Mais um capítulo liberado, não deixem de acompanhar! #umdiadepoisdoanonovo #capitulo20 #comida #discussões #rancoroso #artecomamor https://www.instagram.com/p/CQBLJwzjzo4/?utm_medium=tumblr

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Pensar que hace una hora se me ocurrió que lo mejor era ir a tirarme al río. —La desconocida del Sena... Pero si vos nadás como un cisne. #Rayuela #Cortazar #Capitulo20 #Horacio #LaMaga #libro #literatura #Paris #rio #Sena #parisphoto (à Rio Sena - Paris) https://www.instagram.com/p/B3rcLteoEyc/?igshid=1byyxyi9isrmg
Capítulo 21
Conversar com a Rafa sobre avó dela foi fácil, difícil foi fazer a mãe dela ir até lá.
“Eu confesso que estou desesperada. Não consigo parar de pensar que estamos nessa situação por minha culpa. E se chegarmos lá e não der certo? Piorar? Estou surtando, queria que você estivesse aqui.”
Chegava uma mensagem nova da Rafa de cinco em cinco minutos. Ela e a Márcia haviam aceitado o convite para um jantar com a avó. Elas estavam a caminho, e eu é claro, fiquei. No meio tempo que tive livre, comprei um presente de aniversario para ela, e ajudei o pessoal a organizar a pequena festa privada feat surpresa.
“Fica calma. Não apavore sua mãe. Pare de achar que tem culpa, você não escolheu isso ok? A doida da historia é a sua avó, e se der tudo errado, você volta pra casa que eu vou estar aqui te esperando... ou talvez, a gente possa voltar ai e bater em todo mundo. Enfim, o que você escolher estou contigo”
Ela devia estar com o celular na mão por que a mensagem chegou em menos de dois minutos.
“Você tem fobia a sangue não tem? Como consegue bater em uma pessoa se não vai conseguir olhar para o sangue dela?”
Comecei a rir.
“Credo, você realmente esta mal não é? Não quis dizer bater ao ponto de rancar sangue, você esta muito violenta. Vai assustar sua avó. De gay a maloqueira é demais para uma velhinha”.
Mais uma vez a mensagem chegou rápida.
“Devo agradecer aos astros por encontrar uma pessoa que me faça rir em situações como essa. Te ligo mais tarde. Um beijo, te amo”
“Eu, eu te amo” Respondi por fim.
Se eu soubesse fazer uma macumba, eu com certeza faria. Queria que as coisas dessem certo para elas, assim como estavam começando a se acertar para mim.
- Não larga esse celular ein mocinha – Minha mãe comentou enquanto fazia o almoço.
- Era importante. – Respondi vagamente.
- Era importante significa, era a Rafaela. – Ela falou seca.
Suspirei levemente irritada. Eu odiava quando minha mãe começava com essas indiretas ruins.
- Ela é minha melhor amiga mãe, ela é. – Falei com firmeza.
Ela não respondeu.
- Vou para o casamento da Paloma esse fim de semana. – Comentei mudando de assunto – Eu volto no dia seguinte. Tudo bem para você?
- Claro. Combinei com ela que no natal você é minha. O resto do ano, podemos revezar.
- Não precisa disso. Eu não quero ser revezada, muito menos ficar com ela.
Ela parou o que estava fazendo e olhou para mim.
- Meu amor, você deu a sorte de se sentir apaixonada por essa família, ela não deu a sorte nem de achar uma nova família. Abaixa as armas.
Apesar do seu tom carinhoso, ela estava sendo bem rude. Me irritava quando as pessoas falavam coisas tão obvias que eu não conseguia revidar. Assenti com a cabeça e não falei mais nada.
- Ta bem. – Respondi sentida.
Ela me deu uma olhada carinhosa e continuou cozinhando.
Almocei rápido e depois sai para encontrar com o pessoal. Passar as horas longe da Rafa fazia com que meu dia corresse rápido, quando menos esperei o sol já tinha se colocado. Nós estávamos na casa dela, até por que a mãe dela era meio que uma cúmplice. Tinha bebida demais, e bastante comida. O pessoal sabia mesmo organizar uma mini festa. Apesar do clima descontraído o fim do ano era algo que me assustava bastante.
- Para de franzir a testa – O Renan se aproximou – vai ficar velha mais rápida.
Eu ri e me afastei para que ele pudesse se sentar do meu lado. Ele já estava segurando um copo de bebida.
- O que você vai fazer depois da formatura? – Perguntei.
- Viver. Não penso muito sobre isso. – Ele deu um gole na bebida.
Ele estava olhando para frente, em algum ponto fixo.
- Tem que enfrentar o pai dela. Você tem. Ela não pode viver para sempre assim.
Ele deu um sorriso lindo de canto.
- Tem que perder o seu medo. Decidir se vai enfrentar seus sentimentos ou não.
- Eu vou ficar com ela.
Ele me olhou surpreso. Eu sorri.
- Não tenho forças pra lutar contra isso, você entende? Mas... eu não vou dizer nada aos meus pais, aos nossos amigos, eu não vou.
Ele esticou o copo para que eu bebesse. Eu peguei.
- Se estiver tudo bem para ela... então você não tem com que se preocupar. As pessoas não podem viver a sua vida por você, e na real, todo o preconceito que você teria que enfrentar iria ser resultado de invejas e tal...
Sorri contente.
- Se a sua mãe estivesse aqui... talvez eu contasse para ela.
Ele sorriu gentilmente. Eu sabia o quanto ela fazia falta para ele, e apesar de tudo, o Renan lidava melhor com a situação do que o Ramon. Jamais faria um comentário desse com outra pessoa alem dele. Nem com o tio Max.
Eu o envolvi nos meus braços. Ficamos observando os outros terminarem de arrumar tudo. A Rafa avia me ligado e já estava a caminho.
Seguimos o roteiro que manda uma festa surpresa. Apagamos as luzes, esperamos ela chegar e fizemos aquela coisa ridícula de gritar surpresa. Depois foi normal, nós não tínhamos muito disso de ficar descrevendo as coisas em palavras, os gestos do dia a dia fazia nossa amizade.
Depois de um tempo bebendo, tocando violão, cantando, consegui ficar sozinha com a Rafa na sala.
- Como foi? – Perguntei assim que subi a escada.
O sorriso dela ia de orelha a orelha e como resposta ela simplesmente me abraçou.
- Foi tudo bem – desabafou – eu estou tão feliz pela minha mãe.
Ela me soltou e nós sentamos no sofá.
- Ela não falou no fato dos motivos que nos levaram a se afastar... porém, todo mundo me tratou bem. Não foi nada forçado nem nada.
A felicidade dela era tão bonitinha que mais uma vez eu tive que usar toda grama do meu autocontrole para não beija-la.
- Isso é incrível Rafa. Eu fico muito feliz por você.
Ela sorriu de canto, sempre que ela fazia isso era por que tinha alguma carta na manga.
- Vamos almoçar de novo depois de amanhã. Para que eu possa ver meu avô. Eles conhecem a Paloma e toda historia dela. Você tem que ouvir a sua historia de outro ângulo. O mais engraçado é que a gente não falou que conhece você, eles que começaram a contar. Todo mundo ficou sabendo do que aconteceu no acampamento.
Precisava me lembrar de respirar. Quando ela falava sem para de um jeito absurdo era por que ela realmente estava feliz, leve, contente. Fazia tempo que não a via assim. Eu queria viver para sempre da energia que a felicidade dela me trás.
- Depois de amanha? – Franzi a testa lembrando-me de um ponto importante – Rafa, é o casamento. Você falou que ia comigo.
O sorriso dela se desmanchou.
- Putz – Ela levou à mão a testa – caramba, eu estava tão empolgada que eu me esqueci disso.
Senti um leve desespero ao notar que eu teria de entrar em território novo sozinha, mas eu não podia interferir.
- Você vai, e aparece lá à noite, quando o almoço acabar.
Ela sorriu em consentimento. Abri meus braços e ela se deitou em mim. Ficamos em silencio, às vezes dávamos risadas das conversas que vinham lá de baixo. Parece que o capitão estava se dando bem com a garotada.
Lembrei da coisa mais importante daquela noite. A afastei, e ela me lançou um olhar questionador.
Peguei meu embrulho na mesinha de centro. Quando a olhei ela já estava fazendo aquela cara que dizia “não precisava”. Sem falar nada ela pegou o embrulho e o desfez.
Na mão dela caiu o colar, em forma de meia lua que ela carregava. Eu estraguei o fecho de propósito enquanto ela dormia, assim teria de levar para arrumar e eu levei. Além de arruma eu levei para o meu tio fazer uma coisinha para mim.
A corrente era diferente, um pouco mais grossa do que a normal. Ela ficou olhando sem entender nada.
- Deixa eu prender – Me levantei e coloquei em seu pescoço.
Ela o ajeitou e continuou me olhando curiosa.
- Eu achei que o colar precisava de um toque especial, já que nossa relação ficou mais especial do que o normal. – Puxei meu colar para fora da blusinha que estava usando. Assim que os dois colares ficaram em amostras, uma faixa de luz saiu do pingente, contornou todo o colar e chegou ao pingente outra vez. Ela estava com os olhos arregalados – Toda vez que chegarmos a menos de cinco metros eles vão brilhar assim. Meu tio quem colocou uma das experiências dele aqui. Enfim, eles só brilham uma vez a cada hora então não vai ficar nos perturbando.
Ela começou a gaguejar.
- Obrigada. Por tudo – Me abraçou – Você é a melhor pessoa do mundo.
Eu não poderia dizer como a vida iria andar, mas apesar de toda confusão, eu estava satisfeita.
Depois da festa da Rafa os dois dias seguintes passaram rápidos. Ela pediu demissão do hotel. Já que ia se formar a Rafaela pretendia estudar, não iria ter tempo para trabalhar como recreadora. Ela estava pronta para o almoço e eu para o casamento.
“Espero que fiquemos vivas até o fim do dia”. Digitei e enviei para ela enquanto estava a caminho da casa da Paloma.
Meu pai estava me levando e ao contrário dos casamentos que eu estava acostumada a ir, não iria ser na igreja, iria ser na casa dela.
Meu pai parou o carro em frente a entrada da casa. Um rapaz de aproximou da janela do carro para leva-lo até o estacionamento, mas meu recusou, disse que só iria deixar uma convidada. A fachada da casa era linda. Os muros eram altos e branquinhos. O portão da frente com certeza dava umas vinte vezes o meu portão. Estava cheio de pessoas trabalhando assim como pessoas chegando. Todas muito bem vestidas. Agradeci pela minha mãe ter me convencido a usar vestido ao invés das minhas opções normais. Era um vestido beje claro, de uma alça só, simples, que caia justo ao meu corpo. Ao olhar para as pessoas do lado de fora do carro, eu me julguei estar no padrão.
- Querida, você tem que sair. – Meu pai disse gentilmente.
Eu olhei para ele surpresa. Por um momento até me esqueci que eu estava realmente ali.
- Ta... ta bom, ta legal – Eu beijei seu rosto – então tá bom, é isso, to indo.
Ele segurou o riso e me lançou um sorriso encorajador. Contei até três e sai do carro. Ninguém pareceu notar que eu estava ali. Antes que eu pudesse voltar para o carro meu pai já havia saído. Suspirei e me dirigi à entrada.
- Seu convite. – O rapaz da recepção tinha um tom simpático, apesar do modo direto que tratava as pessoas.
- Desculpa senhor, mas ninguém me deu convite. – Falei perplexa.
Ele me olhou desconfiado, depois sua expressão mudou. Ele me olhou de cima em baixo, e continuou em silencio. Eu também fiquei. Ele ainda não disse nada. Eu já iria dizer que eu não era penetra e que ela era um idiota quando alguém família se colocou ao seu lado.
Era o capanga da Paloma. Sorri para ele de modo irônico por ele estar ali, no casamento dela. Ele serrou os cílios para mim, o que fez com que eu apenas sentisse mais graça.
- Deixa que dessa convidada cuido eu, Marquinhos. – Ele tocou no ombro do rapaz de modo gentil.
- É ela não é? – Ela não se moveu e de desconfiado o olhar dele passou a ser de admirado – Esperamos tanto por você querida. Pode ir.
Ele se afastou e eu entrei. O Pablo estava me guiando em meio ao enorme jardim.
Era lindo demais, havia toldos posicionados de maneira estratégica para que caso chovesse, não molhasse ninguém. De um lado do enorme jardim, era a área para a festa imaginei, e do outro lado, frente ao enorme lago estava um altar. Tudo era muito brando e florido. Meu senso de fotografa resmungou por não ter a minha câmera em mãos.
Ele me fez atravessar o extenso jardim e me levou para dentro da casa. Enquanto do lado de fora era um barulho imenso e muito movimentação, tudo estava quieto e tranquilo do lado de dentro.
Chegamos a um cômodo que parecia ser a sala de jantar. Havia algumas pessoas lá. Uns homens de terno, e algumas mulheres de vestidos iguais. Pelo modo como estavam vestidos, eu julguei serem os padrinhos. Notei que a mãe da Gabriella estava entre elas. Ela me lançou um sorriso gentil, mas eu não consegui retribuir.
O Pablo começou a subir a escada e eu o segui em silencio, tentando ignorar todos os olhares curiosos as minhas costas. Chegamos a um corredor largo e longo. No final do corredor havia uma enorme janela virada para o jardim, mesmo sem chegar perto dela eu já consegui ver as pessoas se movimentando lá me baixo.
- Ela esta te esperando na ultima porta. – Ele falou.
