Nós fomos até a casa da Rafa pegar o carro para irmos até o supermercado. A Paloma não nos acompanhou. Mais uma vez éramos nós e o seu faz tudo que agora parecia que iria ser bem mais que isso.
Pegamos o carro e fomos até o supermercado em silencio.
- Você acha que ela pode querer me fazer mal? – Perguntei pensativa, a respeito da Gabriella.
Apoiei-me em uma das colunas das prateleiras esperando que ela escolhesse a marca que mais lhe agradava.
- Acho que ela pode tentar. – Ela respondeu sem me olhar. Estava complemente atenta ao que fazia.
Pensei por algum momento na Gabriella e em todas as coisas que ela me fez. Eu desejava em partes o mal dela, queria tanto que ela sofresse pelo menos metade de tudo que eu sofri, por que eu ainda estava sofrendo. Mas, por outro lado, eu não desejava a dor que eu passei todos esses anos para ninguém.
Desviei todos esses pensamentos estranhos e voltei a observar a Rafa, que olhava produto por produto minuciosamente. Cada vez que eu olhava seu rosto eu sentia meu coração transbordar de amor.
- Eu sabia que era você quem ia ser a dona de casa. – Falei brincando – Eu tenho um talento pra ser o macho alfa, só serve pra mandar.
Ela continuou procurando o que queria, sem prestar atenção em mim. Levou alguns segundos para entender meu comentário, e começou a gargalhar. Pegou um produto por fim e colocou no carrinho, ainda rindo.
- Sem essa coisa de macho pra cima de mim ok? Se você não percebeu, eu não sou muito afim não.
- Que sorte a minha. – Comentei no seu ouvido.
Ela me lançou um olhar diferente, que poucas vezes eu via. Era malicioso e ao mesmo tempo divertido.
Depois de ela escolher coisa por coisa, olhar marca por marca, nossa missão finalmente estava completa.
Fomos para o caixa, enfrentar um pouco de fila por ali.
- Ora, ora – A voz da Julia soou atrás de mim – Vida de casadas?
- Estamos treinando. – A Rafa respondeu brincalhona.
Não me conformava com o fato dela fazer questão de ser simpática com essa meninas, porém eu não iria questionar aquilo ali. Olhei de esgueira para Julia e notei que ela carregava algumas latinhas de cerveja na mão. Ela colocou atrás da gente na fila. Revirei os olhos para a Rafa, que me lançou um olhar de reprovação.
- Você tem que aproveitar mesmo, daqui a pouco você não vai conseguir nem ir ao supermercado.
- Claro que vou – Ela respondeu ainda brincalhona – Eu ainda vou ser uma perfeita dona de casa.
A Rafa me olhou debochada e eu não consegui conter o sorriso.
Percebi pelo canto do olho que a atenção da Julia tinha se voltado para mim.
- Hanna – Ela forçou uma simpatia – O que é pior, pular de um penhasco ou ver a Rafa cada dia ter menos tempo para você?
Meu sangue ferveu na hora. Olhei para ela e lancei o melhor sorriso que pude.
- Não sei, mas o que é pior para você: Viver essa vidinha chata tentando perturbar as pessoas para tentar ter um pouquinho de felicidade, ou ver que a pessoa que você ama, conseguindo ter tempo ou não é completamente apaixonada por outra pessoa?
O olhar dela brilhou de fúria. Eu sorri ainda mais irônica. A Rafa suspirou nervosa, ela sempre reprovava quando eu me deixava levar por qualquer provocação.
Agora sem a Gabriella, só o que me faltava era uma doida querendo tomar o lugar dela.
- Parabéns – Ela falou amarga – Você sabe bem como atingir as pessoas. Não me assusta que você seja igual à Gabriella.
Mais uma vez senti a raiva me inundar. Olhei para a Rafa que fazia uma cara que dizia para eu não falar mais nada, e embora eu tivesse a resposta na ponta da língua, simplesmente não falei nada.
A nossa vez no caixa chegou e eu passei as pequenas coisas o mais rápido que pude. Depois saímos de lá, rápido da mesma maneira.
Comecei a dirigir de volta para a casa, chegamos frente ao teatro municipal e já havia algumas pessoas se aglomerando por ali.
Percebi quando a Rafa escorregou um pouco o corpo pelo banco do carro e simplesmente fechou os olhos. Pensei em falar algo, mas a verdade é que eu mesma não tinha nada para falar.
Eu a deixei em casa e segui rápido para a minha.
