do chão, traçando uma curva elegante para estabilizar a trajetória em uma linha reta até que precisou encolher as pernas de modo a não tocar o topo das árvores logo abaixo. Aquela era uma aceitação clara como o maldito dia, e o primeiro som que emitiu na presença de sua nova família foi metade grito e metade gargalhada, uma celebração adornada pelo frio na barriga ao voar pela primeira vez.
Se acomodaria em seu dorso um outro dia. Por ora, lhe bastava saber que agora tinham um ao outro, e que seu dragão tinha um maldito senso de humor.
Com um uma persistência que beirava a teimosia, uma dose cavalar de atrevimento e uma pitada de loucura, Tadhg domou Burukdhamir, a quem viria chamar afetuosamente de rotten heart.
É... Essa é a palavra certa para descrever a nova faceta de Turquoise em treinamentos.
Antes, o changeling era falante e cheio de dicas, corrigindo o movimento antes mesmo de completar-se. Mais para cima, gire o pulso. Sua vontade de ser aquela voz interna que sempre aparecia no momento de dificuldade. Calma, assertiva, convidativa. Algo em quem confiar quando parecia perder a batalha, ou o branco de um golpe inesperado para se manter alerta mesmo assim. Ele virava o rosto e abria o sorriso, arcos delicados e expressivos. Assegurando, rindo, tirando o peso da situação estabelecida de quase morte.
Agora?
Uma curso de leitura de expressões era necessário. O foco subindo para as sobrancelhas e os olhos brilhantes de concentração. Um golpe dado errado no membro da infantaria para que visse logo em eu rosto se tinha acertado ou não. Palavras reduzidas a resmungos, sons do fundo da garganta. Boca entreaberta enunciando inícios de palavras, sílabas chaves cuja compressão total era rápida. Turquoise virava uma máquina, algo mais traiçoeiro que aquelas montadas de magia e bastões esticados, usadas em treinamentos normais.
E talvez seja por isso... A demora de reação e a falta de familiaridade com aquele changeling que fez tudo ultrapassar a linha entre treinamento e realidade.
Ele puxou a maça das costas com um sibilo irritado saindo pela boca. Não tinha concordado em algo assim tão cedo, usando as armas do Sonhar logo no primeiro dia. o cabo pulando de uma mão para outra em aviso, mãos de almas desesperadas saindo da bola maciça recheada de monstros indizíveis. Ele sabia do que se tratava, da arma voraz na mão do outro (que carinhosamente apelidou de Sem noção). Ah, ela precisava de uma saidinha para tirar a ferrugem, mas valeria a pena com ele?
Ao fundo, a voz do professor soava um aviso sem grandes preocupações. Tanto pela pequena batalha entre eles quanto pela confiança em si. Não vou matá-lo. Tinha dito baixo, devagar, antes daquilo tudo começar, um riso sem fôlego erguendo os lábios num sorriso debochado. Este que aparecia no próprio rosto, respondendo a um espasmo gerado por outros músculos - outras partes da nova posição que o colocavam na mesma linha de tração.
E combinando aquilo tudo. O silêncio, o rosto pétreo, a falta de feedback; Turquoise se via criando um monstro. Alguém de ego ferido e sem nada a perder. Venha com tudo, era o que seu rosto parecia provocar. Aguente o que vou te dar, o sem noção respondia com seus dentes expostos.
A realidade? Ah, meus caros, fácil. Khalkedon só queria sair dessa sem precisar arrastá-lo para a enfermaria.
A neve grudada ao chão levantou em poeira fina quando o sem noção colocou-se à galope. Sim, galope, porque a espada ganhava peso conforme o poder intrínseco ativava. Lâmina brilhando em tons dourados, tão escaldante que fez a neve chiar onde Turquoise estava a pouso segundos. — Não! — Sua voz saiu alta depois de encontrar o caminho para a fala. Não para o uso dos poderes, não para a quebra das regras. Era só para usar a arma, treinar os golpes, aprimorar o combate corpo-a-corpo. Não um show de magia e demonstração de força, como khajols com tempo livre e ego enormes.