Eu o olhei mesmo sem vê-lo. Por algum motivo eu continuava nervosa.
- Que foi? – Apesar do tamanho e da voz rouca, ele parecia bastante gentil – Ela espera por você mais do que espera pelo noivo.
- Sabe que eu gosto de você? – comentei sinceramente.
- Eu estou fingindo – ele falou baixinho – se você gostar de mim pode convencê-la de que eu sou um bom partido.
- Mas ela vai se casar daqui a pouco.
- Só por isso tudo está perdido? O mundo gira, não é a toa que tem tanta gente tonta.
Eu ri. Ele estava usando a mesma frase que o Renan me dissera uma vez. Ele ficou parado ao meu lado e eu decidi que tinha que continuar. Mais uma vez contei até três e atravessei o corredor. Cheguei a ultima porta e bati.
Uma moça de cabelos grisalhos e baixinha abriu a porta. Ela estava toda delicada, com uma flor presa ao cabelo. Um verdadeiro encanto. Ela sorriu de modo tão feliz e gentil para mim que eu me senti abraçada.
- Ah minha querida, – Ela abriu os braços – Eu esperei tanto por você.
Eu fiquei um pouco assustada, mas minha consciência dizia que não era legal deixar a moça esperando. Então eu a abracei.
Eu poderia começar a chorar ali mesmo. Minha alma foi preenchida de todos os sentimentos bons que existiam no mundo. Era como se cada buraco feito no meu coração tivesse se fechando. Pela primeira vez em toda a minha vida, eu finalmente me senti: completa. O amor que saia do corpo da senhora e penetrava o meu era tanto que parecia que eu podia toca-lo. Assim como aconteceu quando toquei a Paloma, eu sentia alguns choques. Fiquei surpresa ao notar que o amor que preenchia o ar, não sai apenas dela, e sim de mim.
- Pare de amassar a menina Tereza – Uma voz de homem preencheu a sala – Deixe que ela venha até aqui.
Eu não podia ver nada, pois havia um pequeno corredorzinho que levava ao interior do quarto. Assim que ela me soltou eu pensei em dizer as mais lindas palavras do mundo em retribuição, mas não precisava.
Entrei o quarto e vi. Ela estava linda. Vestida em um vestido branco, de noiva, magnífico que vinha bem rente ao seu corpo, e um penteado que realçava os fios do seu cabelo castanho. Por si só ela já esbanjava elegância e simpatia, produzida então não tinha nem como descrever. Sentado em uma poltrona ao seu lado estava um senhor não muito velho, porém aparentava estar fraco e cansado. O pouco cabelo que ele tinha eram brancos cor de neve, seu olho cor de mel se destacava em meio a todo esse contraste.
A Paloma estava em cima de uma plataforma, onde uma moça fazia alguns ajustes em seu vestido. O senhor sentado na poltrona pediu para que a mulher nos desce licença, e gentilmente ela se retirou. Sem dizer nada a Paloma me envolveu em seus braços. Eu retribui de bom grado o gesto carinhoso.
Ela se afastou e olhou fundo em meus olhos. Acariciou meu rosto e sorriu, sorriu de um jeito tão simples e amoroso.
- Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Porque eu tenho você.
Sorri de volta. Não consegui dizer nada, aquilo tudo ainda era muito novo para mim.
- Meu amor essa é a minha madrasta, Tereza – Ela olhou para a senhora de cabelos grisalhos que me envolveu na porta – e esse, é o meu pai.
Segurei qualquer cara de surpresa que pudesse aparecer em meu rosto. Completamente diferente da mulher que eu conheci no acampamento, o senhor de terno, sentado na poltrona a minha frente, transmitia humildade e sinceridade no olhar, além de tudo, aparentava estar cansado e velho, ao contrario da mulher forte que se mostrou no salão há alguns dias atrás.
Ele sorriu e com um pouco de dificuldade se levantou.
- Estou um pouco cansado – Ele caminhou até mim e me abraçou – Finalmente.
- É um imenso prazer conhecer vocês. – Falei com sinceridade.
Ele voltou a se sentar na poltrona e fez um gesto para que eu me sentasse ao seu lado.
- Eu queria fazer um interrogatório sobre você, mas a Tereza disse que eu posso te assustar – Ele piscou de um jeito brincalhão – Achei que eu ia ficar velho esperando você voltar.
- Você está velho querido – Tereza interviu de modo gentil e brincalhão.
Eu ri. Eles pareciam um casal interessante.
- Queria poder ter te protegido de todas as coisas ruins que lhe aconteceram – sua voz saia de modo serio – Infelizmente não pude. Vi minha filha sofrer noite e dia e mesmo assim nunca perdi as esperanças. Temos muito que conhecer um sobre o outro, mas se você puder, pode me chamar de avô? E se puder, durante esse período, deixar todo o passado para trás. Eu não vou deixar que ninguém mais machuque você querida.
Ele colocou a mão no meu braço de modo gentil e eu assenti. Continuei em silencio. Ele me deu um sorriso amarelo e se levantou.
- Tereza, vamos checar se esta tudo bem – ele andou firme até a porta – deixa que elas fiquem sozinhas.
Ela se inclinou e me deu um beijo suave no rosto.
- Estaremos aqui para responder qualquer pergunta está bem querida? Sinta-se a vontade, a casa é sua e o mais importante, divirta-se.
Dei um sorriso de canto para ela, que logo começou a se retirar. Assim que escutei a porta fechar, eu olhei para a Paloma. Ela não sorria, mas me observava de modo sereno.
- Está tudo bem pra você? Não quero que ninguém te ataque com perguntas ou gestos. Mas os dois insistiram para te conhecer.
Ela só podia estar brincando. De tudo que me aconteceu, os dois foram as coisas mais interessantes. Eu me senti completa nesse meio espaço de tempo.
- Obrigada – Minha voz saiu embargada de emoção, e precisei piscar algumas vezes para não deixar nenhuma lagrima escapar – Obrigada por me devolver a vida, e o amor. Desculpa-me pelo jeito que eu te tratei no começo. Eu nunca me senti tão... Inteira como me sinto agora.
Ela caminhou até mim visivelmente emocionada.
- Que bom que você se sente assim – ela acariciou meu rosto de modo suave – tudo que eu mais quero é que você se sinta parte de mim tanto quanto eu me sinto parte de você filha.
A palavra filha me pegou desprevenida. Apesar de tudo, as coisas ainda estavam acontecendo rápido demais. Alguém bateu á porta.
Era a moça que estava ajustando o vestido dela quando entrei. Ela pediu para colocar a calda e a Paloma deixou. Ela começou a trabalhar no vestido outra vez e eu aproveitei para observar ao redor.
Parecia um quarto de visita. Em dos cantos parecia ter um salão de cabeleireiro, tinha de tudo para a beleza, e com certeza não fazia parte da decoração do quarto. Foi colocado ali para a ocasião. Olhei pela janela, as pessoas sorriam felizes uma para as outras. Observei que havia uma porta que levava ao banheiro, uma cama enorme e uma estante, cheia de fotografias.
Observei que uma das fotos na parede era de cinco homens, vestidos de terno. Entre eles estava o Diego. Num impulso toquei a foto. Senti uma ligeira tristeza ao pensar em tudo que ele me causou, que apesar de tudo, ele foi o primeiro amor da minha vida. Eu realmente havia cogitado a possibilidade de casarmos e ter filhos, e eu nunca havia desejado isso antes. Suspirei sentida. Infelizmente não se pode mudar o passado.
Pelo canto do olho pude ver que a Paloma me observava, então me afastei do retrato. Eu senti uma vontade de perguntar quem eram essas pessoas com ele, afinal eu não sabia nada sobre ele. Mas me contive.
- Qual foi o dia mais feliz da sua vida? – Ela me perguntou de repente.
Eu sorri ao lembrar do momento. Sentei-me de volta na poltrona e suspirei. Olhava para minhas próprias mãos quando comecei a falar.
- Quando minha família se mudou para o interior. A gente chegou junto com um caminhão cheio das nossas coisas, foi uma viagem longa e minha mãe estava ligeiramente chateada. Minha tia Bruna esperava a gente com um churrasco, e os vizinhos de boas vindas. Foi quando eu conheci tudo e todos. Ali ninguém olhava para mim com curiosidade, como a menina adotada da família. Eu era simplesmente uma filha. E uma nova vizinha. Foi um dia feliz, a gente cantou, nadou, fizemos um churrasco, e eu fiz amigos. Foi quando conheci o Diego também – ri com a minha observação – Estávamos todos felizes demais. Eu me senti amada. – Fiz uma pausa, me lembrando do sentimento bom que senti na ocasião - e pela primeira vez eu me senti parte de uma família. Tinha certeza de que a vida seria boa a partir daquele exato momento.
A moça havia terminado então ela se virou para mim.
- E foi?
Eu sorri.
- Foi, foi uma vida incrível até aqui. – Balancei a cabeça freneticamente em sinal positivo.
Ela sorriu de modo gentil.
O Pablo apareceu e nós o olhamos no mesmo instante.
- Desculpa atrapalhar – ele disse de um jeito debochado, e depois ficou serio – Está na hora.
A Paloma suspirou nervosa e esticou a mão para que ele lhe ajudasse a andar. Eu os segui por que como ele disse, estava na hora.
Capítulo 20.
Tia Gogó, Amanda e Camila acabaram indo embora e como eu dormi nem deu tempo pra me despedir. Mas elas voltariam para o ano novo. Acordei ás 11 horas da manhã com alguns beijinhos de Luan. Continuei fingindo estar dormindo e ele continuou a espalhar beijos pelo meu rosto. Não consegui mais fingir quando ele começou a beijar meu pescoço onde eu morro de cócegas. — No pescoço é apelação! – gargalhei. — Tava fingindo né sua malandra? – sorri balançando a cabeça positivamente. Então ele me atacou com cócegas e eu quase morri sem ar. — Eu não gosto de cócegas, não é legal, eu tenho vontade de chutar sua cara! – disse séria e ele fez um biquinho apaixonante. Fiquei um tempo olhando pra ele que fazia ceninha de triste e logo corri pro seu colo. — To brincando Lu, mas é que você começa e não para e eu fico desesperada. – fiz bico também. — Bicuda! – mordeu meu lábio inferior. — Vai se arrumar, hoje vamos pescar. E se não pescar nada, vamos ficar sem almoço. – sorri e fui para o banheiro. Luan desceu pra cozinha me esperar. Como eu odiava mosquito, praticamente tomei um banho de repelente e vesti uma calça, uma blusa de frio, um cachecol e coloquei uma toalhinha na cabeça e por cima coloquei um boné e desci pra sala. — Bora! – bati palma e pousei minha mão na cintura. Todos me olharam e logo gargalharam. — Aonde cê vai? – Luan disse rindo. — Uai, a gente não vai pescar? – todos caíram na gargalhada de novo. — A gente vai amor, mas não precisa ir assim. – gargalhou. — Vai lá se trocar, vai. – gargalhou e me virou em direção as escadas que dava acesso ao andar de cima. — Tô feia? – entortei a boca. Ele me olhou segurando o riso e logo gargalhamos. — Brincadeira, é rapidinho já volto. Subi e coloquei um short jeans e uma camiseta. Voltei pra sala e Luan pegou em minha mão e me levou até o banquinho na beira do lago. Ele espetou a pobre da minhoca na minha vara de pescar e fizemos uma aposta. Jogamos a vara juntos e eu fui a primeira a pegar o peixe. Ele repetiu o processo e eu peguei mais uns quatro peixinhos e ele não havia pegado nenhum. Ainda teve a coragem de dizer que eu estava roubando seus peixes. Em mais ou menos uma hora de pesca, eu havia pegado sete peixes e ele somente dois. — Aqui pesca hein? – brinquei. — Pesca... pesca nada, eu que coloquei as minhocas mais gordinhas na sua, por isso você pegou mais peixes que eu. – o olhei com cara de desaforo e logo gargalhamos. — Lu, eu vi um vídeo na internet uma vez e os carinhas estavam andando de barco e tinha tanto peixe que eles pulavam dentro do barco. Pra pescar mais que eu, você precisa ir pra lá! – brinquei e ele me contou que já tinha visto esse vídeo na internet e ficamos conversando sobre pesca, mesmo eu não entendendo quase nada. Levamos os peixes pra seu Amarildo limpar, e fiquei na cozinha com Bruna conversando enquanto Marizete preparava o almoço. Luan ficou em seu notebook resolvendo algumas coisas e conversando com seus fãs. Fazia algum tempo que eu não atualizava meu instagram, resolvi postar a foto do natal onde estava toda a galera reunida com a legenda: “Minha segunda família <3” e logo já tinha várias curtidas e muitos comentários do tipo “Luan e Giu abraçadinhos, se casem”, “Que abraço”, “Eu apoio”, “Assumem logo” e só ai fui perceber que na foto Luan me abraçava por trás. Fiquei meio encabulada, mas entre milhares de comentários vi que Luan tinha comentado um coraçãozinho. Então achei que não teria problema, pois se houvesse algo de errado Luan me alertaria. Vi Bruna grudada em seu celular e perguntei a ela se seu “casinho” com Lucas estava tudo bem, já que ela não me falou mais nada sobre. E apesar de dar uma palestra, no fim disse que estavam bem. Almoçamos filé de peixe grelhado. E de sobremesa, Luan fez creme de abacate.
