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Tirinha 132
Capítulo 132
Capítulo 132 - Colete salva-brothers.
Eu não tinha pra onde fugir porque precisava ajudar os dois idiotas a terminarem de limpar a casa, então o jeito foi ficar lá mesmo, na minha, pra não xingar ninguém. Depois de recolher todas as bitucas e colocá-las em latinhas, foi a vez de recolher as latinhas. Na sala, na cozinha, no corredor, no banheiro... Tinha lata e garrafa de cerveja até dentro da privada. Meu plano era recolher tudo que pudesse pela casa pra me livrar de limpar o banheiro e outras paradas nojentas. Aquilo tava fedendo gorfo de umas 20 pessoas. A gente tem que ser muito sem escrúpulos mesmo pra fazer uma festa pra um monte de gente tendo só um banheiro. É óbvio que vai ficar uma porra nojenta pra caralho no dia seguinte.
Só não recolhi as cervejas e bitucas dos quartos porque em todos tinha alguém. No do Fred tinha uma mina, no do Felipe tinha ele e duas minas, e no meu tinha o Dudu e a Layla. A sem noção da Layla... Ou será que o sem noção fui eu de ficar falando várias bostas pra ela na festa? Na real, eu não falei bosta, só falei a verdade. Mas não sei se devia ter falado. Se tem uma coisa que eu não gosto é de me meter na vida dos outros, principalmente porque odeio que se metam na minha. Mas defendo a tese de que deixamos de ser nós mesmos em alguns aspectos depois de uns goles... De qualquer forma, ainda acho sem noção da parte dela dizer que não gosta do Dudu, que não vai mais ficar com ele pra não iludi-lo, e no outro dia ir lá e ficar. Ou melhor, no mesmo dia.
Ah, na boa? Deixa isso pra lá. Eu já tenho problemas demais pra ficar me importando com os problemas dos outros. Se for me prender às coisas que todas as pessoas fazem de errado ao meu redor, vou ficar maluco. Por isso que eu acho que quem cuida muito da vida alheia é bem desocupado.
Eu: Tem um saco grande de lixo aí?
Perguntei pro Fred quando cheguei na cozinha carregando vários saquinhos plásticos com garrafas. Queria juntar todos num saco só pra facilitar o transporte. A gente ia ter que deixar tudo isso lá na caçamba da rua depois.
Fred: Olha no armário da lavanderia.
Fiquei surpreso quando vi o Fred lavando a louça, tipo, numa boa. Do lado direito da pia já tinham vários copos limpos posicionados pra secar.
Fred: O que tu tá olhando? Eu: Nada. Só to achando comédia tu lavando a louça. Fred: Eu moro sozinho faz uns 3 anos, cara. De vez em quando tinha que fazer isso.
Tá certo. Fui até o armário procurar o saco de lixo enquanto ele falava.
Fred: Tá certo que eu usava o mesmo copo por semanas pra não ter que lavar.
Caralho, não tá com cara de que tem saco de lixo nessa porra. Continuei procurando.
Fred: Tipo, se tu bebe Coca num copo, dá pra botar outro refrigerante por cima depois e foda-se. Ou mesmo água. Fica até com um gostinho de Coca no fundo. Eu: Que nojo. Fred: Menos leite. Leite dá game over no copo. Eu: Porra, não tem saco de lixo aqui. A gente comprou um monte de merda no mercado e se esqueceu disso. Fred: Tipo, imagina, tu bebe leite, daí termina e coloca Coca por cima. Deve até explodir o bagulho.
O jeito foi amontoar todos os saquinhos plásticos com lixo no canto da cozinha pra levar lá pra baixo depois, um por um. Que inferno.
Fred: Se bem que eu nem bebo leite. Só Toddynho. Eu: Aham.
Nem prestei atenção no que ele tava falando.
Fred: Meu celular tá tocando, pega ele ali pra eu ver.
O celular dele tava em cima da geladeira, piscando e vibrando.
