Não demorou muito pra chegarmos na estação de trem, eu morava mais ou menos perto. Entramos e sentamos nos nossos lugares, que já estavam marcados. Sick Boy tinha pego uma cabine pra duas pessoas, então estávamos sozinhos lá dentro, mas o vagão estava cheio. Joguei minha mala debaixo do banco e virei pra janela, eu sabia que essa viagem não seria tão rápida.
-Aí, Francês, tu sabe mesmo dirigir, né? – Sick Boy me cutucou e eu me virei, sem vontade nenhuma.
-Claro que sei, po. – Ri impaciente.
-Ah, tá... Só tava checando, mesmo. – Ele falou, se ajeitando pra dormir.
Ele já tinha roubado minha brisa, não ia deixar que ele ficasse de boa com isso.
-Mas, então, o que tu ta indo fazer lá mesmo? – Ele me olhou de baixo.
-Umas paradas.
-Mas o quê?
-Ué, quando a gente chegar lá, tu vai ver!
-Caralho, Sick. Eu só quero ter uma noção.
-Tu é muito apressado. – Ele abanou a mão esquerda no ar. – Quando for a hora de tu saber, tu vai saber. – E fechou os olhos.
-Ê, caralho. – Resolvi deixar um pouco de lado, e tentar dormir um pouco mais, então coloquei meus fones e a primeira fita que encontrei, o trem já tinha arrancado então foi mais fácil pegar no sono.
-Tickets. – A fita tava girando em falso quando o cobrador veio picotar o bilhete, e acordei com Sick Boy puxando a manga da minha blusa.
Tirei meu ticket do bolso e entreguei pro cara, esfregando os olhos, já devia estar quase na hora do almoço, porque assim que o cara devolveu nossas passagens e eu guardei minhas coisas, o Sick Boy virou atônito e branco pra mim:
-Meu, eu to morrendo de fome. Vamo ali no outro vagão ver o que tem pra comer. – O desgraçado nem esperou eu responder e já jogou a mala por cima da gente e trancou compartimento que ficava na nossa cabeça.
Fiz o mesmo, balançando a cabeça e andando atrás dele.
A maioria das pessoas estavam dormindo, eu reparei enquanto andávamos até o outro vagão, pelas poucas janelas abertas podia ver gente de todo tipo, desde nenéns até gente muito velha.
Entramos no outro vagão e eu não acreditei nos meus olhos... Estava ainda mais lotado do que o vagão anterior, muita gente sentada em mesas dispostas com toalhas brancas e pratos bonitos servidos sobre elas. Eu nem tava com tanta fome assim, mas quando vi aquilo tudo meu estomago fez um barulho meio alto.
-Caralho, francês... – Sick Boy balançou a cabeça, como se eu tivesse feito alguma coisa muito inapropriada.
-Não é minha culpa, porra. – Ele virou pra frente e começou a rir alto. – Isso sim é inapropriado! – O olhei indignado, ainda abraçando meu corpo na altura da minha barriga, como se aquilo fosse impedir alguém de ouvir que eu estava com fome.
Sentamos em uma mesa vazia, e logo uma mocinha de avental preto veio nos atender, ela era italiana e como eu não falava italiano, ela nos atendeu em inglês. Resolvemos pedir um prato de macarrão pra cada um, já que estávamos indo pra Italia, mesmo, e um vinho suave, eu acho. A mocinha sumiu no fim do vagão, entrando por uma porta pesada, onde outros atendentes saíam. Tive a impressão de que não tinha só aquele vagão de restaurante.
-Não é possível que vá tanta gente assim pra Itália, hoje... – Comentei com Sick Boy que tinha os olhos perdidos na estrada ensolarada. – Tipo, como vai caber tudo isso de gente lá? A cidade é um ovo! – Fiz gestos com a mão pra que ele olhasse pra mim.
-Cala boca, Luc, não vai todo mundo pra Veneza. Acho que a maioria vai passar direto... – Ele respondeu tirando os olhos da janela e pegando um guardanapo e começando a rasgar.
-Ah, pode crer. Esqueci que não é tipo avião... – Falei olhando pra baixo, e pude ver ele me olhando e rolando os olhos.
-Mesmo assim tem gente que faz ponte. – Ele respondeu sem levantar a voz. – Tu nunca saiu da França mesmo, hein?