Capítulo 20
-É, ué, tu veio aqui pra dirigir, não foi? – Sick Boy me olhou sem entender. -Fo... Fo... Foi...? – Gaguejei, sem querer. -PORRA, LUC! Não gagueja, caralho. – Ele jogou os braços pra frente. -Foi, foi sim. – Falei andando de um lado pro outro, pensando no que iria fazer. Ou me mantendo sóbrio, eu acho.
-Então tá quase tudo pronto! – Sick Boy deu um pulo e as mãos dele, que antes estavam na nuca, vieram para frente do corpo, com um estalo. – Vamos lá, então. – O sorriso de coringa se abriu, e o Sick Boy bêbado começou a me irritar um pouco. Marco estava parado, sentado no mesmo lugar, desde que atendera o telefone, e aquilo estava me deixando agoniado. Minha respiração estava ofegante demais, mas se sentia que se parasse de me mexer, eu ia vomitar, ou desmaiar, não sei. Soava frio. -Claro que não, Sick. – Marco finalmente se mexeu, acabando com a nossa tensão. – Temos que voltar pra casa, né, caralho. -Ahhhh, pode crer, a gente precisa pegar as coisas... – Ele saiu andando na frente. – Então vamos. – Ele nos apressou com um gesto de mãos. Peguei a barra da minha camisa e limpei o suor que escorria pelo meu rosto, sem parar, e comecei a andar atrás do Sick Boy. -Tu ta bem, guri? – Marco apareceu do meu lado e botou a mão no meu ombro, me fazendo dar um pulo. Ele me olhou, de lado, enquanto eu balancei a cabeça dizendo que sim. – Tu não parece muito bem... – Ele saiu andando na frente. Tentei acompanha-lo, mas desisti quando percebi que minhas pernas estavam muito tremulas pra conseguir fazer isso. -Ta tudo no lugar, né, Marco? – Sick Boy ainda esfregava as duas mãos, uma na outra, quando perguntou isso, numa altura razoavelmente alta, para que eu conseguisse ouvir, e eu não estava tão perto. Marco só balançou a cabeça. – E... Quando a gente chegar lá, é só pegar então. – Continuou perguntando. -Sim, Sick Boy, sim. – Marco bufou. -Mas a gente vai conseguir carregar? – Prestei mais atenção, até tentei chegar mais perto. – Quer dizer, são 20 QUILOS, não são? Marco se virou para ele e agarrou a gola de sua camisa, o levantando no alto. O pouco peso de Sick Boy pareceu menos ainda. Os braços fortes de Marco o suspendiam no ar enquanto ele falava entre dentes. -Que tal tu falar mais alto? Acho que aquela velha ali não te ouviu direito... – Ele apontou, com um dos braços pra uma janela acessa. Olhei e vi a tal da mulher nos xingando, mordendo a mão, ou qualquer coisa que ela estivesse fazendo. Estremeci. Marco largou Sick Boy no chão, que caiu tossindo no chão, e sai andando na frente, já que estávamos chegando na casa. -Jeez... O cara ta estressado. – Sick Boy se levantou quando eu passei perto dele. -Tá todo mundo estressado, eu acho. – Falei, minha voz mais tremula do que eu esperava que estivesse. Marco abriu a casa e deixou a porta entre aberta. Entramos logo atrás dele e Sick Boy fechou a porta atrás dele. -Caralho, francês. Tu ta branco! – Os olhos verdes arregalados na minha frente, e as mãos grandes e finas vindo na direção do meu rosto. Minha visão, de repente, ficou muito embaçada. – Tu ta bem, cara? – Ele me colocou sentado no sofá, perto da janela. A noite tava abafada pra caralho. -Acho que eu bebi um pouco demais. – Falei, limpando meu suor de novo. -Porra, francês. – Ele foi até a cozinha. Olhei em volta, mas não vi Marco em lugar nenhum. Ele devia estar no andar de cima. Sick Boy voltou com um copo d’água, um comprimido e uma colher de qualquer coisa. – Bebe isso aqui. -Quê qué isso? – Perguntei, desviando da colher que vinha em direção à minha boca e tentando olhar do que se tratava. -É açúcar, porra, come logo e bebe essa agua. – Abri a boca e ele enfiou a colher na minha goela. Quase morri de tossir, mas engoli a porcaria do açúcar. Depois ele me deu o comprimido e me fez tomar todo o copo de água, que ele tinha enchido até a boca. – Presta atenção, francês, tu não vai poder vacilar, ok? – Balancei a cabeça, porque estava com a boca cheia. – Tu te lembra do caminho que a gente fez hoje mais cedo? -Mais ou menos... – Respondi, limpando minha testa. -Tudo bem... O Marco te ajuda nessa parte... Mas pra voltar, tu vai ter que te virar, beleza? – Ele estava agachado à minha frente, fazendo gestos com a mão. E eu não tava gostando nada daquela história, mas mesmo assim balancei a cabeça. -Mas o que exatamente, tu ta indo fazer? – Perguntei, minha pressão já um pouco mais normalizada. -Francês, não posso te contar agora... – Ele balançou a cabeça, saindo de perto de mim. -Puta que pariu, Sick. Tu não acha que eu mereça uma explicação, a gente já ta indo fazer a porra do trabalho! – Joguei, mexendo meus braços mais do que eu gostaria. -Luc, calma! – Ele controlou a voz, meio gritando baixo. – É pro teu próprio bem. Não quero que tu fique nervoso. Não agora, ok? – Ele me acalmou com gestos de mãos. – Tu não confia em mim? -Não... – Ele me olhou, e a boca dele se abriu. -Ah, então vai te foder. – Ele virou de costas, jogando a mão pra trás, e eu comecei a rir. Não aguentei. -Pffff..... HAHAHAHAHAHAHAHAHA – Logo estávamos nós dois rindo. Mas eu acho que era de desespero. Marco desceu as escadas, e o clima ficou sério, outra vez. Ele carregava uma maleta prateada, com detalhes em preto. Fodeu. Era só o que eu conseguia pensar. Sick Boy foi até a porta e eu o acompanhei. Ele abriu a porta com cuidado, as luzes da casa já apagadas. Olhou de um lado pro outro, a rua e me entregou a chave do carro. -Aqui. Tu vai lá, abre as duas portas traseiras do carro, entra na do motorista e fecha a porta. – Saí da casa e fiz exatamente o que ele mandou. Minhas mãos tremiam. Sentei no carro e ajustei o retrovisor pra poder enxergar o que eles estavam fazendo. Eles trocaram poucas palavras e Marco veio até o carro, entrou por uma das portas traseiras e fechou. Sick ficou pra trás, olhando de um lado pro outro da rua, enquanto trancava a casa e, depois, correu até o carro, fechando a porta um pouco mais forte do que o necessário. Arranquei com o carro enquanto os dois conversavam baixinho, em italiano. A maleta estava entre as pernas de Marco, mas eu sabia que não podia ser coisa boa, ali dentro, até imaginava o que era, pra falar a verdade. Continuei pelo caminho que me lembrava, mas quando cheguei na estrada de terra, os postes não estavam acessos, então eu liguei a lanterna do carro. -Tu ta maluco, guri? Desliga essa merda. – Marco falou. A voz grossa me fazendo pular no lugar, e por um segundo, minha visão ficou turva, outra vez. Minhas mãos ainda tremendo, quando eu desliguei a luz. -E... Eu não me lembro... – Tentei terminar a frase, mas não consegui. -É por ali. – Marco indicou com a mão. – Depois tu entra à primeira esquerda. A segunda direita. Direita. Esquerda, e terceira à direita e esquerda, de novo. Concordei com a cabeça, repetindo as coordenadas pra mim mesmo. Como ele sabia disso? Deve ter mapeado o lugar, era literalmente o meio do mato, onde a gente tava. Continuei andando, relembrando os direita/esquerda, quando Sick Boy tocou meu ombro, me fazendo tremer. -Foi mal. – Ele falou, baixo, agora. A euforia de antes tinha se transformado na expressão preocupada que ele tinha quando deixamos o trem, àquela manhã. – Acho que tu tem que virar aqui... – Ele apontou. -Eu sei, cara. – Estava uma pilha de nervos. -Antes de tu virar, acho que tu tem que saber o que tu vai ver. – Meu coração parou por acho que uns 5 segundos. Minha visão embaçou, e provavelmente minha pressão caiu, de novo, mas... eh... eu queria saber logo, então, eu só balancei a cabeça, pra ele saber que eu estava ouvindo. – Tu já deve ter sacado, mas... eu vendo droga. – Assenti, mesmo tento uma ideia disso, ainda era estranho ouvir da boca dele. Mesmo assim, respirei fundo, não podia ser só aquilo. – Mas.... Esse não é o problema. – Como eu disse. Assenti, para que ele continuasse. – O problema é que nós vendíamos drogas pra esses playboys, tá ligado? E um dia, simplesmente, eles resolveram sequestrar um dos nossos cara- -O QUÊ?! – Me virei pra ele, sem tirar as mãos do volante, ofegante. -Calma, Luc... – Ele colocou a mão sobre o meu ombro. – Os caras ficaram muito viciados... Isso acontece, as vezes. São alguns riscos que nós temos que correr. -RISCOS QUE TU TEM QUE CORRER? – Eu não tava acreditando o quão calmo ele podia estar numa situação dessa. -Enfim. Por um mês eles não se dec- -UM MÊS?!?! – Larguei o volante. – E TU TAVA NA MINHA CASA,TODO FELIZ, LAVANDO ROUPA, COMO SE NADA TIVESSE ACONTECENDO?! QUE PORRA É ESSA SICK BOY? – Levei minhas mãos à minha cabeça, tentando processar tudo aquilo. -Por isso mesmo que eu não queria te contar, Luc... Eu sabia que tu ia pirar. – Ele disse se jogando no banco de trás. -Porra, Sick. O moleque tem o direito dele de surtar. Imagina se fosse você ouvindo isso... – Marco disse, num tom tão calmo quanto o de Sick Boy, e aquilo estava me deixando mais irritado ainda. -O moleque ficou sozinho com esses caras por UM MÊS! Tu acha isso NORMAL? – Perguntei, já todo virando pra ele. -A gente tava monitorando, ok?! – Ele passou as mãos nos cabelos bagunçados. – Além do mais, a gente tinha que conseguir tudo o que eles queriam de algum jeito. Respirei fundo, pensando se deveria ou não perguntar o que eu queria perguntar. -Tá. E o que eles querem, em troca do cara? – Perguntei, virando pra frente. -20kgs de coca. – Sick Boy apontou pra maleta. – E sabe-se lá o que eles não vão aprontar, né... A gente nem tem dinheiro pra pagar tudo isso. -Puta merda. PUTA MERDA. – Falei, batendo no volante do carro. – E tu me trouxe pra cá... – Balancei a cabeça negativamente. Por um tempo, tudo o que se ouvia era o barulho do carro, ligado, no meio do nada.
-Onde cês arrumaram a coca? – Perguntei, só pra tirar essa dúvida, mesmo. -Bom... O cara que vende pra gente revender acha que a gente vai vender tudo isso... Pagar pra ele de volta é que vai ser o problema. – Marco explicou, já que Sick Boy tava emburrado, de braços cruzados, olhando pra janela, como se tivesse alguma coisa pra ser vista do lado de fora. -Por que vocês simplesmente não falaram pra ele o que aconteceu? -Há! – Sick Boy bufou. – Tu acha mesmo que ele ia dar a mínima pra isso? Tu não conhece esses caras, Luc. Eles não tão nem aí pra gente. Eles só querem o dinheiro deles e foda-se se alguém morrer por causa disso. – Ele balançou a cabeça.
