Capítulo 58 - Run, Forrest, run!
Beleza, daqui uma hora e meia mais ou menos a Alícia vai estar no aeroporto daqui. Corri pra falar com o Dudu e a Vicky.
Eu: O aeroporto é longe daqui?
Dudu: Tu tá bem, cara? - ele botou a mão no meu ombro, me olhando estranho.
Vicky: Deu tudo certo?
Eu: Quanto tempo eu demoro até o aeroporto?
Eles se entreolharam.
Dudu: Sei lá, umas duas horas.
Eu: Duas horas?! Onde fica essa merda?
Dudu: É um aeroporto, Thom, fica longe da cidade.
Vicky: Sem contar o trânsito. Tem uma galera indo trabalhar a essa hora, ainda é sexta-feira de manhã.
Fodeu, fodeu, fodeu.
Eu: Tá, foda-se. Como eu faço pra ir pra lá? Tem metrô?
Dudu: Nem tem.
Eu: Caralho, mano.
Vicky: Só dá pra ir de carro ou taxi.
Eu não tenho carro, não dirijo e gastaria uma fortuna se quisesse ir de taxi pra lá. Nem preciso dizer que não tenho um puto se quer no bolso. Queria ter um amigo rico nessas horas. E eu tenho! Cadê o viado do Fred quando se precisa dele? Pedi pro Dudu ligar pro Fred, que atendeu e disse que tava indo lá pra sacada nos encontrar. Não demorou muito pra ele aparecer, junto com o Matt.
Fred: Whazuuup!
Eu: Preciso de muito dinheiro.
Fred: Hein?
Fred: Preciso ir pro aeroporto agora, a Alícia tá me esperando.
Matt: Sério? - ele sorriu.
Eu: Sério, mas não tenho como ir pra lá. Preciso de dinheiro pro táxi. Pago pra vocês depois.
Fred: Eu só to com cartão, velho.
Matt: Porra, eu também. Tem taxista que aceita cartão, mas a gente precisa arranjar um desses.
Eu: Não dá tempo, velho. Caralho, estraguei tudo de novo.
Fred: Por que tu não vai num puteiro que aceita cartão ao invés de ter que bater lá no aeroporto pra comer uma mina?
Nem respondi. To fodido, depois dessa mancada ela vai terminar comigo na certa. Também posso ligar pra ela pra dizer que não vai dar, mas meu orgulho não deixa. Tem que ter um jeito.
Matt: Pede pro Tomate, que veio dirigindo, te levar.
Eu: Pode crer. Dudu! - chamei ele.
Dudu: Fala.
Eu: Cadê o Tomate? Será que ele me dá uma carona?
Ele só apontou um moleque de cabelo vermelho debruçado na grade da sacada, todo vomitado.
Matt: Acho que não.
Fred: Que bad! Hahaha!
Fodeu, sempre me fodo, só estrago tudo, que merda. Por que nunca dá certo, cara? Só uma vez, só dessa vez. Me sentei no chão, que tava todo sujo, mas tava pouco me fodendo. Fiquei lá sentado esperando o mundo acabar, até o Fred aparecer, ainda dando risada.
Eu: Se tu tiver aqui pra fazer graça, pode vazar.
Fred: Iiiih.
Eu: Não tô com paciência, na boa.
Ele sacudiu uma chave de carro na minha cara, sem dizer nada.
Eu: Que porra é essa?
Fred: Chave do carro do Tomate, acabei de pegar no bolso dele.
Eu: E tu tá pensando o que? Que eu vou dirigir o carro dele? Eu não sei dirigir, mano. Meu pai nunca se deu ao trabalho de me ensinar, aquele puto, to de saco che...
Fred: Pára de reclamar igual uma velha e levanta a bunda daí. Eu vou dirigir essa porra.
Vai o que?! Continuei sentado, porque não conseguia assimilar as coisas.
Fred: Vai, porra. Se for só eu buscar ela vai ficar esquisito.
Disse isso e me puxou pela gola da camiseta até que eu me levantasse. O que eu tenho a perder?
O Matt ficou branco na mesma hora e me puxou pelo outro lado da gola da camiseta.
Matt: O Fred vai dirigir?!
Fiz que sim com a cabeça. O Fred, que já tava lá na frente, voltou e puxou o Matt pelo braço pra levá-lo junto.
