Growing Pains: Cam Feng
Empresa não aguenta mais criar e escalar NPC pra tapar buraco de personagem que desiste de plot, entenda o caso. Taiwan Line, vocês me pagam.
Taipei, Taiwan. Hoje.
Ele não faz a menor ideia do que se passa na cabeça da garota perambulando pela sala, mas a forma agressiva com que ela recolhe as próprias roupas do chão e não se preocupa em lançar um só olhar que seja em sua direção, o faz desconfiar que talvez ela esteja brava com ele.
Brava porque ele não a quis… Pelo menos não do jeito que ela queria.
— Eu não acho divertido quando a gente faz mais do que beijar. — Ele tenta ser sincero com ela, e leva muito dele confessar aquilo, tanto que ele se sente envergonhado; prestes a explodir de ansiedade com a possibilidade dela ter se sentido ofendida por algo que vem dele. — Eu gosto de você, acho você bonita e adoro ouvir você falar sobre o seu dia, e eu também gosto de te tocar mas…
— Não suficiente pra me foder?
Por que tudo precisava ser sempre resumido a quanto ele deveria gostar de fazer aquilo? Por que tudo girava em torno do quanto ele deveria fazer aquilo, pra começo de conversa?
— Eu não gosto, e não gosto só com você. Eu nunca gostei.
Ele se sai melhor em conversas, gosta de se dedicar a outras formas de agradar. Sempre se sente oprimido e desconfortável quando algo o direciona pra parte que ele precisa ficar nu e fingir que quer estar ali, exposto e pegajoso daquele jeito.
Por que eles não podiam só falar sobre a vida e das coisas que eles gostavam um sobre o outro?
— Cam, isso não é motivo. — A mais baixa fala depois de um tempo em silêncio contemplando as palavras dele. — Eu quero ter um namorado, e de preferência que ele seja normal.
Ela até pensa que não está sendo justa e que ele não merece aquilo, mas se sente humilhada demais depois dele ter surtado quando ela o tocou dentro da calça e simplesmente não se importa mais com tudo que sai por sua boca sem freio algum. Sem se importar com como aquilo pode afetar ele.
— E você não é. Nunca vai ser. Nunca foi.
Era mais do que ele não gostar de foder, mais do que ser o garoto mais reservado e tímido entre os outros na idade dele. Era sobre ele ser um órfão naquele país e aquilo dizer mais sobre ele do que qualquer outra coisa.
Como sua mãe tinha sido um dos primeiros exemplos das consequências de se envolver com pessoas estrangeiras pouco depois dele nascer, quando foi executada em praça pública só uns dias depois de dar a luz a ele. Como todo mundo conhecia a história da garota que tinha imigrado pra aprender mais sobre outro país e se casou com um cidadão que estava longe de ser asiático e ainda mais longe do adequado pra ela, se fossem considerar todas as condições de casamento e aliança entre famílias ali, impostas pelo governo chinês.
Ela tinha sido a garota que foi deportada às pressas, torturada por meses, e a sentença mais dolorosa não era perder a própria vida sendo enforcada em plena luz do dia, mas sim morrer sabendo que sua única prole ia ser pra sempre um produto. Uma herança maldita. O preço que ela ia pagar por ter sido desobediente e achado que podia burlar a lei.
O menor dos problemas de Cam Feng era ser um adolescente órfão que detestava a ideia de ter sexo com alguém; antes seus pais tivessem morrido por causa de uma revolução. Sua mãe podia ter sido muitas coisas, mas escolheu só se apaixonar por alguém que ela não deveria.
— Ela ficou chateada, tão chateada que vi uma veia dela subir… Bem aqui. — Cam contava de forma resumida para a instrutora do orfanato, depois de retornar da escola quase morrendo pra que aquele dia chegasse ao fim logo, apontando um dedo para a testa da mulher mais velha. — E eu fiquei com tanto medo dela explodir, tipo, como eu ia explicar pras pessoas que minha ex namorada explodiu por que meu pênis não ficou duro? A senhora tem noção?
— Ah, agora eu com certeza tenho. — E nem é porque ela quer.
— Eu vou tentar me desculpar com ela pela manhã. — Cam solta um suspiro pendurando as mãos nos bolsos da calça. — Talvez eu devesse tentar… Sabe, ter a coisa com ela. Talvez deixe ela mais feliz.
— Ela não deveria ficar feliz só namorando você? Ainda mais agora que ela sabe como você se sente de verdade sobre a coisa? — A outra o questiona, segurando seu braço quando um bando de criancinhas passam correndo por eles. Mais do que ela gostaria de ter debaixo daquele teto. — Quão superficial essa menina é?
— Superficial ou não, era a única que eu tinha. — E como tinha sido DIFÍCIL. — Não vou me dar ao luxo de não tentar ter uma vida com a formatura batendo na porta.
Porque assim que lhe entregassem o canudo naquela escola compacta e limitada que era o anexo de magia e bruxaria de Maejig Senteo em sua versão taiwanesa e restrita, nada mais ia ser o mesmo. Ele sabia que não ia ser o mesmo. Os Ministeriais iam vir, lhe avisar que ele era propriedade deles e que agora ele precisava começar a prestar serviços pro governo.
Sua vida ia se resumir a sobreviver ao treinamento no Quartel dos aurores, torcer pra conseguir subir de cargo suficiente pra não ter que atacar seu próprio povo no meio da rua durante os levantes, e ser alguém — qualquer pessoa — na sua condição de órfão, pobre e fodido.
— A senhora sabe o que? Eu deveria ter me esforçado mais no Quadribol. Eles com certeza iam me fazer aquela proposta que eles sempre fazem pra esportistas bons, sobre eu mentir minha nacionalidade e nunca mais questionar o governo. Eu seria livre pra ser e falar e me relacionar com quem eu quisesse, viver onde eu achasse melhor e nunca mais passar fome ou medo na vida. — Parecia até um sonho, ele bem sabia que metade da seleção nacional chinesa era formada por pessoas de Taiwan e Hong Kong, que se declararam, claro, como chineses. — Só ia ter que renegar a ilha, e fingir que minha língua mãe é mandarim e não cantonês ou inglês.
— Então ia perder toda sua essência só pra ter uma casa e poder sair com garotas estrangeiras, como uma pessoa vazia. — O tom de julgamento da mais velha é tão afiado que quase o corta quando ela o belisca com força, como forma de repreendê-lo. — Só pessoas desesperadas renegam a própria nação, e é por isso que a nação os perdoa e acolhe.
Cam não tem um argumento que consiga derrubar o dela, ele até tenta pensar em um, enquanto segura o braço machucado e se afasta dela, indo na direção do próprio quarto agora com o toque de recolher tão próximo de tocar. Está quase aceitando que vai dormir mudo e acordar calado depois de levar uma daquelas, quando a instrutora lhe oferece um sorriso pequeno.
— Eu sinto que você vai ser mais útil aqui, mesmo que depois vá para Xangai ser um soldado deles. — Ela diz, inclinando a cabeça para o lado. — Você é bom demais pra renegar quem você é por liberdade. Você vai fazer ela florescer aqui, depois que sua mãe a plantou.
Depois que a mãe dele o plantou.







