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Entonces el dios acarició al conejito y le dijo:. -Tu no serás más que un conejito, pero todo el mundo🌍, Para siempre, se ha de acordar de ti./ y lo levanto alto de aqui, muy alto, hasta la luna, donde quedó estampada la figura de el conejo. Después el dios lo bajo a la tierra y le dijo:. -Ahi tienes tú retrato en la luz, para todos los hombre y para todos los tiempos ⏲🕢
Capítulo 100
rewatching the 100 and sobbing quietly bc you literally SEE bellamy falling for clarke
Capítulo C
2025
‘Para morrer, basta estar vivo’. Ela já havia escutado aquela frase mais de mil vezes ao longo de seus anos de vida, mas só no auge de seus trinta e dois anos que ela parara pra pensar no significado daquilo.
Daisy nunca havia sido uma pessoa religiosa, mas por algum motivo havia alguns dias que ela vinha se perguntando o que acontecia após a morte. Será que você sabia que estava morto? Será que havia mesmo um Deus? Será que havia Céu e Inferno?
A morte é a única certeza que temos, contanto o que vem depois dela é um completo mistério.
Você nunca está preparado para esse tipo de momento. Tem gente que diz ‘eu não temo a morte’, mas é mentira... Teme sim. Porque faz parte do ser humano temer aquilo que desconhece e afinal, por que não deveria temer? Se nos dias atuais tememos sair sozinhos de casa quando está escuro, por que não deveríamos temer a morte? O momento em que tudo se esvai, o momento em que tudo aquilo que era real passa a ficar fora de seu alcance...
Parece besteira a princípio, perder tempo pensando nesse tipo de coisa. Daisy imaginava que ela não fazia muito aquilo – pensar na morte – porque não havia perdido muitas pessoas ao longo de sua vida. Ela havia perdido seu avô sete anos atrás e haviam perdido o avô de Harry, pouco depois de seu casamento.
Daisy nunca se esqueceria de Elizabeth naquele dia. Ereta, rígida, com o rosto sério e firme, mas seus olhos estavam frágeis. Ela tomou todo o cuidado para não desabar e Daisy viu que pela primeira vez, Elizabeth estava tendo dificuldade de se manter no controle e não mostrar ao mundo suas emoções.
Ela não viu apenas a Rainha de luto pela perda de seu Consorte, ela viu a mulher que estava enterrando o amor de sua vida. O homem que vinha estando com ela há maior parte de sua vida!
Ela era extremamente forte, possivelmente, a mais forte de todos que estavam ali e ainda assim, ela era à com o coração mais apertado, lágrimas não derramadas e tristeza. Daisy não podia acreditar na forma com que ela lidou com aquilo, de como Elizabeth manteve-se firme do início ao fim. Mas ela tinha certeza que na privacidade de seus aposentos, após finalmente ter sido deixada em paz – a paz da solidão – ela desabara.
Desabara porque ninguém era de ferro. Desabara porque ninguém era invencível. Desabara porque por mais que as pessoas quisessem, não havia alternativa ou escapatória da morte. Ela viria e um dia pegaria a todos – porque, além de tudo, ninguém é imortal.
Era madrugada de Abril quando tudo aconteceu. Quando a Grã-Bretanha parou e quando os Mountbatten-Windsor se viram numa encruzilhada.
Não se tratava apenas da morte e da perda de um membro da família amado por eles – talvez se fossem uma família comum, sim, mas eles não eram comuns.
Aquela noite foi marcada pela dor e pela perda. A perda de uma avó, de uma mãe, de uma amiga... De uma Rainha. A perda da mulher cujo Reinado era o mais longo da história
Se ela soubesse o motivo pelo qual o telefone tocava, talvez tivesse optado por ignorar. Optaria por continuar a dormir, porque a cama era quente e os braços, de seu marido, confortáveis. Porém o toque insistente e alto começou a incomodar não só ela, mas como também Harry.
- Daisy... Seu celular. – Foi o que ele murmurou meio grogue de sono.
Ela gemeu e escapou de seu aperto, escutando-o bocejar e virar para o outro lado querendo voltar a dormir. O barulho dos roncos a informaram que ele obtivera sucesso.
- Alô? – Atendeu em meio a um bocejo, sem sequer dar-se ao trabalho de checar quem a ligava àquela hora da madrugada.
Era Kate e ela tinha notícias ruins... Notícias que abalariam o Reino Unido para sempre.
- Ela... Ela está morta. A vovó está morta. – Kate disse em tom lento e contido. – Foi encontrada pela enfermeira, ela já não respirava. Tentaram ressuscitá-la, mas nada.
Daisy sabia que Kate havia dito mais, ela havia os instruído a deixarem as crianças na cama e se apressarem para o Palácio de Buckingham, contudo, não havia muitas lembranças fixas daquela ligação, ela nem se lembrava bem do que Kate falara. A única coisa que tinha em mente era: Elizabeth estava morta. A avó de seu marido estava morta. A mulher que vinha sendo uma mentora, um porto seguro para a família e uma amiga para Daisy, estava morta.
A Rainha está morta!
Seria anunciado naquela tarde, mais especificamente a três e quarenta e cinco da tarde, em 20 de Abril de 2025, quando fizesse, exatas doze horas de sua morte, porque Daisy, apesar de não se lembrar muito do que Kate dissera, se lembrava das horas que o médico estimou da morte de Elizabeth.
- Em torno de três e quarenta e cinco da matina.
E seria dor... Seria uma dor inimaginável, uma dor que as pessoas nunca pensaram que poderiam enfrentar – e quando Daisy falava de dor, ela não dizia a dor da família. Ela dizia a dor de um povo, um povo que amava e idolatrava sua Mãe!
Porém, era com a dor de outra pessoa que ela tinha que lidar agora.
- Querido... – Disse sentando-se ao lado dele, na ponta da cama. – Meu bem, acorde.
Teve que tomar um monte de pausas para respirar fundo e repetir a si mesma de que ‘aquilo era necessário’ para ter coragem de proferir aquilo a Harry. Porque sabia que o destruiria, o deixaria devastado e ela sabia que seu marido não lidava bem com perdas – se é que alguém lidava.
- O que foi? Você está bem? – Ele perguntou sonolento, ainda com os olhos semicerrados.
Daisy não respondeu. Mordendo os lábios nervosamente, ela se inclinou acendendo ao abajur para que pudesse vê-lo e para que igualmente Harry a visse. Para que não restassem dúvidas a ele de que ela estava ali, de que ela não estava indo a lugar algum e que passariam por aquilo, juntos.
- Daisy, você está pálida. Está passando mal? Aconteceu alguma coisa com as crianças? – Indagou ele, colocando-se sentado.
Daisy negou com a cabeça, engolindo em seco, porque ainda não havia encontrado as palavras. Aquilo o machucaria tanto, tanto... Ela odiava ter que fazer aquilo.
Deus... Ela nunca se esqueceria do rosto dele.
- Harry, sua avó faleceu.
-x-
Dentro do carro eles estavam em silêncio, mas Harry permaneceu segurando a sua mão o tempo todo e Daisy permitiu que ele recostasse a cabeça no ombro dela. Ele não havia chorado ainda, mas os olhos estavam marejados. Ela sabia que ele estava tentando a todo custo se segurar, porque mesmo depois de oito anos juntos, ele ainda achava que não devia chorar na sua frente – não importa quantas vezes Daisy tivesse feito aquilo, ele ainda dificilmente chorava.
Ela odiava que Harry guardasse as coisas para si porque ele era uma pessoa emocional. Por mais que ele não admitisse e revirasse os olhos, ele era um ser humano de profunda sensibilidade, capaz de sentir pelos outros. Ela sabia que ele tentava se manter forte porque em Buckingham o mundo já estava, provavelmente, caindo e alguém deveria se manter no controle.
Daisy queria dizer a ele que estavam sozinhos e que ele não devia temer chorar na frente dela. Que aquilo não o faria mais fraco, não o faria menos seu marido, mas ela não conseguia, porque se ele não chorava, ela também não iria chorar – e se falasse qualquer coisa, provavelmente cairia em lágrimas.
Ele não tinha que consolá-la naquele momento e Daisy sabia, também, que era o que ele faria.
- Eu... Eu pensei que ela sairia dessa. – Escutou a voz fraca e rouca de Harry. – Pensei que ela aguentaria mais alguns anos.
Daisy ficou surpresa que ele havia sido o único a quebrar o silêncio, mas viu aquilo como um sinal – ele precisava conversar sobre aquilo.
- Ah querido, ela estava tão doente, passado dos cem anos... – Murmurou tocando o joelho de Harry. – Todos nós tínhamos esperanças de que ela fosse acabar melhorando.
Harry não olhava para ela. Ele mantinha os olhos na janela, observando as ruas paradas de Londres. Era quase cinco da manhã, mas estava escuro, como se não passasse das dez.
- Eu não acredito que ela se foi... – Murmurou. – É tão difícil. Digo, eu nunca parei pra pensar numa vida sem minha avó. Ela era mais forte do que todos nós juntos.
- Ela era. – Concordou a e então tocou o rosto de Harry, fazendo-o enfim encará-la. Como suspeitava os olhos estavam marejados e ele tentou outra vez, virar e continuar a olhar para a paisagem escura que a janela lhe oferecia, mas Daisy não deixou. – É normal se sentir assim. Você a amava, nós a amávamos. Não tem que ter vergonha de chorar, isso não te diminui.