Fred: Vou mas não posso me esquecer do meu juízo.
A gente vive falando que o Matt é nosso juízo. Porque, se dependesse só de nós dois, nem sei onde estaríamos numa hora dessa. Nem preciso dizer o quanto ele tava desaprovando a idéia enquanto era arrastado pro lado de fora da festa.
Matt: Fred, desde quando tu sabe dirigir?
Fred: Desde sempre.
O Fred diz as coisas tão convicto que tu chega a acreditar. Mas não duvido que o pai dele já tenha lhe dado um carro de presente aos 14 anos, ou alguma coisa assim. Finalmente saímos da festa, e o Fred correu pra abrir o carro do Tomate. O Matt se sentou no banco do passageiro e já foi logo colocando o cinto, e eu me sentei atrás. O Fred ficou no banco do motorista, olhando o painel.
Matt: Fred? - ele estalou os dedos.
Fred: Cadê o som dessa porra?
Eu: Mano, acelera! Para de brisar no rádio, a mina tá me esperando.
Ele olhou pra trás com uma cara de merda, e já foi enfiando a chave no contato.
Matt: Coloca o cint...
BUM! O carro deu uma puta acelerada quando o Fred deu a partida e foi um pouco pra frente. Meu coração quase saiu pela boca.
Fred: Opa, tava engatado. Haha.
Matt: Fred, tu vai matar a gente. - ele disse, com a mão no peito.
Eu: Admite que tu não sabe dirigir, sério.
Fred: Sei sim, eu sei tudo.
Ele voltou a dar partida.
Depois do Fred quase quebrar a chave de tanto virá-la no contato, o carro pegou. O marcador da gasolina não subiu muito, mas não falei nada pra que ninguém inventasse de passar no posto. Não ia dar tempo.
Matt: Tá sem gasolina.
Porra.
Eu: Tem um pouco ainda. Acelera, Fred.
Matt: Vai acabar no meio do caminho. Pára num posto antes.
O Fred saiu com o carro na maior velocidade. Sorte que não tinha nada na frente. E tava na cara que ele não sabia dirigir porra nenhuma. Me segurei firme no encosto do banco do Matt e pedi pra não morrer antes de ver a Alícia.
Matt: FRED, CARALHO!
Fred: Com ou sem emoção?
Matt: Eu tenho escolha?
Fred: Ahn...
Ele parou pra pensar, e nisso quase se esqueceu de freiar no semáforo vermelho que brotou na nossa frente.
Fred: Opa!
Enfiou o pé no freio de uma vez, me fazendo enfiar a cara no encosto do Matt.
Fred: To pegando o jeito.
Já fazia uma meia hora que a gente tava sofrendo no carro com o Fred. Confesso que minha bebedeira até passou um pouco de tanta tensão. O Matt, então, faltava pouco pra infartar. Mais uma freiada brusca e o coração dele parava. Tava branco, parecendo um gato arisco, com as unhas cravadas no banco. O Fred só dava risada e xingava os carros que não davam passagem pra ele.
Fred: PUTA MERDA!!!
Quase morri com isso, mas logo percebi que ele tava sorrindo.
Eu: O quê?
Fred: Achei o som.
Ele simplesmente ignorou que era o motorista e se abaixou pra pegar alguma coisa que tava próxima dos seus pés. O Matt agarrou o volante na mesma hora.
Matt: Fred, caralho! Para de ser maluco, puta que pariu!
Ele voltou a posição normal e deu um tapa no braço do Matt que segurava o volante.
Fred: Sai daí, Matt. Agora como será que coloca o som?
Ele tirou a mão do volante e ficou olhando pro espaço vazio onde se instalava o som, ignorando a fileira de carros à nossa frente. De novo não.
Eu: Me dá essa porra! - tirei o rádio da mão dele. - Olha pra frente!
Matt: FREIA, FRED!!!
Enfiei a cara no encosto de novo quando ele freiou.
Fred: Vocês dois tão me estressando.
Eu: Coloca o som aí, Matt.
Matt: Tu é louco. O Fred vai perder a concentração de vez.
Fred: Foda-se, eu nunca to concentrado. - ele olhou pro Matt.
Eu: Mano, olha pra frente! - dei um tapa na cabeça dele.