-Quase nem de Paris... – Sorri sem graça, porque sabia que ele já tinha viajado o mundo.
-Não tem problema, sempre tem uma primeira vez. – Olhei pra ele, mas ele não tava mais me olhando, tava picotando os papeizinhos, ainda.
Não demorou muito e nossa comida chegou, primeiro o vinho foi servido e a moça largou a garrafa na nossa mesa, depois trouxe o macarrão e alguns pães.
Comemos sem conversar sobre nada em particular, acho que a comida estava muito mais interessante do que qualquer outra coisa no momento, até porque eu nunca tinha provado nenhum macarrão tão bom quanto àquele. Terminamos de comer e pagamos a conta, indo pra cabine de novo.
-Aí, eu acho que vou fumar um cigarro lá fora. – Apontei com meu dedão pra porta onde se lia “Área Para Fumantes”.
-Eu vou contigo. – Ele tirou a mão da maçaneta e me acompanhou até o lugar.
Era um lugar pequeno e nem tinha tanta gente, só um casal se beijando, mas assim que a gente entrou, empurrando a porta, eles aproveitaram pra sair de lá. Tinha duas janelas grandes e era aberto, no chão dava pra ver onde os vagões se ligavam, era bem aberto, mas tinha espaço pra ficar de pé, então a gente podia fumar de boa.
Tirei um cigarro no bolso e acendi.
-Posso pegar um? – Ele perguntou meio sem graça. Quase nunca vi o Sick Boy fumar. Tirei meu maço no bolso de novo e entreguei pra ele, que puxou um e acendeu com o próprio isqueiro.
-Que horas será que são? – Perguntei olhando pra fora. Tava bem sol e tudo o que eu via era mais verde do que cidade. Enfiei minha cabeça pra fora pra poder enxergar melhor o trilho. O trem não ia tão rápido assim, então se eu caísse da onde eu tava, não ia morrer, nem nada.
-Acho que deve ser um pouco mais da hora do almoço... – Ele respondeu despreocupado, e soltou a fumaça.
-Qual é, Sick Boy? – Perguntei baixo, não querendo ser rude. Ele me olhou com uma cara de interrogação. – Não sei... Tu ta meio avoado. Meio... Quieto demais. – Ele olhou pra baixo. – Puts. Tu deve tar com enjôo né? Foi mal... Vamo entrar aí, senta que melhora. – Traguei forte me cigarro, com pressa de acabar pra podermos entrar.
-Não, não é isso. – Ele abriu um sorrisinho. – Eu to só preocupado.
-Com o quê? – Me apoiei na janela. – Tu tava tão animado, até agora...
-É, eu sei, mas ta foda... O negócio que eu tenho que resolver já ta atrasado duas semanas, se eu não conseguir resolver essa parada até amanhã não sei o que vai acontecer com o Marco, ele que ta segurando as coisas lá pra mim.
Eu não sabia quem era Marco, muito menos o que era a parada que eles tinham que resolver, mas parecia bem sério, e parecia que já tava atrasado, e isso devia ser ruim. Não sabia o que responder, mas era a primeira vez que ele tinha mencionado qualquer coisa sobre o que a gente ia fazer lá pra mim, então me esforcei ao máximo pra tentar encontrar alguma coisa pra falar.
-É... Mas relaxa... Vai dar tudo certo... – Joguei a bituca pela janela, e ele me devolveu um sorriso fechado, meio triste. – Tu já ta chegando, porra, mais quatro horas a gente ta lá e tu vai resolver isso e eu vou te levar pra onde tu precisa ir! – Ele riu da minha súbita animação. – Tu é o Sick Boy, tu sempre da um jeito.
-Ai ai, Francês... Ai ai. – Ele respondeu antes de abrir a porta pra gente entrar no nosso vagão.
Chegamos em Veneza as três horas da tarde, o horário era o mesmo de Paris, então a gente não tava com jetlag nem nada... Tambem, é tudo tão perto aqui na Europa que nem da pra sentir a diferença.
Tava muito sol e muito calor quando pisamos na estação de trem de Veneza.
-Tá. – Sick Boy largou a mala no chão e tirou do bolso um mapa, onde um circulo verde marcava algum lugar. – Temos que ir pra casa do Marco. – Ele apontou o circulo no mapa. – Vamos chamar um táxi... – Ele pegou a mochila de novo e me guiou pra fora da estação. – Na real. – Ele parou no meio do caminho. – Acho que nem precisa. – Virou pra mim. – Vamo andando mesmo! – E recomeçou a andar.