Eu: Ah vai te foder. Fred: Nossa, mano, que custa?? To com a mão molhada. Eu: Depois tu vê. Fred: Deve ser mensagem sobre a festa que to vendo pra hoje. Pega lá! Eu: Eu to de boa de festa hoje, cara. Ainda não me recuperei da de ontem. Nem dormi direito. Fred: E daí, mano? To vendo a festa pra MIM, e aí? Eu: Orra. Tu já ligou mais pros amigos, hein?
Comentei zuando e peguei o celular dele em cima da geladeira.
Fred: E tu já foi menos idoso. Não ir porque não se recuperou de ontem? Sério mesmo? Tu me mata de vergonha.
Estendi o celular pra ele.
Fred: Coloca na mensagem aí pra eu ler.
Fiz cara de tédio pra ele.
Fred: Vai, ô. Minha mão continua molhada.
Bufei, mas fiz o que ele pediu. O que eu menos queria - depois de limpar o banheiro - era lavar a louça. Não custava fazer esse favor pra ele em agradecimento por me livrar dessa. Abri a mensagem no celular e mostrei pra ele.
Fred: Hmm.
Ele ficou olhando pra tela do celular enquanto ensaboava um prato. Cara, quem usou um prato ontem? A galera não tem limites.
Fred: É, sei lá. Tu tem alguma coisa pra fazer hoje? Eu: Não. Fred: Nada? Nenhuma ideia? Eu: Dormir. Fred: Porra...
Ele entortou a cara e ficou pensando.
Fred: É, então vai ter que ser essa festa aí mesmo. Eu: Qual o problema dela? Fred: Ah, nenhum. Normal. Festa.
Uma festa "normal" pro Fred é no mínimo muito boa. Então tudo bem. Mas eu ainda não tava muito animado.
Fred: EI, MATT! ROLÊ HOJE!
Ele falou alto pra avisar o Matt, que tava varrendo o corredor.
Eu: Ele não vai. Fred: POR QUE TU NÃO VAI? - ele berrou pro Matt. Eu: Nossa, cala a boca.
O Matt nem respondeu.
Fred: Por que ele não vai?!
O Fred nem sabia o motivo, mas já pareceu bem puto. E eu obviamente me aproveitei da situação, conhecendo bem meu amigo psicótico com relação a certos assuntos.
Eu: Por causa de mina.
Ele só faltou quebrar o copo de vidro que tava segurando com a esponja.
Fred: MATHEUS!!!
Ah, como as pessoas são previsíveis.
O Fred foi da cozinha até a sala com as mãos molhadas, deixando pingar sabão e água em todo o caminho. Eu continuei na cozinha só ouvindo.
Fred: TU VAI FAZER O QUÊ HOJE? Matt: Quê? Fred: TU VAI NUMA FESTA COMIGO E COM O THOM. MUITO BEM!
Disse isso, voltou pra cozinha e recomeçou a lavar a louça. Ficou um silêncio na casa por alguns minutos, até o Matt aparecer na porta segurando a vassoura.
Matt: Eu não vou hoje, cara. Fred: Aham. Matt: É sério. Fred: Aham. Matt: Eu tenho outra coisa pra fa... Fred: AHAM. Matt: Mano, dá pra tu ser menos criança por um segundo?
Foram poucas as vezes em que vi o Matt realmente puto na vida, e aquela foi uma delas. O Fred até demorou um pouco mais do que de costume pra responder.
Fred: Como é que é? - ele apertou os olhos. Matt: Eu não vou hoje. Fred: Velho, é óbvio que tu vai. Não existe essa opção. Matt: Eu acabei de ouvir o Thom falando que não vai também porque tá cansado. Eu: Vou sim.
Agora eu vou. Só pra contrariar o Matt. Sou desses.
Matt: Quê?! Tu acabou de falar. Fred: Tu tá ouvindo coisas. Todo mundo vai. Todo mundo sempre vai. Matt: Eu sabia que isso ia começar a acontecer de novo... Fred: As festas? Elas não tão começando de novo, cara. Elas nunca pararam. Nunca vão parar. Não enquanto eu te chamar. Matt: Já parou pra pensar que nem todo mundo tem que fazer tudo que tu quer o tempo inteiro? Fred: NÃO.