Eu que ia ter um infarto dali a pouco. Continuamos seguindo até o fim da principal avenida que tinha por ali. Vivos. Fui ficando cada vez mais aflito enquanto olhava pro relógio. A Alícia já não tava botando muita confiança em mim. Se ela chegasse lá e não me encontrasse, não ficaria parada nem um minuto me esperando.
Eu: Falta quanto tempo?
Fred: Pra quê?
Eu: Pra chegar no aeroporto.
Fred: Eu não sei onde é o aeroporto.
PORRA, CARALHO.
Eu: Como não?! Seu idiota! Porra!
Matt: Relaxa, velho, eu sei.
Ainda bem. Por pouco eu não matei alguém.
Matt: Mas a gente tinha que ter virado lá atrás.
Eu: PORRA, MATHEUS, CARALHO!
Enfiei as duas mãos entre o meu cabelo e me joguei pra trás. Não era possível que aquilo tava acontecendo. Pra piorar, o Fred começou a parar o carro. Quando abri os olhos e olhei pra fora do vidro, vi que a gente tava parado com o carro no meio da avenida.
Eu: O que tu tá fazendo?
Ele nem me olhou, só trocou a marcha. O carro andou pra trás.
Fred: Dando ré.
Matt: FRED!
Eu nem conseguia falar nada, só olhava pra trás rezando pra que nenhum carro aparecesse. Uns passaram por nós desviando a buzinando pra caralho, nos chamando de loucos. Eu concordava.
Matt: Para com essa porra, a gente vai morrer! Mano, é sério!
A gente já devia estar a uns 60km/h de ré, quando ele parou o carro e o enfiou de uma vez na primeira entrada a nossa esquerda. Respirei aliviado.
Fred: Era aqui?
Ele sorriu pro Matt, que só fechou os olhos e apoiou a mão no próprio peito, tentando recuperar o ar.
O Matt não respondeu nada, então devia ser por ali mesmo. Quando o retorno acabou, entramos numa rodovia. Se a gente não tinha morrido até agora, morrer na rodovia seria mancada.
Fred: Eu lembro daqui, tá certo.
Eu: Sério? - sorri.
Fred: Sério, pode ficar sossegado.
Me acalmei por um segundo.
Eu: Mesmo porque, se estiver errado, a gente já pode desistir. Já passou uma hora.
Olhei pro relógio do iPhone que tava sobre o painel. Já tinha passado bem mais do que uma hora. Fiquei em choque de novo.
Eu: Já passou mais de uma hora! Puta que pariu, corre com isso.
Não vai dar tempo, não acredito que não vai dar. O Fred olhou pro Matt.
Fred: Velho, foi mal.
Matt: O quê? - ele arregalou os olhos.
O Fred enfiou o pé no acelerador, e a gente saiu cortando todo e qualquer carro que surgisse na nossa frente. O carro do Tomate ia tomar tanta multa que a gente teria que vender a república e todos os moradores pra conseguir pagar, mas nem pensei nisso na hora.
Eu: Não vai dar tempo.
Fred: Vai sim, cala a boca.
Eu: Ela vai terminar comigo.
Fred: Vai dar tempo sim, mas que merda.
A velocidade do carro aumentava cada vez que eu xingava. Se a gente batesse, não ia sobrar nada nem ninguém pra contar história.
Eu nem piscava enquanto olhava pra frente, abraçado ao banco do Matt caso o Fred resolvesse freiar de uma vez, como tava fazendo com freqüência. O Matt só faltava rasgar o estofado de nervoso. Tava um puta silêncio de tensão no carro, só se ouvia o motor queimando a pouca gasolina que restava.
Fred: Olha ali!
Matt: Por que tu sempre grita do nada? Quer matar alguém?
Fred: Um avião!
Ele apontou pra cima e sorriu. Era mesmo um avião, que voava bem baixo.
Fred: Tá chegando, Thommo! Uhhhh!
Ele enfiou a mão na buzina, que tinha um som insuportável. O Matt começou a rir.
Matt: Porra, que bom.
Olhei mais uma vez pro relógio. Não queria falar nada, mas achava que não daria tempo. Não demorou muito pra gente chegar até o aeroporto depois de termos visto o avião. O Fred freiou de uma vez, claro, bem na porta do lugar. Eu já conseguia visualizar a Alícia indo embora cheia de malas, morrendo de raiva de mim. Mesmo assim, precisava ter certeza. De vez em quando, as coisas dão certo, e foi por isso que chutei a porta de trás e saí correndo, mesmo antes do carro parar totalmente.
