Na quinta-feira, o dia seguinte ao meu “encontro” com o José, nós dois até que conversamos bastante pelo WhatsApp. Depois que nos beijamos na praia, ficamos mais um tempo por lá, apenas caminhando de mãos dadas, como se fôssemos um casal, e rindo de coisas bobas. Ficamos mais algumas vezes também, e mais tarde ele me deixou em casa.
Era sexta-feira à tarde e eu estava atoa em casa, vendo série, como sempre. Não havia conversado com o José ainda, mas não estranhei o fato. Na verdade, até preferi, pois não queria engatar num outro relacionamento tão cedo. Mas nada contra ele, só para esclarecer. Ele era um amor, eu é que não queria mesmo.
Meu celular vibrou anunciando uma nova mensagem e eu pausei o episódio que assistia para ver o que haviam mandado. Era a Carol.
15:30 “Miga, anima ir pra uma festa segunda?”
15:30 “Segunda, Carol? Ninguém vai em festas em plena segunda-feira.”
15:31 “É feriado segunda e terça, esqueceu? Muita gente vai.”
15:32 “Que festa é essa?”
15:33 “É de um colega meu, no canal 3. Vai ser na casa dele. A Gabi ia comigo, mas acabou que não deu, e preciso de alguém pra ir comigo.”
15:34 “Tá querendo ir por que vai encontrar com algum cara lá, né? Hahahaha. Vou olhar com meus pais e te falo, ok? Mas como nós vamos?”
15:35 “A Mari, minha prima, vai também, e ela dirige.”
15:36 “Ah, tranquilo então. Falo com meus pais e depois te digo.”
15:36 “Ok, miga.”
Festa no canal 3, na casa de um colega da Carol. Que colega era eu não fazia a mínima ideia. Aliás, nunca tinha ouvido falar que ela tinha algum colega no canal 3, mas ok.
Falei com meus pais um tempo depois e ficou decidido que eu iria dormir na casa da Carol, como a Mari era vizinha dela e eu morava um pouco longe, ficaria mais fácil na volta. E, bom... A sexta se resumiu nisso. Assisti séries e conversei com a Carol sobre o tal garoto que ela iria ficar lá. Beleza. Nada melhor do que ficar de vela numa festa.
Sábado de manhã fui acordada com meu pai quebrando alguma coisa bem embaixo da janela do meu quarto. Quando peguei o celular para olhar as horas morri de raiva ao constatar que ainda eram 9 horas.
Como perdi o sono decidi levantar e fazer algo de produtivo no meu dia. Algo que não fosse pegar o notebook, me deitar novamente e assistir séries pelo resto do dia. Vesti uma roupa qualquer que encontrei no guarda-roupas e saí do quarto, indo até a cozinha. Peguei um pote de iogurte na geladeira e fui comendo até a varanda.
— Acordou cedo? – Minha mãe me olhou completamente espantada.
É mãe, eu sei que essas coisas nunca acontecem. Mas sim, acordei.
— É né, pai está fazendo o maior barulho perto da minha janela, acabei perdendo o sono.
— Que milagre, gente. – Ela riu.
— É, e já que estou acordada, acho que vou dar uma volta.
— Vai de bicicleta, seu pai tirou ela do quartinho hoje e lavou. Só precisa encher os pneus.
— Tem bomba aqui?
— Tem, pergunta ele lá onde está.
Terminei meu iogurte e fui falar com meu pai. Fazia tempo que eu não andava de bicicleta e seria bom dar uma volta nela, pegar um arzinho na cara. Por sorte nós tínhamos uma bomba, meu pai me ajudou a encher os pneus e um tempo depois eu saí de casa.
Pedalei até a orla da praia e de lá até o canal 2. Por ser sábado de manhã, até que não estava tão cheia a praia, então fiquei sentada na areia por um tempo, sem fazer nada, só olhando o mar e deixando os pensamentos voarem.