-A gente vai se perder... – Comentei baixinho.
-Para de ser pessimista, Francês! A gente vai perguntando!
E assim fomos andando pelas ruelinhas de Veneza. Sick Boy parava em algumas vendas e perguntava em italiano quase nativo onde ficava a tal rua. Todo mundo falava muito alto e gesticulava mais ainda. Eu tava achando muito divertido, só não achava quando alguém não queria nos ajudar porque a gente “tem cara de gringo”.
Logo chegamos na rua que o mapa marcava e Sick Boy correu até uma casa de tijolos bem laranjas e tocou a campainha três vezes.
-É pra dar sorte no amor, saúde e dinheiro. – Ele explicou enquanto tocava e eu respondi com um sorriso.
Não demorou muito pra que um cara, não muito mais velho que a gente, mas de barba na cara, e cabelos enrolados até os ombros, viesse nos atender.
-Sick Boy, finalmente! – Ele saudou com aquele sotaque cantado de italiano e, apesar da expressão assustava, ou aflita, não sei bem dizer, bem humorado. – Entra, entra. – Ele escancarou a porta e abriu os braços. – Marco! Prazer! – Ele me cumprimentou e eu o cumprimentei do mesmo jeito, já que eu não sabia o que ele tinha dito.
-Marco, esse aqui é o Luc, o cara que eu to dividindo casa lá em Paris! – Ele explicou em inglês. – Ele não fala italiano. – E falou em italiano, de novo.
-Ma che cazzo! – Ele reclamou, mas logo falou em inglês, também. – Eu também não falo francês, então vai ter que ser em inglês mesmo, eh? - E gesticulou de novo, me fazendo rir. – Olha, mas vocês fiquem à vontade! O Sick Boy já conhece a casa, então tu pode se sentir em casa, também, eh? Larga essas bolsa aqui mesmo! – Ele pegou as bolsas e jogou no chão da sala. – Daqui a pouco eu ajeito o quarto de vocês, ok? – E saiu andando pela casa.
-Caralho... – Falei baixinho. – Ele é agitado, né?
-Todo italiano é assim, Francês, vai se acostumando. – Sick Boy riu. – Eu vou ali ver como a gente vai fazer as coisas, com ele, e já venho. Vai olhando aí a casa. – Ele falou todo agitado, também. Pelo menos agora ele tava mais animado, já tava até rindo.
A sala era grande e arejada que tinha uma porta no fim, perto da tv quadrada e pequena, e se juntava com a sala de jantar, do lado tinham duas portas, a de entrada e a da cozinha, e logo depois uma varanda, e era lá que eles estavam, conversando. Eu nem me dei o trabalho de tentar ouvir, porque falavam muito baixo e muito rápido, num italiano incompreensível, pra mim, então resolvi subir as escadas. Um corredor separava dois quartos e um banheiro. O chão era de madeira escura e as paredes, apesar de serem de tijolos, estavam pintadas de branco, e reconheci alguns desenhos do Michelangelo nas paredes. Que ironia. Pelo menos o cara tem bom gosto. Os quartos estavam com as janelas abertas, então eu fui até uma delas, no quarto que tinha duas camas e nenhum lençol, que devia ser o nosso, e olhei pra baixo, um rio cortava a cidade, é obvio, e do outro lado tinham ainda mais casas, todas juntinhas, parecendo até que se abraçavam, e bem coloridas. A maioria tinha flores nas portas e janelas, e todas que davam pro rio, tinham uns degraus que desciam até a água, pra pegar barco, imaginei, porque algumas das casas tinham mesmo aqueles barquinhos amarrados perto das portas.
Saí do meu transe quando Sick Boy apareceu falando alto, com o outro em seu encalço.
-Aí, Francês, nós vamos alugar o carro, agora... Tu quer vir, ou vai ficar por aí mesmo? – Ele ficou me olhando, e eu não sabia o que responder, eu queria dar uma olhada na cidade, se isso fosse possível. Afinal, é Itália, o berço renascentista, não é?
-A gente vai ficar por aqui quantos dias? – Coçei a cabeça.