Pensei e repensei a situação do moleque que tava preso com eles, a gente tem que fazer alguma coisa. -Então a gente vai pegar o moleque, ou não? – Me virei pra eles. -Lógico que vamo! – Sick Boy se arrumou no banco de trás e eu arranquei com o carro. Virei no meio do mato à esquerda, como Sick tinha dito. E ao longe se via um carro parado, com o farol acesso, e alguns caras na frente do carro. -Agora tu pode parar o carro e ligar as luzes. Mas ó... Fica ligado. Eu vou deixar as portas abertas aqui atrás, mas se algum de nós ficar pra trás... Ficou. Tu só corre. Tá ligado? – Marco me falou, e eu assenti, sem tirar as mãos do volante. – Ok. Pode ligar o farol. – Liguei o farol e eles saíram do carro. De perto, era mais fácil de enxergar o carro, bem melhor que o nosso, meio de lado, com as lanternas ligadas, e uns moleques, que deviam ter minha idade na frente do carro. O que eu acho que devia tar no comando, estava bem na frente, com os braços cruzados, e os olhos meio apertados, por causa do farol do nosso carro. Os outros estavam cada um numa porta. Eles estavam em cinco. Meus dedos em volta do volante chegavam a doer, por causa da força que eu fazia, acho que nunca fiquei tão nervoso na minha vida. E não era nem por causa do perigo, agora eu tava preocupado com o guri que tava na mão daqueles caras. Queria saber o que eles estavam falando, mas eles conversavam baixo, e provavelmente em italiano. Tudo o que eu tinha pra me basear, eram os gestos que eles faziam, e no momento eu dei graças a Deus que eles eram italianos. Muitos e muitos gestos. Marco abriu a maleta, e o cara se aproximou, mas Sick Boy entrou na frente e fez um gesto com as mãos. O cara que estava no comando levantou a mão esquerda e fez um outro gesto, com dois dedos, sem tirar os olhos de Sick. Um cara magro, e sujo, com as mãos amarradas e com um saco bege na cabeça foi trazido. Os caras jogaram ele no chão, de joelhos, e tiraram o saco da cabeça dele. Ele piscou muitas vezes, provavelmente por causa da claridade. Ele tinha o rosto roxo e muitos cortes na área da boca, estava até meio inchada. Marco entregou a maleta para Sick Boy, que continuou segurando, enquanto conversava alguma coisa com o “chefe”. Marco abaixou e pegou o moleque pelo braço, o trazendo pro carro e o colocou sentado no banco de trás. -Fica esperto, Luc. – Marco me deixou avisado, antes de tirar a cabeça de dentro do carro e ficar parado entre os faróis, de braços cruzados. Sick Boy ainda estava conversando com o cara, mas agora parecia que o cara estava mais nervoso do que antes. Sick Boy mostrava a mala, e fazia vários gestos com as mãos. De repente, ele fechou a maleta e deu um passo pra frente. Acho que ele ia entregar a maleta pro cara e a gente ia, finalmente, embora dormir. To cansado pra caralho. Tirei minhas mãos do volante e estiquei os braços. Eu tinha ficado tanto tempo na mesma posição que eu já tava começando a ficar com câimbra. Mas o Sick Boy não saiu do lugar, nem deu a maleta pro cara, ele deu um passo pra trás. O cara começou a falar mais alto. O Sick Boy começou a falar mais alto. -VAMO, SICK. – Marco gritou, e pude ver os dedos dele batendo na parte de trás do braço cruzado. Sick Boy olhou pra ele. Olhou pro cara. Começou a rir, muito. E muito alto. Ele enticou o braço pra entregar a maleta pro cara. O cara esticou o braço pra pegar a maleta da mão do Sick. -CORRE, LUC, CORRE, CORRE! – Sick Boy gritou, e eu grudei minhas mãos no volante. Os caras pararam e se entreolharam, enquanto isso o Sick Boy saiu correndo em direção ao carro, e eu já tinha dado a partida e andado com o carro de ré. Ele falou em francês, então, logico que o Marco não tinha entendido porra nenhuma. -MARCO! ENTRA NO CARRO! – Não demorou mais de dois segundos pro Marco correr até a porta de trás e entrar no carro, fechando a porta atrás dele. A outra porta ficou aberta, pro Sick conseguir entrar. Eu tentei ir o mais rápido que eu pude, mas ainda pensando na possibilidade do Sick conseguir entrar dentro do carro. -VAI MAIS RÁPIDO, FRANCES! – Marco gritou do meu lado, segurando o menino do lado dele, pra ele não escorregar pela porta do carro. -SICK BOY, VEM LOGO, CARALHO! – Sick vinha rindo, morrendo de rir, e corria abraçado com a maleta, ainda por cima. As pernas compridas corriam e corriam, mas parecia que ele nunca ia chegar. Atrás dele, eu vi o cara sacar uma arma, eu abri tanto os olhos que até doeu. – ARMÈ, SICK BOY! ABAIXA, O CARA TA COM UMA ARMA! Sick Boy correu um pouco pro lado, no momento exato que o cara disparou e a bala atravessou nosso vidro e furou o estofado do banco da frente. Eu olhei aquilo. Olhei pro Marco. O Marco olhou pra mim. Olhei pro menino que ainda tava de olhos fechados, com uma cara de dor do caralho. Olhei pro Sick Boy, que tava pulando na frente do nosso carro e conseguiu entrar, antes do cara disparar mais uma vez e não pegar nem um pouquinho no filho da puta. -CARALHO, SICK BOY, TU TEM MERDA NA CABEÇA?! – Eu gritei, virando o carro por cima de uma grama alta mesmo, e a porta que o Sick não tinha fechado, fechou sozinha. -HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA – A risada histérica de Sick Boy doeu dentro do meu ouvido. A gente tava correndo muito rápido, e os caras ainda tavam à pé, atrás da gente, com a arma. Quando eles viram que eu virei o carro voltaram correndo pro carro, e eu dei fiquei feliz de ter corrido um pouco de ré, já que estava meio longe e aparentemente o cara que tava com a chave era o mesmo cara que tava com a arma, o “chefe”, porque os caras lá atrás tavam chamando ele pra voltar. Até eu tive que rir, depois disso. Com certeza era uma risada nervosa, porque eu já não tinha mais o que pensar daquela situação. Parecia a porra de um filme. -TU SEI PAZZO, STRONZO?! (tu é retardado, seu merda?) – Marco deu um tapa tão forte na cabeça dele que deu pra ouvir o barulho, mas logo ele estava rindo também. -Aí, Marco, depois tu me bate, vamo pra perto do trem, por favor? – Ele falou em tom de voz normal, agora, já que devia tar doendo pra caralho aquela batida. -Quê?! Pra quê?! – Marco ainda teve coragem de perguntar. Depois do que aquele moleque tinha feito, eu já não queria mais saber era de nada. -Faz parte do meu plano. – Ele deu uma piscadinha. – Luc, entra no mato aí, mano, daqui a pouco os caras encostam a gente! – Fiz o que ele mandou e entrei no meio do mato. -Ah, tu tem um plano? – Marco perguntou, irônico. -Lógico que eu tenho! Cê acha que eu sou amador, Marquinho? – Ele bagunçou o cabelo comprido de Marco. -Vai te foder. – Respondeu. – Aí, eu acho que virando ali em cima, da pra pegar o trilho do trem. É isso que tu quer? – Ele perguntou pro Sick. -Lógico que é. Tu acha que a gente vai conseguir entrar com 20kgs de cocaína de boa dentro dum trem? – Nos entreolhamos. Ouvi um barulho de carro atrás de mim, e vi no retrovisor um farol se aproximando ao longe. Saí numa rua de paralelepípedo que dava numa ruela e virei o carro na primeira esquina que eu encontrei. A rua estava completamente vazia. Os caras entraram na mesma rua que a gente, então eu virei em outra, justamente antes de ouvir mais um disparo. -Caralho, eu não sabia que essas crianças tinham arma, velho. – Sick Boy comentou. -A família deles SÓ é da Máfia... SÓ. – Marco bufou, balançando a cabeça negativamente. -Puta merda. Sério isso? – Perguntei, pensando lá em Paris. -Sim. – Marco falou, serio. – O Sick Boy é o cara mais imbecil que tu vai conhecer na ta vida. É um puta dum retardado mental! – Ele falou, serio, mas sorrindo, ao mesmo tempo. -Cala boca, Marco, tu tava com saudade de fazer isso que eu sei. – Olhei pra eles do retrovisor e já virei em outra rua. Outro disparo. Caralho, saudade disso? Não tenho nem mais mão pra segurar o volante. Por isso que eles gostam, não é eles que tão a 100km/hr, torcendo pra não bater a porra do carro! Bufei sozinho. -Larga o carro aí, francês! – O Sick Boy falou, apontando pra uma colina perto do trilho do trem. Os caras tavam meio longe da gente, mas mesmo assim eu tentei correr o máximo que eu consegui, os caras tavam armados, né... Subi a colina e dei uma brecada. -Caralho, francês. Tu ta com pressa? – Sick Boy perguntou. -Tu é um imbecil. -HAHAHAHAHAHAHAHAH. Relaxa, caralho. – Ele abriu a porta e saiu. Eu e o Marco fizemos o mesmo. – Ô, eu vou pular primeiro... O trem ta vindo... Depois cês pulam com o Pepe. – Então esse era o nome do moleque. Marco assentiu. Pegamos o Pepe e o colocamos de pé, mas o menino só sabia gemer. Coitado. Deve ter passado por muita coisa esse mês... Como que o Sick Boy pode ser tão irresponsável? Puta merda. Passei um braço dele por cima do meu ombro, e o Marco fez o mesmo. O trem ainda tava muito longe, e os caras tavam muito perto. Meu coração começou a acelerar, de novo, a gente não ia conseguir, e ia morrer aqui mesmo, além dos caras conseguirem a droga, eles iam mandar todo mundo atrás de todo mundo que o Sick conhecia e isso implicava a Lucy, o Pierre, minha mãe... Caralho, viu. O trem começou a passar por nós, e eu quase caí com o vento absurdo, por causa da velocidade. -Aí ô! Vou pular daqui a pouco, cês tão bem? – Sick Boy perguntou, sem tirar os olhos do trem, não respondemos. O farol do carro dos caras já tava no nosso rosto. Sick Boy começou a correr atrás de uma das entradas que separava um vagão do outro, e nós corremos atrás dele, com uma puta dificuldade por causa do menino. Ele pulou em um dos vagões e sumiu por um tempo, e a gente tava tentando acompanhar o trem. Sick Boy apareceu e estendeu as duas mãos. Ainda correndo, levantamos o moleque e Sick Boy puxou ele pra dentro. -Vai tu primeiro, Luc. – Marco disse, correndo do meu lado, eu assenti. Corri mais um pouco e pulei pra dentro, com muita facilidade. É, pular o muro da escola por todos esses anos tinha que servir pra alguma coisa, né? Olhei pra fora. Marco ainda tava correndo. Nosso carro tava largado muito pra trás e os caras tavam saindo do carro deles, o cara do volante, ainda com a arma na mão. -VAI LOGO, MARCO!!!! – Ele correu por mais um tempinho e aí pulou, mas ele não entrou inteiro, ficou pendurado, segurando num ferro que tinha do lado, com as pernas pra fora, provavelmente correndo, ainda. O cara apontou a arma pra ele e disparou. Fechei os olhos, porque não queria ver a cena. -LUC, ME AJUDA PORRA, OS CARAS TÃO CHEGANDO! – Olhei pra ele, intacto. O cara atrás xingava a arma, enquanto arremessava pra trás e começou a correr muito mais rápido na direção de Marco. Agarrei os braços dele e puxei com toda minha força pra dentro, justo quando o cara conseguiu pular e segurar a mesma barra que Marco segurava, antes. Sick Boy passou por mim e deu um chute na cara do cara, que saiu rolando pela colina à baixo. Me joguei no chão, ofegante demais. Por alguns segundos só ouvíamos o trem correndo nos trilhos, e o vento forte contra nosso corpo. -Pfff... HAHAHAHAHAHAHAHA – Sick Boy começou com as risadas. Marco não aguentou, nem Pepe. Por mais puto que eu estivesse eu tive que rir também. -Tu é idiota, Sick. – Marco falou, com a mão na barriga, ainda respirando forte. – O que tu tava pensando??? – O tom dele agora era sério. -Tava pensando que não quero pagar 80 mil por causa de um bando de criança! – Sick levantou. – Tu tem essa grana? – Ele apontou pro Marco. -Não, velho. -Então, caralho. A gente ia se foder com os caras por causa desses babacas. – Ele jogou as mãos pra trás e sentou com as pernas pra fora do trem. -E tu demorou um mês pra pensar no jeito mais estúpido de conseguir fazer isso? – Perguntei, sem olhar pra ele. -Eu pensei na hora, velho. A gente já tinha combinado que ia dar a coca pros caras e ia resolver o resto depo- -EXATAMENTE. Tu já tinha resolvido isso. – Falei, e ele olhou pra mim. – Por que tu não seguiu o plano? Por que tu tem sempre que ser o mais espertinho? -Porque, meu, eu vi a chance e tentei fazer. Caralho, Luc, ta todo mundo bem, não ta? – Ele olhou pra fora de novo. – Então não enche a porra do meu saco. -O teu problema, Sick Boy, é que tu só pensa em você, o tempo inteiro. Em se dar bem, em querer ser o mais falado, em dar as melhores festas. Aí tu esquece que não ta lidando só com a sua vida, aqui. Agora esses caras vão querer ir atrás de tu. De mim. Do Marco. Do Pepe. -Ninguém sabe nada da minha vida. Tu ta falando merda, francês. -Ah é? Tu acha que não é rápido eles saberem que tu ta na França, que tu ta na MINHA casa, perto dos MEUS amigos, perto da MINH mãe? – Apontei pro meu peito. -Já falei que tu é muito pessimista. Isso não vai acontecer. Para de viajar. – Ele ficou quieto. Minha cabeça tava explodindo, meu rosto ardia, só de pensar na minha mãe lá na França, eu só queria ir pra lá, agora, acabar logo com isso, e nunca mais ter que olhar pra cara do Sick Boy, de novo. – Alias, a gente não vai voltar pra França. -O QUÊ? TU TA MALUCO? – Ri com ironia. -A gente não pode, Luc. Como tu é cabaço. Se a gente for pra França, agora, é lógico que os caras vão seguir a gente. Balancei a cabeça. Aquilo não fazia o menor sentido. -Eu posso mandar uma passagem pra tua mãe, se é esse o problema, ela sai de lá e aí tu explica a porra toda. -Cala boca. – Virei de lado. – Então manda passagem pra Lucy, pro Pierre, pra minha tia, também. Não é só minha mãe que me importa. -Aí já é demais. -Então não tenta ser o bom moço, de novo, e tentar consertar as coisas, porque não vai funcionar, não dessa vez. Não é só porque tu não te preocupa com ninguém que todo mundo é assim. – Soltei o ar.