Tentei ser o mais breve possível, e sair rápido antes do meu pai ou do meu irmão começar a protestar.
- Você vem para o churrasco depois da apresentação não vem? – O Lohan me perguntou baixinho.
- É claro, até a Paloma vai estar por lá essa noite. – Comentei enquanto colocava um par de brincos.
- Vai faltar só a tia Bruna – Ele comentou cabisbaixo.
Eu olhei através do espelho seu rosto, que transbordava de saudade. Apesar de a tia Bruna ser só a tia Bruna, ela era quase uma mãe. Na verdade, ela sempre foi uma mãe, e era realmente impossível se reunir na casa dela, e não se lembrar da falta dela.
Não comentei nada, não adiantava. Eu sempre soube que infelizmente, saudade é a única coisa que não sai junto com nossas lágrimas ou com palavras de conforto.
Terminei de me arrumar, dei um beijo rápido em seu rosto e saí.
Fiquei surpresa ao notar que eu havia chegado cedo ao teatro, e não estava atrasada como sempre. Sentei-me em uma das poltronas da frente, onde a Rafa já havia separado para mim. Todas as pessoas ao meu redor pareciam estar acompanhadas, eu era a única estranha sozinha, na multidão.
Vi um rosto conhecido se desenvencilhando da multidão. A Mari mal se aproximou de mim e já começou a sorrir.
Eu me levantei e correspondi a seu abraço demorado.
- Nossa como eu adoro te ver – Ela falou no meu ouvido.
Voltei a me sentar e percebi que a cadeira vaga ao meu lado era dela. Sorri ao ver que a Rafa pensava mesmo em tudo.
- Resolveu ficar na plateia hoje? – Perguntei desconfiada.
- Alguém mais precisa subir ao palco quando a Rafa está lá? – Ela gesticulou para o palanque a nossa frente.
Eu sorri como resposta. Realmente, pelo menos para mim ninguém mais precisava aparecer se ela já estava lá, embora eu às vezes não a quisesse lá, só aqui.
- É difícil pra vocês né? – A Mari falou me puxando de volta, á olhei sem entender nada – Pra você é pro Renan. A gente tem brigado bastante por conta de a academia sugar nossa vida. Se está sendo difícil pra ele, imagina pra você.
Percebi sobre o que ela falava.
- Não, sabe... Eu fico feliz pela Rafaela, ela sempre quis isso. E eu sei que com o tempo, ela vai acabar criando a sua própria academia e abrindo portas para muitas pessoas...
- Mas... – Ela completou.
Voltei a olhar o palco, tentando formular uma resposta.
- Eu nunca precisei dividir a Rafa com nada. É difícil pra mim.
A Mari não respondeu de imediato, o que me incomodou um pouco. Ela ficou observando cada vez mais o teatro da cidade se encher, de pessoas de todos os tipos.
- Engraçado, por que... Parece que o mundo da dança está girando em torno da Rafa agora, mas... O mundo dela só gira em torno de você.
Suas palavras me chamaram atenção, então parei de observar as pessoas e voltei a olha-la.
- Tipo – ela continuou – A Rafa recebe milhares de investidas, de pessoas de todas as idades, tamanhos, cor, sexo, e pessoas essas que só se interessam pelo status que ela pode gerar... E, a Rafa... Bom, a Rafa simplesmente não se interessa.
- Nunca duvidei da lealdade dela – Respondi rápido.
Ela sorriu, seu olhar parecia penetrar minha alma, tentando ler cada palavra do meu pensamento.
- É, mas ela me conta sobre vocês, sobre essa amizade que não é mais amizade.
Senti meu rosto corar. Com exceção do Renan nenhum dos meus amigos realmente sabia que havia algo acontecendo. Antigamente, eles simplesmente aceitaram o fato de eu ser melhor amiga da Rafa, independente de qualquer coisa, mas agora as coisas estavam diferentes, eles desconfiavam.
- Fico feliz que ela possa conversar com você. – Falei sincera.
- Sei que seu medo é que talvez a Rafis se canse desse seu tempo para se acostumar com seus sentimentos – Ela segurou minha mão gentilmente – Mas não. É como um vegetariano, que gosta dos animas, mas não come por respeito. A Rafa gosta de te tocar, mas por mais que ela a queira simplesmente não faz, não força, não perturba... Exatamente por que ela se alimenta do puro amor que você sente por ela.