Fred: Run, Forrest, run! HAHAHA
Ouvi ele gritando e rindo ao fundo, enquanto eu fazia o máximo pra desviar daquela galera que insistia em andar devagar na minha frente.
Eu tava com a boca e a garganta secas de tanto nervoso. Devia estar branco, desidratado, com uma aparência horrível, mas tava pouco me fodendo. Quem sabe assim as pessoas se afastavam de mim por conta própria e me davam espaço pra correr. Segui olhando pra um monte de placas, que eu nem conseguia ler direito o que diziam. Por sorte, o aeroporto não era tão grande, e não ia demorar muito pra eu me achar. O foda era que eu ainda tava bêbado. Dei uma puta ombrada numa senhora que surgiu na minha frente.
!: Tu não olha por onde anda?!
Por que essas velhas me perseguem? Que merda. Peguei a bolsa dela que caiu no chão, pra devolver.
!: Devolve minha bolsa!
Eu: Fui pegar pra senhora, porra.
!: Segurança, socorro! - ela acenou, enlouquecida.
Eu: Ah, vai te foder.
Joguei a bolsa no chão de novo, foda-se. Saí correndo feito louco. Por isso que eu não perco a porra do meu tempo sendo educado, as pessoas nunca merecem. Finalmente, encontrei um daqueles telões que marcam o horário de chegada dos vôos. Fiquei lá parado analisando, tentando enxergar alguma coisa. Logo vi o horário de chegada do avião vindo do sul, onde a Alícia tava. Assim que me virei pra correr, um segurança gigante tava parado do meu lado.
Eu: Bom dia.
Ele fechou a cara pra mim. Olhei pra frente e vi que a mesma senhora em que me esbarrei tava me olhando com uma cara pior ainda. Vadia filha da puta! Olhei pro telão de novo pra decorar o número do portão onde a Alícia desceu e voltei a correr.
Agora sim eu já não tava vendo mais ninguém na minha frente. Perdi a conta de quantas velhas esbarrei. Só desviava dos guris pequenos que insistem em correr dos pais no aeroporto. Corri, corri, corri. Meu pulmão já não tava mais funcionando quando cheguei até a porra do portão de desembarque da Alícia. Tinha uma porção de outras pessoas lá, todas com cara de sono, algumas segurando placas com nomes. Umas entediadas, outras ansiosas pra encontrarem quem quer que fosse. Me enfiei no meio de todo mundo pra poder ficar bem na frente, o mais visível possível. Sabia que ela não ia me esperar.
Eu tava atrasado tempo suficiente pra todas as pessoas do avião já terem descido. Estavam todos ali, tentando encontrar os que esperavam. Eu olhava pra todo mundo, todo mundo mesmo, mas já tava desistindo de ver o rosto dela ali no meio. Eu devia ter trazido a porra do celular de alguém, pra pelo menos dar um toque quando estivesse aqui. Desse jeito, ela vai achar que a essa hora eu to em casa morrendo de ressaca, nem me lembrando da existência dela. Minha respiração tava ofegante, eu tava suando frio, tentando me recuperar enquanto a esperava, mas só ficava mais nervoso. Senti uma mão no meu ombro, olhei pro lado, e era o viado do segurança.
Segurança: Ei, garoto.
Eu: Cara, não sei o que tu tá pensando, mas to só esperando a minha namorada, ela...
Segurança: O senhor está incomodando outras senhoras no aeroporto. Por favor, me acompanhe. - ele me respondeu, com a maior calma.
Eu: Eu to esperando a minha namorada! - apontei pra frente.
Segurança: Por favor, me acompanhe.
Eu: Eu to esperando a porra da minha namorada, não posso sair daqui!
Ele olhou pra frente, depois olhou pra mim.
Segurança: Tá vendo tua namorada?
Respirei fundo.
Eu: Não.
Segurança: Pois então. Todos os passageiros desse vôo já estão aqui.
Eu: Espera só ela aparecer, aí tu pode me levar pra onde quiser. Deixa só ela ver que eu to aqui.
Segurança: Garoto, eu já te disse que...