-Ahn... Depende? – Sick Boy fez uma cara confusa, abrindo os braços, decidi ceder, de qualquer jeito, eu olharia a cidade, vamos andando, mesmo...
-Tá, eu vou junto, vai... – Larguei meus braços e eles caíram rente ao meu corpo.
-Então vem. – Os dois saíram do quarto e eu fui atrás.
Saímos da cara do Marco e seguimos à esquerda. A cidade se parecia em todo canto, mas a arquitetura era de outro mundo, era raro não ver alguma estátua em cada praça. Seguimos por umas vielas e passamos por vendas de legumes e frutas. Marco cumprimentava todo mundo, e de vez em quando as pessoas mordiam a mão esquerda e ele fazia o mesmo. Como todo mundo falava alto demais, achei que fosse brincadeira e até ri. Eles não pareciam estar brigando, mas Sick Boy me explicou que aquilo era um xingamento, e nós rimos de novo. Ele deve ter rido da minha cara, mas eu ri de nervoso, mesmo...
Demorou um pouco até chegarmos no tal lugar, mas como eu estava olhando tudo à minha volta, nem senti muito, até o Marco reclamar.
-Cazzo! Uma hora e meia é muito tempo! – E tocou a campainha de uma casa meio de madeira, não estávamos mais nas ruelas, agora era uma rua mais ampla e com algumas folhagens. Um cara alto, grande e forte veio nos atender. Não parecia muito bem um lugar onde se aluga carros, mas eu não tava afim de passar vergonha de novo.
-Sick Boy! – O cara logo abriu um sorriso, sem dois dentes do lado. – Demorou, hein?! – O cara era americano, eu deduzi pelo sotaque do inglês. – Você deve ser o Luc. – Ele estendeu a mão. Olha só, eu fui apresentado, e não sabia. Apertei a mão do cara, mas não disse nada. – Ah, foi mal. Groth. – Balancei a cabeça em sinal positivo. – Venham por aqui. Olha, esse foi o único carro que eu consegui descolar. – Ele tirou uma lona azul de cima do carro, e eu vi uma lataria branca, não sei o nome do carro, porque sou péssimo pra essas coisas, mas Marco não ficou muito feliz.
-Porra, Groth. Eu falei que precisava de um carro rápido! – Ele gritou batendo na lataria do carro. – Essa merda não vai aguentar se precisar correr, de verdade.
-Porra, mas vocês me pediram em cima da hora. Esse é o único carro não registrado que eu consegui! – Marco saiu de perto balançando a cabeça e xingando em italiano.
-Não te preocupa, Groth. Tu sabe como ele é. – Sick Boy colocou a mão no ombro do cara. – Esse daí tá bom! Porra, a gente nem tinha carro pra inicio de conversa... – E riu a risada medonha. Groth acabou rindo também.
Eles negociaram qualquer coisa e Groth trouxe uma limonada pra gente. Tava calor pra caralho. Depois o Sick Boy pagou ele e entramos no carro. Eu estava indo pro banco do motorista, mas o Marco segurou minha mão.
-O que tu pensa que ta fazendo, magrelo? – Os olhos negros do cara bem abertos, mas a expressão totalmente fechada.
-Eu... Eu achei que... – Eu tava me cagando de medo, é verdade. Porra, o cara é até que forte, e eu sei disso porque ele tava literalmente esmagando a minha mão... Sem contar que eu vi o quanto o cara fica nervoso fácil.
-Calma, Marco. Eu disse pra ele que ele ia dirigir. – Sick Boy me olhou com os olhos arregalados, me mandando sair de perto. Puta que pariu.
O cara largou minha mão e estalou o pescoço de um lado pro outro.
-Não é agora que tu vai dirigir. – Me afastei.
Ele abriu a porta de tras pra mim e eu entrei, depois ele entrou do lado do motorista batendo a porta muito mais forte do que o necessário e o Sick Boy entrou do outro lado.
O cara dirigiu em silêncio, e nem o Sick Boy falou nada, o que me deixou mais tenso ainda, até que caímos numa rua bem deserta e o Marco resolveu abrir a boca.
-Aí, magrelo. Ta vendo essa rua aqui? – Balancei a cabeça, engolindo seco. – É pra cá que tu vai trazer a gente, quando a gente precisar. – Ele virou pra trás, me olhando. – Então presta atenção no caminho. – Balancei a cabeça de novo.