Eu não sabia o que Matt tava querendo dizer com "isso" começar a acontecer de novo, mas definitivamente, não dava pra discutir com o Fred.
Matt: Velho, não dá. Tu não tem nem argumento.
O Matt largou a vassoura encostada na parede da cozinha e saiu andando pra sala.
Fred: Tu anda muito revoltado, cara. Tua mina dormiu de calça jeans ontem?
O Matt não respondeu. E aí o Fred ficou dez vezes mais puto.
Fred: A MINA QUE TÁ TE BOTANDO UMA BELA DUMA COLEIRA CHEIA DE STRASS. Eu: Haha. Pega leve. Fred: ESCRITO "TETHEUS". Eu: Hahahaha. Fred: QUAL TEU HORÁRIO DE PASSEIO? DEPOIS DE FAZER XIXI NO LUGAR CERTO?
Nada do Matt nem responder. Eu nem sabia onde ele tava. O Fred deu um tapa tão forte na pia que os copos pularam.
Fred: HEIN, MATHEUS, CARALHO???
Até os vizinhos conseguiam ouvir a gritaria. Mas o Matt insistia em ignorar.
Fred: SE REBELA, TETHEUS! MIJA NA CAMA DELA! Eu: Hahahah! Tu passa muito mal! Fred: HAHAHAH!
Ficamos rindo sem parar daquela idiotice. Como sempre.
Fred: Relaxa, depois dessa ele vai. Eu: É. Hahah.
E enquanto eu limpava meus olhos, cheios de lágrimas de tanto gargalhar, o Matt passou pela porta da cozinha com uma mochila nas costas. Eu e o Fred olhamos sem entender.
Matt: Eu não to zuando. Não posso ir hoje e não vou.
Abriu a porta da sala e se mandou. Eu e o Fred ficamos em silêncio por um tempo tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer.
Eu: Cara. Fred: Pode crer.
Mais silêncio.
Eu: O que foi isso? Fred: O cara pirou de vez. Eu: Tipo, o que aconteceu? Fred: Surtou. Só pode. Usou uma droga muito pesada e não voltou da loucura ainda, cara. Essas coisas acontecem mesmo. Eu: Cala a boca, claro que não. Fred: Vai dizer que tu acha o Sick Boy normal? Cada dia ele tá de um jeito. São as drogas. Eu: Fred. Fred: A gente tem que parar com isso, mano. Vai ficar todo mundo maluco. Eu: Fica quieto pra eu pensar. Fred: Qualquer dia vou chegar aqui dizendo que uma mina deu mole e eu não peguei. Aí tu me interna, fazendo favor. Eu: Isso tem a ver com a Raíssa, certeza. Fred: Só se for muito feia. Daí tu não precisa me internar. Eu: Ela tá enchendo a cabeça dele de bosta, mano. Fred: Mas tipo, muito feia mesmo. Se for só feia e tiver uns peitão, não tem probl... Eu: Presta atenção, Fred. Fred: Mas tipo, mina SEM DENTE, tá ligado? Aí se eu recusar, é normal. Eu: E sem dente com peitão? Fred: Sem quais dentes? Eu: Mano, vamo focar. O Matt tá com sérios problemas. Fred: Problemas. Problemas com as drogas. Eu: Não tem nada a ver com as drogas. Fred: Tu não sabe, tu não é médico. Eu: Ô, eu fico cansado de falar contigo, sabia?
Ele ficou parado me olhando.
Eu: Na moral, parece que eu corri uma maratona assim. Meu coração até acelera. Fred: Eu causo isso nas pessoas. Principalmente nas mulheres. - ele riu na última frase. Eu: Para de lavar essa louça, tu não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo. Presta atenção em mim.
Ele largou os copos ensaboados na pia e cruzou os braços pra me ouvir, molhando toda a camiseta. Nem vou comentar nada pra ele não perder o foco.
Eu: Tá prestando? Fred: Vai, cara. Parece que tu tá falando com um retardado.
Meio que sim.
Eu: O Matt não tá normal, tu reparou.
Quando o Fred abriu a boca pra falar, eu interrompi.
Eu: E não tem nada a ver com as drogas!
Ele assentiu com a cabeça.