Ele ficou falando qualquer coisa que fazia parecer que eu o estava fazendo de bobo, mas nem ouvi. Não podia tirar os olhos das pessoas que apareciam no portão. O problema era que o lugar ficava cada vez mais vazio, e nada da Alícia. Ela já tinha ido embora, com certeza.
Segurança: Entendeu?
Eu: Entendi.
Me sinto um bosta quando essas coisas acontecem. Não presto nem pra chegar na hora, nem quando essa é a única coisa que eu preciso fazer.
Foda-se, esse segurança idiota podia me levar pra onde bem entendesse. Pro inferno, se quisesse. Eu merecia era tomar uns bons tapas mesmo depois dessa, pra ver se aprendo. Só dou valor pras coisas quando fico perto de perdê-las. Se soubesse que isso aconteceria, nunca teria falado nada do idiota do João, foda-se ele. Duvido que ele entraria num carro roubado com o melhor amigo bêbado, 6h da manhã, daria ré na rodovia, fugiria de um segurança em pleno aeroporto, só pra encontrá-la. Duvido que qualquer idiota faria isso. Mas, se fizesse, chegaria na hora, ao contrário de mim. Esperei mais um segundo, até que mais ninguém saísse do portão. Virei as costas e acompanhei o segurança por uns dois passos.
Segurança: Agora, falando sério, o que tu tá fazendo aqui? Se disser a verdade, não vai acontecer nada.
Eu: Ahn?
Segurança: Já fui moleque também. Só te digo que roubar não leva a nada.
Eu: Eu não to roubando nada, só vim esperar minha namorada, é sério. - respondi, puto.
Que preconceito é esse com moleques bêbados de dezoito anos? Nem todo mundo que sai pra beber na quinta-feira curte roubar bolsa de velhinhas, que brisa.
Segurança: Se não colaborar comigo, não vai dar.
Eu: Mano, foda-se. Faz o que tu quiser, minha namorada já foi embora mesmo.
Ele me olhou, sacudindo a cabeça com desaprovação. Mala do caralho. Voltei a andar do lado dele, e avistei a velha vadia apontando pra mim, enquanto falava com uma guria de cabelo bem liso. De repente, todos os músculos do meu rosto me forçaram a sorrir, quando a guria de cabelo liso que falava com ela olhou pra trás, e era a Alícia.
Segurança: Quando eu era moleque, tinha dois caminhos. Entre continuar me drogando e viver disso, ou arranjar um emprego, eu...
Deixei ele falando sozinho e corri até a Alícia. Parecia um idiota, porque não conseguia parar de sorrir. Nem me importava se ela tava a fim de me abraçar ou não, se tava feliz ou não em me ver, só corri e abracei ela bem forte. Senti o perfume do cabelo dela, segurei sua cintura fininha de novo. Finalmente. Ficamos abraçados por um bom tempo, acho até que nem tava deixando ela respirar. Quando me dei por mim, abri os olhos pra soltá-la, e reparei que a velha tava sorrindo pra gente. Chupa.
Eu: Te falei que eu vinha.
Pra minha sorte, a Alícia tava sorrindo também quando olhei pro rosto dela.
Alícia: Falou. - ela sorriu envergonhada, colocando o cabelo atrás da orelha.
Eu: Porra, nem acredito.
Segurei o rosto dela e a beijei. Parecia que fazia um ano que não a via, e não uma semana. Meu coração ainda tava acelerado, mas de um jeito bom. Ela afastou o rosto, passando a mão no meu cabelo.
Alícia: Ouvi uma senhora reclamando que um garoto com cara de quem não dormia há dias tinha sido rude com ela. Tive certeza que tu tinha vindo me buscar. - ela deu risada.
Abracei ela de novo. Agora sim, o segurança podia fazer o que quisesse comigo. Eu ia continuar sorrindo igual um idiota do mesmo jeito. Ter encontrado ela ali tava pior do que fumar um beck inteiro, tava achando tudo engraçado.
Eu: Pois é, fiz questão de vir bem bonito te ver.
Não sei se era impressão minha, mas ela também não conseguia parar de sorrir. Ela tava com uma mochila nas costas e duas malas no chão, que eu peguei pra gente ir embora. Olhei pra cara do segurança, que tava de braços cruzados me encarando. Acenei pra ele com a cabeça. Idiota.
Alícia: Tu veio pra cá como?
Eu: Com o Fred.
Alícia: O pai dele arranjou um motorista?
Eu: Não.