- Eu só acho que se eu começar, eu não vou parar.
- Então não pare. Chore o quanto precisar. – Apontou para seu ombro. – Deite aqui e feche os olhos... Me dê sua mão porque vamos passar por isso, juntos.
-x-
O clima em Buckingham era exatamente da forma que ela esperava. Triste, pesado e melancólico, bem como o dia que estava do lado de fora das enormes paredes. O céu cinza e cheio de nuvens parecia ser um presságio para o povo britânico que há quase um ano vinha sendo informado pela mídia, a luta da Rainha por sua vida.
Havia muito tempo desde que Daisy vira todos os Windsor reunidos, mas diante da atual situação presumiu que não houvesse opção. Aquele era um dia de luto, um dia que eles chorariam a morte e a perda de Elizabeth, o dia que eles teriam para sentir sua dor em paz, até que chegasse a hora de tomar uma decisão...
Quem subiria ao trono.
Naturalmente, o dever cabia a seu sogro, Charles. Ele era o primogênito de Elizabeth e era a ele que se curvaram os agregados a família, quando chegaram ao Buckingham. Era ele, que os empregados chamavam agora de Sua Majestade.
Era suposto que Charles devia ser Rei...
Era concreto que o povo queria que William fosse Rei...
Era suposto que os dois deviam chegar a um consenso...
Era concreto que nenhum deles sabia o que fazer.
- Eu também estou me escondendo... – Escutou a voz conhecida de Kate e Daisy desviou os olhos da janela, pela primeira vez em quase uma hora. – O clima por trás daquelas portas está horrível.
Daisy sorriu fraco e bateu no lugar ao seu lado, indicando para que Kate sentasse-se. A mais velha, ao seu lado, soltou um longo suspiro e cruzou as pernas, afundando no sofá macio da sala de desenho – uma das muitas salas disponíveis do Palácio de Buckingham.
Daisy olhou para a mulher que tantos anos atrás, ela costumava admirar em capas de revista e imitar um penteado. Havia, com o tempo, deixado de ser surreal o fato de que ela, Daisy, estava ali, que ela era parte daquele meio agora, que ela era quem era e ponto final.
Ela desde o princípio soube que a pessoa que mais poderia compreendê-la, que poderia ser uma verdadeira mentora ali dentro era Kate. Ela era a graça e a perfeição em pessoa e Daisy tinha muito orgulho em dizer que eram amigas – grandes amigas. As duas se apoiaram e cuidaram da outra muitas vezes, se protegeram e se tornaram irmãs para que em situações como aquela, uma pudesse se apoiar na outra.
Infelizmente, quando a hora chegava, parecia que ninguém tinha o que dizer e o que fazer.
- Como você se sente? – Decidiu quebrar o silêncio.
Kate riu pelo nariz e passou as mãos pelo rosto cansado e aos poucos vencidos pelo tempo. Ela já tinha rugas nos olhos e precisava cobrir seu rosto de maquiagem para disfarçar as linhas de expressão deixadas pelo tempo, contudo era indiscutível que ela continuava maravilhosa – se não até mais.
- Eu não sei como me sinto. – Disse ela com honestidade. – Todo mundo lá dentro está chorando a perda de uma mãe e uma avó e acredite em mim, eu me sinto mal. Ela era querida e amada por todos, inclusive eu, mas no momento eu só consigo pensar... Na profundidade da coisa.
Daisy acenou com a cabeça, entendendo o significado de ‘a profundidade da coisa’. Kate estava pensando no quanto aquela morte afetaria a vida deles, o quanto ia mudar e por último e mais importante: Quem assumiria a coroa.
Honestamente, nas atuais circunstâncias, assumir a coroa não era algo para se vangloriar. Não era algo almejado por William e Charles que os levaria a uma briga por quem deveria usá-la...
Desde que Elizabeth se recolheu num repouso absoluto em Windsor, as coisas não andavam bem para a monarquia. O país andava mal e o povo já abalado com o atual estado de saúde de sua líder – somada a fúria ao fato de que talvez Charles assumisse o reinado e a queda na bolsa de valores, desvalorizando a libra 30% de seu antigo valor – encontraram no meio daquela bagunça, como culpados, os membros da Família Real. Atualmente, na Grã-Bretanha, 43% das pessoas se mostravam insatisfeitas com a Monarquia-Parlamentar e eram a favor da instalação de uma república federativa em cada país.
A verdade é que não era culpa de ninguém... Não era culpa que a Europa estivesse em crise, não era culpa de que Elizabeth estivesse indisposta para cumprir seu dever como Rainha, mas firme em não se abster do posto. Não era culpa da viagem às Bermudas que Harry e Daisy fizeram. Não era culpa da reforma no apartamento de Kate ou do carro novo de William. Não era culpa dos colégios caros. Não era culpa do Parlamento. Não era culpa do Primeiro Ministro. Não era culpa de ninguém, mas as pessoas não aceitavam isso...
Algumas coisas simplesmente estão fora de controle humano. Não cabe ao homem prever a morte ou a quebra na bolsa de valores, tal como não cabe ao homem apontar o dedo e escolher ‘O culpado é você. Conserte isso ou suma’.
As coisas não estavam melhores por trás daqueles muros altos, o mundo não era mais bonito ali. Eles ainda tinham problemas, eles ainda tinham preocupações e ainda tinha uma muito possível terceira guerra mundial a caminho.
- E você? Como se sente? – Kate perguntou baixinho.
Daisy encolheu os ombros e assim como ela, soltou um longo suspiro. Também estava preocupada... Estava preocupada com o tanto que aquela decisão poderia afetar sua vida, suas crianças, seu marido.
Ela estava preocupada com aquelas pessoas que eram sua família. Estava preocupada com o futuro Rei – quer fosse Charles ou quer fosse William. Daisy honestamente não sabia como se sentia naquele momento, ela não sabia o que estava sentido. Parecia uma bagunça de sentimentos.
- É... Eu entendi. – Foi o que Kate disse com suavidade.
-x-
Ela ligou para as crianças, mais tarde naquele mesmo dia. Aqueceu seu coração e a fez sorrir, a pequena algazarra que eles fizeram, lutando entre si para disputar quem atenderia ao telefone primeiro. Sua mãe que havia se prontificado a ficar no Kensington com eles, como uma boa avó que comete favoritismos com a única neta ruiva, Lily tomou o telefone das mãos de Benjamin, seu caçula, e o passou para Rose.
‘Ela é a mais velha!’ Foi o argumento.
Sua mais velha, como Daisy esperava, bombardeou-a de perguntas. Daisy sentiu a respiração acelerada de Rose e aproveitou para fazer exercícios de respiração e concentração com a mesma – uma dica do psicólogo, que identificou há dois, anos atrás, um comportamento ansioso e hiperativo em Rose... Herança de Harry, gene Spencer dizia ele.
Em meio a sua ansiedade, ela tropeçava nas palavras.
- M-Mamãe, q-quando você e o papai voltam?
- Rose... Formule sua frase mentalmente e então repita para mim, por favor.
Rose bufou um pouco contrariada e Daisy sorriu. Seus olhos se encheram em lágrimas de saudade... Ela queria suas crianças.
- Mamãe, quando você e o papai voltam?
- Melhor. – Elogiou-a. – Nós vamos chegar em casa hoje ainda, mas a altura do horário, vocês deverão estar na cama.
- Não podemos te esperar? – Replicou ela um pouco aborrecida.
- Não querida, será muito tarde. – Disse Daisy num suspiro. – Eu não tenho muito tempo Rosie, pode passar para seus irmãos?
- Qual deles?
- Jack, por favor.
Ela então passou para seu filho do meio, o gêmeo mais velho. Jack, como ele preferia ser chamado, parecia muito irritado por terem saído sem se despedir e alegava estar chateado com o pai porque ele havia prometido que o levaria a equitação naquele dia.
-... Eu sei que você queria que o papai lhe assistisse nas aulas, mas houve um imprevisto muito sério. Nós estamos em Londres, em Buckingham e enquanto eu não estou aí, preciso que você cuide de tudo ok?
- Eu estou no comando então?
- A vovó está no comando, mas você está no subcomando.
- Mas é sempre a Rose que fica no subcomando...
- Bem, hoje é você.
- Legal! Legal, legal, legal! – Vibrou Jack, fazendo Daisy sorrir. – Mamãe, já que eu estou no subcomando, será que hoje poderíamos tomar sorvete na sobremesa?
- Por que não?
- Mãe você é a melhor!
Daisy mordeu os lábios nervosamente e riu da euforia do filho, pedindo então para que ele passasse para o terceiro e último. Seu apegado e carinhoso, Benjamin.
- Mamãe, eu estou com saudades.
- Eu também estou morrendo de saudades.
- Eu fiz um desenho pra você. É a nossa família... Você, o papai, a Rosie, Jacques, eu e o Amendoim.
Ela riu quando seu filho citou o Golden Retriever que eles haviam agregado a família há pouco tempo, depois de Wonka morrer. Parecia que as crianças nunca parariam de chorar e lamentar a morte do idoso cãozinho, até que certo dia Harry apareceu com um filhote nos braços e eles o chamaram de Amendoim porque ele havia roubado os amendoins da tigela de Jack.