Eu: Ele tá pegando aquela mina, a Raíssa, tu tá ligado. Fred: A das tatuagens? Tá pegando ainda? Eu: Em que mundo tu vive? Fred: Olha, eu... Eu: Não, não, não. Esquece. Volta pro assunto da Raíssa. Presta atenção. Fred: Hm. Eu: Esquece o mundo que tu vive. Esquece que eu perguntei isso.
Acho que depois de muitos anos to finalmente aprendendo a lidar com a hiperatividade e a cabeça maluca do Fred. Ele ficou em silêncio pra me ouvir.
Eu: Ele tá pegando a mina das tatuagens ainda sim. E quase todo dia eles tão juntos, na faculdade, ela vem aqui, ele vai na casa dela. Fred: Sim. Na faculdade eu vejo. Eu: Certo. Fred: O que não quer dizer nada. Eu: Como assim? Fred: Ué. Ele pode pegar ela e estar pegando outras ao mesmo tempo, normal. Eu: É o Matt. Fred: É... - ele pensou. - Tá certo. Continua. Eu: Ele tá pegando a mina, tá praticamente namorando com ela, só não declarou isso ainda. Até chegou a me falar que a gente precisa aceitar isso, porque ele tá curtindo ela e é natural que eles namorem. Fred: Caralho, que banana. Eu: Até aí tá suave. A mina é meio chatinha, mas é mina dele, foda-se. Fred: É. E é gostosinha. Eu: É, foda-se. Fred: Não muito. Mas é. Eu: É. Fred: Tem gosto pra tudo. Eu: Presta atenção, Fred. Fred: Pelo menos tem todos os dentes. Eu: Ontem eu vi os dois tretando aqui na cozinha na festa. Ela reclamando que ele não respondia mensagem, umas paradas assim. Fred: Não responde mensagem? O maluco passa o dia inteiro com o celular! Acorda com o celular na mão, toma banho com o celular, só falta comer aquela porra no almoço. O que ele fica fazendo? Vendo pornô? Eu: É então. Fred: Será que é por isso que ela tá puta? Porque ele fica vendo pornô? Qual o problema disso? Eu: Não, mano. Fred: Não tem bagulho mais imbecil do que ter ciúme de pornô, cara. Pelo amor. Eu: Não é isso. Fred: To com umas paradas novas, inclusive. Te passo depois. Eu: O negócio é que o Matt... Calma. Só pra saber, tem tu nos vídeos? Fred: Não em todos. Eu: Me passa aqueles em que tu não aparecer. Fred: Vou filtrar. Eu: Valeu. Resumindo, a mina é daquelas malucas, tá ligado? A pauta não foi essa, mas não duvido que ela seja dessas que têm ciúme de pornô, que surta se o cara demora 2 minutos pra responder uma mensagem, essas coisas. Fred: Hm. Eu: Tanto que ontem ouvi ela dizer que tem ciúmes da Vicky e que não quer que o Matt veja ela mais. Fred: Não acho que isso seja um problema. Eu: MANO, presta atenção! A guria tá PROIBINDO o Matt de ver uma amiga dele! Isso não existe! Fred: Ah. Sim. Eu: Sacou o nível da doideira? Fred: Saquei. Eu: Ela deve ser uma doente manipuladora que tá entrando na mente do Matt e deixando ele desse jeito. Fred: Isso parece coisa de filme de ficção científica. Haha. Eu: Isso é sério, cara. A gente pode perder nosso amigo nessa. Fred: Ele não seria tão idiota. Eu: Ah, seria. O Matt é inteligente, mas ele é muito burro emocionalmente. Muito bonzinho, sensível, quer agradar o tempo todo. Tu tá ligado. Fred: É... Pensando por esse lado, ele é alvo fácil. Eu: É, não é? Fred: Calma. Será que ele não quis ir na festa hoje porque combinou alguma coisa com a mina?
E os anjos tocaram arpas no céu.