Silêncio. Ela arregalou os olhos pra mim.
Alícia: Que carro vocês roubaram?
Eu: É do amigo do cara que mora com a gente. - dei risada.
Alícia: Putz. - ela riu também.
Eu tava com as duas mãos ocupadas, e ela tava andando do meu lado, mas não conseguia ficar perto dela sem tocá-la. Segurei as duas malas com a mesma mão, joguei nas minhas costas e dei a outra mão pra ela. Assim que terminamos de descer, avistei o carro do Tomate estacionado bem próximo da porta, com o Fred e o Matt deitados com os pés apoiados no painel, provavelmente fumando um.
Fred: E aí no outro dia eu falei que era gay pra ver se ela ia embora. Já tinha comido mesmo.
Matt: Tu engana bem com esse cabelo.
Nos aproximamos do carro. Eu fui abrir o porta-malas enquanto a Alícia ia falar com eles.
Alícia: Confesso que até tava com saudade de ouvir suas pérolas, Fred.
Fred: E aí, Lícia! Trouxe uma gaúcha pra mim?
O Matt deu risada. Ela abriu a porta de trás do carro e entrou, e eu fui logo atrás. O bom de ter uma namorada amiga dos teus amigos é que tu não precisa ficar fazendo cerimônia. Se fosse a Bruna, ela ia me encher o saco pelo resto da semana porque não abri a porta do carro pra ela entrar. O Fred deu partida e o carrou pulou de novo.
Fred: Tava engatado de novo, hehe.
Matt: Presta atenção. E pode voltar mais de boa agora, ninguém tá com pressa.
Óbvio que ele não obedeceu e voltou pra festa rasgando.
O rosto da Alícia tava contra o sol tava laranja e ardido da manhã, que desenhava todo o seu rosto e deixava o olho dela ainda mais bonito. Fiquei olhando enquanto ela ria das idiotices do Fred e o cabelo dela voava por causa dos vidros abertos.
Fred: Mas não é verdade, Thommo?
Eu: É, sei lá.
Abracei ela.
Matt: Vixi. - ele olhou pra trás.
Fred: Pode crer. O Thommo vai ficar offline no fim de semana.
Chegamos mais rápido do que eu imaginava na festa, que já devia ter acabado aquela hora. O Dudu, o Didio e a Vicky tavam sentados na sarjeta, provavelmente esperando a gente chegar. O Fred parou do lado deles e botou a cabeça pra fora da janela.
Fred: Querida, cheguei!
Ele disse pra Vicky, que revirou os olhos, mas deu risada.
Matt: Cadê todo mundo?
Dudu: O Tomate vai dormir aí porque tá muito louco e o Felipe deve ter ido embora com o pessoal da Atlética.
Fred: E tu, Vicky, vai pra onde?
Vicky: Acho que vou direto pra aula.
Fred: A gente mora lá do lado.
Vicky: O carro tá cheio, eu vou de táxi.
O Fred vai encher o saco da Vicky até ela dar bola pra ele, não quero nem ver. Achei que fosse demorar bem menos do que tá demorando.
Fred: Relaxa, tem lugar aqui. - ele sorriu. - Sai daí, Matt.
Matt: O quê?
Vicky: Não tem problema mesmo?
Fred: Não. - ele deu um tapa na cabeça do Matt.
Vicky: Pode deixar, eu vou atrás. Sou magrinha.
Fred: Tu é.
Disse isso e deu uma secada na Vicky de cima a baixo. Juro que ia ficar ofendida se fosse guria e passasse do lado do Fred um dia. Ela abriu a porta de trás e deu de cara com a Alícia.
Vicky: Ai, desculpa.
Ela fechou a porta. Menos de um segundo depois, ela abriu de novo.
Vicky: É a...?
Apontou pra ela, me perguntando. Fiz que sim com a cabeça.
Vicky: Ai, que ótimo! - ela entrou no carro, sorrindo. - Oi, eu sou a Vicky, tu deve ser a namorada do Thom. Esqueci teu nome, mas que bom que tu tá aqui.
Nem preciso dizer que elas foram conversando pelo resto do caminho, como se fossem melhores amigas. Gurias adoram falar, mesmo às sete horas da manhã depois de passarem a noite toda acordadas. Todo o resto do carro fez silêncio até a gente chegar na porta da república. Nem reparei se o Fred dirigiu feito um louco, porque cochilei no ombro da Alícia durante todo o caminho. Tava quebrado.