Turquoise empurrou-o de lado, mirando tirar o equilíbrio. A luta tinha terminado assim que o brilho apareceu na ponta, mas... Quem tinha dito que ele respeitava? A lâmina enorme perdeu o peso e ganhou agilidade, girando e dançando ao redor do changeling que desviava. Clangor de metal e chiado de poder, interrompendo e rechaçando, andando para trás até encontrar... Achei! Elegante, um passo de dança, ele se pôs de lado e o desnível se fez útil, pegando pé do sem noção e o lançando para frente.
O que deveria ser um lindo final de idiota num pilha de neve, virou uma tentativa de arrastar Turquoise junto. Se não fossem os pés espaçados e o equilíbrio sólido, metal e carne chocariam no piso pedra logo abaixo da brancura que derretia. A dor explodiu do braço, irradiando pelo ombro e chocando o dentes num aperto de ferro. Isso porque foi a parte chata da lâmina. Um golpe de porrete poderoso e quente, que o teria aleijado. Perder o braço em tão pouco tempo pós banho de ácido?
Segundos — talvez menos — para os dedos soltarem as correias do capacete e este cair no chão. Turquoise pulou sobre o outro e o arrancou do estupor, enganchando a mão na gola metálica da armadura. Não conseguia encontrar a voz tamanha era a raiva, a fúria quente da traição. Tampouco conteve o rosnado do fundo da garganta ao sacudir, forçando a sair daquele estado em que tudo era morte ataque sangue. — Sem mmm-mágica, idiota. — A merda do braço doía feito um inferno, mas ele segurou a dor com os dentes cerrados ao manter a maça firme. Frustração se colocando em mais uma camada na situação toda, evidenciada no prolongar da palavra.
Khalkedon ajustou a pegada na armadura, e o dorso encostou em pele mais uma vez.
Uma coisinha de nada. Quase uma carícia. Mais o suficiente para soltá-lo no mesmo instante.
Primeiro foi o grito. Segundo foi a contorção. Terceiro foi a maça erguida sem provocar nada além de tensão. O outro rugia ao segurar o braço, apertando contra si como se tivesse... Levado um golpe. Turquoise não era de chutar cavalo morto, nem de revidar o golpe só pra ficar por cima. Tropeçou para trás, olhos arregalados de espanto enquanto dava espaço para o professor assumir a dianteira, usando mãos mais rápidas para desfazer os elos da armadura e expôr o ferimento.
Nada. Pele branca e imaculada. Ossos intactos e tendões fortes ao contato. Mas ele continuava a contorcer, implorando para que parasse, que não tinha feito por querer. Que iria respeitar as regras na próxima. Mas ele não tinha feito nada... Nada...
E ele ouviu outro grito. E mais outro. Vindo das janelas de outras salas de aula, de alguém ali perto no mesmo território de treinamento. Para onde olhasse, algo estranho exigia atenção e gerava comoção, brotando sem aviso prévio ou justificativa.
Turquoise, no entanto, não parava de olhar para as próprias mãos — cicatrizes e pele esbranquiçada parecendo irradiar uma luz interna (o que é fantasioso, era só o brilho de um espelho coincidentemente colocado no ângulo certo).
E na curiosa ausência do golpe que acabara de sofrer.
Cena pós créditos:
Vou ter que usar a p**** de luvas agora?
MANIPULAÇÃO DOLOROSA:
Capacidade de transferir, armazenar e manipular a dor através do toque direto. Dor essa própria de Khalkedon ou proveniente de outrem; dos tipos físico ou emocional, real ou ilusória. Quanto mais prolongado o toque ou concentração no poder, mais severa é a atuação.
⋆˚✿˖° 𝖙𝖆𝖘𝖐 𝖎. Transcrição da entrevista de Dahlia Dufour-Lapointe ⋆·˚
Dada a urgência de nossa investigação, optamos por entrevistar DAHLIA DUFOUR-LAPOINTE em seu local de descanso na enfermaria. Seus curandeiros pedem que conste nos autos que a changeling, em seu décimo nono ciclo das estações, está sob o efeito de chás e ervas que visam sua recuperação, mas que possuem como efeito a névoa mental e dificuldade na comunicação. Esta é a transcrição da entrevista:
Investigador (a partir de agora representado por Inv neste documento): A senhorita confirma que é Dahlia Dufour-Lapoite, aluna do Instituto Militar de Wülfhere?