-... Eu quero que você seja um bom menino, obedeça à vovó, escove os dentes, direitinho e dê uma bombada antes de dormir para... Você sabe, evitar infortúnios acontecimentos.
- Mamãe...
- Sim?
- Você ficaria muito triste se eu morresse e fosse morar no céu com o vovô Philip, não é?
- Muito. A mamãe não consegue viver sem você.
- O papai está triste por causa da vovó?
Daisy engoliu em seco. Ela não imaginou que Benjamin a perguntaria qualquer coisa sobre Elizabeth – nem mesmo Rose que já era uma mocinha e entendia muito bem o significado de vida e morte, havia dito qualquer palavra sobre o assunto.
Ela se perguntou onde que ele poderia ter escutado ou visto qualquer coisa sobre o assunto.
- Ele está muito triste, por isso que quando ele chegar... – Disse Daisy em meio a um suspiro. –Vai adorar ganhar um monte de beijos, abraços e desenhos de vocês. E vai adorar saber que se comportaram e não brigaram com o outro. – Reforçou no final.
- Entendi. – Disse Benjamin com sua costumeira voz macia e lenta, que lembrava a ela um pouco de Charles. – Mãe?
- Sim, meu bem?
- Lembra quando a gente assistiu Rei Leão e o Mufasa diz ao Simba que todos os Reis do passado eram estrelas no céu?
- Lembro querido.
- É o que vai acontecer com a vovó Lizzie? Ela vai virar uma estrela também?
Escorreram lágrimas de seus olhos e ela respondeu, ainda lutando para se manter no controle de suas emoções.
- Sim, querido. Ela vai virar uma estrela e olhar por nós, lá do céu.
-x-
Apesar de que a família queria esperar alguns dias para o funeral, não havia tempo a perder. O corpo precisaria ser enterrado no dia seguinte, segundo os médicos que vinham cuidando da falecida Rainha.
O dia deles resumiu-se a uma enorme correria para todos eles. O que era para ser um dia de sossego tornou-se um dia de enorme estresse, porque detalhes do funeral precisavam ser resolvidos e o Palácio precisava comunicar ao povo da morte da Rainha e erguer as bandeiras antes que a mídia vazasse a informação.
Charles, sozinho, sendo ele agora o membro mais velho da família, portando, o patriarca, gravou o anúncio, ao vivo e em cores para todo o povo da Grã-Bretanha – e também outros países cujo domínio pertencia, possivelmente a ele agora – o anúncio da morte de sua mãe.
‘É com pesar que eu comunico ao povo dos Reinos da Comunidade das Nações que sua soberana, chefe de estado, governadora suprema da Igreja da Inglaterra, Defensora da Fé, Sua Majestade a Rainha Elizabeth II, faleceu nessa madrugada, por volta das 3h45min.’
Foi catástrofe, foi ainda maior do que Daisy imaginou que viesse a ser. Não parou a Inglaterra, não parou a Grã-Bretanha... Parou o mundo! E quando eles deram por si o PB estava cercado pela mídia, cercado de pessoas que choravam aos prantos pela perda de sua soberana, pela perda da família.
Eles cantavam a plenos pulmões o God Save The Queen como uma forma de homenagear e eternizar a monarca com o tempo de reinado mais longo da história! Setenta e dois anos de história, de luta. Aquela mulher, aquela família, seria para sempre o motivo de orgulho do Reino Unido...
Ela seria citada em documentários, escreveriam livros sobre ela, fariam estatuetas e a dariam prêmios mesmo depois de morta. Às pessoas tendiam a supervalorizar a morte, elas tendiam a fazer às glórias quando enfim o gloriado estivesse estendido num caixão, mas diferente das demais situações, Daisy, enquanto estava em seu quarto em Buckingham, ainda olhando pela janela, sabia que aquelas pessoas estavam se certificando que A Mulher Mais Forte do Mundo jamais seria esquecida.
- O carro está pronto... – Ela escutou a voz de seu marido e se virou, pela primeira vez para olhá-lo.
Harry estava mal, percebeu logo de cara. Suas roupas estavam amarrotadas, ele parecia cansado e seriamente transtornado. Daisy imaginou se algo mais havia se passado para que ele estivesse agindo daquela forma.
- Você tem certeza que quer ir de carro? – Tocou o rosto dele, preocupada. Para sua felicidade ele não se esquivou, como vinha fazendo o dia todo... Harry tirara o dia para evitá-la. – Pode inquirir um helicóptero, não haverá qualquer objeção diante da situação atual. Não precisamos sequer convocar um piloto, você pode nos levar.
Os olhos de Harry estavam fechados e Daisy percebeu como seu marido apreciou o toque, apreciou o carinho. Ele também colocou a mão sobre a dela, acariciando brevemente, para então a levar aos lábios e beijá-la.
- Prometa morrer depois de mim, querida...
-x-
Quando eles chegaram ao apartamento no Kensington era por volta de meia noite. Havia sido uma viagem longa e cansativa, que por mais que Harry tivesse insistido para que Daisy dormisse, ela não teve sossego mental para sequer fechar os olhos. Parecia que haviam ruidosos murmúrios em sua cabeça – se é que murmúrios deviam ser barulhentos daquela forma – e tudo o que ela conseguia fazer era olhar para Harry, que havia insistido em dirigir naquele dia.
Apesar de seus apelos, ele não havia mudado de ideia – na verdade, Harry dificilmente mudava de ideia em alguma coisa. Ele praticamente a ignorou bateu a chave e destravou a porta do passageiro para ela – seus Oficiais de Proteção foram no banco de trás.
Por isso, ao finalmente estarem em piso familiar, com o cheiro de hortelã no ar, Daisy suspirou agradecida. E ela até teria acreditado que estavam sozinhos, se não fosse pela visão de Lily, em seu roupão, surgindo da cozinha com um caneco fumegante do que era provavelmente, chá.
- Ah vocês chegaram... – Suspirou Lily agradecida – Vocês demoraram tanto que pensei que chegariam apenas amanhã.
- Não... – Daisy disse enquanto tirava seu casaco, sendo imitada por Harry. – Eu disse às crianças que chegaríamos hoje, porém tarde.
- Eles insistiram para espera-los, mas eu coloquei um filme qualquer pra passar. Rose e Jacques dormiram e Benjamin me pediu um copo de leite e também se recolheu.
- Esse é meu garoto... – Murmurou Harry sorrindo, que sempre adorava ver hábitos de sua infância em seus filhos. – Rose e Jack lhe deram trabalho?
- Bem... – Lily enrugou a testa pensativa e Daisy sorriu, sabendo qual era a resposta. – Eles se pegaram no tapa mais de três vezes, brigaram pelo controle da TV e esconderam o kit de giz de Benjamin. Não, não deram tanto trabalho assim.
Ao escutar a risada leve de Harry, Daisy sorriu e apertou a mão do marido, feliz por finalmente vê-lo voltar ao seu estado de espírito risonho e tranquilo.
- Eles brincaram o dia todo, assistiram desenho animado e comeram biscoitos no jantar. – Disse Lily.
- Está tudo bem. – Daisy deu de ombros. – De vez em quando faz bem para eles saírem da rotina...
Ela realmente estava grata que sua mãe tivesse os monitorado de perto. Ela não queria que eles vissem ou escutasse qualquer coisa sobre as atuais circunstâncias, que se não, da boca dela e de seu marido – apesar de que a novidade não parecia ter escapado de Benjamin.
- Vocês dois já comeram hoje? – Replicou Lily.
- Comemos antes de sairmos de Buckingham. – Respondeu-a. – Na verdade, acho que vamos direto para a cama... Vamos apenas dar um beijo nas crianças e dormir. Foi um longo dia.
- Eu imagino. – Lily acenou com a cabeça. – Bem, eu vou voltar ao meu filme... – Ela apontou na direção da sala de TV. – Tenham uma boa noite e se precisarem de mim, me chamem.
- Obrigada mãe. – Disse Daisy, antes de sentir Harry ansiosamente, tomar sua mão e puxá-la na direção das escadas.
Todo o caminho de volta para casa, ela sentiu-o pisar no acelerador nervosamente. Parecia inquieto no controle do volante e Daisy tinha certeza que era porque ele queria ver as crianças... Aquelas que eram seu porto seguro e refúgio. Ele precisava olhar para elas e se certificar de que estava todo mundo bem, porque era assim que Harry era – a todo tempo ele temia ser deixado... Ele não sabia diferenciar o ‘tirado’ do ‘abandono’. Ele não entendia que a mãe dele não havia o abandonado e sim, sido tirada dele.
Eles pararam no primeiro quarto, o quarto rosa, com cortinas claras e iluminado pela lua. Havia bonecas cuidadosamente colocadas nas prateleiras, ursos de pelúcia, pufes no chão, baús com brinquedos e fantasias de todas as princesas da Disney e uma mesinha com um aparelho de chá – presente do padrinho que vivia em função de mimá-la.
Na cama Rose Sussex, ressonava baixinho, encolhida em seu cobertor de bailarinas e com os olhos fechados. Seu cabelo ruivo estava espalhado pelo travesseiro e a inocência dos seus oito anos, implícita.
Daisy viu Harry se adiantar até ela, ajoelhando-se para ficar na altura de seu rosto. Ele beijou o rostinho dela repetidas vezes, acariciando as mechas ruivas, até que então os olhos, que eram a única coisa que Rose tinha de Daisy, se abriram. Ela sorriu ao se dar conta de que se tratava de seu pai.
