July 11, 2020: a new episode of The Anatomy Lesson at 11pm EST on CFRC 101.9 FM. In isolation, volume 18 - ‘we have to stop them early.’ Music by Pop. 1280, Yunclas, Tati au miel, False Moniker, Blackhoods, Caerulea + more. Tune in at 101.9 on your FM dial, stream at http://audio.cfrc.ca:8000/listen.pls or listen to a special archive here: https://www.mixcloud.com/cameronwillis1232/the-anatomy-lesson-july-11-2020/
Deathprod - “Occultation 3″ Occulting Disk (2019)
Mariachi - “Le Talon” Mariachi (2018)
Yunclas - “Phenomenology of Misery” A Train to Finland (2017)
LAL - “Losing Myself” Dark Beings (2019)
Blackhoods - “Constant Wrestle” Sunk (2013)
Gel Nails - “Princess Di (1961-1997)” Moth Mane Beauty Through Pain (2017)
Jim Haynes - “An Isolated Failure” Inconclusive (2019)
Tati au Miel - “surviving (part 1)” The Exorcism of Tania Daniel (2019)
False Moniker - “Recant/Disappear” Screen Memory (2020)
Ligature - “Heat Stroke” 245 Days in Hell (2019)
Pop. 1280 - “Monument” Way Station (2019)
Calhau!- “Uruburro” U (2016)
Caerulea - “II” Untitled (2018)
[2024] 24 de Abril | Ciclo de Concertos para Salas Vazias#19 | Calhau! | Dj Watteau | Apresentação da Zine - documento 'De Abril a Abril, manifestações mil' | SMUP - Parede
Soundtrack para uma quarentena #16: !Von Calhau! – Magneto Luminoso Condutor Sombra
Dizer que o “Magneto Luminoso Condutor Sombra” lançado em 2013 pelos !Von Calhau! é um álbum de música é um erro crasso, mas dizer que é uma “experiência” é erro maior ainda. Como tudo o que esta dupla faz, M.L.C.S. é a expressão de um ciclo, que tanto é musical, como visual, performático, e intelectual. E apesar disso, este disco assume-se como um mastodonte na música experimental portuguesa.
Os !Von Calhau! (ou Calhau!, ou Einstein Von Calhau, ou como queiram chamar) são uma dupla, originária do Porto, composta por Marta Von Calhau e Alves Von Calhau (no relation). São uma dupla vinda do universo das artes conceptuais e visuais, e isso nota-se. Este não é um álbum normal, e confio que muita gente que lê este blog não considerará isto música. O que é legítimo.
Mas como disse, chamar a este disco uma experiência, não só é parvo como é foleiro. Qualquer álbum que se preze saberá captar a atenção do ouvinte e levá-lo numa viagem, para o deixar sair no fim. Esta dupla, no entanto, diverte-se a não criar um final: muitas das suas obras, seja sobre a forma de performance, instalação, livro, ou disco, brincam com a ideia de ciclicidade universal e inevitável. A dupla exposição/zine “Crocodoxa / Dobrodilo”, em 2015, brinca com esse tema de forma especial, ao criar ciclos que se repetem ad infinitum (o crocodilo que chora lágrimas que são bebidas por um crocodilo que chora lágrimas que são bebidas etc etc).
Ora, o M.L.C.S. não tem princípio nem fim, não tem lado A nem B. Tem um lado com riscos, e outro sem ter riscos. As próprias músicas perdem-se nas repetições incessantes e hipnóticas: “MLCS”, a faixa que dá nome ao álbum, repete o nome do álbum até à exaustão. Apenas isso.
Outro tema comum a esta dupla são os jogos de palavras. No seu livro de 2011 “N N”, vê-se esse jogo levado ao extremo, com enormes palíndromes. São enormes poemas, seja qual for a ordem em que o texto é lido. E mesmo quando não são palíndromes, o jogo de palavras e sons é profundamente rico, cheio de referências aos trava-línguas da tradição portuguesa: Fantasma / fã de asma / no bar oco / do barroco / cede ilha /à cedilha. E essa ligação continua presente, já que neste livro, nas notas de rodapé que são elas próprias poemas, aparece já o título deste disco. E estes jogos são evidentes no disco, especialmente em faixas como “Eu-ropa”: E se sacar do eu / dou eu / à Europa / tirar a roupa do eu / dou eu / ai doeu (a forma escrita é apenas uma aproximação minha).
No entanto, para os !Von Calhau!, isso é só parte da receita, e é impossível destacar isso dos sons abstratos que permeiam as faixas e servem de plataforma de salto às linhas de spoken word de Marta Von Calhau. São sons fantasmagóricos. Alguns deles, abrasivos, que tiram qualquer um da sua área de conforto, principalmente quando adicionamos as vozes emocionais e cruas. Muitas vezes as faixas são despidas de qualquer ritmo sólido ou até melodia a que nos consigamos agarrar. Não é um álbum fácil de se ouvir, pelo contrário: é um álbum que não quer ser fácil.
É complicado também separar este conjunto de músicas do lado performativo do grupo, onde esses sons são criados como extensão do próprio corpo do performer: através de sintetizadores com elementos fotossensíveis, por exemplo, cria-se um jogo em que o próprio autor é som. E creio que neste álbum há algo assim, onde muitos dos sons são orgânicos, partindo provavelmente da voz (filtrada e sintetizada) de Alves Von Calhau.
Ainda assim, no meio disto tudo, M.L.C.S. consegue ter algo de belo. Agressivo e disruptivo, sem dúvida, mas é também daí que parte da beleza destas faixas. Não é um disco que eu recomendo facilmente, requer paciência, à-vontade com ambientes bizarros e alienígenas, e vontade de imersão em algo diferente. Mas oh, vale tanto a pena o esforço, porque é tanto mais que uma “experiência”. Dizer que o “Magneto Luminoso Condutor Sombra” lançado em 2013 pelos !Von Calhau! é um álbum de música é um erro crasso, mas dizer que é uma “experiência” é erro maior ainda.