[ A entrevistada gruiu, levantando o polegar indicando positivamente. Nota-se que ela tem alguma dificuldade para se mover e falar devido a sequelas do incêndio]
Inv: Vou entender isso como um sim. De acordo com o seu laudo médico, você sofreu diversas queimaduras de segundo grau. Você confirma isso?
Dahlia Dufour-Lapoite (a partir de agora representada por DDL neste documento): Você precisa do meu laudo para chegar a essa conclusão? Por Erianwood, os culpados disso não vão ser pegos nunca! É claro que eu sofri queimaduras… [a entrevistada tem uma crise de tosse no meio de sua resposta e parece alterada pelo rumo das perguntas]
Inv: Consta aqui que você foi encontrada por Kyrell Vortirgen em uma torre afastada do castelo, qual o motivo para isso? Por que estava naquele local nesse horário específico? Você tinha algum plano?
DDL: Eu estava terminando minha anotação no diário, como faço todas as noites. Ai, ai comecei a ouvir uma gritaria, o que não era comum, então… tinha tanta fumaça… eu pensei, eu pensei nos meus livros. Tive tanto trabalho traduzindo eles, eu preciso salvar o meu trabalho. Meus manuscritos!!!! [DDL parece agitada ao recordar dos eventos da fatídica noite. Sua maior preocupação sendo livros perdidos???]
Int: Está tudo bem senhorita, os livros e cadernos que estavam em sua posse parecem ter sido recuperados com dano mínimo e estão catalogados junto com nossas evidencias, você os terá de volta assim que possivel. Agora me diga, você notou algo incomum no dia do incendio? Ou algum comportamento estranho de outras pessoas no castelo de Wülfhere?
DDL: [Parece mais aliviada ao ouvir que seus livros estão seguros. Mas balança a cabeça negativamente como resposta] Eu, eu não vi ninguém. O dia inteiro estava tentando decifrar esse texto que encontrei no dia anterior, era antigo, bem complicado de traduzir, porque não conhecia o idioma direito e o pergaminho estava desgastado. Era isso que eu queria salvar, você tem certeza que nada foi perdido? Posso pelo menos ver eles?
Int: Infelizmente não podemos retirar as evidências de onde são mantidas, estamos quebrando o protocolo fazendo essa entrevista aqui, peço que entenda. Agora, você notou algum dragão agindo estranho no dia do incêndio?
DDL: Não, eles não fariam algo assim. Wülfhere é tão lar dos dragões quanto é nosso, você atearia fogo em sua própria casa voluntariamente, senhor?
[O investigador parece desconfortável com a pergunta. Dahlia Dufour-Lapointe começa a dar sinais de exaustão e não parece disposta a cooperar com a investigação.]
Inv: Vou fazer apenas mais uma pergunta em consideração ao seu estado de saúde, tudo bem? Na sua opinião, quem estaria mais interessado no desaparecimento do Cálice dos Sonhos e na interrupção do acesso ao Sonhār?
DDL: Como assim o desaparecimento do Cálice dos Sonhos? Nós não temos mais acesso ao Sonhār? Você está mentindo! Diga para mim que está mentindo!
[A entrevistada perdeu o controle de suas emoções e começou a se debater em sua maca, curandeiros interromperam a sessão de perguntas expulsando o investigador e seu assistente da ala médica. O investigador sustenta ferimentos nos braços e rosto devido ao surto da paciente. Ela se tornou uma suspeita em potencial e será submetida a uma investigação mais profunda.]
Nota extra da transcritor deletadas do documento oficial: As garras da changeling fizeram um estrago no Jorge e ele tirou uma licença de três dias "pra se recuperar"
Chovia-se.
E, do mar, areiava-se.
Espumava-se enquanto se afogava.
