Capítulo 39 - Destruída.
Encontrei com Candie na porta, ela batia os dedos no batente enquanto falava rápido no telefone. Candie: Eu não pedi por isso, foi tu que veio com esse papo. - Quando me viu, desligou o telefone na hora, sem nem se despedir. Eu: Alguém irritante? - Eu apontei pro celular. Candie: Alguém não importante. - Ela me olhou por alguns segundos. - Tu demorou, achei que tinha ido dar uma rapidinha com meu irmão, já arrumei outra coisa pra fazer. A gente se esbarra. - Candie saiu andando, sem nem me dar a chance de responder. Eu voltei pelo corredor, rindo por achar que ela ia realmente dar uma chance de gostar de mim. Quando passei pela cozinha avistei Alden mexendo em alguma coisa na geladeira e resmungando. Eu: Que foi que cê tá reclamando aí? - Eu perguntei enquanto me aproximava. Alden: Ah, oi Ashy, pensei que já tinha saído. - Ele virou para a minha direção. Eu: Sua irmã resolveu ter planos melhores. - Eu ri. - Mas enquanto a você, senhor resmungão? Alden: Toda vez que Candie vem aqui ela come toda a minha comida, depois sai sem nem se despedir. - Ele bufou. Eu: HAHAHAHA! Sério? HAHAHAHAHA. Alden: Tu tá rindo, é? - Ele me agarrou e começou a fazer cócegas. Eu: Para! HAHAHAH. Você sabe… Como isso… Dói. - Eu respirava com dificuldade. Alden: Tudo bem, tudo bem. - Ele parou as cócegas mas continuou me encarando. Seu sorriso veio se formando de um canto da boca até o outro, fazendo com eu sorrisse também. O beijei delicadamente enquanto sentia seu sorriso aumentando mais e mais, sincronizado com o meu. *** Repassei todo meu fim-de-semana mais de 30 vezes, como um flashback assustador que nunca acabava. Alden prometeu que Ben voltaria. Eu me arrependi por ter ido dormir, me arrependi de cada segundo do meu domingo. Na segunda-feira eu não estava melhor, sufocada de arrependimento. A primeira aula passou rápido, contando que toda vez que o professor virava eu via o Chuck com uma faca. O simples fato de estar tocando no nome dele me joga um arrepio insano por todo corpo. Na segunda aula, recebi uma sms de Lori dizendo que eu me juntasse a ela. A ignorei pacientemente me virando para Chuck que me encarava com raiva… Ops, eu quis dizer, o professor explicando uma coisa que eu nunca ia precisar colocar em prática na vida. *** Lori: Você perdeu a noção do perigo, tá pensando que pode me ignorar assim? - Ela bufou no telefone. Eu: Não posso perder nenhuma aula, você sabe disso. - Eu bufei de volta. Lori: Vai cagar então, caralho. - Ela desligou. Eu ri sozinha, ia encarar a fera mais tarde. Avistei Gary me observando de longe, refletindo minha tristeza em seu próprio olhar. Depois que comecei a passar mais tempo com Alden, Gary e eu nos afastamos. Ele andava com um bando de pessoas estranhas, todas mal-encaradas. Para a minha surpresa, ele estava sozinho naquele momento, sustentei seu olhar por alguns lentos segundos. Então algo me empurrou e eu perdi o contato com Gary. Ouvi um pedido de desculpas sufocado pelas outras vozes no corredor e então eu me virei, prestando atenção na atmosfera a minha volta. Quem havia me empurrado era Cal, ele me cutucou no ombro timidamente, como para chamar minha atenção. Cal: Ashy? Tudo bem contigo? - Seu olhar transmitia perplexidade e hesitação. Eu: Ãhn… Tudo. - Uma mentira não sucedida. Cal: Fiquei preocupado, tu parecia perdida. - Ele sorriu com pena. Eu sorri de volta, me esforçando para parecer verdadeiro. Cal: Bem, vou nessa. Qualquer coisa tu chama. - Ele se afastou. Me senti completamente burra. O que tinha de errado comigo? Por que que eu tinha que ficar mentindo pra todo mundo, por que as coisas não poderiam estar bem comigo? Uma onda de raiva subiu por mim, fazendo com que eu atirasse meu rosto em minhas mãos. Mas as mãos não eram minhas, levantei o olhar e encontrei Gary, me olhando preocupadamente. Gary: Vi tu enterrando o rosto nas mãos a manhã inteira, não aguento mais te ver assim. Eu: O quê? - O olhei, confusa. Era a primeira vez que Gary falava comigo depois de muito tempo, fiquei surpresa com a angústia presente em sua voz. Gary: Tu não deve ter percebido. - Ele me olhou tristemente. - Tava preocupado contigo, agora vejo que tá fazendo isso porque está frustada, o que houve? Seus olhos estavam arregalados num tom de azul brilhante como uma lagoa raza. Continuei olhando para Gary, sem conseguir dizer nada. Ele não parecia querer uma resposta, só uma aprovação. Afirmei com a cabeça e ele me abraçou. Gary: Senti tanto sua falta. - Ele suspirou no meu cabelo e eu pude sentir seu hálito de pasta de dente de menta balançar algumas mechas negras. Eu: Não se afaste de novo. - Eu supliquei. Gary: Não vou. Eu encaixei meu rosto na curva de seu ombro e respirei fundo, inspirando seu cheiro de colônia e grama. *** Depois da escola, me apressei para voltar para casa, andando rapidamente pelo caminho. Abri a porta da frente, só pensava em ir para o meu quarto. Mas tinham pessoas na sala, Lori e Derek. Eles estavam se beijando, ela em cima dele no sofá. Não era possível! Corri em direção ao meu quarto enquanto Derek vinha