- Papai?
- Ei querida... Eu só passei pra te dar um beijo de boa noite. – Harry disse baixinho. – Você precisa voltar a dormir.
- A mamãe não veio com você?
- Eu estou bem aqui. – Disse Daisy, enfim se pronunciando. Ela gostaria de poder estender mais um pouco aquele momento pai e filha, porque era adorável aos seus olhos, mas quando os olhinhos nervosos de Rose a procuraram no quarto e não a encontraram, decidiu se pronunciar.
- Nós tivemos que passar o dia fora, estamos muito cansados e também já vamos dormir. – Disse Harry em tom baixo.
- Não é de manhã?
- Não, ainda está escuro. – Daisy se inclinou e a beijou na testa. – Volte a dormir. Amo você, gatinha...
- Eu também amo você. – Rose disse e seus olhinhos cansados começaram a se fechar novamente.
Harry e ela saíram do quarto, tomando cuidado de deixar uma fresta da porta aberta como sua filha gostava e então seguiram para o quarto que os gêmeos compartilhavam – porque apesar de eles terem quartos sobrando e os dois brigarem como cão e gato, ainda assim, eles não gostavam de dormir separados.
Enquanto Harry tomou o percurso da cama de Jack, Daisy foi até Ben. Sentou-se na beirada e soprou o ouvido do garotinho que diferente de sua irmã mais velha, era a cara de Daisy, assim como seu irmão – apesar das claras diferenças entre os dois por serem gêmeos fraternos.
- Mamãe? – Benjamin murmurou com os olhos semicerrados.
- Oi amor... Estou em casa.
- Eu fiz o desenho que você pediu. – Ele disse com a voz fraca e grogue de sono.
Daisy riu do raciocínio que o menino seguia, apesar de que era de madrugada. Ela tocou os cabelos loiro-escuros – que ela sabia que à medida que Ben crescesse se tornariam castanho chocolate, como os dela – e macios, parando apenas para beijá-lo no rosto.
- Quero ver tudo amanhã ok? Eu vou chamar o papai, ele quer te dar um beijo.
- Ele está melhor mamãe? – Perguntou Benjamin, os olhos cheios de preocupação, uma preocupação que não deveria existir nos olhinhos de uma criança de seis anos.
- Sim... Muito melhor. – Acenou com a cabeça. – Ele só estava com saudades de vocês.
- Eu também estou com saudades dele. A vovó não gosta de brincar de soldado comigo...
- Tenho certeza que Jack gosta.
- Ele me bate.
- Bem, o papai vai ter muito tempo para brincar de soldado com você... Outro dia. – Sorriu e se levantou. – Amo você rapazinho.
- Eu também mamãe...
- Quão muito?
Ele abriu os bracinhos franzinos e Daisy riu, beijando-o outra vez para então ver que Harry os observava. Ele sorriu e apontou com a cabeça para um Jack ciumento que a esperava, impaciente.
Seu filho do meio nunca admitiria, mas ele era ciumento. Ele tinha ciúmes de Rose e ciúmes de Ben e não importa quantas vezes Daisy e Harry tivessem que dizer a Jacques o tanto que ele era especial e o tanto que era amado, ele ainda sentiria ciúmes de seus irmãos.
- Ei bebê...
- Eu tenho seis anos. – Ele não demorou a apontar.
- Eu sei, mas você ainda é meu bebê. – Beijou-o no rosto. – Você foi um bom homenzinho e cuidou de tudo e todos?
- Sim. – Ele respondeu orgulhosamente.
- E você foi bom para a vovó?
- Não muito, porque ela nos belisca quando fazemos algo de errado... Eu gosto mais da Vovó Milla.
Daisy trocou um olhar com Harry e ele riu enquanto estava bagunçando os cabelos de Ben, que murmurava baixinho para o pai sobre seu dia e o sobre os desenhos que haviam feito – além de é claro, concordar com o irmão, de que a vovó Milla era muito mais legal e paciente.
- A vovó Lily também é legal.
- Ela nem nos deixa a chamar de vovó... – Choramingou Jack, parecendo exasperado com aquilo.
Daisy riu acompanhada de Harry. Ela escondeu o rosto nas mãos e balançou a cabeça negativamente, percebendo que era a primeira vez que estava fazendo aquilo no dia.
- Ah meu amor... Me lembre de nunca mais passar tanto tempo longe de você. – Tocou o rostinho de Jack. – Você é o anjo de nossas vidas.
- Ok. Eu prometo que vou te lembrar de nunca mais ficar longe de mim, se prometer nunca mais me abandonar um dia inteirinho. Eu morro de saudades mamãe.
Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela sorriu, acenando com a cabeça e o beijando na testa, lamentando que em alguns anos ele teria vergonha de dizer aquelas coisas e provavelmente não iria gostar de tê-la tão perto quanto tinha agora.
- Por que está chorando?
- Eu não estou chorando...
- Tem água saindo do seu olho.
- Você me faz muito feliz. Você e seus irmãos me fazem muito feliz... A mim e ao papai.
- Ok, então por que você está chorando? Eu só choro quando eu estou triste.
- É porque a mamãe e o papai tiveram um dia péssimo. – Quem respondeu foi Harry. – E a mamãe está muito feliz de estar aqui outra vez.
- Eu também tive um dia péssimo. Eu disse para a vovó que eu era intolerante à lactose e ela não acreditou... Colocou leite no meu chá e eu tive dor de barriga.
Daisy e Harry riram novamente e Daisy viu seu marido se aproximar outra vez da cama de Jack. Olhando sobre o ombro viu que Benjamin não conseguiu lutar contra sono, portanto era só eles e Jacques.
Parecia errado que os dois estivessem prolongando aquele momento com Jacques, mas é que muitas vezes eles se preocupavam que a conexão de Harry e Rose e o apego de Benjamin a Daisy, acabassem o afetando. Amor era amor e Daisy e Harry amavam a todos igualmente, ela venerava seus filhos e tinha que admitir que tinha um pouco de ciúmes quando Rose sempre escolhia sair a cavalo com o pai do que ler um livro com ela e assistir a um filme, mas não importava, ela sabia que dentro do coraçãozinho infantil de Rose, ela a amava. E era recíproco.
Eles é que queriam evitar um desafeto futuro provocado por ciúmes entre irmãos, por isso sempre tentavam compensar aquilo de todas as formas.
Já em seus quartos, após com um pouco de custo convencerem Jacques a voltar a dormir – e eles tiveram que ficar no quarto, por pedido dele, até que então ele apagasse – Harry e Daisy seguiram para os seus, que ficava no fim do corredor.
A todo o tempo, o braço de Harry estava em volta de seus ombros, enquanto os braços dela envolviam o tronco dele. A cabeça apoiou-se no ombro e quando eles enfim estavam na privacidade do quarto, ainda com a luz apagada, mas a porta fechada, Harry colocou as mãos em seu rosto e a beijou.
Daisy suspirou contra os lábios dele ao ser pega de surpresa e deixou seus saltos caírem com um barulho surdo no carpete do quarto. Ela se ergueu na ponta dos pés e o puxou para ainda mais perto, segurando-o pela gola da camisa e sentindo o corpo quente de Harry contra o dela, tão perto, tão perto que mais um pouco, se fundiriam em um só.
As mãos ágeis de Harry soltaram seu coque e Daisy sentiu seu cabelo que havia encurtado com o tempo, bater em seus ombros e os dedos de Harry se perderem nos fios finos e escorridos.
- Obrigado por me dar tudo isso... – Murmurou ele contra sua boca. – Doze anos atrás, eu não achei que a garota do clube de polo estaria aqui até hoje.
- Bem... Com uns quilos a mais, cheia de celulites e uma cicatriz de cesariana, mas é... Ela ainda está aqui.
- Você continua estragando nossos momentos, porém.
- Você gosta.
- Eu amo. – Ele corrigiu e beijou-a outra vez. – Mas mais importante que isso, eu amo você. Amo seus quilos a mais. Amo suas celulites ainda inexistentes. Amo sua cicatriz de cesariana, porque meus filhos estão aqui por causa dela.
- Você continua incrivelmente brega.
- Você gosta.
- Eu amo.
-x-
Quando Harry acordou na manhã seguinte, ele sentiu uma cabeça sobre seu peito e a princípio ele pensou que fosse Daisy, mas se tratava de Jack cochilando de boca aberta e babando. Em seu braço estendido, outra cabeça, e novamente não era Daisy, era Rose que dormia como um anjinho, encolhida embaixo das cobertas, as mãozinhas pequenas segurando firme a alça da camisola da mãe. E quando Harry finalmente parou para olhar sua esposa, viu Benjamin enroscado nos braços dela, os dois dormindo profundamente.
Ao olhar as horas em seu celular percebeu que ainda era seis, mas sabendo que às sete todos eles já deveriam estar de pé, tomando café da manhã, para às dez estarem em Buckingham, porque o funeral seria as onze na Abadia de Westminster, Harry deixou a preguiça de lado e se colocou de pé.
Ainda era difícil de acreditar, Harry constatou, enquanto calçava seus chinelos, após cuidadosamente livrar-se do corpo de Jacques e da cabeça de Rose repousada em seu braço. Era difícil porque ele não conseguia lidar com perdas, ele não conseguia se livrar do trauma de uma perda precoce, muito embora ele já tivesse mais de quarenta.
