18 de fevereiro de 2013
Por Thiago
23h58, Twitter
Ela curtiu e retuitou.
— Porque você não larga esse tablet e vem dormir, Thiago, é tarde, olha hora, amanhã você não acorda
— Já vou, Mariana
Checo meu celular pela milionésima vez, ela não respondeu minhas mensagens, muito menos retornou minhas ligações
Oi, Marjorie... Fala comigo
CHAMADA PERDIDA
CHAMADA PERDIDA
Atende minhas ligações, por favor!
Eu quero falar com você, ouvir sua voz
CHAMADA PERDIA
CHAMADA PERDIDA
Ok, você não quer falar comigo. Já saquei.
Eu também não falaria comigo depois do que aconteceu.
O que eu posso dizer, já que eu sei que um simples pedido de desculpas não vai adiantar
Vou começar a encher sua caixa de e-mails daqui a pouco se você não responder
É SÉRIO, EU NÃO ESTOU BRINCANDO!
Por favor, só me diz se está tudo bem... Estou aceitando qualquer coisa, um sinal de fumaça, quem sabe?
Obrigado 😊
Digito antes de cair no sono.
~*~
09h18, Estacionamento do Projac
Por Marjorie
Várias coisas podem ser loucura, por exemplo, um dia estressante de trabalho, o jeito como as pessoas passam umas pelas outras sem olhar ou os relacionamentos superficiais. Aliás, disso eu entendo bem, mas é melhor não entrarmos em detalhes. Não posso pensar nele agora.
Checo meu celular, ergo meu olhar em direção a minha bolsa no banco do carona e acabo vendo o que não queria. Sorte, azar ou coincidência, o carro dele estava estacionado ao lado do meu.
Um beijo caloroso de despedida e os dois saem do carro.
Péssimo dia!
Murcho por um segundo, tem tudo para ser um péssimo dia de trabalho. Ignorando as previsões, eu saio do carro a tempo de ele notar a minha presença. Se é que já não havia notado.
— Bom dia. – Ele me cumprimenta.
E o meu bom dia fica entalado na garganta. O máximo que consigo fazer é um aceno de cabeça frio e distante. Ajeito a bolsa nos ombros e caminho, ele faz o mesmo com seu tablet em mãos. Estou me controlando para não mencionar ela na conversa, mas não dá. O beijo no carro não para de me assombrar.
— Voltou a dar carona?
— Hã... a Mariana, ela tem um teste de elenco
— Hum. Será que eu devo desejar sorte? Ah não... eu esqueci, sorte, ela tem de sobra.
~*~
Por Thiago
Ela passa por mim, mas eu a sigo.
— Marjorie, espera! - Caminho mais rápido. Ela me ignora.
— Bom dia, Marjorie.
— Dia... Péssimo dia, Antônio. - Ela cumprimenta o vigia, passando o crachá no leitor magnético.
— Hey Marjorie – chamo-a — você deixou cair o crachá. – Pego-o do chão, junto deles está a chave do carro.
— É, não é um bom dia. - Antônio sorri com desânimo.
— E eu que achei que seria um bom dia. - Dou de ombros. Mulheres são estranhas. Quando você dá a elas a resposta que elas esperam, elas ficam bravas com você. Se a Marjorie não queria saber a resposta do porquê Mariana estar aqui, porque perguntou? Ah droga, o beijo!
— Eu posso guardar o crachá e a chave, aqui, comigo, se você preferir – oferece ele, gentil. Agradeço dispensando a ajuda.
~*~
Caracterização, 10h23
Por Marjorie
— Animada!? Eu estou empolgada, casamentos são sempre divertidos. - Juliana comenta, sentando-se ao meu lado com seu próprio almoço. — O que!? Uma mulher não pode sobreviver só de cafeína, certo?
— Errado. — Sorrio para ela. — Sou um exemplo notável.
— Bem... você está ficando magrela demais, se quiser um pouco - Olhando para a salada, eu percebo o quão faminta estou. — Fique com isso, por minha conta.
— Sim, senhora. - Enquanto guardo o tablet reparo em Thiago do outro lado da sala, conversando com a Camila. Como se antecipasse minha próxima pergunta, ela anuncia:
— Thiago a caracterização masculina fica para lá. – Me pergunto o que ele quer aqui e porque ele está sorrindo com uma expressão de surpresa no olhar.
Dou de ombros e continuo comendo. Desisto de tentar descobrir as motivações de Thiago. Droga, evita-lo será uma tarefa difícil. Muito difícil.
Por Thiago
As coisas estão corridas por aqui, varo o ambiente com os olhos a procura da Marjorie, a visto sentada com os bob’s nos cabelos, os olhos estão fechados, sendo maquiados – o que é bom - assim ganho um tempinho admirando-a, antes dela notar a minha presença. — Thiago a caracterização masculina fica para lá - Camila me tira do transe, puxando o meu braço, ela me arrasta porta fora.
— Eu sei... eu já tô indo, só vim entregar isso para Marjorie, ela deixou cair na-
— Entrega no final do dia – aconselha. — Ela não vai ter como ir embora mesmo. Pelo menos assim vocês têm como conversar.