Ninguém disse nada por um tempo, até Pepe começar a tossir. -Tu ta bem, Pepito? – Sick Boy saiu da posição que ele tava e foi direto pro lado do Pepe, que balançou a cabeça positivamente. -Tu não tem água aí, né? – A voz do menino era de menino mesmo, ele não devia ter mais que 17 anos. Sick boy levantou, olhou em volta. Deu a volta no próprio corpo, e olhou de novo. -Peraí, eu consigo pra ti. – Disse isso e saiu pela porta do lado direito. Balancei a cabeça negativamente. -Como se já não bastasse o que fez, vai fazer a gente ser expulso do trem. Com 20kgs de coca na mão. – Falei pra mim mesmo e ri baixinho. -Da um tempo pra ele. – Pepe se dirigiu a mim. – Ele é um cara bom, apesar de fazer umas merdas, ele ta sempre pensando em todo mundo. – Ele estava de olhos fechados, e falava com dificuldade. Tenho certeza que ele vai arranjar um jeito de proteger esse pessoal que tu tava falando. Ele só pensa muito rápido. Rápido demais, as vezes. – Deu um sorriso apagado, olhei pra baixo. Talvez ele tivesse razão. Mas mesmo assim. -Tu ta bem, cara? – Me sentei do lado dele. Analisando o rosto do menino. Tinha jeito de criança, ainda, mas o rosto estava roxo, e com alguns cortes. A orelha dele sangrava. Ele abriu os olhos devagar, os olhos castanhos, quase da mesma cor dos cabelos enrolados. Ele subiu a camisa. – Acho que minha costela ta quebrada. – Olhei pra costela dele, lugar de onde ele não tirava a mão desde que os caras soltaram as mãos dele. Tava inchado e roxo, quase preto. -Puts. – Tirei a blusa que tava amarrada na minha cintura e desencostei ele da parede. Passei a blusa por trás do corpo dele, e pela frente de novo. – Segura um pouquinho. – Ele prendeu a respiração. Eu amarrei o mais forte que consegui, com cuidado para não machuca-lo e passei as mangas por dentro do que já tava preso. – Aqui... Acho que da pra segurar até a gente chegar onde quer que a gente esteja indo. Ele deu um sorriso e abaixou a blusa que devia ser branca, mas que estava toda suja de terra e sangue. Retribui o sorriso. Sick Boy entrou pela porta com uma garrafa d’água nas mãos. -Aqui Pepito. – Ele abaixou do lado dele e deu a água na boca do menino. – Trouxe isso aqui também. Tu deve tar morrendo de fome, né? – Sentou do lado dele e tirou algumas barrinhas de cereal do bolso. -Onde tu achou isso? – Marco perguntou e eu dei um pulo. Jurava que ele tava dormindo. Cara sinistro. -Peguei com uma senhorinha aqui do lado. Nessa cabine. – Ele apontou pra dentro do vagão. – Ela tava no corredor, ela puxou assunto, aí falei que tinha um amigo passando mal, e tava indo pegar água pra ele. Aí ela disse pra salvar o trabalho de ir até o vagão restaurante, porque ela tinha algumas coisas com ela, aí ela me deu isso aqui. – Ele tirou todas as barrinhas de dentro do bolso e mostrou pra ele. Marco riu e balançou a cabeça, assentindo. -Pra onde a gente ta indo, Sick? – Sick desviou o olhar de Pepe e olhou pra Marco. -Ah. Tu lembra da Ade? – Ele jogou e Marco fez uma careta, mas olho depois arregalou os olhos. -A Ade... Ade... Ade? – Sick Boy riu e balançou a cabeça. -Ela mesma. – Marco desaprovou, rindo. -Tu é louco, mesmo. Ela nunca vai te deixar entrar na casa dela, Sick. – Ele riu. -Na hora do desespero, todo mundo vira amigo. – Ele olhou pra baixo. -Então a gente ta indo pra Genova? – Marco perguntou, desenhando um mapa no ar. -Sim, porque fica mais fácil de sair daqui da Itália, de lá. – Marco balançou a cabeça. Ele tinha mesmo pensado em tudo. -Certo... Todo mundo ficou quieto por um tempo, e logo Pepe estava dormindo encostado em Marco, e Marco estava dormindo encostado na “parede”. Acendi um cigarro e fiquei olhando o trem se mexer. -Aí, Luc. – Levei um susto quando Sick Boy se sentou do meu lado. – Tu tem um cigarro pra me emprestar? – Ele olhava pra baixo. Mesmo puto com ele, as coisas que Pepe disse ainda estavam na minha cabeça. Eu não ia conseguir ficar puto por muito mais tempo. Tirei o maço do bolso da calça e dei pra ele com o isqueiro. – Valeu. – Fumamos sem nos falar por um tempo, até que ele resolveu puxar assunto. – Aí. Tu ta certo sobre mim. Eu não penso muito nos outros, não, mas eu tento sempre consertar as merdas que eu faço, até porque já é conserto de outra merda que eu fiz antes. Minha vida é assim. Por isso que minha família não me aceita mais. Eles não entendem. – Ele desabafou, soltando a fumaça pra fora do trem. -Ta tranquilo. Eu só fiquei estourado porque, tu sabe, não posso perder minha mãe, também. – Olhei pra baixo. Não ia entrar no mérito “Família” porque sabia que esse era o máximo que ele falaria pra mim, pelo menos nesse momento. -Sim, eu sei... Fui egoísta. Me desculpa. Eu já nem lembro como é ter mãe, mas eu entendo teu ponto de vista. – Ele ainda olhava pra frente. -Ralaxa, Sick. – Botei a mão nas costas dele e ele deu um sorriso meio apagado. Foi a primeira vez que vi o Sick Boy chorar. Acordei com um puta sol na minha cara e alguém mexendo no meu pé. Abri os olhos devagar e vi que um cara meio forte tentava abrir a porta. Tirei o pé da frente, e arregalei os olhos, porque o cara começou a chamar alguém lá de dentro. -Sick Boy. – Falei chacoalhando os pés dele. – Sick Boy... – Chacoalhei de novo. – Acorda, caralho! – Chamei, chutando a perna dele. Que acordou me xingando. Apontei pro cara, nos olhando com uma puta cara séria e ele levantou num pulo, segurando a maleta contra o corpo. -Acorda aí! – Sick chamou Marco, que abriu os olhos meio devagar, e Pepe que ainda estava com a mão na costela quebrada. – Vamo sair daqui a-go-ra. – Ele falou abrindo a porta pro vagão seguinte e segurando pra gente passar. Eu e Marco segurávamos Pepe do mesmo jeito que antes, um braço nos meus ombros, o outro nos ombros de Marco. Olhei pra trás e um guardinha com uniforme vinha andando rápido na nossa direção. -Sick, acho melhor a gente começar a correr. – Ele olhou pra trás, e não deu outra. Saiu correndo. Fomos atrás dele. No corredor haviam algumas pessoas já de pé, que davam passagem quando nós viam correndo, mas resmungando. Outras espantadas, por causa de Pepe, presumi. Ou por causa da nossa cara de nóia, mesmo. Passamos um vagão, e a cada vagão que passava, um guardinha a mais vinha correndo atrás da gente. Estávamos no meio de um dos vagões quando Sick Boy parou. -Volta, volta, volta. – Três guardinhas viam na nossa direção, pela frente, segurando um radinho na mão, o da frente gritou alguma coisa, provavelmente pra gente parar. Saímos correndo na direção oposta e acabamos numa das passagens entre vagões, de novo. – A gente vai ter que pular. – Sick Boy falou, olhando pro chão, ainda de dentro do vagão. – Vou jogar a maleta, e vocês pulam. Eu pulo depois. – Ele não esperou a gente responder, só jogou a porra da maleta pra fora e deu cobertura pro Marco pular. Marco pulou e caiu rolando no chão. Pepe pulou também, e Marco segurou o menino no colo. Eu ia pular, quando um dos guardinhas chegou perto demais e segurou as mãos de Sick Boy pra trás. -OI! Solta ele, cara. – Não pensei duas vezes antes de dar um soco na boca do guarda. Outros dois estavam chegando, então Sick Boy segurou a porta fechada, enquanto eu tentava empurrar o cara pra dentro do outro vagão, e dar tempo pra gente pular, mas o cara me deu um soco na boca do estomago e eu meti meu joelho na cara dele. -Porra, Luc. – Sick Boy resmungou, segurando a porta, mas com dificuldade, porque os caras tavam tentando abrir a porta, do outro lado. O guarda segurou meus braços e eu tentei me soltar, mas sem sucesso. -Pula logo, Sick! – Disse, empurrando o guarda contra a parede. Os caras ainda estavam lá em baixo, mas só Marco acompanhava o trem. -Nem fodendo. – Ele largou a porta e empurrou o guarda que tava me segurando com um chute pra trás. Me pegou pelo braço e pulamos pra fora do trem. Só vimos o trem se distanciar e os guardas xingarem a gente. Tinham pelo menos uns cinco só naquele encaixe que a gente estava. Caímos no chão, um em cima do outro. Sick Boy caiu em cima de mim, e eu acabei sem ar. Marco veio nos ajudar a levantar, deu a mão pro Sick Boy, que se levantou e apoiou as mãos nos joelhos. Pepe vinha andando, mais devagar, com a mala nas mãos. Eu fiquei um pouco deitado no chão. -Bom... – Sick Boy levantou e olhou em volta. – Pelo menos estamos em Genova. – E deu aquela risada maníaca dele.
#Fanfic Amnesia - Justin Timberlake
Justin
Pegamos o avião e doze horas depois estávamos em Londres. Pegamos um táxi até o endereço que Meg tinha me dado. Eu esperava que estivesse certo, já que não conseguia entender muito bem o que ela dizia entre o choro. O carro parou em frente a uma casa bonita e grande no centro da cidade. Natalie e eu batemos várias vezes na porta, mas ninguém veio abrir.
Coloquei a mão na maçaneta e estava destrancada. Entramos. Os móveis eram bem bonitos, o lugar era espaçoso e um cheiro de vela reacendia pelo lugar.
- Megan?- chamei baixo. Nada.
Fomos entrando até a sala e a cena fez meu coração doer. Meg estava sentada no chão, pernas cruzadas, braços apoiados nos joelhos e cabeça baixa. Olhei pra Natalie que estava chorando. Só então reparei que havia várias velas pelo lugar, quase todas já apagadas. Me aproximei, mas ela parecia não notar. Me sentei no chão ao seu lado e coloquei uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.
- Oi meu amor- sussurrei.
Ela levantou a cabeça devagar e seus olhos encontraram os meus. Não tinha brilho neles, apenas excesso de dor e cansaço. Megan estava desolada... Puxei-a pra perto de mim e a aninhei em meu colo, abraçando-a.
- Eles já foram... – me diz- Não consegui ir até lá...
Seu choro era de remorso agora e partia meu coração vê-la assim e não poder fazer nada pra amenizar a dor dela.
- Cadê a Lauren?- perguntei.
- Fiquei sozinha esse tempo todo. Algumas pessoas vieram, mas não ficaram muito... - sua voz era quase inaudível.
- Vim o mais rápido que pude- argumentei- Natalie também veio!
Ela se aproximou também e deu um abraço em Meg, as duas ficaram assim por um bom tempo.
- Obrigada por virem- tenta esboçar um sorriso.
- Ficamos preocupados com você- Nat limpa uma de suas lágrimas.
- Eu não ia pedir que viessem, me desculpem, eu sei que vocês e eu tínhamos compromissos a cumprir, mas não consigo passar por isso sozinha, me perdoem...
- Meg, sou sua amiga, não sou?! Não há nada do que se desculpar, estou aqui pra você!
- Já os levaram?- perguntei.
- Hoje de manhã. Eu deveria estar lá, só que não queria ir sozinha. Pedi pra que esperassem o máximo possível, mas por volta das 19h eles terão que... Terão que se desfazer deles.
- E seus parentes? Sua amiga, ninguém?- Nat estava inconformada.
- Meus avós e tios do Marrocos vieram, meus vizinhos também e Lauren...- ela se calou.
- Onde ela está?- insisti.
Meg respirou fundo antes de começar, reunindo todas as forças que lhe restavam.
- Assim que cheguei, fui até a casa dela, íamos vir pra cá. Paul, o namorado dela estava em casa, ela tinha acabado de sair. Lauren chegou quando ele tentava me beijar...
- Tentava o que?- me sobressaltei.
- Tentava me beijar a força, me agarrando...
Coloquei as mãos sobre a cabeça e me controlei pra não pedir o endereço e ir até lá.
- E aí, o que houve?- Nat quis saber.
- Lauren não acreditou em mim quando ele disse que estava dando em cima dele. Ela viu ele me beijando e acho que foi mais fácil escolher ele do que eu. Não vou ficar muito tempo e eles vão se casar, então...
- E você ficou aqui, sozinha?- passei as mãos pelo seu rosto. Meg assentiu.
- Lauren não quer me ver. Nunca mais!
Eu não podia acreditar que uma amizade que durou a vida toda pudesse acabar tão de repente. A ajudei a se levantar do chão e nos sentamos no sofá. Meg parecia estar mais calma agora.
- Gostaria de ir até o cemitério antes de enterrá-los- me pede.
- Vamos com você aonde for preciso- beijei sua mão.
Pegamos outro táxi e fomos até o cemitério. Era quase noite já e o Sol estava se pondo. Caminhamos por bastante tempo entre as árvores que balançavam com o vento frio. Tirei meu casaco e o coloquei em Meg.
A segurei forte quando ela deu um grito de dor, assim que enterraram seus pais. Ela chorava, se jogando no chão, prestes a ser enterrada junto com eles se pudesse. A peguei no colo e segurei seu rosto contra meu peito.
- Não tenho ninguém agora, estou sozinha...
- Você tem a mim e nunca vou te deixar- beijei seu rosto.
Era um momento muito triste e nem eu e nem Natalie podíamos sequer imaginar o tamanho de sua dor. Nat chorava muito e isso era algo que ela raramente fazia. Ficamos por um tempo ali, olhando, esperando sabe-se lá por que ou por quem. Não queria apressá-la, Meg devia ter esse momento, era algo que ela precisava.