Enquanto lavava seu rosto, percebeu novamente. Quarenta e dois anos e os sinais já estavam bastante aparentes para seu gosto... Seu cabelo havia ficado um pouco mais claro e suas entradas estavam mais aparentes. Suas linhas de expressão – para não falar, rugas – haviam aumentado e ele tinha que reconhecer que se não mantivesse-se no exército e acompanhamento de personal trainer e nutricionista, ele provavelmente não aguentaria nada.
Ele via agora a consequência de seu fumo, de sua bebida, de suas noites viradas sem dormir... Ele via tudo isso agora que tinha mais de quarenta, três filhos e uma esposa nove anos mais jovem na cama, com nenhuma ruga, nenhum fio grisalho e definitivamente sem dores nas costas.
Balançando a cabeça negativamente, riu, percebendo como tanto havia mudado. Ele era pai, ele era casado... O Harry de treze anos atrás, provavelmente estaria numa crise de inseguranças, agindo como uma garota menstruada. O Harry atual, apesar de ser um quarentão, era mais seguro de si e sabia que tudo bem, talvez estivesse ali bem evidente os nove anos de diferença que as pessoas tanto criticaram na época, mas também sabia que os treze anos juntos, significavam mais do que aquela diferença de idade. Que ela, sua esposa, sua amada esposa, nunca o trocaria por nenhum cara, com uns fios grisalhos a menos.
E foi por isso, por amá-la, por estar tão de bem com sua vida, por ser um cara de tanta sorte, que apesar de todas as circunstâncias atuais, é que Harry estava preparando o café da manhã, assobiando uma musica que Daisy gostava.
Ele não se surpreendeu, porém, quando Rose com seus olhinhos preguiçosos, chegou a cozinha, usando seu pijama e arrastando os pés escondidos por meias grossas.
- Bom dia princesa! – Ele disse com um enorme sorriso e a viu gemer.
Ela não era nada matinal.
- Bom dia. – Ela disse após uma pequena pausa, enquanto lutava para subir no banco de frente para o balcão americano. – Papai...
- Sim, benzinho? – Ele perguntou, embora já soubesse o que ela diria.
- Estou com fome.
Riu porque chegava a ser ridícula a situação... Rose até podia ser ele em muitas situações, mas os pequenos detalhes – como seu estômago – pertenciam a Daisy. Harry só esperava que ela, quando fosse mais velha, não fosse uma destruidora de corações também! Ele não queria marmanjos cercando sua menina, atrás de um encontro.
Ele colocou ovos mexidos no prato dela, bacon e salsichas. Ela agradeceu e Harry apontou para seu rosto, indicando que não queria palavras, queria atitudes. Rose passou os bracinhos ao redor de seu pescoço e estalou um beijo.
- Ugh baba de Rose!
- Papai, você é muito bobo!
Ele sorriu e piscou para ela, indo até o fogão novamente, preparar mais ovos. Ele provavelmente nunca faria um café da manhã como Daisy, mas os anos e também após ter três filhos, exigiram que ele aprendesse uma coisa ou outra. Felizmente, apesar dos gêmeos sempre resmungarem que o bacon ficava tostado demais e os ovos com muito sal, Rose parecia gostar e ter o mesmo paladar estranho que ele.
Harry se juntou a ela, minutos depois. Ele serviu a si mesmo de café e colocou suco de pêssego no copo de sua filha, que tomou-o lentamente. Ele estava mastigando seu bacon, quando Rose o perguntou.
- Papai, por que você e a mamãe ficaram o dia todo fora ontem?
- Tivemos que ir ao Buckingham querida. – Explicou.
- Eu adoro ir ao PB. – Choramingou Rose. – Por que não me levaram? Aposto que levaram Georgie e Victoria.
- Não, não levamos. – Assegurou-a. – Nem Louise e James estavam lá. Foram só os adultos.
- Oh! – Rose acenou com a cabeça, parecendo menos revoltada por ter sido abandonada no dia anterior, mas é claro que a curiosidade tomaria o melhor dela. – E por que vocês estavam no PB?
- Bem... – Suspirou franzindo o cenho e se perguntando como poderia responde-la aquilo. – Porque nós tínhamos coisas para resolver, coisas de adultos.
- E que coisas seriam? – Insistiu.
Harry sorriu e suspirou, imediatamente sentindo falta de apetite ao se lembrar do assunto. Ele passou as mãos pelos cabelos, se perguntando outra vez, como ele responderia àquilo a Rose.
- A mamãe disse que vocês estavam tristes... Foi o que ela falou com Ben. – Apontou Rose baixinho. – Eu só queria fazê-lo se sentir melhor, não queria deixa-lo mais triste.
- Ah querida, você nunca me deixa triste. – Harry disse beijando o topo da cabeça ruiva, sentindo o cheiro do shampoo que ela usava – À menos que arrume um namorado, daí sim o papai vai ficar muito triste.
- Eu vou ter um monte de namorados papai!
- Ugh, eu vou chorar... Você é só minha.
- A mamãe disse que eu vou ter um monte quando eu for mais velha. – Provocou Rose e ele tinha que se conter para não rir.
- O papai vai ter que conversar seriamente com a mamãe.
- Papai... Na verdade, eu acho que estou namorando.
- O quê?!
E foi daí que Harry a presenteou com um ataque de cócegas. Ele sorriu com a gargalhada gostosa de Rose, que encolhia seu corpinho magrelo e tentava a todo custo livrar-se dele, mas era impossível. Harry cutucou-a nas costelas, barriga e axilas, enquanto ela se contorcia em seu aperto.
- É brincadeira! É brincadeira! – Dizia Rose em prantos às cócegas.
- Ah é?! – Parou de uma vez. – Ótimo. Não me assuste assim de novo.
Foi o bastante para que Rose se esquecesse sobre o assunto. Ela disse que ainda estava com fome e Harry estreitou os olhos para ela e então alcançou-a o pote de biscoitos e ela se serviu, com três.
- Três?! Sua comilona!
- Você é comilão! Olhe só seu prato!
- Eu não sou comilão... Eu sou maior que você.
- Bem, eu estou em fase de crescimento.
- Há! – Harry jogou a cabeça pra trás rindo da resposta esperta e bagunçou os cabelos ruivos escorridos, vendo-a franzir o nariz, insatisfeita. – Ah Rose, meus dias nunca seriam os mesmos sem você...
E Harry viu, em questão de um minuto, a outra mulher de sua vida. Seus dias absolutamente não seriam os mesmos, se ela também não estivesse ali.
Daisy vinha com seus gêmeos tagarelas, ambos competindo pela atenção da mãe que parecia sonolenta demais para se dar conta de que estava sendo disputada.
- Ah! Os ruivos da minha vida... – Daisy disse com um enorme sorriso, embora, como Harry dissera, sonolento. – Eles deixaram café da manhã pra mim?
- Não. O papai comeu tudo. – Disse Rose com um risinho infantil.
- Harry! – Daisy colocou as mãos na cintura, se fazendo de brava.
Bem, brava ela não conseguia parecer, agora, com aquela camisola de cetim, mostrando suas coxas... Ela parecia sexy.
- Eu não queria que minha esposa e meus garotos comessem ovos e bacon frio. – Harry corrigiu Rose e a beijou no rosto outra vez, vendo o sorriso satisfeito no rosto da menina, pelo gesto de carinho.
- Ah o papai não é doce, queridos? – Replicou Daisy enquanto se apossava da banqueta que Harry, outrora, estava sentado.
Os dois bicaram os lábios, sorrindo para o outro e murmurando ao mesmo tempo ‘bom dia’ sob o coro insatisfeito de seus filhos ‘eca!’. Daisy piscou e ele riu, apertando a bunda dela, para então ir ao fogão.
Ele era o homem mais feliz do mundo.
-x-
Harry se lembrava da noite que seu pai havia o acordado para dizer que sua mãe havia morrido. Ele tinha a imagem fixa do rapazinho de quase treze anos, com os olhos cheios de lágrimas, perguntando ‘a mamãe morreu mesmo?’ para o irmão mais velho.
Ele era mais velho, ele entendia, ele era capaz de sentir dor, de se sentir abandonado e de sentir que o mundo era um lugar injusto. Ele passou boa parte do café da manhã, segurando a mão de Daisy, sabendo que assim como ele, ela também procurava uma forma de contar a novidade para as crianças que àquela altura de seus poucos anos de vida, não haviam tido que lidar com a perda de ninguém.
Eles decidiram conta-las antes que se levantassem da mesa de café da manhã e foi Harry que o fez.
- A vovó Lizzie estava muito, muito doente se lembram? Ela tomava muitos remédios e ela morreu. Ela agora não está mais conosco...
Daisy havia o dito na noite passada, depois de eles fazerem amor, enquanto Harry acariciava as costas dela, que Benjamin sabia que sua avó havia morrido – ele havia dito a Daisy durante a conversa no telefone.
Ele não expressou muita emoção, claramente já havia lidado com a notícia de sua forma – tranquilo, contido e quieto. Agora, Rose havia começado a chorar e abaixado a cabeça, soluçando baixinho, enquanto Jack tentava entender o que era morrer.