Eu: ÉÉÉÉÉ, FRED! Fred: NOOOOOOOOOOOOOOOOSSA, CARA. Eu: Tu entendeu!!! Fred: QUE IDIOTA PAU MANDADO DO CARALHO! Eu: É, mano. Fred: VAMO ATRÁS DESSE MERDA AGORA. Eu: Não, velho! A gente não vai conseguir vencer lidando desse jeito! Temos que conversar com ele numa boa, entender o que tá pegando. Fred: E aqui estamos nós fazendo planos pra vencer alguma coisa de novo. Da última vez não deu muito certo.
O Felipe apareceu na porta da cozinha.
Felipe: Vocês vão demorar muito? Minha mãe vem me visitar hoje. Fred: Tá rolando um papo sério aqui, cara.
O Felipe ficou olhando pra gente, estranhando a situação.
Eu: Quando tua mãe chega? Felipe: Daqui umas duas horas. Eu: Dá tempo. Vamo, Fred. Termina essa louça aí que eu vou levar o lixo lá pra baixo. Felipe: Quem vai lavar o banheiro? Fred: O Matt. - o Fred decidiu isso sozinho. Felipe: Não to vendo ele aqui.
O Fred olhou em volta.
Fred: Quatro olhos lazarento... ------------ CONTINUAÇÃO DO POST A PARTIR DAQUI ----------
O Felipe sacudiu a cabeça em desaprovação e saiu da cozinha.
Eu: Vai, cara. Termina essa louça aí. Fred: Será que a mãe dele é gata? Eu: Fala baixo! Fred: Deve ser.
Parei um pouco pra pensar antes de responder.
Eu: Deve ser mesmo.
O Felipe não é um cara bonito a toa, ele tem traços bonitos graças a uma boa genética. Se tiver uma irmã, ela deve ser gata também. Caralho, já to deixando o Fred entrar na minha mente!
Eu: Enfim. Vamos terminar essa merda logo. Já to com dor nas costas. Fred: Por que tu não limpa o banheiro enquanto eu termino a louça? Eu: Por que tu não vai te foder? Eu não vou limpar aquela porra sozinho. Nem ferrando. Fred: Pff.
Pensa que me pega nessa. Até parece. Já terminei com as bitucas e latinhas, mas não vou começar o banheiro sozinho, não. Me sentei no chão da cozinha pra esperá-lo terminar com a louça.
Fred: Mas então, qual teu plano com o Matt? - ele perguntou enquanto enxaguava um copo. Eu: Não sei. Fred: Como não sabe? Tu não tinha um plano? Eu: Não. Fred: Porra, Thommo. Eu: Só acho que a gente não pode forçar a barra. O Matt não gosta de conflitos então vai ficar do lado dela se a gente começar a pesar. Fred: Ele precisava ir com a gente na festa de hoje, velho. Eu: Também acho. Mas sinto que não vai rolar. Fred: Será que o Matt tá crescendo? Eu: Como assim? Fred: Ah, tu sabe. Perdendo a paciência com certas coisas, incluindo a gente.
De vez em quando o Fred tem uns lapsos de consciência que eu até me impressiono.
Eu: Ah... Acho que não.
Na verdade eu não tinha pensado naquilo até ele falar, mas não queria concordar pra não ser verdade.
Eu: E outra, a gente não tem 7 anos. Não tem essa de "crescer". Fred: Po, sei lá. Começar a faculdade, namorar sério, daqui a pouco começa a trabalhar... Eu sempre imaginei que o Matt seria o primeiro a cansar da vida bandida. Eu: Para. Não é pra tanto. Fred: Sei lá.
O Fred pareceu um tanto abatido com aqueles pensamentos, ficou até quieto por alguns minutos.
Fred: Não queria crescer, não, cara. Eu: Se tem uma coisa da qual eu tenho certeza é de que tu nunca vai crescer. Fica tranquilo.
Ele riu enxaguando o último copo da pia.
