Nada faz sentido, nunca. E hoje, faziam pouco mais de um ano e dois meses que Callil observou Lila escorrer pelos seus trêmulos e pálidos dedos, como se fosse água.
E, na verdade, Lila era como água, mesmo. Por vezes, uma breve garoa a confortar as maçãs do rosto. Noutras, como uma quente e amarga caneca de café numa segunda-feira. Horas, era como se pudesse ser toda a calma e suavidade das ondas em um entardecer preguiçoso de verão. Noutras, virava uma tempestade irremediável a inundar até mesmo o interior das paredes que Callil construiu ao seu redor ao longo de anos. E bem ali, naquele instante, Lila transformava-se em água ardente, descendo pela garganta de Callil como se quisesse rasgá-lo ao meio.
- Não posso mais continuar fazendo isso. - Murmurou para si mesmo.
Sentia vergonha. De todas as coisas, vergonha era a mais fácil de identificar em seus cansados olhos azuis piscina. A pele branca de seu rosto esquentou-se com o calor de Lila, colorindo-se de rosé.
- Vai mais uma, Ca??! - Disse seu velho amigo. E primo.
- Não, tô bem assim. - Acenou negativamente. O resto do que seu primo disse passou completamente dispercebido.
Só conseguia pensar em uma coisa, e em uma coisa somente: como não me afogar? Como, depois de tudo, não ia se afogar nas lágrimas que fez Lila chorar? Pois eram elas, elas mesmas, que escorriam pelas suas paredes e entranhas. Ele sabia. Ela não faria chover nele, jamais. Lillac era boa demais para fazê-lo sofrer. Toda aquela enchente ele mesmo havia causado. E, no oceano que eram os olhos marejados de Lila, ele sentia que iria sucumbir. Não havia saída, e nem ar!
- Por que não dá logo o braço à torcer?
- Volta logo pra ela. - Prosseguiu, com um tapinha no ombro direito, o que levou o olhar de Callil direto à garrafa de vodka barata pela metade, na mesa. - Você não é mais você há semanas. Meses!
Suspirou. Já não era mais uma opção. Lilac tinha partido, no momento em que ele decidiu mergulhar naquela profunda imensidão azul. E não foi porque quis. Lila foi embora depois que ele pediu para que fosse. A decisão nunca foi dela, não era tão simples voltar atrás.
- Eu acho que vou... - Sentiu um nó formar em sua garganta. Respirou fundo mais uma vez e olhou para seu primo, que parecia estar extremamente empolgado com as palavras que sairam de sua boca. Seu entusiasmo rapidamente fez com que suas sobrancelhas se curvassem, transformando sua feição em um enorme ponto de interrogação.
- Vai mesmo?! - Tiago sorriu - Que bom, primo! Vai te fazer tão bem.
Callil sorriu com o canto do lábio, afastando-se de Tiago. Pegou a garrafa de vodka que antes tinha parecido uma péssima ideia. Agora, não parecia mais.
- Acho que vou querer mais uma dose, sim.