- Ah está tudo bem querida... – Disse Daisy enquanto abraçava Rose, a cabeça da menina escondida em seu peito enquanto encharcava o colo nu da mãe. Ela por ser mais velha, já entendia o quão duro era aquilo. – Ela amava você.
- Eu nem me despedi. – Fungou Rose. – Ela nem me viu de cabelo comprido e foi ela que lhe pediu para parar de cortar meu cabelo chanel.
- Ah benzinho, ela está vendo... Lá do céu. Tenho certeza que ficou muito feliz.
Harry, porém não se preocupou com as lágrimas de Rose, porque ela sofreria aquilo da maneira dela – Rose não escondia suas emoções, ela sempre as sentia a toda intensidade possível.
Seu olhar pendia em Jack, que ainda digeria a notícia, até que com olhos inocentes e um pouco envergonhado ele perguntou ao pai num sussurro.
- O que é morrer?
- É quando seu coração para de bater. Você não anda, não respira, não sente nada. Você está morto. – Explicou, lamentando um pouco por ter que ser tão duramente honesto com uma criança de seis anos. – A vovó Lizzie morreu.
- Então ela já não está mais sentindo dor não é? Porque eu lembro que disseram que ela sentia muita dor...
- Sim, ela não sente dor mais. – Concordou Harry.
- Ela está no céu, junto com as estrelas, porque é pra lá que os Reis e Rainhas vão... Eu vi isso em Rei Leão. – Compartilhou Benjamin.
- Exatamente. – Concordou Daisy. – E hoje nós vamos, todos, ao funeral da vovó Lizzie e vamos nos despedir.
- Posso fazer um desenho meu de cabelo comprido para ela? – Fungou Rose.
- Eu acho que ela adoraria. – Harry respondeu sorrindo.
- Papai... – Benjamin chamou-o – Se a vovó não vai mais ‘tomar conta de nós’, quem é que vai?
- O vovô Charles. – Respondeu Harry. – Ele agora é que cuida de nós e ele vai ser Rei, porque ele é o filho mais velho da vovó Lizzie.
- Hm... – Murmurou Jacques, pensativo. – Então agora a gente precisa se curvar para o vovô, como curvávamos para a vovó?
- Só em momentos formais em que estaremos diante do público. – Harry disse.
- O vovô Charles está triste, papai? – Perguntou Rose.
- Sim, ele está. Por isso não podemos perder tempo... Temos que nos arrumar, ir para o PB porque temos que nos despedir da vovó e dar um forte abraço no vovô, para que ele não fique mais tão triste, certo?
- Certo. – As crianças responderam em coro.
- Ótimo. E eu quero que todo mundo colabore com a mamãe na hora de se arrumar... – Harry sentiu o olhar agradecido de Daisy em cima dele – Porque o papai não vai estar aqui. Eu vou preparar os carros e chamar os rapazes para prepararem os carros, para nos levarem. Ok? E todos têm que prometer, por seus pacotes de biscoitos, que vão se comportar muito bem na Abadia hoje... Nada de correr, nada de choro, nada de briga. Pelos biscoitos?
- Pelos biscoitos.
-x-
Foi como há vinte e oito anos atrás... Harry se viu junto com seu irmão, seu pai, seus tios, Peter e James caminhando atrás do caixão. Eles optaram para que as crianças não acompanhassem, porque seria uma longa caminhada até a Abadia.
Quando a carruagem com o corpo de sua avó passou diante deles, no mais profundo e doloroso silêncio, não só Os homens de Elizabeth, como também, seu povo, se curvaram numa reverência profunda, mantendo a cabeça abaixada em sinal de respeito e luto.
Harry sentiu seus pés queimarem dentro de seus sapatos e sabia que mais tarde gemeria de dor, contanto ele não gostaria de estar em outro lugar. Não quando parecia que o mundo estava desabando ao seu redor, não quando seu pai mantinha-se rígido, impassível e calado, embora sua cabeça estivesse um turbilhão...
Harry sabia o que ele estava fazendo enquanto caminhavam. Ele não estava orando silenciosamente, como seu tio Andrew ao lado, ele estava tentando se decidir entre o que era certo e o que era fácil.
O certo era que ele fosse coroado como o Rei da Grã-Bretanha.
O fácil era que William o fizesse em seu lugar.
Harry honestamente não conseguia ver a dificuldade da situação. Seu pai esperara e estudara para aquele momento a vida toda e talvez fosse egoísta pensar naquilo devido às circunstâncias, mas eles precisavam pensar e falar sobre aquilo, porque eles não eram uma família comum.
Outra vez, Harry não estava perdendo apenas um ente querido. Ele estava a perdendo na frente do mundo todo!
Na Abadia, eles se sentaram junto da família. Ao seu lado, estava Daisy e dela então se seguia as três crianças que trajando preto, mantinham a cabeça baixa, escutando a o arcebispo pacientemente. Na fileira da frente, estavam todos os filhos, acompanhados de seus respectivos marido e esposas, atrás os netos igualmente acompanhados da esposa, mas também dos filhos.
Seu pai e sua tia Anne, dos filhos, é que se responsabilizaram pelo discurso. Dos netos, eles acharam melhor optar pelos caçulas, Louise e James para evitar qualquer tumulto.
Foi tão doloroso quanto qualquer funeral de uma grande pessoa, uma grande mulher, uma grande avó e líder, poderia ser. Harry entrelaçou os dedos aos de Daisy o tempo todo, desejando que à tranquilidade e autocontrole dela passasse para ele. É claro, não deu muito certo, mas o dedão dela fazendo círculos em sua mão, lembrando-o constantemente que ela ainda estava ali, era reconfortante.
-... E eu tenho certeza de que o mundo se lembrará dela como soberana, Rainha, como exemplo para a nação... – Dizia James em sua voz grave e feições nervosas que lembravam-lhe seu tio Edward. – A mulher mais forte do mundo, como vocês já bem sabem. Mas para nós, ela será apenas e eternamente vovó.
-x-
A Família Real anunciou oficialmente que se recolheriam e se absteriam de seus serviços Reais por uma semana, para uma breve temporada em Balmoral. O Castelo de Windsor seria uma decisão melhor, definitivamente, mas era lá que sua avó estava sepultada, bem ao lado do marido. Eles queriam eternizar as boas lembranças e diluir a tristeza e até porque nenhum deles aguentava mais aquele clima terrível...
As crianças estavam terríveis. Victoria estava soluçando sem parar no colo de William e embora George estivesse com o semblante impassível, eles sabiam que ele estava quebrado por dentro, ele só nunca diria isso porque achava que era vergonhoso chorar. Ele era o primeiro bisneto, era normal que fosse o mais afetado, era o que tinha mais lembranças.
Savannah e Isla, as primeiras bisnetas, também pareciam péssimas. Elas tinham ainda mais lembranças que George, mas as duas não choravam. Na verdade, as duas o lembravam um pouco Zara e Mia, que estavam quietas, impassíveis, olhando para o nada e tentando apaziguar uma dor interior que não tinha nem tamanho.
Beatrice e Eugenie choravam no ombro da outra. Beatrice com sua nenê de colo choramingava que a avó não tivera condições de passar muito tempo com sua filha de nem um ano, Alice. E Eugenie, que estava de poucos meses, já soluçava porque o pequeno Andy – Andrew – nunca viria a conhecer sua bisa.
Louise e James haviam dado uma pausa em suas discussões incessantes. Eles podiam ser pior do que Jacques e Rose, mas naquele dia, os dois tinham um álbum de fotos e tentavam distrair Adam – o caçula de Zara – que era uma ameaça e estava sempre correndo para todos os lados.
Seus tios estavam reunidos numa só mesa, todos eles cansados, esgotados emocional e fisicamente. Eles conversavam baixo, quase sem se olharem e alheios à atmosfera lacrimejante que estava naquele enorme salão.
O único que não estava ali era seu pai e da janela, Harry o viu da janela sozinho. Fumando um charuto que definitivamente não era suposto para estar fumando, levando em conta o tanto que a dosagem de seus remédios havia aumentado.
Procurou então Daisy com seus olhos e a viu subindo as escadas com uma mala prática que eles haviam preparado para trocarem as crianças de roupa – assim como todos. Os adultos tinham consciência de que o traje de luto era para usar durante o dia, mas é claro que todas aquelas crianças enérgicas, não conseguiriam usar vestido, meia calça e gravata com sapato social pelo resto da tarde e até a noite.
Então, procurou William novamente. Victoria já parecia definitivamente mais calma e havia parado de chorar, na verdade, ela estava quase fechando seus olhos, com a cabeça encostada no peito de Will. Ele e Kate pareciam alheios a isso, porque conversavam em sussurros tensos e ao que parecia, George havia se cansado de aturar o choro da irmã e se isolado num canto.
Por fim então, seus olhos procuraram Camilla. Ela, com as pernas cruzadas, uma xícara de chá em mãos, tentava colocar seus pensamentos em ordem. Não tendo qualquer sucesso, é claro.
Harry então soube que aquilo cabia a ele...
Erguendo-se, ele passou despercebido por aquelas pessoas, o que foi bom, porque tudo o que ele queria era chegar a seu pai naquele momento. E com passos cuidadosos, quando enfim se aproximara e estava no jardim, Harry suspirou, chamando a atenção do homem que apesar da idade, apesar de toda a sabedoria que os anos o deram, parecia devastado com a perda e aterrorizado com a obrigação que lhe vinha.