atrás gritando algo do tipo “não é isso que tu tá pensando”. Desisti de correr, me joguei num quarto qualquer, tranquei a porta e me afundei um lágrimas. Não! Não! Não! Não não e não! Aquilo não podia estar acontecendo! Eu gritei e por um instante parecia que meu torpor tinha ido embora. Forcei minha cabeça entre meus joelhos enquanto tentava afastar o som de qualquer desculpa que Derek estivesse gritando para mim lá fora. A palavra “não” ficou circulando na minha cabeça e acabei dormindo. Acordei mais tarde, toda enrolada no chão do quarto, úmida de suor. O ar estava pesado e aquele lugar precisava de uma limpeza. Estiquei meus braços e bati em uma caixa, que caiu com um baque surdo. Algo se movimentou atrás da porta mas se era Derek eu não soube. Abri a caixa com cuidado e achei um velho álbum de família com “memórias do verão” escrito a mão na capa, a letra com certeza era de Derek. Folheei um pouco o álbum com fotos dele na piscina, parecia ter 11 pra 12 anos. Era uns dos últimos verões que tínhamos passado juntos. Uma foto me chamou atenção. Estávamos eu e ele, abraçados. Me lembro que era o sítio da família e foi a mãe dele que tinha tirado. “Primeiro e único verdadeiro amor da minha vida” dizia a legenda. Senti lágrimas sufocarem meus pensamentos e desejei poder voltar aquele verão em que tudo estava bem, eu e Derek sempre dizíamos que com a ajuda um do outro conseguiríamos passar por tudo. Várias outras fotos nossas estavam coladas no álbum, mas todas rabiscadas e as legendas apagadas. Me perguntei porque só aquela primeira foto tinha sido poupada da raiva de Derek por mim, por ter o ferrado com a família toda. Passei a mão para tirar a poeira de outro álbum e o abri, temendo o que viria. Era o álbum de quando tínhamos 13 anos, estava repleto de fotos de nós dois mas todas estavam intocadas. Eu tinha certeza que ele não tinha mexido nesse álbum desde daquele verão, estava no fundo da caixa. Decidi guardar toda aquela bagunça mas fiz questão de rasgar a página da foto que havia visto primeiro e dobrá-la com cuidado. Guardei no bolso do moletom pretendendo deixar no meu quarto mais tarde. *** Meus olhos estavam pesados enquanto andava rápido pela rua da casa de Leo. Quando eu saí do tal quarto cheio de memórias em fotos, não tinha ninguém em casa. Imaginei que Lori tinha feito Derek me deixar em paz para ter meu tempo. Ou talvez eles que queriam ficar em paz. Foda-se, eu não ligo. Estava desesperada em busca da companhia de Leo, talvez ele pudesse me entender. Quando avistei a casa dele, quase desisti de entrar. As luzes estavam acesas e uma música romântica tocava alta. Fiquei com medo de ter alguma garota lá dentro. Repassei minhas opções em mente. Poderia entrar e acabar com todo e qualquer clima, poderia vagar pela rua, poderia parar e comer alguma coisa - meu estômago roncou.- ou poderia simplesmente ir pra casa de Alden. Alden. Era ele o dono da voz vindo da casa de Leo. Ele estava rindo. Me aproximei da janela mais próxima e fiquei aliviada quando percebi que não poderia ser vista ali. Alden estava sentado no sofá só de calça. Primeiramente eu não consegui entender mas quando olhei de verdade dentro da casa meus olhos se encheram de lágrimas novamente e a raiva subiu à minha cabeça. Tinha uma garota na frente dele, dançando… Talvez para ele. Não fiquei ali para descobrir o que tava acontecendo, me sentia tola. Primeiro, Derek tinha ficado com Lori. Não que eu não apoiasse os dois, mas poxa, não naquela hora. Não sei o que tinha dado em mim mas eu não gostei nada de ter visto Derek e Lori. Agora pego o Alden com uma garota em cima dele. Eu me sentia puramente tola. Peguei meu celular e disquei o número de Leo quase quebrando o visor. Ele me atendeu um pouco depois mas não consegui escutar quase nada. Leo: Alô? Eu: Leo? Leo: Oi Ashy! Onde cê tá, velho? Fiquei preocupado contigo. - Ele tentou gritar no meio do barulho. Eu: Não to te escutando direito! Sai da onde você estiver. - Eu gritei de volta. Leo: Melhorou? - A voz dele ficou mais clara. Eu: Muito. Leo: O que aconteceu? Eu: Tava na sua casa. - Eu andava e chutava as pedrinhas em meu caminho. Leo: E aí, como foi a surpresa? - Senti o sorriso na voz dele. Eu: Do que cê tá falando? - Eu parei, confusa. Leo: Tu não encontro Alden lá? - Ele também ficou confuso. Eu: Sim mas queria não ter encontrado. - Voltei a andar, chutando as pedras com mais força agora. Leo: Por quê? Eu: Porque ele estava me traindo Leo, e ainda por cima dentro da sua casa. Leo: Como assim? Do que tu tá falando? Ele disse que queria minha casa emprestada pra fazer uma surpresa pra ti. - Ele falou rápido. Eu: Parece que não era bem pra mim a surpresa. - Minhas lágrimas escorriam violentamente pelo meu rosto e eu decidi desligar. - Tenho que ir Leo. A gente se fala amanhã? Leo: Pode crer. E vê se me explica isso direito depois. Eu: Beleza. Depois de desligar e guardar o celular no bolso eu simplesmente não sabia o que fazer, só queria correr e me esconder em algum lugar. E foi o que eu fiz.
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