Sempre gostei disso, de sair a qualquer hora do dia e ficar ali, só vendo o mar. Gostava ainda mais quando fazia isso à noite, mas como a cidade não era lá a mais segura do mundo, só me arrisquei a sair sozinha à noite umas duas ou três vezes na vida.
Fiquei ali por mais um tempo pensando nos últimos acontecimentos. Me formei, terminei meu namoro depois de levar um belo — ou alguns — par de chifre, fiquei com o garoto por quem eu era apaixonada na quinta série, e não fazia a mínima ideia do que faria da minha vida a partir dali. Que faculdade eu cursaria? Meus pais conseguiriam pagar uma faculdade particular ou eu teria que me matar de estudar pra conseguir entrar numa pública? Em qual faculdade pública eu tentaria passar? E o mais importante: de onde eu tiraria forças para estudar para o ENEM?
Quando olhei o celular o relógio já estava marcando 12:30. Levantei-me dali e montei na bicicleta novamente, pedalando na direção de casa. Enquanto passava por uma padaria, resolvi comprar uma lata de refrigerante, entrei lá, peguei a latinha e paguei. Estava tudo bem, eu estava me sentindo ótima, leve, tranquila... Mas aí, assim que coloquei os pés para fora da padaria, dei de cara com o Gabriel. Dentre milhões de pessoas com quem eu poderia encontrar, eu me encontrei com ele.
— Luna, oi! – Ele disse surpreso e com um sorriso no rosto.
Respira fundo, Luna. Aja naturalmente, seja indiferente.
— Oi... Gabriel. – Falei por fim.
— Não esperava te encontrar por aqui, como você estava?
— Estou muito bem, e você?
— Estou legal. – Disse suspirando logo em seguida.
— Que bom, Gabriel. – Forcei um sorriso. – Vou indo então, até mais. – Completei indo até a minha bicicleta.
— Espera, Luna! – Ele disse e segurou meu braço um pouco acima do pulso, quando me virei ele soltou rapidamente. – Nós podemos... Sabe... Conversar?
— Agora não vai dar, Gabriel. Tenho que ir pra casa, meus pais devem estar me esperando para almoçar.
— Não tem problema, vai ser rápido e... A gente pode ir andando, eu te deixo em casa.
— Tá, tudo bem. – Suspirei.
Eu não queria conversar com ele. Não. Ã-ã. De jeito nenhum. Mas eu não queria ser grossa. Por mais que ele merecesse toda a grosseria do mundo, eu não queria ser. Não por ele, mas sim por mim. Guardar rancor era algo que eu estava tentando não fazer. Com ninguém, por nenhum motivo. Então só respirei fundo e caminhei lentamente ao lado dele enquanto empurrava a minha bicicleta.
— Deixa que eu levo. – Ele disse.
Gabriel se colocou entre mim e a bicicleta e tirou-a de minhas mãos, me fazendo afastar um pouco para o lado. Continuamos caminhando em silêncio por alguns segundos, e aquilo estava me incomodando. Ele não disse que queria conversar? Que começasse a falar então, oras.
Percebi ele suspirar e puxar o ar de forma pesada, então parou de andar e falou:
— Eu sinto sua falta, Luna. Todos os dias.
Ah, claro! Por que eu não imaginei que o assunto fosse ser aquele? E eu podia apostar que ele não tinha tanto tempo assim para sentir minha falta, já que ele aparentemente vivia se atracando com aquela morena do shopping. Continuei andando e ele me acompanhou.
— Eu sei que fui um completo idiota com você. – Prosseguiu ao ver que eu não falaria nada. – E sei que você tem todos os motivos do mundo pra me odiar. Mas eu estou sendo sincero, Luna. Eu estou muito arrependido. Eu era um antes de te conhecer e, por pouco tempo, tornei a ser aquele cara, mas depois eu vi o quão errado foi o que eu fiz e percebi que eu não sou mais assim. Me senti horrível depois que a minha ficha caiu e eu percebi que havia te perdido. Eu ainda amo você, Luna.
— Pensei que você estivesse com aquela garota, a do shopping.