Meia hora depois, estávamos saindo quando ela parou, assustada. Um casal vinha até onde estávamos e pela expressão dela, julguei se Lauren e o tal Paul. Como ele tinha coragem de aparecer aqui? Continuamos e eles passaram por nós. Paramos os cinco, bem de frente.
- Melhor irmos embora, a ralé acabou de chegar- Natalie provocou.
- É comigo?- Lauren não entendeu ou fingiu não entender.
- É claro que é com você, com que mais seria?
- Nat, por favor- Meg pediu.
- Minha vontade é de dar uns tapas nessa sua cara, sabia?- ela continuou- Como é que você tem a coragem de trocar uma amizade e alguém maravilhosa e especial com a Meg por esse cretino?
- Talvez ela apronte com você também, não seria a primeira vez- Lauren respondeu.
- Pessoas idiotas me dão pena. Agora mesmo seu querido noivo está olhando pros meus seios, me comendo com os olhos e você não é capaz de enxergar- gargalhou.
- Isso é o que você queria, mas não- ela respondeu.
- Vem querida, vamos embora. Não temos tempo a perder- Paul a puxou.
- Não quero vocês lá- Meg virou-se pra eles- Não quero vocês perto deles!
- Está dizendo que não posso ir até lá e me despedir?- Lauren rebateu- Conheço seus pais desde sempre, você não pode fazer isso...
- Não somos mais amigas, Lauren. Não há nenhuma obrigação da qual você deva cumprir!
- Melhor esquecermos isso- Paul se pronunciou- Também não quero você perto de mulheres como ela, é bom mesmo que isso termine por aqui.
- Mulheres como ela?- fechei meus punhos, prestes a socar a cara dele.
- Me admira muito que você Justin, um homem casado, tenha a coragem de se relacionar com alguém que dá em cima do noivo da própria amiga- ele se faz de correto- Megan é assim, não se contenta com um, quer sempre mais...
Em um segundo e minha mão acertava em cheio seu rosto, o derrubando no chão depois do soco bem dado! Nat e Meg gritaram, assustadas com a situação.
- Ela não é assim- falei- Você mal a conhece! Talvez se não tivesse desperdiçado seu tempo tentando arrumar um jeito de seduzi-la e levá-la pra cama, tivesse reparado em quem ela realmente é. Eu posso dizer que a conheço e que você jamais colocará as mãos nela de novo porque ela é minha!
- Vamos embora- Natalie me puxou pelo braço.
- É uma pena você pensar assim dela Lauren- continuei- Acreditar mais em um cara como ele do que em alguém que era como sua irmã. Mas Meg tem a Natalie agora e não vai mais precisar de você. Esperamos que seja realmente feliz ao lado dele!
Enlacei meus braços ao redor de Meg e saímos. Paul se levantou e sua boca estava cheia de sangue. Tão covarde que nem ousou revidar... Caminhamos de volta e passamos pela igreja logo na entrada do cemitério.
- Posso entrar e rezar um pouco?- me pede docemente.
Entramos os três, nos ajoelhamos e fiz algo que não fazia há muito tempo. Rezei. Pedi que Deus desse forças a ela e que me ajudasse a ser alguém que pudesse fazer tudo por ela! Saímos logo em seguida e voltamos pra casa dela.
Colocamos as malas no andar de cima, nosso voo sairia pela manhã. Insisti pra que fôssemos pra um hotel, mas Meg me pediu pra passar a noite, uma última noite na casa em que viveu por tanto tempo e que era cheia de lembranças. Concordei de imediato.
Natalie a ajudou a embalar algumas coisas que seriam enviadas a Los Angeles depois, sob os cuidados do senhor e senhora Thredson, os vizinhos amáveis do lado, os quais acabei conhecendo quando eles vieram se despedir dela a noite!
Estávamos colocando as fotos de família em algumas caixas quando Nat entrou trazendo Burger King: lanche, fritas e refrigerante.
- Vou me instalar no quarto vago. Acho que você precisa mais dele do que de mim- ela fez bico- Trouxe comida- colocou as sacolas em cima da mesa- Me chamem se precisarem de alguma coisa. Boa noite, Meg- deu um beijo nela.
Comemos, mas ela mal tocou na comida, dando pequenos goles no refrigerante.
- Vou vender a casa- fala me olhando, como que pedindo minha opinião.
- Tem certeza de que quer fazer isso? Se desfazer dela? Você pode aluga-la, trancá-la e vir pra cá quando quiser.
- Os Thredson querem compra-la pra filha mais nova, a Molly. Pra que ela possa cuidar deles, já que eles serão vizinhos. Meus pais teriam gostado disso e posso comprar um apartamento em L.A. Não tenho intenção de voltar, não há nada que me prenda aqui!
Dormimos juntos aquela noite, Meg agarrada em mim. Era estranho e bom estar no quarto dela, olhar pras suas coisas e descobrir sobre sua infância, como ela foi uma criança esperta e uma menina dedicada a tudo o que fazia.
- Obrigada por tudo!- ela me beija.
- Nunca ia te deixar sozinha em um momento assim!- a beijei de volta.
Ela precisava de mim, mais do que nunca e eu não podia desapontá-la, precisava arrumar um modo de ficar com ela, de me separar o quanto antes...
- O que disse a ela?- pergunta- Pra Jessica?
- Não quero que se preocupe com isso. Estou aqui, não estou?- beijei sua testa.
Logo de manhã, pegamos o voo de volta pra Los Angeles (...)
Capitulo 20
Luan e eu nunca tivemos que esconder o que fazíamos. Ele mexia em meu celular, assim como eu também mexia no seu, porém cada um tinha o seu espaço, a sua independência, os seus segredos humanos...
Eu não teria lido a mensagem, porém o nome identificado no contato era de Amanda e meu impulso foi inevitável de não abrir e ler as poucas palavras - mas um tanto significativas - que ela escrevera. Dizia que estava com saudades e não esperava o momento de reencontra-lo. No momento meu coração já disparou e ao mesmo tempo se dissipou. Respirei fundo para controlar o choro, a raiva ou qualquer reação que uma atitude dessas pudesse me causar.
Eu ainda olhava o visor do celular quando senti o sofá balançar e notar Luan sentado ao meu lado. Ele olhava a televisão, sem perceber qualquer indício de nada. Eu o encarei, joguei o celular levemente em seu colo e lhe disse:
-- Chegou uma nova mensagem.
Ele pegou o celular, sem dizer uma palavra e olhando no visor leu as palavras. Me afastei de seu corpo, ficando no lado oposto do sofá, escorando os cotovelos em meu joelho e lhe perguntei, olhando em seus olhos:
-- Desde quando ela tem o seu número?
Luan me olhou, aflito e desconcertado. Ele demorou um pouco mais que o normal para me responder e olhando em meu rosto, tentando se aproximar, respondeu:
-- Ela... Ela tem desde que namorávamos. - ele gaguejou e me respondeu. Tentou se aproximar, mas eu o afastei com a mão, dando sinal que mante-se distância.
-- Há quase oito anos você tem o mesmo número? Desde quando nos casamos você recebe e responde as mensagens dela? Por quanto tempo você não muda o número do seu celular? - eu começava a me exaltar, falando um pouco mais alto. Ele estava em silêncio. - Você não fica mais que seis meses com um mesmo número Luan! Para de mentir! - gritei. Ele me olhava. - Há quanto tempo ela tem o seu número? - perguntei, o encarando.
-- Amor... - ele começou.
-- Luan me responde, por favor. - o interrompi. - Há quanto tempo ela tem o seu número? - perguntei novamente.
-- Desde o show de domingo. - ele respondeu finalmente, falando em um tom baixo.
-- O show de domingo... - me levantei, andando de um lado pro outro da sala. Passei a mão por meus cabelos e o encarei novamente. - O show depois do aniversário da sua irmã? O show depois que brigamos, que você não me ligou? - eu o perguntava. Ele me olhava. - O mesmo show que eu esperei horas pela sua ligação, que eu fiquei preocupada, que eu esperei que você chegasse em casa!
Luan não respondeu. Ele não falou nada. Apenas abaixou a cabeça, enquanto eu ficava ainda, andando de um lado para o outro. Parei e o olhei novamente.
-- Você estava com ela Luan? - perguntei, engasgada por dentro, porém minhas palavras soaram firmes.
Ele não me respondeu outra vez. Voltei a lhe perguntar e desta vez ele me encarou, dizendo por fim:
-- Estava. - eu olhei para cima, tentando engolir o choro que já se formava. - Mas eu posso te explicar amor. Não aconteceu nada! Eu juro! Eu fiz o show e ela apareceu no camarim de novo. - voltei a lhe olhar, sem chorar. - Mas o tempo inteiro tinha alguém comigo. Ou o Marcio, ou o Rober, ou o Well. A gente não ficou sozinho e não aconteceu nada. Nada!
Eu me sentei no sofá novamente. Abaixando a cabeça e passando a mão pelos cabelos. Eu o olhei e perguntei, exasperada:
-- Não aconteceu nada? - eu sorri irônica. - Você acha mesmo que eu acredito nisso?
-- Amor, não aconteceu nada! Acredita em mim! - ele pedia, cravando seus olhos escuros de tensão nos meus.
-- Como você me explica a mensagem no celular? Como você me explica ela estar em quase todos os teus shows? - eu o perguntei, encarando-o. Mas agora eu estava engasgada, agoniada, sentida.
-- Olha. - ele respirou fundo e se sentou ao meu lado, sem me tocar. - Ela apareceu no show, entrou no camarim e a gente conversou normalmente. Depois ela me pediu o número do meu celular e eu troquei com ela. - ele fez uma pausa, enquanto eu descobria tudo também através de seus olhos. - Depois Rober e eu ficamos no camarote pra ver o show seguinte e ela ficou junto. Estava eu e quase a equipe inteira. Ela ficou lá, mas você pode perguntar pra todo mundo, pode olhar meu celular e tudo o mais, mas eu não fiquei com ela! - ele suplicava em suas palavras. - Confia em mim! - ele suspirou, continuando logo depois. - Eu esqueci de te ligar porque acabei ficando até de madrugada por lá. E quando lembrei já era bem tarde e eu pensei que você estaria dormindo, então mandei a mensagem. - ele explicou.
Eu o olhei, desta vez com os olhos lacrimejados. Comecei a falar, com a voz entrecortada:
-- Você acha... Você acha mesmo que é tão natural, tão simples, tão comum eu te ver com outras mulheres? Te ver rodeada de mulheres mais bonitas, de mulheres que te querem e até mesmo da sua ex? A ex que você teve um caso sério e que nos conhecemos logo depois. A ex que vai em seus shows, entra em seu camarim e ainda joga indiretas, inclusive nas mensagens do seu celular, pedindo para se reencontrarem? - eu respirei, falando cada vez mais baixo. - Você acha que eu não me sinto insegura? Você acha que eu não penso que você pode se cansar, pode encontrar outra pessoa ou querer voltar para ela? Sabe, é difícil ser sua esposa, sua mulher e a mãe de seus filhos. É complicado cuidar da casa, trabalhar, brincar com as crianças e ainda te amar. Não que seja um sacrifício tudo isso, porém eu me sinto cobrada. Fico preocupada em oferecer o meu melhor, pois eu penso que qualquer deslize, qualquer errinho possa te fazer cansar. Desistir de tudo que construímos juntos e jogar as coisas para o alto. - eu fiz uma pausa.
-- Amor... - ele tocou meu braço, fazendo encara-lo nos olhos. Porém, o impedi de dizer qualquer coisa e continuei.
-- Eu tenho medo Luan. Tenho medo de passar pelas mesmas coisas que eu vi na minha infância. Tenho medo de brigar com você e ficar aquele clima estranho, como dois desconhecidos morando em uma mesma casa, ou ficando juntos por comodismo ou obrigação. Tenho medo de criar nossos filhos em um ambiente de brigas, onde nem os pais estão estabilizados. Tenho medo até de casamento, acredita? - eu ri, passando minha mão pelo nariz, com o rosto ensopado de lágrimas. - Tenho medo de casar e não durar para sempre, assim como eu já experimentei uma vez. Mas eu acredito que com você tudo é diferente. - eu o olhei nos olhos. - Eu confio em você, acredito nas suas palavras e te amo até mesmo muito mais que a mim mesma. Mas como fingir que eu não vejo? Como se esquecer desses problemas se eles persistem em estar por perto? - eu o encarei.
Ele enxugou minhas lágrimas com sua mão, delicadamente. Seus olhos estavam marejados e eu podia sentir o pulsar acelerado de seu coração, mesmo não estando encostada á seu corpo. Ele segurou em minhas mãos, as beijou, passou a mão em meu cabelo, soprou levemente meu rosto que já estava ardente e vermelho por conta do choro. Ele voltou a segurar minha mão, me passando controle, segurança, calma e paz.
Ele começou...