Da boca aos céus, se gritava.
Era uma maré de saudades.
Era um botão de flor de sal.
Antes que a água turva preenchesse seus pulmões, Gale nadou à superfície como quem pede socorro e interrompeu a asfixia da boca ao cruzar as espumas marinhas: ondas de flor de sal que quebravam naquele campo de mar aberto.
Ele nunca havia visto um jardim velejar.
Porém, até onde chegava sua vista naquela deriva infinita, todas as marolas traziam pétalas e mais pétalas de sal.
Se seus pés batiam firmes embaixo do espelho d'água de flores, era porque toda uma água turbulenta existia, envolvendo seu corpo num abraço frio e profundo. Mas como nasciam tantas plantas sem raízes? De onde vieram as sementes que desabrocharam apenas sob a luz da lua? Quem era o capitão da barcaça que chegava em forma de carruagem sob o campo de sal, e seria ele o jardineiro de tal milagre divino?
Milagre.
Divino.
As duas palavras flutuaram por sua mente, buscando algo a que se conectar.
Envolto em uma capa de névoas, com uma figura de proa da realeza, uma figura alta — e até gigante — dirigia a carroça de duas rodas entre aquele campo (ou mar) infinito de flores (ou espumas) de sal. E essa figura alta não se apresentara, mas talvez não tivesse que.
Gale tinha os cabelos molhados da franja grudando-se à própria testa. Os cantos de seus olhos ardiam com o sal que se acumulava também nos cantos da boca. Em silêncio, o que era raro, ele sentia as mãos emergirem e roçarem nas pétalas de flor de sal, que imediatamente se estilhaçavam em espumas e ondas sobre o mar.
Não entendia a visão daquela viagem, não subiria ao alto daquela barca do inferno, não percebia direito se a água era salgada ou as flores eram molhadas. Não lhe fitava de volta o abismo daquela capa de névoa, mas... mas, de alguma maneira, aceitava.
Aceitava porque poucas lembranças foram tão reais quanto aquele sonho.
Aceitava no passado e aceitou no momento e aceita, agora e em diante.
Para alguém tão falante, seria tortura aquela distância de um milagre divino consigo, mas... mas era tão familiar. Era-lhe tão próximo, de certa maneira tão íntimo... Que nenhuma resistência havia.
Não resistiu à maré como não resistiu ao passar da carruagem real. A estação das brumas lhe abraçou; e, sob o mar de flores de sal, ele afundou até jazer com um buquê de espumas na areia da praia.
Não entendia seu destino, mas o aceitava.
Porque navegar nunca fora preciso.
Mas viver... ah!, viver.
Kadaj não era o responsável pelos ensinamentos do quadrante, afinal, também tinha suas prioridades como guarda pessoal de Joahnna. Além do mais, seu superior quem tinha essa responsabilidade que não lhe cabia, a não ser na ausência do mesmo, e no momento estava livre para tomar um tempo para si apenas para restaurar um pouco de seu senso comum - o que era raro.
Era difícil manter-se controlado com tamanhas atrocidades que aconteciam mês após mês, coisas que jamais aconteceram até a união das duas espécies na ilha. Chegava a ser estressante a quantidade de vezes em que teve que se preocupar não só consigo como com qualquer outro à sua volta, e principalmente com sua protegida - não que isso já não fosse de sua responsabilidade. Contudo, o soldado não estava acostumado com a turbulência mental e precisava relaxar em meio as palavras de reconforto de Erianhood.
As pernas lhe levaram silenciosamente até um campo aberto, mesmo com um medo tremendo de aparecer algum dragão. Neste momento contou com o bom senso dos cuidadores e donos destes, pois, ali seria seu espaço de reflexão durante aquela manhã. Então, ao abrir as primeiras páginas da bíblia feérica, Kadaj folheou até achar o último versículo em que tinha pausado a leitura. Com a ponta do dedo buscou dentre as pequenas letras a numeração correta e logo recomeçou.