- Eu parei de fumar depois que Rose nasceu... – Comentou. – Mas uma tragada, vez ou outra não faz mal. Só não vamos deixar que ela descubra... Ou minha esposa.
Charles sorriu e lhe estendeu o charuto, permanecendo em silêncio.
Tragou profundamente, segurando a fumaça por um longo tempo e então a soltando pelas narinas e a boca.
- Você é mesmo filho da sua mãe... – Seu pai comentou.
- Ela não fumava.
- Eu não estou falando disso. – Charles piscou.
-x-
Ele sentiu-a revirar de um lado, revirar para o outro. Ouviu um bufo, um gemido e então enfim, sua esposa conseguiu incomodá-lo. Ele sabia que não era culpa dela, porque Daisy tinha dificuldade em pegar no sono quando não dormia em casa ou quando estava nervosa com algo, até porque, ela tinha suas razões para ficar agitada.
- Você quer meio comprimido para dormir? – Murmurou. Geralmente ele seria paciente e sugeriria para que assistissem a um filme no laptop até que ela pegasse no sono, mas estava tão cansado que mal conseguia manter os olhos abertos.
- Você está acordado? – Ela murmurou em resposta, virando-se para olhá-lo.
- O que acha? – Harry respondeu-a, com um sorriso sonolento e viu os olhos, bastante claros, cheios de preocupação. – O que houve?
Daisy mordeu os próprios lábios, parecendo nervosa. Ela se sentou na cama de repente, para a surpresa de Harry e acendeu a luz do abajur.
Harry permaneceu deitado, um pouco aborrecido pela ardência em suas vistas cansadas, porém a viu com o rosto coberto pelas mãos, fazendo exercícios de respiração profunda e esfregando as mãos na outra nervosamente.
- Tudo ok? – Indagou.
- Não sei... – Murmurou Daisy em resposta.
Ok, aquilo era estranho.
Harry sentou-se, com um gemido e então ficou na mesma posição que ela, puxando-a para seus braços, mas sem obter reciprocidade. Ela estava rígida, tensa e mal parecia se dar conta de que ele a abraçava. Parecia estar pensando em algo.
- Você quer ir pra casa? – Indagou. – Podemos ir. Todo mundo vai entender... Eugenie vai embora amanhã e Beatrice também por causa do bebê.
Os olhos de Harry se arregalaram em pavor quando Daisy começou a chorar, com o rosto coberto pelas mãos. Naquele tempo todo, ela pareceu bastante comovida com a situação toda e ele a viu chorar baixinho em seu canto, junto com Rose, mas nunca daquele jeito desesperado, em que seus ombros balançavam e ela escondia o rosto.
- Desculpa, desculpa, desculpa... – Ela dizia.
Harry franziu o cenho e afagou as costas de sua esposa, lamentando que suas palavras de conforto, após tanto tempo consolando seu pai, já tivessem ficado um pouco escassas. Ele nunca imaginou aquela explosão!
- Não se desculpe querida, está tudo bem chorar. – Disse-a.
Ela chorou mais ainda, se é que era possível.
Harry então franziu o cenho, porque o choro era incompreensivo. Ele honestamente não achava que Daisy estava chorando daquela forma descontrolada, porque estava sentimentalizada com a perda de sua avó...
- Daisy o que aconteceu? – Perguntou seriamente.
- Desculpa, desculpa. – Ela tornou a repetir em meio aos soluços.
Harry suspirou fortemente e então forçou-a a encará-lo, porque ele jamais poderia ajuda-la ou entender o que estava acontecendo se ela se mantivesse chorando e chorando sem parar.
Com as mãos no rosto, gentilmente ele a fez encará-lo e limpou as lágrimas com os dedos – embora fosse inútil, porque elas continuavam escorrendo deliberadamente.
- O que há de errado querida? – Perguntou, tentando aparentar calma, muito embora calmo, fosse o mais longe de seu estado de espírito.
Daisy encolheu os ombros e desviou o olhar. Harry forçou o rosto dela, outra vez, e arqueou as sobrancelhas significativamente, sabendo o quanto aquilo iria incomodá-la e que ela não poderia evitar por muito tempo, falar sobre o que a afligia.
- Diga amor. – Disse ternamente. – Não tem que temer falar comigo sobre qualquer coisa.
Ao que parece, ela precisava daquele lembrete. Daisy pareceu mais tranquila imediatamente e embora seu corpo ainda tremesse, seus braços estivessem cruzados sobre o busto, a boca dela já se abriu algumas vezes, indicando que ela procurava palavras.
Ela as encontrou, depois de dois minutos, mas Harry quase não podia acreditar no que ouvia.
- Estou grávida.
Aquilo era assustador pra caralho! E mesmo que ele tivesse a experiência de cuidar de três filhos, dois sobrinhos, um monte de afilhados e primos de segundo grau, nada era assustador do que mais um filho.
Ele seria pai pela quarta vez.
Mas como?!
Como se tivesse lido seus pensamentos, Daisy respondeu.
- Eu também não sei como. – Ela encolheu-se. – Acho que é como Rose... Eu me embolei com o meu anticoncepcional na época e acabei grávida dela, os gêmeos nós planejamos juntos e agora... Parece que vem mais um.
Os planos de Harry sempre foram ter um monte de filhos. Desde que sua mãe morrera e ele começou a passar tanto tempo sozinho num lugar tão grande como Highgrove e a Clarence House, ele sentiu uma enorme vontade de ter um monte de irmãos, porque daí o vazio não seria tão grande. Não seria aquela coisa estranha de Will na ala x e ele na ala y.
Quando ela engravidou de Rose e ele perdeu completamente a gestação de sua menina, ficou ainda mais determinado a ter uma casa cheia. Ele acompanharia todas as gestações daquela vez e também compensaria sua garota eternamente, por não ter sentido seu primeiro chute, por não ter estado lá na hora que descobriram o sexo ou na hora do parto, para cortar seu cordão umbilical. Porém, quando Daisy engravidou dos gêmeos – e eles sim foram cuidadosamente planejados – e Harry viu todo o desgaste emocional e físico que aquilo causou em sua esposa que passava os primeiros meses na cama enjoada, passou o segundo trimestre de cama também por causa de dor nas costas – ela produzira muito leite daquela vez, seus seios pesavam e sua barriga também, porque ela carregava dois meninos – e o último trimestre, igualmente em observação porque gêmeos são conhecidos por nascerem antes da hora.
Ela emagreceu Deus sabia quantos quilos, quando ela estava os amamentando. Daisy apesar de viver dizendo que estava gorda, que estava cheia de celulites e culpa-lo por ter aumentado um número de seu manequim, ainda estava magra até demais aos olhos de Harry. Os pneuzinhos para ele eram um motivo de tranquilidade, levando em consideração o osso do colo e do quadril que ficava exposto.
Ela nunca se recuperou da gestação dos gêmeos totalmente, ela ainda tomava vitaminas e tinha que vigiar a alimentação – ele mesmo enfiava coisas saudáveis goela abaixo de sua esposa amante de pizza – e por isso Harry nunca havia chegado a ela e dito ‘olha amor, eu quero outro bebê’ porque tanto quanto ele não queria vê-la daquele jeito outra vez, ele sabia que tinha chances de ela não se recuperar.
Além de tudo vinha o desgaste... Três filhos era filho pra caralho! Sério, parece um número bom, mas é filho pra lá, pra realmente deixar os dois no limite da razão muitas vezes. Apesar de que, depois de serem pais de Rose e Jack – e não, não era por causa do Titanic – Harry e Daisy estavam craques em controlar o caos.
- É sério isso? – Perguntou-a baixo.
Daisy deu de ombros, suspirando e Harry se jogou na cama, passando as mãos pelo rosto.
- Eu não tenho certeza, porque não fiz exame, mas... Minha menstruação não veio. E você sabe Haz...
- Você é um relógio ambulante. – Acenou com a cabeça.
Se a menstruação dela não vinha, podia ter certeza de uma coisa... Era gravidez.
- Estou com seios doloridos, cabelo oleoso e tudo aquilo que eu sentia... Menos os enjoos, o que é uma coisa boa até que enfim.
Harry riu e balançou a cabeça negativamente, não acreditando naquela situação. Quatro filhos! O time de polo estava completo.
- O time de polo está completo... – Ele disse a ela, levando a mão até a coxa nua e sorrindo.
Com os olhos cheios de surpresa, Daisy perguntou-o: - Não está bravo?
- Com você? Com nosso bebê? Nunca! – Disse se sentando outra vez e a beijou rapidamente nos lábios. – Nunca, nunca! Nós só... Precisamos confirmar isso.
- Eu sei. Eu estava esperando uns dias, me perguntando se não ia descer atrasado ou coisa assim. Já tem uma semana e nada! Então, recebemos a notícia de sua avó e não parecia certo despejar isso em cima de você também e... Ah Deus, eu sei que os planos eram parar nos gêmeos e tudo, eu não sei como isso aconteceu e...
- Ei. – Harry colocou as mãos nos ombros dela e sorriu. – Eu estou feliz, você não?
- É claro que eu estou. – Ela colocou as mãos sobre as dele. – Mas o momento que nós estamos agora, com a perda da sua avó, a coroação de seu pai, o país nesse desgaste emocional e financeiro, nós não temos cond...