— Eu só fiquei com ela algumas vezes desde que terminamos, mas assim que eu percebi a merda que fiz, nós não nos vimos mais.
— E você acha que pode vir falar essas coisas comigo na primeira oportunidade que tem que eu vou simplesmente te perdoar e esquecer de tudo? Me atirar em seus braços? Você está errado, Gabriel.
— Não é isso, Luna. Eu sei que não é assim. Estou te pedindo uma chance pra consertar o meu erro, eu estou mesmo arrependido, cara.
— Eu não confio mais em você, Gabriel.
— Eu sei, e eu quero uma chance de fazer você confiar em mim de novo.
Revirei os olhos enquanto suspirava pesadamente. Devia acreditar que ele estava mesmo arrependido ou não? É, não devia. Mas eu acreditei? Sim. Acreditei pois vi sinceridade no olhar dele, senti que suas palavras foram sinceras e que ele estava sendo honesto comigo. Se aquilo era um erro eu ainda não sabia, mas esperava que não fosse.
— Eu... Vou tentar, ok? Mas não prometo nada.
— Isso já é suficiente. – Ele disse com um sorriso esperançoso e segurou minha mão. – Você me perdoa? – Perguntou enquanto acariciava meus dedos de forma lenta e olhava para os mesmos.
— Ainda é cedo pra dizer, mas eu vou tentar. – Falei soltando minha mão da dele. Já estávamos em frente a minha casa e eu me afastei, pegando a bicicleta. – Obrigada por me trazer. A gente se fala depois. – Completei abrindo o portão.
— Amo você, Luna.
Forcei um sorriso e então entrei. Me senti melhor ali, do outro lado do muro, sem o olhar dele em cima de mim. Respirei fundo e soltei o ar de forma aliviada. Eu esperava mesmo, de verdade, que ele não me decepcionasse novamente.
Deixei a bicicleta na varanda da frente e entrei, minha mãe estava na cozinha e avisou que o almoço estava pronto, mas antes fui tomar um banho para tirar a maresia do corpo.
Já era noite e eu estava vendo televisão enquanto conversava com o Gabriel pelo Whats. A conversa estava leve, ele, felizmente, não estava forçando nada, só estava me tratando como uma boa amiga.
Um pouco mais tarde foi a vez do José me chamar. Confesso que não esperava que ele fosse me procurar, já que não falou comigo na sexta-feira, mas ele procurou e nós até que conversamos bastante.
E isso na verdade não era bom. Havia o Gabriel querendo uma outra chance comigo depois de me decepcionar e me magoar, e havia o José, querendo a primeira chance. Eu amava o Gabriel, mas gostava do José. Eu não sabia o que fazer.
No domingo à tarde eu saí com meu pai. Eu havia decidido que queria pintar o meu quarto e ele me levou até um depósito onde vendia materiais de construção para vermos as tintas. Eu queria apenas uma parede num tom de verde turquesa e o resto pintaríamos de branco mesmo. Depois de comprarmos as tintas passamos num mercado e compramos dois caixotes de madeira pequenos, pois eu queria pintá-los e fazer uma prateleira com eles. Meu novo quarto já estava todo na minha mente, e seu eu fizesse tudo o que queria, eu tinha certeza de que ficaria lindo e bem a minha cara.
Quando chegamos em casa fui tomar um banho e um tempo depois, enquanto eu via televisão, meu celular vibrou anunciando uma mensagem no Whats, quando abri o aplicativo vi que era o José quem estava me chamando. Conversamos por alguns minutos e não demorou para ele chegar na parte da conversa que ele queria.
17:15 “Tu tá livre amanhã? Pensei que a gente pudesse sair de novo...”
17:16 “Poxa, foi mal, Zé. Mas não vai dar, fiquei de sair com a Carol.”
Tá, não era tão ruim assim. Se eu saísse com ele de novo ele certamente encararia isso como um possível relacionamento, coisa que eu não estava querendo.
17:16 “Ah, tô ligado. De boa então, deixa pra outro dia.”