Fred: É. Eu: Não gastando dinheiro com Toddynho toda semana. Fred: Só não queria ficar pra trás, tá ligado? Se for pra crescer, beleza, mas que seja no mesmo tempo que vocês. E também queria que o Matt esperasse um pouco. Eu: Sai dessa bad, Fred. Tá todo mundo numa boa. Fred: Vai ver é isso, Thommo. O Matt finalmente caiu na real de que somos dois idiotas. Eu: Hahahaha! Fred: Idiotas demais pra sermos amigos dele. Eu: hahahaha! Que viagem. Fred: Eu não to brincando. - ele riu, mesmo falando sério. - A gente é escroto demais, o Matt é um ser evoluído. Eu: Vai ver é por isso que somos amigos. A missão dele na Terra é ajudar a gente. Fred: Oh. Bonito isso. Eu: Tipo, ajudar a gente a não morrer tão cedo e tal. Fred: Haha. Pode crer. Pelas minhas contas, eu já teria morrido há uns quatro anos sem o Matt. Eu: Eu teria morrido naquele dia em que o Kid ia me bater. Fred: Qual deles? Foram muitos. Eu: O do skate... Fred: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
O Fred riu tão alto que a mãe do Felipe deve ter ouvido lá da rodovia entre a cidade dela e a nossa.
Fred: MUITO BOM! HAHAHAH! Cara, a gente não pode perder o Matt pra essa mina. Nem fodendo! Eu: Hahahah. Pode crer. Fred: A gente não pode perder o Matt pra essa mina e nem pra vida adulta! Eu: Tu já terminou a louça? Vamo terminar logo essa bosta desse banheiro pra poder dormir. Fred: Demorou.
Ele enxugou a mão no pano de prato em cima do fogão e me seguiu até o banheiro. Abrimos a porta com cautela, esperando pelo pior. E lá estava o pesadelo: tinha vômito na pia, bitucas de cigarro tampando o ralo, o espelho todo cheio de marcas de dedo, a pasta de dente aberta no chão, e a privada... Bom, deixa pra lá.
Fred: Mano. Eu: Tá foda. Fred: Mano.
Ele se abaixou e pegou a pasta de dente do chão.
Fred: Quem é o DOENTE que abre uma pasta de dente no meio da festa pra passar no chão?? Eu: Passaram na parede também. - apontei. Fred: Puta merda. Eu: Já sei quem foi. Fred: O monstro do álcool. Eu: Exatamente. Fred: "E o monstro do álcool ataca novamente." - ele fez voz de locutor. - Tinha que ter esse personagem no Mortal Kombat. Imagina, Monstro do Álcool versus Sub Zero.
Ele abriu a torneira e começou a jogar água pro vomito descer pelo ralo. Parei de olhar aquela nojeira pra não passar mal, e fui até o lixo pra tirar o saco.
Fred: Caralho, vou vomitar. Eu: Não faz isso. Fred: O bagulho tá seco, mano. Eu: Affff. Que merda. Fred: Na moral, vou vomitar. Eu: Para de mexer aí então, caralho! Fred: QUE NOJO, MANO! VAI SE FODER! Eu: Pior que eu também não to aguentando esse cheiro. Fred: AAAAHHHHHHHHH! Porra!
Era um cheiro azedo misturado com álcool e o perfume do inferno. O Fred começou a tossir, ameaçando o vômito.
Fred: Puta que pariu, caralho, filha da puta. Eu: Como tu fazia na tua casa quando tinha festa? Fred: Mano, eu dava uma geral, mas o banheiro quem limpava era a empregada. Ou se eu soubesse o dono do vômito, fazia ele limpar no dia seguinte.
Pode crer. Perdi a conta de quantas vezes o Fred me acordou com um pano na mão.
Eu: E por que tu não chama a empregada?? Fred: Ela parou de me atender depois daquela festa em que só teve pinga colorida. Eu: Por quê? Fred: Cara, numa festa SÓ com pinga quem não vomitou devia ganhar uma medalha de ouro. Eu: HAHAHA! Fred: E quem vomitou só uma vez, de prata. Eu: A gente precisa arrumar uma empregada, cara. Fred: Sim, uma bem gostosa.
Ouvimos a porta do quarto do Dudu se abrindo, e a Layla apareceu no banheiro enquanto a gente encarava a pia vomitada. Ela tava com a mesma roupa de ontem, os cabelos emaranhados e a maquiagem dos olhos borrada.