-A gente vai te dar um mapa, Francês, fica tranquilo. – Balancei a cabeça de novo, dessa vez pro Sick Boy. Não tava gostando daquilo.
Ele fez um caminho totalmente diferente do que a gente tinha feito pra vir, e eu não estava entendendo, porque todas as ruas tinham carro, mas nessas ruas “novas” não tinha nenhum.
Logo chegamos em casa e Marco estacionou na frente da porta, já que não tinha garagem. Deixei os dois saírem primeiro e depois eu saí.
-Vou arrumar a cama de vocês e depois a gente vai comer em algum lugar. – E subiu as escadas batendo os pés. Eu até pensei em perguntar se ele não queria que eu arrumasse a cama, mas depois achei melhor não discutir.
-Que porra é essa Sick Boy? – Falei alto em francês, eu tava muito assustado.
-Calma, Francês, já já tu vai entender, só por favor, não fique nervoso.
-Ah ta! Isso me com certeza me tranquilizou pra caralho, viu? – Ele sentou no sofá e eu acendi um cigarro, tinha um cinzeiro na mesa, então eu peguei e fiquei segurando. Eu que não era louco de sujar a casa do cara. – Primeiro tu fica todo tristezinho no trem e não me fala o que ta rolando. – Soltei a fumaça pro alto. – Agora o cara da um xilique desses e tu me manda ficar quieto? Sick Boy, eu to tremendo de nervoso. Vai se foder. Quem é esse cara?! – Ele baixou os olhos.
-É um amigo meu, Luc. – Ele respondeu em tom baixo.
-Porra! Puta amigasso. Tu não falou uma porra de um A no caminho todo. – Eu tava gritando, mas tava falando baixo, ta ligado?
-Tabom, Luc. Tu quer saber o que ta rolando... Esse é meu trabalho, ta legal? Esse cara trabalha comigo aqui na Italia, pelo menos nessa parte da Italia. Eu não posso contrariar o cara. – Sentei do lado dele, minhas mãos tremendo.
-Tu trabalha com o quê? – Olhei pra ele,mas ele desviou, olhou pra baixo.
-Eu não sei se posso te contar, ainda.
-Chienne... – Soquei o sofá. – Tudo bem, então quando se sentir preparado, eu to aqui. Só não ache que eu vou ficar calmo sobre isso! – Saí andando, porque não queria ficar no mesmo lugar que ele. Fui até a porta que dava pra fora da casa, do lado da sala, e saí do lado do rio, onde descobri um canteiro de flores, de novo com uma estatua de mármore. Pelo menos aquilo me acalmou um pouco. Terminei o meu cigarro e me agaichei, não queria voltar lá pra dentro tão cedo.
Fiquei olhando os barquinhos passarem, e algumas crianças bricarem pra fora das casas, algumas até entravam na agua, mas aí vinha a mãe brigando, falando alto demais, e elas voltavam pra dentro correndo e rindo. O que eu não daria pra ser uma criança, agora.
-Francês... – O Sick Boy me chamou e eu levantei num pulo. Olhei pra cara dele, mas logo olhei pra baixo. É bom que ele tenha vindo me explicar que porra ta acontecendo. – A gente vai sair pra comer, tu quer vir... Ou? – Ele olhava pra baixo, e eu também.
-Vou sim. – Enfiei as mãos no bolso e ele me deu passagem, abrindo a porta e se escorando nela.
Marco estava de pé na sala, os braços cruzados e o cabelo comprido preso num coque. Estilo. Tinha trocado de camisa e colocado uma social, meio aberta, e uma calça clara. Todo italiano se veste assim? Sick Boy apareceu do meu lado e colocou uma mão no meu ombro. O sorriso de coringa estava de volta ao rosto. Acho que ele queria dizer pro Marco que tava tudo bem. Resolvi sorrir também, não sou idiota.
-Vamos? – Sick Boy disse em italiano, mas eu sabia o que significava, pela entonação.
Largamos o carro no lugar que estava e fomos pela direita, dessa vez. Ninguém se atrevia a falar uma palavra. O clima entre a gente tava estranho até demais, na real acho que até eles dois tretaram, mas eu não ia procurar saber.
Agora o clima estava mais fresco, já que eram quase sete da noite, a tarde já tinha caído há um tempo, mas as luzes da cidade faziam parecer dia, se tu não olhasse pra cima.