-- Você sabe que não precisa disso. E se não lhe digo isso todos os dias, saiba que eu vou falar agora e quero que você guarde isso pra sempre com você. - ele fez uma pausa. - Não há uma mínima chance ou possibilidade de não te querer, de te trocar, de não viver mais com você. Ao contrário do que muitos por aí podem pensar, ou até passar pela sua cabeça em tempos de crise, eu nunca te trai, nunca me imaginei com outra mulher nesse tempo que estou com você. Não tem como. Eu não consigo. - ele fez um carinho em minha mão. - E confia em mim. Confesso que te negar que a Amanda esteve no show e não te ligar para dar notícias foi extremamente errado, mas se tem algo de total e infinita importância em minha vida é você, nossos filhos, minha família e meus fãs. Você sabe disso. Eu não fiquei com você para esquecer a Amanda e muito menos construí uma família para destrui-la por uma mulher bonita ou que nem ao menos me conhece direito. Não tem como eu te trocar. E você faz muito mais do que deve. Cuida da casa, cuida dos filhos, trabalha, entende o meu trabalho e ainda é assim, toda meiga, toda inteligente, incrivelmente bonita por dentro e por fora. - Neste momento eu sorri, ele me acompanhou. - Não existe condição de me separar de você e muito menos de te trair. - ele finalizou. Me fazendo soltar mais lágrimas.
Eu o olhei. Respirei fundo, pesando os prós e contras da situação, pensando se realmente deveria acreditar naquele me transparecia verdade somente de se olhar nos olhos.
-- Luan eu... - me levantei do sofá, ele me acompanhou de supetão.
-- Confia em mim. Acredite nisso. - ele me fez o olhar.
-- Eu confio em você e estou acreditando no que você está falando, mas eu não quero que isso se repita de novo. - eu dizia tudo com uma calmaria súbita, com as lágrimas secas em meu rosto.
-- Não vai acontecer. Vou te contar, aliás eu sempre te conto, mas dessa vez eu pisei na bola. - ele admitiu.
-- Pisou feio, mas eu ainda te amo. - sorri de leve.
-- Me desculpa, porque eu também te amo. - ele dizia as palavras, intercalando-as com selinhos.
Ao final, acabamos nos resolvendo. Eu enxuguei minhas lágrimas e meus olhos provavelmente estariam inchados e vermelhos, mas eu não me importei. Deitei em seu colo e ele começou a fazer carinhos em meu cabelo. Eu me acalmei. E se me perguntassem o porquê que lhe desculpei, diria que o amor tudo sofre, mas tudo supera. Acima de tudo, o amor perdoa e o tamanho do amor é medido pela capacidade de perdoar.
Capítulo 20 - Penitência
"Eu faço o que você quiser." Aquelas não foram as palavras mais bem colocadas para esse momento. Sentia que Camila pediria mais do que eu posso dar. O sorriso sarcástico estava estampado em seu rosto. Cruzou os braços e depois estalou a língua no céu da boca algumas vezes.
- O que você pode me dar? Não ache que sou a Mellany que se contenta com qualquer merda como você.
- Não quero suas ofensas, apenas entenda o meu lado – falei.
- O que acha que quero? - fez uma sugestão. Pelo seu olhar malicioso, com aqueles grandes olhos, parecia me iria devorar. Eu queria sair daqui. Correndo se fosse possível. Camila me assustava! No seu modo de pensar, ela me via como um vilão, alguém que queira pegar a mocinha.
- Não faço a mínima ideia - fui mais firme em meu tom de voz.
- Se eu pedir para você foder comigo - descruzou os braços e olhou para minhas calças -, estaria disposto a isso?
-Eu não estou brincando, Camila!
-Eu estou! Não se engane comigo.
- Apenas quero a Mellany aqui - murmurei.
- Você seria a ultima pessoa com quem eu pensaria em trepar. Olha só para você, parece um doente mental que nem penteia os cabelos.
- E-eu não preciso das suas observações - gaguejei.
- Seu pai fode muito bem! - Riu irônica. - Mellany que o diga. Aquela vagabunda sentou no pau do Jeremy como se fosse a melhor coisa do mundo... E Realmente é!
- Está tentando me fazer desistir?
- Eu? Não! O Arizona fica a quase dois dias daqui, lembre-se de que ele é enorme, e para achar uma vagabunda como a Mellany, vai ser bem difícil.
- Me ajude a encontrá-la e não fique tentando me envenenar.
- O que você não sabe? Que a sua bela Mellany tinha um acordo com Jeremy? Que ele pediu para que tirasse sua virgindade? - Ela estava me deixando nervoso, sentia meu sangue ferver como água em um bule de chá.
- Chega! Eu não vou ficar ouvindo você falar esse tipo de coisa sobre ela.
- Verdades? Por que quer trazer aquela piranha de volta? Depois ela aparece como se nada tivesse acontecido.
- Pensei que você fosse uma pessoa melhor. Estou enganado, pessoas como você são piores que Judas. - Não dei oportunidade de Cams falar alguma coisa, virei as costas e sai da casa dela entre suas risadas e algumas provocações de baixo calão.
As pessoas nunca estão ao seu favor quando você precisa. Na verdade quando mais precisamos de ajuda, Deus nos dá as costas. Mas eu não posso cometer esse tipo de blasfêmia. É mais que um pecado se voltar contra Deus.
Entretanto, no memento eu tinha raiva. Raiva de tudo e de todos!
Chaz, Ryan, Xavier, nenhum deles poderiam me ajudar sem questionar meus conceitos. Apesar de tudo eu estou sozinho. Quando as coisas importantes da sua vida se vão, isso significa que estava dando mais valor ara elas do que para Deus. E Deus é egoísta! Eu novamente estou blasfemando, mas quem sou eu agora pra falar sobre blasfêmias? Pecados? E hereges?
Talvez tudo o que está ocorrendo na minha vida fosse um teste. O meu primeiro teste. E eu falhei.
Falhei como um tolo! Falhei caindo em tentação e me jogando nas garras da luxuria. E eu não nego. Não nego cada parte que cometi, cada desejo que senti e que sinto. E não nego tudo o que queria fazer agora.
Esse era o castigo divino pelo o qual sempre temi. O castigo divino que vai me fazer sofrer por pecar, mostrar-me o caminho certo. Mas qual é o caminho certo?
Estou suado, meus olhos doem e cada músculo do meu corpo se contrai. Um pedaço de mim foi tirado mais uma vez e aquele nó na garganta deixava minhas mãos trêmulas.
Qual é o caminho certo?
Ouvir Camila falar dela daquele jeito me dava raiva. E eu peco mais uma vez!
Eu peco todas as vezes possíveis quando se trata de Mellany. Peco todas as noites por pedir ela pra mim, mesmo sabendo que não posso ter. Peco me tocando, pensando nas mãos dela em meu corpo. Pensando em seus lábios. Lábios estes que faziam meu estomago revirar e meus batimentos cardíacos acelerar.
Deus, esse é o momento em que me ajoelho em seus pés e peço perdão por tudo o que fiz, por não honrar o teu nome. A única coisa que eu poderia fazer era pedir para Mellany voltar. Eu a quero. Eu estou disposto a ter as consequências divinas, o castigo. A única coisa que eu realmente quero, é o amor dessa mulher.
A rua estava silenciosa, estava perfeito. Iria pegar a mochila que ganhei de Jeremy e o pouco de dinheiro que tinha, e pegaria o primeiro ônibus que fosse pro Arizona, que iria me levar até ela.
Avistei dois carros, reconhecia eles muito bem. Era da "paróquia" o carro em que padre Simon circulava por toda cidade. E o outro era desconhecido. A porta da casa de Pattie estava aberta, o silêncio formado e nenhum choro, nada que pudesse identificar que ela estava lá dentro.
Subi os degraus da varanda sentindo uma corrente elétrica passar pela minha espinha. E vejo todos os meus superiores em silêncio sentados na sala de star. Arcebispo, padre Simon, um frade franciscano e mais dois padres que eu não conhecia. Todos eles estavam calados em constante movimento dos dedos segurando seus terços.
O bispo me viu entrando e foi o primeiro a olhar para mim. Eu me sentia impuro no meio daqueles homens. Não sou a capa deles, eu tinha consumado um pecado o qual um arcebispo nunca cometeria.
- Padre Justin, estávamos a sua espera. - Não, eu não queria olhar no rosto de nenhum deles agora.
- E-eu preciso ir – falei gaguejando.
- Ir para onde meu rapaz? Mal chegaste e já queres ir! - Padre Simon sempre foi comunicativo, e mesmo doente falava como se todos fossemos criança, mas dessa vez seu tom era serio.
Levantei meu rosto e busquei por Pattie em meio deles e nenhum sinal dela.
- Padre, pegue suas coisas e vamos para a casa paroquial. Tudo esta pronto.
- Eu não vou para a casa paroquial – murmurei. Foi o suficiente para todos me olharem de um jeito impiedoso. Todos ali eram puros e dignos de estar naquela casa. Eu não.
- Sabe o que pode acontecer quando viramos as costas para Deus?
- Não estou virando as costas para Deus. Só não posso continuar com isso!
- Se sabia que não levaria isso para frente, por que fez seus votos? - E a culpa caiu sobre mim mais uma vez. Fui fraco e agora não sou merecedor da palavra de Deus.
Não mereço estar portando o nome da sua casa. O que eu fiz na igreja? Cometi o maior pecado, não só o da carne, mas também o da ira. Eu estou querendo correr, sair daqui e culpar todos pelo o que aconteceu com Mellany.
Eles não sabiam, e nunca iriam saber o que tinha acontecido. A situação era óbvia e estou sofrendo o castigo divino. Estou sofrendo em todas as formas.
Sinto-me quente, vivo. Como nunca estive antes e agora estava ficando com medo.
- Fiz meus votos não há muito tempo atrás.
- E na primeira tentação você desiste de Deus? Desiste da sua salvação?
- Estou lutando para a salvação dela, eu posso ajudar uma mulher a encontrar seu caminho. Posso seguir o meu próprio caminho! - Foi o maior absurdo que já disse na minha vida. Os outros faltaram tapar os ouvidos, tamanha blasfêmia que saíra de minha boca.
- Salvação? Quer ajudar uma moça a ter salvação? A salvação dessa moça é tirar seus votos? - questionou o bispo. Engoli a seco minhas palavras. Queria dizer que nada importava naquele momento, mas meu lado racional estava agitado.
Estou tentando jogar toda a minha vida por uma noite, por uma mulher. Eu sou sujo, promíscuo, fraco. Sou um pecador agora. Tinha caído em tentação e cedi minhas necessidades como homem, fiz algo que não poderia ter feito.
- Posso fazer minhas escolhas sozinho. Não tenho mais 15 anos – insisti. No mínimo que fosse, eu estava dividido. Entre Deus e mellany!
Deus é minha prioridade, eu nasci por sua gloria, e agora dava as costas pra ele. E pior: estou duvidando de sua palavra.
- Sua escolha é abandonar a igreja?
- Não! – neguei. - Mas eu voltarei e cumprirei minha penitência - insisti mais uma vez. O único que ainda não tinha se pronunciado era o frade. De todos os homens nessa sala, o frade era o mais purificado. Uns dizem que a nossa santidade é o Papa, o homem mais próximo de Deus.
E eu digo que um frade é o homem mais digno e próximo a Deus. Eles vivem como peregrinos, não vestem nada sem ser sua bata marrom, um cordão amarrado a cintura e sandálias - que prefeririam andar descalços. Vivem da miséria dos outros, dormindo ao relento. Além de viverem em eterna comunhão com Deus, e que no caso, eu não merecia estar na mesma sala que o frade.
O que sentia além do medo? A total repulsa sobre meu corpo. Eu sou sujo, imundo. Fiz da igreja uma orgia cometendo pecados lá dentro. Agora tinha a certeza da ida de Mellany. Deus estava me castigando por fazer sua casa de um prostíbulo.
- Deus poderia salvar todos os pobres, dando-lhes pão, água e teto. Mas alguém tem que sofrer por nós, não acha? A salvação é individual, e queremos ajudar você a ter a sua. - Minhas pernas fraquejaram e minhas lágrimas estavam paradas. Nada me faria tirar Mellany da cabeça.
- Não sou digno de usar uma batina, não sou digno da igreja.
- Desde quando assume um compromisso com Deus, és digno de muita coisa. Deus te colocou em prova e você vai desistir?
- Deus está testando sua fé! Às vezes Deus faz isso para saber até quando vamos estar com ele - acrescentou o padre Simon. Todos eles tinham razão, nesse momento meu consciente havia acordado.
Pattie desceu com uma pequena mala. Rezei para que não fosse me condenar ou achar as coisas que Jeremy tinha me dado. Eu não queria ir, mas também não queria ficar.
- Jovem, logo encontrará a paz divina. Esse momento foi apenas uma tentação e sabemos como pode se redimir com Deus e com sua igreja.
- Apenas quero ajudar uma pessoa.
- Não seja egoísta! Na igreja você pode ajudar várias pessoas e não só uma. -Padre Simon sorriu e depois tocou meu ombro. - Vamos para a casa paroquial e iremos conversar em particular, junto do frade.
Era o certo a se fazer. Não disse nada para Pattie, aliás eu nem tinha o que dizer. Fui pegar a pequena mala e o padre Simon fez questão de não me deixar levá-la. Todos saíram da sala e foram para fora, e Pattie ainda esperava por mim como se fosse falar alguma coisa.
O que poderia dizer? Que eu estava errado? Que amar é errado?
Não consegui olhar em seus olhos. Entendia minha mãe. Sempre a entendi, desde quando deixava de brincar pra aprender latim às sextas.
Eu a entendia, mas ela não me entendia.
Dei minhas costas pela segunda vez para ir embora. A primeira para recuperar algo que amo, e a segunda para fazer algo que ela ama.
Sai pela porta em silêncio, todos estavam no carro. E foi como se estivesse no pior dia da minha vida. O céu se fechava em nuvens escuras, ficava na cor cinza a cada momento.