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Em questão de minutos depois buscando por um prisma do que tinha acabado de digerir, findando o capítulo brevemente, já que não estava tão longe, Kadaj sentiu uma coceira pouco agonizante e fina na ponta dos dedos, orelha, língua, ao redor dos olhos, na ponta dos dedos dos pés e um leve desconforto na parte do tórax e costas. De repente, uma tensão o fez quase prender a respiração de modo que as sobrancelhas se uniram por estar confuso. Ele bem sabia quando era algo haver com ansiedade e aquilo não estava nem perto de ser.
Do nada foi que conseguiu ver ao longe fumaça e sua atenção se voltou na direção do acampamento. Dava-se para ouvir alguns gritos abafados e um cheiro forte começou adentrar suas narinas. Estava tão imerso em seus devaneios do que poderia ser aquilo, que quando recobrou a consciência, tudo em questão de segundos, não conseguiu se erguer. Por quê? Olhou para baixo e viu seus pés fincados na terra, amarrados por enlaces de raízes que continuavam a lhe prender pelas pernas, subindo e subindo.
Ao mesmo tempo, a própria bíblia começava a diminuir de tamanho, pois, sem que tivesse cogitado ela estava queimando, virando cinzas, e o fogo vinha da ponta de seus dedos consumindo cada fibra do papel. Tamanha surpresa e pânico instauraram seu âmago que Kadaj soltou o livro no chão e um vento forte começou a soprar, praticamente querendo empurrá-lo de onde estava sentado, mas somente ao redor de si.
Poderia dizer que teria alçado vôo se não fossem as raízes que lhe prendiam ao banco. E então, diante deste fenômeno, pequenas gotículas de suor dele e ao redor transformando a neve em água por fim, dançaram conforme o vento fluía envolto de si. A mente de Kadaj absorta em tamanha imaginação, pensou estar sonhando verdadeiramente. Mesmo piscando várias vezes com força o cenário não se alterava. Até que rapidamente tudo cessou, caiu ao chão. De sua bíblia só pode tocar os restos de cinza, sujando as mãos como quem busca uma resposta para o que tinha acabado de acontecer.
Ele estava assustado, sim, bastante confuso e ligeiramente ansioso agora, pois não entendia o que acontecia. E diante dos gritos que agora pareciam bem mais vívidos e congruentes com seu atual desespero, ele mesmo pôs-se a correr na direção do acampamento, desenfreado. Mais parecia uma criança que tinha cabado de ver um fantasma e buscava acalento nos braços de uma mãe, do que um homem de plena consciência do que havia acabado de acontecer. Precisava de respostas e as teria junto de seus semelhantes. Atrás de si, ironicamente, alguns galhos acompanhavam e o fenômeno parecia querer voltar a acontecer, mas era justamente por isso que ele desatava a correr mais ainda.
Depois dos dragões, aquilo foi o que mais o assustou.
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MANIPULAÇÃO ELEMENTAL :
O usuário possui a capacidade de criar, manipular, moldar e até mesmo mimetizar os elementos, partes rudimentares, mais simples ou essenciais de que consiste qualquer coisa material, tendo em foco os quatro elementos clássicos: terra, ar, fogo e água. Várias combinações de elementos podem ser usadas para criar outras coisas. Por exemplo, o gelo pode ser pensado como uma combinação de água e ar para produzir um sólido. Os detalhes exatos de como os elementos se combinam, o que cada elemento faz e até mesmo quais coisas são elementos, ainda são específicos da manipulação em seu ato mais complexo, sendo preciso meses ou anos de intenso treinamento até que tenha parcial ou mais da metade do controle sobre estes.
Suas maiores limitações incluem a distância, precisão, quantidade e tudo isso depende do conhecimento, habilidade e força do usuário, além dos próprios limites naturais do poder. Não é possível criar um elemento sem que o tenha por perto, de início, e para que o faça é necessário ter um embasamento já bem enraizado do poder, como por exemplo manipular a água através da que já existe no próprio corpo - além de ser perigoso, é algo muito intenso e forte que pode tanto machucar quanto matar o usuário, caso não saiba como regular.
Está também fadado a ter mais controle sobre um elemento que o outro, mas isso se dará mediante treinos - assim como o Aang tinha mais familiaridade com o ar do que com o fogo, e esse foi o maior desafio dele.