-É aqui. – Marco indicou com o indicador um restaurantezinho de esquina, todo branco e verde.
Ah Italia. Agora sim! Até encontrei um sorriso perdido dentro de mim, quando sentamos do lado de fora e o cheiro de massa me invadiu, enquanto o garçon colocava pão na nossa mesa, e nos entregava o cardápio de bebidas.
Vinho, vinho, vinho, vinho.
-Que tal... vinho? – Sick Boy pareceu ler meus pensamentos e nós dois começamos a rir. Pelo menos isso.
-Posso escolher pra vocês? – Marco abriu um sorriso, e de repente não parecia tão assustador assim. Sick Boy fez um gesto com a cabeça e ele chamou o garçom, falou rápido e o garçom assentiu.
Depois escolhemos os pratos, mas o vinho veio primeiro. Não sou bom de degustação, mas lembro o Sick Boy disse que era tinto suave. Acredito nele.
-Ei, Luc... Foi mal por mais cedo. – Marco começou a falar, no meio de um gole de vinho. – Eu tava estorado. To estressado por causa do trampo aí, tu sabe como é. – Assenti com a cabeça. – Não queria te assustar não, é que, tu sabe, é foda... Olha o Sick Boy todo quietão. A gente sabe que ele não é assim, mas cara... O trabalho, cara... – Ele vomitou as palavras como se tivesse planejado há um tempo e não quisesse errar. Não duvidaria se fosse algo do tipo, porque, bem, Marco não parece o tipo de cara que tem um cérebro maior do que uma amêndoa.
-Não, ta tranquilo. Não sei como vocês devem se sentir, mas pros dois estarem assim, nervosos, deve ser uma coisa pesada. – Tentei sorrir, mas quando vi meu fracasso, disfarcei tomando mais um gole de vinho.
A comida logo chegou, cada um tinha um tipo diferente de macarrão no prato, o meu era de molho branco com calamari, e tava bom pra caralho!
-Caralho! – Soltei em português e Marco riu de mim, junto com o Sick Boy. – Ta muito bom! – Me enrolei no inglês.
Os dois continuaram rindo. Logo acho que já estávamos todos meio alterados e começamos a rir de tudo... Marco falava em italiano com Sick, que falava comigo em francês, que falava com o Marco em inglês, no fim acho até que todo mundo tava conversando em russo, não me lembro bem. Só lembro do momento congelante quando o celular do Marco tocou e ele ficou branco.
-Sick... – Sick Boy levantou num pulo e engoliu todo o pão que tava comendo junto com o vinho, e pulou feito uma marionete, pra cima e pra baixo, como se quisesse falar alguma coisa, mas não soubesse o quê. No fim ele só fez um gesto de “atende logo, porra” balançando a cabeça negativamente, pulando de um pé pro outro.
-Puta que pariu. – Sick Boy levou as duas mãos ao rosto e entrou no restaurante, tirando o dinheiro do bolso.
Minhas mãos que estavam no guardanapo, saltaram para segurar as bordas da mesa o mais forte que eu conseguia. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que ia provavelmente dar merda. Era o tipo de tensão que tu sente à um bloco de distância.
-Alô. – O tom de brincadeira acabou e o Marco serio de antes tinha assumido posição. Até prendi a respiração. Eles falavam em italiano, mas eu senti que conseguiria entender alguma coisa. – Sim... Em duas horas... Sim... No mesmo lugar... Não quero nenhuma gracinha, viu, moleque. Tu ta escutando? Pode passar a mensagem, é o Marco quem tá falando. – Ele apontava e gesticulava no ar, e estava vermelho, mas não aumentava a voz. – Tudo bem. Duas horas. Não tente nada.
Sick Boy voltou, mais branco do que o normal.
-Cara... Eu to bêbado. – Marco desligou o telefone.
-Eu também... – Eles viraram pra mim.
-Eu devo tar mais do que vocês dois juntos... Porque eu entendi italiano.
Os dois se entreolharam.
-Não da mais pra voltar atrás. Eu disse pros caras em duas horas no lugar de sempre.
-Puta que pariu. – Sick Boy se apoiou na mesa. – Francês... Tu vai dirigir.
-Quê?! – Minha voz saiu um sussurro, senti meu corpo ficar gelado.