Continuei com o olhar penetrado nos olhos da Mari, digerindo cada coisa que ela falava. A luz do teatro diminuiu de intensidade, chamando minha atenção. Comecei a olhar ao redor, ficando impaciente com a demora.
- Acho que isso só acontece pra quem tem sorte – A Mari voltou a falar, chamando minha atenção outra vez.
Voltei a olha-la, com cautela, tentando entender o que ela dizia.
- Você acha que não foi sorte encontrar o Renan? – Perguntei confusa.
- Foi muita sorte, e muito azar ele ser daquele jeito, por que minha família é um caos por conta disso, é só que... Eu às vezes iria gostar se ele se alimentasse mais do meu amor do que de mim. O que eu quero dizer é que, vocês parecem peças unicas no mundo, que se encaixam perfeitamente.
Refleti sobre o que ela falava.
- Vai ver por que eu sempre fui sozinha, e a vida resolveu ser generosa comigo, me mandando a Rafa - Ela continuou em silencio então eu continuei - Acho estranho ficarmos falando dos nossos... Companheiros, como se fosse fofoca, mas não tenha duvida de que ele respira você. O tempo todo. Na verdade, você tem sorte de conseguir ter uma relação normal, por que é muito difícil para mim, ficar resistindo a Rafa a todo segundo.
Fiquei surpresa pela minha confissão. Era muito estranho, ficar falando dessas vontades e sentimentos novos, fosse com quem fosse.
- Não resista. – Ela falou com uma sinceridade absurda na voz – Não faça isso com você.
Não sorri, não desviei o olhar, não fiz nada. Aquele assunto estava ficando estranho, embora muito real. Eu me sentia falando com as minhas próprias duvidas, e vontades. Voltei a olhar o palco, que agora era o único lugar aceso do teatro.
A Mariana não falou mais nada até a apresentação começar. Algumas coisas estranhas fizerem a entrada da apresentação, e para ser sincera eu me sentia um pouco entediada. Além do fato das palavras da Mari ficarem penetrando minha mente, eu queria logo ir para casa do tio Max, e me sentir em família.
A Rafa fez uma apresentação junto com um menino, e mesmo entediada eu não podia negar que era lindo ver o modo que ela dava vida. Vida a musica, a dança, aos passos e aos olhos de todas as pessoas apreciadoras da arte. Assim que terminou, ela olhou para onde eu estava sentada e sorriu de um jeito carinhoso.
Quando ela finalmente saiu do palco, alguém entrou e ficou falando um monte de coisas a respeito da academia, o que só fez com que eu me sentisse mais cansada.
- Você vai para a casa do tio Max? – Eu perguntei no ouvido da Mari.
Ela sorriu, e respondeu que sim com a cabeça.
Para minha alegria todo o falatório da mulher acabou e assim fomos liberados para ir embora. Olhando para os rostos ali, percebi que eu era a única que parecia não estar satisfeita.
A massa de pessoas começou a sair e eu simplesmente continuei sentada. A Mari se despediu e foi na minha frente, o que fez com que eu voltasse a ficar sozinha.
- Oi – A Rafa falou ofegante ao meu lado – Parece estar se divertindo.
Eu sabia que ela estava sendo irônica.
- Eu adorei – Falei fingindo não ter ouvido sua brincadeira – Parabéns.
Ela sorriu, satisfeita. Comecei então a andar, mas ela não se moveu. Ficou olhando de um lado para o outro, como quem procura outra pessoa.
- O que foi? – Perguntei curiosa.
Ela voltou a prestar atenção em mim.
- Você quer ir indo para a casa do Renan? – Ela segurou minha mão – Eu queria falar com a minha professora antes de ir, e pode demorar um pouco.
Afirmei com a cabeça, ela sorriu em agradecimento.
O teatro já estava praticamente vazio, então foi fácil sair de lá. Quando estava chegando perto do carro, acionei o alarme.
Coloquei a mão na maçaneta da porta automaticamente, perdida nos meus pensamentos que mal notei que alguém havia se aproximado. Eu puxei a porta, mas uma mão muita forte que eu fez ela se fechar assim que comecei a abri-la. Olhei assusta e percebi que o dono da arte era o Diego.
Ele sorriu ao perceber que me assustou.
- Não tem graça – Resmunguei controlando meus batimentos.
Ele não esboçou nenhuma reação. Seus olhos negros me fitavam com um turbilhão de sentimentos.
- Vim me despedir – Ele falou finalmente – Já que isso é a única coisa que nós conseguimos fazer direito. Se despedir.