Fred: Eu não vou direto pra aula nem fodendo.
Eu também não iria por nada nesse mundo. Descemos do carro e subimos pra república, exceto a Vicky, o Dudu e o Didio, que foram direto pra aula.
Descemos do carro, que eu nem vi se o Fred trancou, mas imagino que não. A gente tava quase dormindo no elevador de tanto sono. Me sentia cansado de um jeito que não me sentia há muito tempo. Mais do que cansaço físico, já que eu tinha ficado acordado a noite inteira numa festa, e depois ainda corri pra caralho no aeroporto, eu tava cansado piscologicamente também. Digamos que a noite não foi das mais fáceis pra mim, em muitos sentidos. O Matt abriu a porta pra gente entrar. Tava ansioso pra mostrar a casa pra Alícia, apesar da bagunça que tava. A gente entrou direto na sala, que tava com a mesa cheia de bitucas e garrafas, os puffs todos revirados e umas blusas perdidas pelo sofá.
Eu: Nossa república. - abri os braços, mostrando o espaço pra ela.
Fred: Eu até poderia falar que não é essa bagunça sempre, mas é sim.
O Matt fechou a porta da cozinha antes que ela visse, e fez uma cara estranha pra mim. Nem quis entrar lá pra ver como estava também. A gente tá precisando de uma empregada, urgente. O foda é que to gastando todo o dinheiro que meu pai me dá em cerveja. Quero ver que empregada vai aceitar trabalhar aqui por tão pouco. Posso pagar em cerveja, talvez. Ou não.
Fred: Amanhã o Thom faz uma faxina pra ti.
Eu: O quê?
Matt: Boa. Vou dormir. - ele nos deu as costas e foi pro quarto.
Até parece. Ela deu risada, porque sabia que isso nunca aconteceria. Mostrei a sala bem rápido pra ela, depois seguimos pelo corredor e paramos em frente a porta do quarto do Felipe, que tava fechada.
Eu: Esse é o quarto do Felipe, que tá fechado. A namorada dele deve estar dormindo aí.
Fred: Sem blusa. - ele gritou da sala.
Alícia: Sem blusa? - ela me olhou, desconfiada.
Eu: É... É. - apontei pra outra porta. - Esse é o quarto do Matt e do Fred, que eu não ouso entrar, mas tu pode ficar à vontade.
Me virei pra outra porta.
Eu: E esse é meu quarto. - empurrei a porta.
Sinceramente, queria que ele não estivesse tão bagunçado. Não que eu faria uma puta arrumação só pra ela ver, mas digamos que ele estaria melhor se as coisas tivessem sido diferentes ontem. Ela entrou na minha frente, rindo.
Alícia: República de garoto é tão engraçada, né? - ela ficou olhando em volta.
Eu: Não sei, nunca fui em república de garota.
Alícia: Sério? Tu não foi em nenhuma daqui?
Fiz que não com a cabeça. Pior que não mesmo. Acho que nem conheci guria nenhuma que morasse em república. Não tenho certeza, mas acho que a namorada do Felipe mora em uma. Não que ela vá me convidar pra ir lá algum dia. Os veteranos também comentaram que tem uma república só de garotas no último andar do prédio, que é bem famosa, seja lá qual for o motivo.
Alícia: Não vai desenhar em parede nenhuma?
Eu: Não sei. - dei de ombros.
Até pensei em desenhar, mas preciso falar com o Dudu antes.
Alícia: O Dudu dorme nessa cama? - ela apontou pra cama que tinha um violão em cima.
Eu: Sim.
Alícia: E vocês nunca abrem a janela?
Nem tinha reparado nisso até agora, mas se eu abri essa janela duas vezes desde quando me mudei, foi muito. Fiquei olhando pra Alícia enquanto ela investigava meu quarto. Meu pai é um idiota, mas ele diz uma coisa muito esperta: saiba que, se tu deixar uma mulher sozinha no teu quarto, ela vai abrir todas as tuas gavetas, mexer em tudo que der e analisar minuciosamente cada detalhe.
Minha perna tava me matando de tanta dor, então deixei as malas dela atrás da porta e me sentei na minha cama, enquanto ela olhava ao redor.
Alícia: Tu e o Dudu se dão bem?