Quem poderia prever que Raewyn Olyrnn viveria o suficiente para tomar do Cálice dos Sonhos? Certamente, não ela! Era uma surpresa que tivesse sobrevivido ao parapeito, tentativas de assassinato, acidentes e… Sinceramente, a ela mesma. Não era a cadete mais disciplinada ou habilidosa de Wülfhere, mas ali estava, prestes a adentrar o Reino dos Sonhos Profundos.
No caminho até o pátio, olhares incrédulos eram lançados em sua direção. Falsas despedidas e palavras desdenhosas enchiam seus ouvidos, os ombros latejando pela força dos tapinhas de consolação recebidos.
“Foi bom conhecê-la, Raewyn.”
“Toda maré de sorte tem fim, não fique triste.”
“Uma pena que nem todos possam viver uma vida longa.”
E o mais ousado: “Saúde a deusa por mim, pequena Olyrnn.”
Escutava as zombarias com um sorriso no rosto, devolvendo as provocações com despreocupação calculada. Sabia não estar preparada para a ceifa e que sua sorte havia durado até demais, que inevitavelmente haveria uma ruptura. Odiava pensar que alguns dos que bateram em suas costas e anteciparam sua morte retornariam, rindo às custas de seu desaparecimento. Enxergar a tensão tomando conta de seus rostos, apagando sorrisos presunçosos conforme o grande momento chegava, foi um verdadeiro consolo.
Raewyn, por sua vez, manteve o brilho no olhar e a postura relaxada. A voz sem titubear ao agradecer pelo cálice entregue em suas mãos, apenas confirmava a impressão de sempre: leviana. Leviana por não levar a ocasião a sério, leviana por não entender a importância do que viria acontecer, leviana por ser tão pouco e não agir como tal.
Infelizmente, não seria seu fim iminente que faria com que começasse a proceder como o esperado. Estava ciente dos riscos e das chances mínimas de uma volta bem sucedida, mas lhe faltava o básico. Medo.
Assim, tomou do Cálice sem hesitação — não com a certeza de quem sabia que iria voltar, mas, sim, com a confiança de quem não temia a morte.
Nunca pensou em como o Reino dos Sonhos Profundos seria, não vendo necessidade de idealizar algo que por tanto tempo imaginou que não conheceria. Entretanto, não esperava que fosse tão… Quieto.
Árvores se erguiam altas a sua frente, a escuridão da floresta sendo quebrada apenas pela luz da lua. Para onde olhava, sombras se estendiam num breu infinito, com partes que nem sua visão superior conseguia penetrar. O som de animais noturnos chegava aos seus ouvidos, mas de maneira longínqua, como se a quilômetros de distância.
O silêncio anunciava a presença de criaturas perigosas, temidas, mas tudo que deixou seus lábios foi uma velha e boa risada. Não uma risada nervosa ou histérica, não. Uma risada genuína. Um riso de animação, antecipação, talvez até loucura.
—— Parece que tenho um verdadeiro desafio em mãos, huh? — sussurrou para a escuridão que parecia encará-la de todos os lados, medindo e avaliando. —— Será que se eu pedir para você facilitar um pouco nossas vidas e aparecer, você faria? — Um som bestial, suspeitosamente semelhante a um bufar exasperado, soou atrás de si.
Acho que não, pensou, virando rapidamente, mas tudo que sua visão captou foi uma silhueta gigante desaparecendo. Num segundo, a criatura estava ali, no outro, não mais.
Puff.
—— Truque legal esse seu! Você vai me ensinar algum dia? Seria extremamente útil — tagarelou, seguindo a direção em que a criatura havia sumido. Quer dizer, dragão. O seu, especificamente.