- Um bebê é sempre boa notícia Daisy. Sempre. – Impediu-a de continuar a proferir besteiras. – Quando eu digo que é boa notícia, eu sei do que estou falando... Acredite, não poderia ter vindo em hora melhor.
E era verdade. Porque no meio de tanto desespero, no meio de uma crise econômica, no meio da perda de um líder e o assumo da liderança de outro, uma criança vinha como uma luz, uma chama para aquecer aquele país gelado, que no meio do verão, pareciam se encontrar em pleno inverno.
Um bebê que pediria um espacinho no coração de cada uma daquelas pessoas e um espacinho naquela enorme família que estava aos cacos, pensando que era o fim, pensando que já não havia mais esperanças. Pensando que aquele, talvez, pudesse ser o fim da Monarquia e também o fim deles – porque nunca mais seria a mesma coisa.
É tanta dor que às vezes parece que vai te matar. E muitas vezes, você quer que mate. Mas não mata... Esse tipo de dor nunca mata, só fortalece. Porque é sabido que há sempre – repito, sempre – dias melhores, para vir.
Amor de Antes, 2º Temporada. Capítulo 100
Voltaram ao acampamento, e foi só o tempo de Arthur explicar a todos o que tinha acontecido e Lua se trocar, que saíram de volta. Ricardo iria os levar para São Paulo, Arthur insistiu em ir, assim como todos os outros.
— Ou vai ele sozinho, ou não vai ninguém. Não cabem todos, que saco! — Ricardo falou ríspido e Lua puxou Arthur para perto do carro, deixando claro quem ela queria.
— Não tem perigo essa Kombi encostada na estrada? E se alguém roubá-la?
— Menino, me diz: Em todo o tempo que vocês ficaram aqui, quantas pessoas passaram? — Arthur estava do seu lado no banco do carona e Lua no banco de trás. Ele sussurrou um “Nenhuma” e Ricardo falou: — Ta vendo? Fique tranquilo, amanhã eu ou o Gustavo passamos aqui pra retirá-la.
Chegaram na cidade onde Arthur fez as compras e ele ligou para sua mãe.
Ligação On:
— Alô mãe
— Oi meu amor, cadê vocês? Esperamos no hospital até meia noite!
— É que teve um imprevisto... Onde a senhora ta? — Falava baixo tentando fazer com que Lua descansasse.
— To em casa, os Médicos pediram pra esvaziar um pouco o hospital. O Billy, o Daniel e a mulher dele já estavam lá, então eu me ofereci pra vir pra casa e cuidar da criançinha deles.
— Ta bom, espera aí. — Arthur distanciou o telefone da boca. — Lua? Lua? Mexeu com as pernas dela. — Você prefere ir pra casa ou pro hospital?
— Hospital né! — Respondeu como se nem estivesse dormindo.
— Mãe? — Arthur voltou ao celular. — Qual hospital é? Estamos indo pra lá.
Capítulo 100 - Ansiedade mata.
Uma coisa que o Matt sempre me dizia me preocupava um pouco. Quanto mais tu pensa naquela pessoa, mais tu fala dela. E quanto mais tu fala naquela pessoa, mais tu gosta dela. E quanto mais eu pensava, mais nervoso eu ficava. O mais estranho é que eu nunca me preocupo com nada. Quero dizer, a não ser quando um psicopata me prende em casa ou um idiota quer me arrebentar na pista. Aí eu me preocupo. Mas, cara, a faculdade já começou há mais de um mês e eu ainda não fui em uma semana inteira de aulas. Eu deveria me preocupar com isso.
Capítulo 100 ! *-*
Sofi narrando Estava tudo tão perfeito comigo e com o Thomas. Ele tava numa fase "fofinho", e eu não queria que mudasse, adoro aquele Thomas todo apaixonado. Estava no quarto da Roberta, esperando ela sair do banho, acabamos de voltar de uma volta que fomos dar, só pra sair um pouco mesmo, eu e ela estávamos tão próximas, era muito legal, nunca fui amiga dela, pelo menos não de sair sempre juntas e nem de contar tudo pra ela, quem sempre fazia esse papel era a Manu.. Meu celular tocou, interrompendo meus pensamentos, era minha mãe. Atendi e logo a Roberta saiu do banho, ela sentou na cama junto comigo e ficou esperando eu terminar de falar com a minha mãe -Ah mãe, você sabe que eu não gosto.. -Filha, mas é pela sua saúde -Tá tá mãe, vou pensar nisso -Pensa com carinho -Ta bom, outra hora a gente se fala. Beijo -Beijos filha Desliguei -Aconteceu alguma coisa? -A Roberta me perguntou enquanto pentiava seu cabelo. -É.. Uma tia minha morreu -Ah sério? Que chato.. -É.. -Você era muito ligada a ela? -Eu nem conhecia. -Hm.. E ela morreu do que? -Parada cardíaca parece. Ela tinha hipertensão, e agora minha mãe quer que eu faça um exame pra prevenir que eu tenha também, porque tem vários casos dessa doença na família, mas eu não quero fazer -Porque? -Não gosto de médico, hospital, nem nada disso -Ah Sofi, mas é pro seu bem né? -Mas eu to muito bem -Aparentemente sim, mas e se você tiver alguma coisa? -Ah que saco. Não vou fazer esse exame. Quem procura acha, não é? -Nem sempre, se você descobrir no começo pode curar, sua boba. E você vai fazer esse exame sim. -Só se você fizer comigo. -Faço. Eu não tenho medo de médico. -Ah que merda, não achei que você ia concordar. -ela riu. Ligamos pra um consultório. Faríamos os exames amanhã de manhã, e o resultado sairia na próxima semana. De manhã fomos bem cedo fazer os exames, queria me livrar disso logo. Pra falar a verdade nem foi tão ruim assim. O Thomas e o Pedro foram com a gente, depois fomos em uma lanchonete, comer alguma coisa. Manu Narrando To começando a entender o significado da frase "depois da chuva sempre vem o sol". Afinal tinha acontecido tantas coisas, tantas confusões e tempestades e agora.. bom, agora parecia que tudo tinha se acalmado, parecia. Eu e o Pedro Lucas voltamos, e aliás eu adorava voltar com ele, digo, sabe aquela fase boa do namoro? O começo, a volta de uma briga, é sempre a melhor fase. É tudo perfeito, carinhoso, lindo, maravilhoso. Os outros casais também tinham voltado até onde eu sei. Eu tava deitada na minha cama, era terça-feira de manhã, mas eu acordei e não conseguia voltar a dormir de jeito nenhum. As meninas deviam estar dormindo eu ter saído, não vi ninguém lá em casa. Fui até a cozinha pegar o yogurt na geladeira, e alguém bateu na porta.. -Quem e o infeliz que vem essas horas da manhã perturbar? -pensei Fui atender e era minha.. "mãe" -A Sofi deve tá dormindo ou saiu.. -respondi e entrei, ela entrou atrás e fechou a porta -Eu não quero falar com a Sofi, já falei com ela por telefone ontem! -ela respondeu -Ah, claro..Mas o que você veio fazer aqui? -Falar contigo, Manu! Você também é minha filha! -Sério? Tem certeza? Melhor fazer um exame de dna.. -ela me interrompeu -Para com isso, Manuella! Eu sofri muito como teu acidente, tua bulimia, e você sempre me ignorando, sempre fria, indiferente! Pare de ser assim, eu te amo! Sei que errei, que fui horrível contigo, mas eu to arrependida e quero pedir desculpas! -Acontece que todo mundo faz merda e pede desculpa, as desculpas não apagam o que já aconteceu! Quem começou me ignorando foi você, você fez eu e meu pai sofrer, só to te devolvendo teu sofrimento! -respondi -Mas até seu pai que foi o mais atingido dessa história toda me perdoo.. -Perdoo porra nenhuma! Ele finge que não liga mas sofreu pra caralho por tua causa, eu herdei isso dele, sofro, mas não falo. Agora ele já te esqueceu, deve tá até com outra. E eu também te esqueci... Agora se você me dá licença, meu sono tava muito mais agradável! -Manuella, espera! Eu sei de tudo o que você disse, mas vamos recomeçar, eu sei que tem um jeito da gente voltar ao normal! Eu e meu marido, o cara que tu tanto odeia, não estamos nada bem, nosso casamento tá horrível, eu to afastada de você, na verdade como sempre, ninguém se preocupa. Até a Sofi que morava comigo me abandono! -Para de drama! Foi você quem escolheu ser sozinha, foi você quem me trocou por esse cara, tá arrependida? Problema é seu, todo ato tem sua consequência, saiba aceitar as dos seus. -respondi e fui até a porta, abri e fiz sinal pra ela ir embora -Tudo bem, se é assim que você quer, eu vou, mas eu não vou desistir de você filha, eu te amo! -ela ia me dar um beijo na testa mais eu afastei, ela beijou sua mão e colocou no meu rosto, percebi que uma lágrima caiu de seu rosto e ela foi embora Fui pro meu quarto e deitei na cama, comecei a chorar. Sabe, eu detestava tratar ela daquele jeito, mas eu não consigo ver ela como minha mãe, ela me tratou de uma forma tão.. nem sei que palavra dizer. Ninguém entende, dizem que eu tenho que ser paciente e perdoar ela, mas ninguém passou pelo o que eu passei. Era difícil pra mim, tanto como era difícil pra ela ou até mais.