Fred: Pode ser tu, Layla. Layla: O quê? - ela perguntou coçando os olhos e borrando ainda mais a maquiagem preta. Fred: Quanto tu quer pra limpar a casa uma vez por semana?
Ela mostrou o dedo do meio pra ele, depois se aproximou da pia. Fez uma cara feia quando viu.
Layla: Que nojo. Fred: Agora fala um bagulho que a gente ainda não saiba. Layla: O que vocês tão esperando? Fred: Um milagre.
Ela olhou pra mim, depois olhou pro Fred.
Layla: Vocês nem sabem por onde começar, né? Fred: Não, pelo amor de Deus, dá uma ajuda. A mãe do Felipe tá colando aí. Layla: Então por que o Felipe não limpa? Fred: Porque somos muito gente fina. Eu: A gente perdeu uma aposta. Layla: Ah. Fred: Calma, não foi bem assim. Eu: Foi sim, velho. Não tenta amenizar a cagada. Fred: Foi puta injustiça. Eu: Injustiça onde? Fred: Mano, o Felipe não tem a menor cara de quem sabe jogar vídeo game! Layla: Gente, não to entendendo nada. Vocês querem ajuda? Comecem pegando uns produtos de limpeza. O chão tá imundo.
Ficamos parados olhando pra ela.
Layla: Tem cloro aí? Água sanitária? Fred: Isso vende no mercado? Layla: Meu Deus...
Ela saiu em direção à cozinha, provavelmente em busca dos tais produtos.
Enquanto eu olhava a água da torneira escorrer por cima do vômito seco da pia, o Fred apertou meu braço com força olhando pra tela do celular.
Fred: MANO! Já sei! Eu: O quê? Fred: A gente conhece o Matt e sabe que ele é um bundão, certo?
Que pergunta é essa?
Fred: Certo? Eu: É... Fred: Tipo, tá ligado que não adianta dar uma puta de graça pra ele comer em troca de um término com a Raíra. Eu: Raíssa. Fred: Pois então, hoje rola festa na chácara de uma Bia, amiga da Larissa. Eu: Como tu sabe?? Fred: Cara, eu não seria eu se não soubesse dessas coisas. Eu: Pode crer. Fontes confiáveis mesmo? Fred: Sim. Parada séria.
Cruzei os braços pra pensar. Será que era uma boa ideia?
Fred: Na moral, é o plano perfeito. Se o Matt encontrar a Larissa, ele nem vai lembrar que a mina existe. Eu: Velho, não sei... O Matt já tentou voltar com a Larissa antes e não deu nada certo. Ele ficou bem mal. Fred: Isso faz tempo! Eu: Não sei. Fred: Mano, ou é isso ou é nada. A gente liga pro Matt dizendo que a Larissa chamou ele pra ir hoje, aí ele com certeza vai dar um perdido na Raissa. Eu: Fred, é o Matt. Ele não vai dar perdido em ninguém, confia em mim. E não vai ser burro o suficiente pra acreditar que a Larissa chamou ele. Fred: Hm. Verdade. Eu: Acho melhor a gente chamar pra uma festa qualquer, sem falar que a Larissa vai estar lá. Fred: Beleza. Eu: É, talvez seja uma boa ideia. Não custa tentar. Se ele não curtir, a gente vaza e pronto. Fred: É claro que ele vai curtir! Ele tem um moleskine inteiro escrito "Te amo, Larissa" de todas as cores e formatos.
É. Não custa tentar. To ligado que isso é jogar baixo, mas não custa tentar.
Fred: Que gay. Eu: A Mirella também deve ir, né? Fred: E TU ACHA QUE EU IRIA SE ELA NÃO FOSSE? PFFF! Eu: HAHAHAH! Fred: Cara, vai dar certo. O Matt com certeza vai pegar a Larissa e ele não vai suportar a ideia de estar com duas minas ao mesmo tempo, vai contar pra Raissa, ela vai surtar, e teremos o velho Matt de volta. Eu: É um belo plano. Fred: E nunca mais perderemos apostas no vídeo game. Layla: Olha, isso deve servir.
A Layla chegou trazendo dois baldes cheios d'água, panos de chão e produtos de limpeza. Isso vai demorar.
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