Diversas criaturas viviam naquela parte do Sonhär, e embora não tenha prestado atenção o suficiente nas aulas para saber o nome de todas, Raewyn sabia que nenhuma delas hesitaria em quebrar seu pescoço ou devorá-la. Poderia ser qualquer uma delas ali. Um centauro, um gigante, outro dragão. Tinha certeza que havia alguma recomendação para uma situação como aquela e correr atrás da criatura não identificada devia estar no topo da lista do que não fazer. Em sua defesa, seu instinto gritava que se tratava do seu dragão — e o danado se movia rápido demais para algo tão grande, não havia outra opção para a Olyrnn.
Minutos se passaram enquanto corria. Flashes de movimento era tudo que tinha como guia, uma trilha de migalhas que estavam começando a ficar cada vez mais esparsas.
—— Você está testando meu folêgo como prova de dignidade? Se eu soubesse, teria me dedicado mais às corridas ao invés do combate — disse para a escuridão, tentando captar o próximo movimento. Um quebrar de galho, o farfalhar de uma folha, o brilho de uma escama.
Nada.
—— Já cansou? Porque eu ainda tenho fôlego para alguns minutos — disse as famosas últimas palavras, porque, de fato, sua aventura não havia terminado.
Dentre as árvores, uma criatura menor que a primeira silhueta que avistara surgiu. O som de cascos contra a terra se aproximando mais e mais. Um centauro em toda sua glória surgiu à sua frente.
—— Droga — foi tudo que teve tempo de falar antes do monstro localizá-la.
Adagas na mão, Raewyn tomou uma posição de ataque, agradecendo a Erianhood por ter embebido suas lâminas em veneno. Caso contrário, não teria sido capaz de escapar do centauro… E então de um troll e, por fim, outro dragão.
Começava a duvidar do seu instinto, ponderando se havia, de fato, visto seu dragão em algum momento. Mas ela ainda sentia seus olhos sobre si, a curiosidade, a diversão.
—— Ok! Já entendi! Você queria brincar, testar meus limites, mas vamos lá! — murmurou, os olhos treinados no dragão vermelho a sua frente, forçando seus músculos a ficarem parados. —— Isso aqui já é um pouco demais! Eu fui atacada, caçada… E estou prestes a virar churrasquinho de dragão! — Tensão e exasperação dominavam suas palavras.
Queria dizer que já havia se provado o suficiente, que passou a vida inteira fazendo isso, mas se conteve. Seu dragão estava se mostrando ser uma criaturinha cruel e implacável — algo que admirava, embora não amasse naquele exato momento.
—— Olha, eu posso não ser a montadora que você esperava, ou mesmo uma boa, but I can handle shit. O que quer que você tenha preparado, eu vou sobreviver. Eu posso provar para você que sou digna o dia inteiro — disse, segurando o fôlego quando o flamion começou a abrir a boca. —— Mas eu gostaria muito, muito mesmo, de não ter que fazer isso.
As palavras mal haviam deixado sua boca quando chamas iluminaram a floresta, envolvendo-a em seu calor. Raewyn se impulsionou para o lado, tentando fugir do fogo que derretia tudo em seu caminho, mas seu corpo foi cercado por algo escuro... E duro. Liso e enorme. Abrindo os olhos que haviam se fechado pelo clarão das chamas, viu que sua proteção era nada mais que a asa de um terrador formidavelmente aterrorizante.
—— É um prazer finalmente conhecê-lo, Themir.
Quando acordou em Wülfhere, Raewyn Olyrnn ainda ostentava um sorriso radiante, vitorioso. Mais uma vez, contra todas as probabilidades, havia sobrevivido.
Protocolos eram seguidos o tempo todo quando grandes acontecimentos surgiam. Para Freyja, não passava de uma mera formalidade, e ser colaborativa para com o império fazia com que seu dever como lady de sua casa fosse valorizado. Por outro lado, era a hora perfeita de se inocentar. Sabia que os khajols corriam mais riscos de sofrerem acusações por algo que ela garantia não terem o mínimo interesse, e fortalecer a sua verdade parecia ser uma boa ideia.
Quando finalmente fora chamada para o interrogatório, não se deixou intimidar, embora um frio na barriga a consumiu ao ver os responsáveis pelo ato. Nenhum parecia estar muito intimidado por ela, o que era completamente plausível. Tomou o seu lugar diante de seu entrevistador, fazendo as cortesias de sempre que havia aprendido pela etiqueta, embora parecesse estar sendo pouco valorizada. Após o silêncio curto, as perguntas de verdade começaram.