17:17 “É, quem sabe numa próxima.”
E depois disso não conversamos muito mais.
O resto do dia foi tranquilo, normal. Comecei a ler um livro que a minha mãe tinha levado para mim alguns dias antes e assisti alguns episódios de uma série também. Lá pelas 1h da manhã resolvi ir dormir.
Na segunda acordei um pouco mais cedo e, como teria que sair, aproveitei para lavar meu cabelo e alisá-lo um pouco nas pontas, que estavam voltando a cachear.
Durante o dia fiquei atoa, saí apenas para dar uma volta por falta do que fazer, e voltei antes das 16h. A festa começaria às 22h e às 20:30 tomei um outro banho e comecei a me arrumar.
Depois do banho parei de frente para o guarda-roupas e procurei algo para vestir. Eu não tinha muitas opções, já que fazia tempo que não comprava roupas novas e já havia usado as minhas em todos os lugares possíveis, mas optei por uma saia preta um pouco rodada e uma camisa jeans. Calcei uma bootie também preta com um salto médio, fiz um delineado de gatinho, coloquei alguns anéis e um par de brincos e passei um perfume. Estava pronta.
No pequeno bolso da frente da camisa coloquei o dinheiro que meus pais haviam me dado e antes de sair ajeitei o cabelo e peguei o celular e a mochila onde coloquei o pijama e outras coisas, já que eu dormiria na Carol.
Carol e sua prima já estavam no portão me esperando, então me despedi rapidamente dos meus pais e saí.
— Olá! – Sorri enquanto caminhava na direção do carro.
— Que linda! – Carol disse sorrindo.
Abri a porta de trás e entrei, Mariana me cumprimentou e em seguida deu a partida no carro. Eram 22:30 e pouco tempo depois chegamos à casa do tal do Lucas, o garoto que estava fazendo a festa.
Descemos do carro e haviam várias pessoas chegando, a música estava alta e a casa parecia já estar cheia.
— E aí, Luc. – Carol cumprimentou um garoto no portão.
— Ei, Carolzinha. Que bom que veio, como está?
— Estou ótima! – Sorriu. – Essas são Luna e Mari. – Apontou para nós duas.
— E aí. – Ele sorriu e nos cumprimentou com um beijo no rosto. – Sejam bem-vindas e sintam-se em casa.
— Valeu, Luc. – Carol sorriu novamente.
Entramos e realmente, já estava bem cheio. A casa parecia ser enorme, tinha dois andares e o jardim da frente estava iluminado. Tinha um gramado extenso com alguns bancos espalhados e algumas pessoas estavam por ali conversando e bebendo. Subimos os três degraus que davam para a entrada da casa e nos deparamos com uma sala enorme lotada de gente. Bem de frente para a porta ficava a escada, onde várias pessoas estavam também. Resumindo: Tinha gente em todos os cantos.
— Uau! – Exclamei surpresa.
— Não é? A casa dele é típica do canal sete.
— Realmente. – Mariana disse. – Nunca pensei que fosse encontrar uma casa assim no canal três.
— Deve ser a única. – Ri.
— Vamos beber! – Carol levantou os braços abrindo um sorriso e nos puxou para a cozinha.
Em cima do balcão haviam várias garrafas de vodca, uísque, tequila, cerveja e outras mil bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Peguei um copo de plástico colorido e coloquei um pouco de vodca, depois preenchi com refrigerante.
— Cara, tudo o que eu queria hoje era beber pra caralho. Olha pra tudo isso!!! – Carol disse sorrindo. – Mas não bebam, por favor. Mari tem que dirigir e você, Luna, sabe como meus pais vão ficar se te virem bêbada.
— É, tô ligada. – Ri. – Mas não vou exagerar, relaxa.
Elas pegaram as bebidas delas e antes de sairmos dali eu peguei um canudo e coloquei no copo. Dei um gole na bebida enquanto íamos para a sala e encontramos um canto mais vazio para ficarmos. Tocava uma música eletrônica e ficamos ali dançando no ritmo da mesma.