Esse não era o tempo ideal para chover.
Meu reflexo no carro me assustou: estava despenteado, suado, com olheiras e lágrimas. Poucas lágrimas silenciosas ainda saiam dos meus olhos e que molhavam minhas bochechas.
Por que Deus tinha feito tudo isso comigo? Porque deslizei, passei do meu limite como homem, acabei com minha vida aos poucos. E agora sou tão impuro quanto aqueles que pecam.
Entrei no carro junto com eles e sentia cada parte de mim ficar tensa, eles não sabiam dos detalhes do que eu fiz essa noite. Eles não sabiam, mas Deus sabia. E ele era a pessoa que eu mais sentia vergonha e a única que não posso esconder minhas mentiras.
E era por Deus que estava indo para a casa paroquial, depois de blasfemar suas palavras, de desejar o proibido e desapontá-lo, o que era pior.
Passei minhas mãos pelo meu rosto e respirei fundo, minha batina seria colocada novamente em meu corpo, e eu serei mais uma vez um padre. Padre Bieber.
Não foi tão longo o percurso, logo estávamos de frente a casa paroquial. Ela era grande como um mosteiro, tinha pinturas arcaicas e renascentistas nos detalhes. Uma freira estava lá parada depois do portão, onde pegou minha mala das mãos de padre Simon e as levou.
Olhei para trás e vi todos parados, até que o arcebispo veio ate a mim.
- Seu quarto está pronto, mas não será aquele que você espera. - Sentia o tom de seriedade em suas palavras e isso me assustava - Vamos levá-lo para outro lugar.
Engoli a seco e vi cada um tomando seu rumo, exceto pelo arcebispo, padre Simon e o frade.
- Você desonrou a sua igreja, com o que dez hoje. Sua mãe nos contou que você saiu correndo atrás de uma meretriz. Sabe quantos pecados cometes-te hoje?
- Vemos você como um futuro. Tens trazido vários fiéis para a nossa igreja e sabemos que gosta de ser padre, apenas falta uma orientação maior - o frade falou. Demos início a uma caminhada pelo lado do pátio até uma pequena porta de ferro do outro lado. Nunca percebi aquela porta durante o pouco tempo que ficava aqui.
Respingos da chuva começavam a cair sobre nós e nenhum deles se incomodava com isso.
- Você é um bom rapaz, puro e tem descendência de um espírito humilde. Queremos você na nossa igreja. - O arcebispo parecia estar mais interessado, mas não pelos olhares que o frade lançava em mim, eram aterrorizantes!
Prestei atenção onde estávamos. Era um outro pátio mas reservado. Nele tinha um grande tronco de uma árvore, pintado de mármore. Havia respingos de sangue no chão de cimento batido em cima do degrau que elevava ate o tronco. E em tinha uma cruz ali, com Jesus Cristo nela.
A única coisa que conseguia se ouvir era o barulho de pássaros, do mar e do vento nas árvores. Apesar da casa paroquial ser a única que chegava perto ao mar. Ninguém imagina que esse local existe e seja tão próximo.
Todo o meu corpo estava tremendo, Deus estava ao meu lado. Por algum momento senti como se estivessem me levando de encontro a ele, com poucos passos e palavras curtas em segredos.
- Nos diga o que fizestes - o frade perguntou colocando o capuz da sua manta marrom. Apenas em olhar para ele, aqueles olhos poderiam enxergar cada partícula de mentira que pudesse escorrer da minha boca. Isso é tão torturante.
- Eu cometi blasfêmias e... Estou apaixonado.
- Responda-me uma coisa. - Ele estava ainda andando em direção a outra casa, com grandes portas de madeiras. – Você a consumou?
- E-eu... – gaguejei pela milésima vez naquele dia.
- Não pode mentir para Deus. Ele nunca mentiu para você – alertou-me.
-Sim, eu pequei.
- Mesmo sabendo que desonraria sua igreja? Que desapontaria a Deus e ao seu celibato?
- Sim.
- Ainda tem contato com essa mulher? - Eu não queria contar. Não estava gostando das perguntas e nem ao menos do que ele esta fazendo. Sinto-me como se estivesse sendo prensado contra paredes que se fecham ao meu redor.
- Não! - menti
- Jejum e penitencia não vão trazer sua purificação de volta. Você sujou seu nome e o nome de Deus. Você representa uma igreja.
- Eu respeito a divindade de Deus. Eu quero me redimir com ele e com a minha igreja, mas eu não posso falar que estou arrependido. Estaria mentindo. - O arcebispo junto ao padre Simon foram em um dos cômodos daquela casa.
O frade fez o sinal da cruz e pediu para que eu me sentasse em uma cadeira. Senti-me assustado, tentando entender o porquê estava ali e o porquê tinha um chicote de cordas trançadas em cima da mesa.
- São João Batista, Rosa de Lima, Madre Teresa de Calcutá, Papa Paulo VI... O que esses nomes significam para você?
- São nomes santos, as pessoas que tiveram comunhão com Deus todo o período de sua vida - respondi olhando para o outro lado, tinha arames em uma pequena bolsa no chão.
- São João Batista, vestiu-se em pele de cabra enquanto jejuava no deserto. Rosa de Lima, usava uma coroa de espinhos escondidos embaixo de uma de flores. Madre Teresa de Calcutá e o Papa Paulo VI, usavam mortificações escondidos em baixo de suas batinas.
- Eles foram santificados.
- Sim, padre! Eles foram santificados. - O frade puxou um dos papéis da mesa, sentou-se na minha frente e começou a ler.
- Preste atenção na carta apostólica Salvífico Dolores do Papa João Paulo II. "Cristo não escondia aos seus ouvintes a necessidade do sofrimento. Pelo contrário, dizia-lhes muito claramente: ‘Se alguém quer vir após mim... Tome a sua cruz todos os dias’ (Lc. 9,23); e aos seus discípulos punha algumas exigências de ordem moral, cuja realização só é possível se cada um se ‘renega a si mesmo’".
- Dobrarei meu jejum e minhas orações serão pela noite inteira. - O frade sorriu mostrando seus dentes um pouco amarelados.
- Será bem maior sua luta, padre. O perdão de Deus não vai vir com uma vigília e alguns jejuns.
- Pagarei a penitencia de forma correta.
- Penitencia não é a forma certa de pedir perdoa a Deus. - Ele levantou da cadeira e suspendeu sua batina para cima. Eu estava assustado. Não pelo o que ouvia, e sim pelo o que meus olhos acabaram de ver.
As coxas dele estavam sangrando, suas coxas tinham dois pedaços grandes de arames presos a um tipo de pulseira onde ele regulava os arames.
- Isso são cilícios, isso te torna digno de Deus. Digno da salvação. - Abaixou sua veste e continuou. - Assim como todos foram chamados a "completar" com o próprio sofrimento "o que falta aos sofrimentos de Cristo" (1Pd 4,13 e Cl 1,24).
Travei naquela cadeira e ainda sentia meus dedos prendendo em minha calça. Estava agoniado.
- E-está dizendo que eu só terei o perdão de Deus se usar... Isso? - Engoli a seco. O frade confirmou com a cabeça. E a minha mente estava tentando assimilar. Sabia que estima cilícios e que algumas pessoas usavam, mas isso era no século passado.
- Seu padre no seminário não o ensinou sobre opus dei?
- Sim, mas não sobre mortificação. Não seria necessário para nós. - Minha garganta estava seca.
- Você também não deveria pecar, mas pecou! Cometeu o pecado imperdoável em nossa igreja. "Cristo ensinou o homem a fazer bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer bem a quem sofre. Sob este duplo aspecto, revelou cabalmente o sentido do sofrimento." - ele terminou de ler o papel e pegou o chicote de cordas trançadas ao lado estava um com tiras de couro.
- Pequei e não me sinto bem diante disso.
- O pecado está em você, destes as costas para Jesus, zombou do seu sacrifício para nos salvar. Você deixou a tentação tomar conta da sua cabeça, onde só jesus pode estar. Usar um cilício vai mostrar a sua devoção, o respeito à divindade de Deus, a gratificação a Cristo. - Pegou um dos cilícios e estendeu para mim.
Segurei o objeto com arames que furam a pele só em tocar. E isso ficaria em mim. Amarrado a minha carne para sofrer e ser punido até o tempo em que Deus me dê seu perdão. Terei de suplicar.
Por um momento olhando para o cilício pensava em Mellany. Penso que se colocar isso mim, não poderia mais tê-la. Não poderia mais tirar minha roupa em sua frente sem que ela veja essas espantosas marcas em minhas coxas.
Mas, ela era o meu pecado. E era por ela que teria de usá-los.
- Usarei - murmurei.
- Tire suas calças padre - pediu. Levantei da cadeira ainda segurando o cilício, e o frade o pegou de minhas mãos para que pudesse tirar minhas vestes. Tirei os sapatos, e desci minhas calças ficando apenas com uma daquelas cuecas apertadas que ganhei do meu pai.
Ainda estava impuro, ainda tinha vestígios da Mellany em meu corpo. Poderia sentir sua pele na minha, seu cheiro misturado ao meu.
O frade esticou o cilício e me entregou, coloquei em volta da minha coxa esquerda e sem nem fechá-lo o arame tentava entrar em minha pele, deixando marcas vermelhas onde fez pressão em meu sangue. Virei o lado e gemi ao sentir o arame perfurar minha pele mais fundo. A dor aumentava cada vez mais.
As pontas que tentavam entrar em minha pele ardiam. Rasgavam cada centímetro, arranhava até conseguir fazer alguns pequenos furos de sangue.
- Você não foi covarde ao pecar, por que esta sendo para pedir perdão a Deus? -ele disse em meio aos meus gemidos fortes. Aproximou-se de mim e eu pendi para trás sem conseguir movimentar minha perna esquerda. Era como se movimentar aquela perna fosse acabar com o resto do meu corpo.
Suas mãos alcançaram a parte de trás puxando forte o feixe. Gritei o mais alto que podia quando o arame entrou em minha carne. No instante que as lágrimas escorriam pelos meus olhos, o sangue quente escorria pela minha perna, e eu não conseguia movimentá-la. Segurei na cadeira tentando andar.
O arame penetrava ainda mais fundo, parecia que minha perna formigava, ardia e cortava cada milímetro ao seu redor.
- O sangue que escorre de você, é um sangue de um pecador, um sangue impuro. - Suas palavras não reconfortavam nenhum momento o que sentia. Além da dor física, me sentia envergonhado. Ainda tinha marcas do ataque daqueles homens na porta de um bar.
Minhas lagrimas e gritos multiplicavam, tentei por as mãos no cilício, o que fez que melasse meus dedos de sangue.
Padre Simon voltou com o arcebispo. Os dois estavam me olhando ainda por cima.
- Tira sua blusa padre. Vamos ensinar-te como a ser um homem puro. Ensinar-te a como ter o perdão e misericórdia de Deus – o arcebispo falou. Não conseguia me mover. O passo que dava era com a outra perna arrastando a que sangrava. Os pedaços entravam em minha carne e sentia eles chegando mais fundo.
Eu apenas pensava nela, mantinha em minha mente seus olhos, seu rosto, mantinha o sabor dos seus lábios, e o quão bom era segurar sua mão. Isso não adiantaria, meu corpo sangrava, minha alma pedia para sair daqui, e meus pensamentos estavam em uma pecadora.
Eu sou um pecador, esse e o meu preço a pagar.
Frade me estendeu o chicote.
- Ajoelhe e reze. Peça perdão por todos os seus pecados. - A água batia no cilício, a chuva estava intensa e o choque térmico fez meu corpo inteiro doer.
Os três estavam na frente da casa, sem se importar com a chuva em suas batinas.
Ajoelhei perto do degrau olhando aquela cruz em cima do tronco. Já não conseguia sentir minha perna. O sangue estava sendo lavado pela chuva, que entrava em minha pele. Estiquei meus braços para frente e dei impulso levando o chicote a bater em minhas costas. Um ardor tão forte me fez arquear as costas, a minha pele ardia. A dor era grande e eu queria correr. Sair daqui.
Fiz isso mais uma vez e soltei um gemido forte. Deus! Me perdoe, eu fui pecador.
Mais uma vez, mais duas vezes. Eu só quero o seu perdão por ser fraco, por desonrar a sua igreja.
Cai com o rosto no tronco, não conseguia me manter ajoelhado. Estava tremendo.
Escutei os passos fortes do frade em meio a chuva que dilacerava minha pele como navalhas. Eu tentei levantar e não consegui.
A mão dele alcançou o chicote das minhas. O barulho me ensurdeceu, ao sentir o couro rasgando minha pele. Gritei mais uma vez, ele rezava alto em latim. Dizia palavras que eu não conseguia decifrá-las.
A dor era tão grande que sentia vontade de urinar em minha cueca. Meus olhos saltavam para fora a cada chicotada que rasgava minha pele. A cada grito que saia da minha boca.
E nada me fazia esquecê-la. Foi tentando me agarrar em suas lembranças que estavam comigo durante a noite. Minha Mellany estaria comigo segurando em minha mão, estaria me dizendo que tudo isso vai passar.
A dor carnal não chegava a ser pior do que a que sentia em meu peito. Ela supria minha culpa, meus pecados, meus erros.
Ele parou de chicotear, cai no chão. Sem consegui falar nada, apenas chorava alto, soluçava embaixo daquela chuva, que penetrava minha carne lavando meu sangue.
Deus, por que a tirou de mim? Eu sou teu filho, teu servo, mereço amar como todos os outros.
Deus, por que me abandonaste?