Eu: Sim.
Alícia: Que bom. - ela sorriu.
Até pensei em perguntar sobre a Mari, mas foda-se, não curto ela. Ia acabar brigando com a Alícia, e não tava nem um pouco a fim disso. Só queria que ela parasse de fazer tantas perguntas e viesse logo dormir comigo, porque eu tava morrendo de sono e de saudades também.
Eu: Vem pra cá. - estendi a mão pra ela.
Alícia: Até que teu quarto é mais arrumado do que eu imaginava.
Eu: Arrumei pra te receber.
Alícia: Ah, que gracinha!
Mulheres. Ela veio toda sorrindo e se sentou no meu colo. Me abraçou, e ficamos nos beijando. Não via a hora de ficar sozinho com ela, nem parecia verdade. Quando a gente tava no colégio, passava quase o dia todo com ela, e depois ela ainda dormia na minha casa quando conseguia enrolar o pai dela. Nem imaginei que fosse fazer tanta falta. Apesar de eu estar cansado, não conseguia parar de beijá-la, e não demorou muito pra que eu ficasse bem animado. Ela parou de me beijar, de repente.
Alícia: Que mentira.
Que mentira o quê? Tá lendo meus pensamentos agora?
Alícia: Tu nem sabia que eu vinha pra cá, nem daria tempo de arrumar pra me receber.
Odeio essa história de que mulher demora mais pra entrar no clima. Enquanto eu já to quase surtando aqui ela ainda tá pensando na possibilidade de eu ter arrumado meu quarto ou não.
Eu: É, pode crer.
Só respondi isso e voltei e beijá-la. Senti que ela sorriu no meio do beijo. Parece até que ela faz de propósito. Como é bom beijar quem tu gosta, parece que até o gosto é diferente. Sem contar que é tua namorada mesmo, então tu não precisa ficar se privando de muita coisa. Vocês já ficaram tantas vezes, um já sabe do que o outro gosta, é sempre bom. Enquanto a gente se beijava, fui me deitando aos poucos, e ela me acompanhou. Incrível como eu paro de pensar em tudo quando tô numa dessas. Parece que minha cabeça para de funcionar, e não existe nada no mundo além de mim e uma guria ficando comigo. Já tomei cada tapa por avançar o sinal antes de me permitirem, mas é só porque pareço ficar irracional por alguns minutos. A minha sorte é que to pegando minha namorada.
A Alícia tem a pele tão macia e boa de passar a mão. Parece besteira, mas faz a diferença pra mim. Minha mão deslizava pelas costas dela enquanto a outra tentava abrir o botão da sua calça, coisa que tava bem difícil de ser feita. Por que ela coloca uma calça complicada dessas quando vai encontrar o namorado? Que saco. Ela começou a rir e ela mesma abriu. Até tentei rir junto, mas meu coração tava quase saindo pela boca.
Tava até tentando deixar tudo o melhor possível, mas logo parei de pensar de novo. A minha sorte era que ela tava com tanta vontade quanto eu, ou pelo menos com tanta saudade quanto eu. Fiz tudo muito rápido, porque tava precisando tirar todo o atraso da semana. Ainda teria o resto do fim de semana pra fazer um sexo bonitinho de namorados. Aquela hora, só queria ter ela só pra mim, matar a saudade. Quando me dei por mim, a gente já tava sem roupa embaixo do edredom, pouco se fodendo pra que horas eram, pro que a gente teria que fazer depois, pro que tinha acontecido ontem, ou durante todo o resto da semana que ficamos um sem o outro. Ela fez tudo do jeito que só ela sabia fazer, e foi muito bom, pra variar. Em pouco tempo, eu já tava exausto e muito, muito feliz. Eu tava por cima, então abracei ela e soltei todo o meu peso, só pra encher o saco.
Alícia: Thom!
Ela começou a rir e fez cocégas na minha costela pra eu sair de cima. Rolei pro lado, rindo também. Eu nem conseguia abrir os olhos de tanto cansaço. Senti a mão dela fazendo carinho meu rosto, me aproximei e abracei ela. Não demorou muito pra que eu dormisse. Não sei se ela tava a fim de conversar, ou sei lá o que, mas acho que a essa altura ela entende o quanto é cansativo pro cara, ainda mais depois de eu ter corrido o aeroporto inteiro atrás dela.