Onde você estava no momento em que o incêndio começou?
Deu de ombros, sem saber ao certo o que responder. O incêndio havia acontecido em uma noite e so soubera do ocorrido no outro dia, pela manhã, após o cansaço a vencer pelos estudos rigorosos da noite. "Na biblioteca, ou no jantar. Era uma semana em que precisava muito aprimorar os estudos e não me lembro de muito além das runas, feitiços e novas possibilidades de contato com os deuses." Foi sincera, embora soubesse que a resposta era vaga e não dava certeza de algo.
Você notou algo incomum ou fora do lugar antes do incêndio, seja no comportamento de outras pessoas ou no castelo de Wülfhere?
Sentiu uma vontade agonizante de rir, como se fosse mesmo se importar com Wülfhere. Seu contato com o castelo era o mínimo, assim como o que tinha com changelings. Precisou engolir em seco e desviou o olhar para a mesa para se concentrar e não dizer uma catástrofe. "Não. Não tenho contato nenhum com changelings." Foi o mais modesto que conseguiu soltar.
Você notou algum dos dragões agindo estranho no dia do incêndio?
"Deuses, não." Respondeu um pouco mais alerta, a ideia de estar tão próxima de dragões a apavorando. "Nunca cheguei perto de um e raramente os vejo nos céus... O que parece estar prestes a mudar." Os changelings vinham chegando aos poucos, ocupando um espaço que não era deles e tampouco das feras. Não eram bem-vindos, mas se via forçada a fingir costume em respeito às decisões do império.
Você teve algum sonho ou pressentimento estranho antes de saber do incêndio?
Negou com a cabeça algumas vezes, o ápice da anormalidade daquela semana sendo o cansaço pelos estudos e a ansiedade em prestar alguns testes não-oficiais. Quando estava no preparo para ser cobrada, parecia ainda pior. Havia perdido muitos fios de cabelos na escova de cerdas mascias pelo estresse e aquilo, sim, havia sido seu pressentimento de que ficaria insana a qualquer momento.
Você acha que o incêndio foi realmente um acidente, ou acredita que pode ter sido provocado por alguém? Quem se beneficiaria disso?
"Claro que pode ter sido um acidente. Aquele lugar não tem dragões que cospem fogo por todos os lados?" Retrucou, mais incomodada com a ideia de tê-los por perto agora do que qualquer outra coisa. Se havia sido um incêndio, somando peças óbvias do ocorrido, o mais correto parecia afirmar que os mesmos haviam sido os operários do incêndio. "Uthdon é o único lugar que pode se beneficiar com a destruição de qualquer um. Atacar o exército parece ser uma boa estratégia para enfraquecer o império." Outra coisa que era óbvia, uma inimizade de anos que parecia oscilar entre esfriar e esquentar.
Na sua opinião, quem estaria mais interessado no desaparecimento do Cálice dos Sonhos e na interrupção do acesso ao Sonhār?
Franziu os lábios, tendo um pouco mais de noção sobre o que era o Cálice e o que ele representava quando o sumiço foi declarado. "Não me importo." Admitiu. Na verdade, estava começando a se importar, mas estava cedo para que percebesse. "Se alguém quisesse enfraquecer o exército, tirar o contato com aquele outro lugar parece ser uma boa maneira de piorar as coisas. Se houver um suspeito, essa pode ser a possibilidade." Por um instante, seu seon surgiu ao seu lado tão pequeno quanto um ovo, brilhando em azul para alertá-la de que poderia acabar falando demais. Aquele contato entre eles era pessoal e particular, e Freyja sabia que sabia demais pelos anos em que passara apenas observando e instigando os outros.
Assim, esperou por qualquer outra pergunta, e quando foi dispensada sem receber tanta atenção extra, passou pela porta que já estava cheia de outros alunos esperando a própria vez para responder as perguntas que, na opinião dela, não levaria a conclusão alguma.