— Perai você está me ajudando, Camila. – Arregalo os olhos, surpreso. — Sem solidariedade feminina.
— Só dessa vez, Thiago não acostuma, não. E cuida dela. Cuidado para não perder essas chaves.
— Ah... eu vou cuidar com a minha própria vida, obrigado, muito obrigado Camila. – Dou um beijo estalado na sua face, ela ri do meu jeito empolgado.
Obrigatoriamente, Marjorie e eu tínhamos um encontro marcado no fim do dia.
~*~
Por Marjorie
— Posso almoçar com vocês porque estou cheia de tentar aconselhar o Thiago. – Nós entreolhamos e sorrimos curiosa.
— O que o Thiago queria, Camila?
— Falar com a Marjorie, mas mandei ele embora. Não era isso o que você queria, Marjorie?
— É sim - Dou uma olhadinha para Thiago, que está em outro mundo, alheio a tudo a sua volta, até mesmo a nossa conversa.
— Eu vou ficar sabendo o que está acontecendo ou não? Sempre que pergunto como as coisas estão indo entre vocês ele se fecha. – Sol insiste. -— Vocês mal trocam uma palavra nos ensaios. Você nem olha para ele, mas ele passa o tempo todo te olhando. Quer me dizer o que está rolando?
— A Mariana está grávida - respondo, mastigando o resto da minha salada.
— Ah meu Deus. - Ela inclina a cabeça e me estuda por vários segundos. — Como você está, amiga?
— Bem... Eu já disse a Camila que o problema não é a gravidez e sim ele ter escondido o fato.
— Mas e se ele não sabia da verdade. - Tusso e rio ao mesmo tempo. Um filete de cenoura escorre pelo meu queixo e cato um maço de guardanapos para me limpar.
— É claro que ele sabia, Pri. - Ela lança um olhar para Camila antes de cochichar de volta.
— Que motivos ele teria para mentir para você, Mah?
— É a Priscila tem razão, Thiago não é o tipo de homem que mente.
— Vocês estão do lado de quem afinal?
— Do seu, amiga.
— Dos dois, na verdade - Camila e Priscila começam a rir como se fosse a coisa mais hilária que já tivéssemos dito. Suspiro e balanço a cabeça.
— Então... – Priscila começa a se acalmar. — Quer que eu passe o texto com você? Você e o Thiago costumam passar o texto.
— É. – suspiro. — Mas não precisa, amiga, sério eu já decorei. – Eu me levanto e vou até a porta. Preciso sair para tomar um ar.
— Você não entende não é a mesma coisa, Sol. – Juliana segue meu olhar enquanto um sorriso de ironia se aloja em seu rosto. — Você não tem um belo par de olhos verdes, é impossível ajudar
— Ta bom, realmente, eu não tenho, não. - Enquanto elas continuam discutindo minha vida amorosa, Isabel chega com seu vestido de noiva propositalmente mais justo na cintura e nos tira da inércia.
Andamos com o carrinho elétrico e completamos parte do trajeto a pé, durante toda a caminhada o assunto continuou sendo minha vida amorosa. Isabel ficou a par dos últimos acontecimentos e deu seus conselhos sobre como devo agir diante deste problema.
Não que eu não gostasse de ouvir os seus conselhos, mas toda aquela conversa já estava me deixando nauseada.
— Vocês quererem parar de falar no Thiago como se ele fosse o último homem na terra por quem eu me interessaria? - digo, na minha voz mais autoritária.
— Ah, há um milhão de outros por aí, iguais a ele, não é mesmo. – Rhaisa se intromete. Não gosto do seu tom de voz e, apesar disso ignoro. Prefiro animação da Sol e da Ju ao responde-la em uníssono:
— Não, não há! - E cair na gargalhada outra vez.
— Mudando o assunto em três, dois, um, que ele tá vindo aí – cochicha a Isabel.
— Luz na passarela que lá vem elas. – Rafael cantarola olhando para mim. Assim como todo mundo. Exceto Thiago. Oh, a ironia.
— Eu vou entrar. - Caminho mais rápido para evitar um encontro com ele.
— Alguém pode explicar o que deu na Marjorie? – Ouço George perguntando e uma a uma desconversar.
— Não sei, você sabe? – primeiro Rhaisa
— Eu não, você sabe? – depois Juliana e por último Isabel
— Também não sei de nada.
— Ah esquece o clube da Luluzinha se fechou em copas, meu amigo. – brinca o Emilio. — Nem que elas soubessem elas diriam o que aconteceu.
~*~
Por Thiago
14h16, Ensaio Geral
— Olha eu tô nervoso – diz o Emilio para as lentes do Vídeo Show.
— Vai desistir? – Entro na brincadeira.
— Eu tô nervoso, eu não sei o que dizer. Não sei tô nervoso. – Continua ele, em tom debochado. — Não sei nem se eu vou dizer sim.
— Ele não sabe o que dizer porque ele não decora o texto – provoco. — Por isso ele não sabe o que dizer. Se ele decorasse o texto, ele saberia.
— Decoro muito o meu texto. – O abraço pelo ombro e rimos um da cara do outro. — Eu tenho que dizer sim, só hoje.
Quando deixamos de ser o foco das filmagens do programa, Emilio me pergunta como um bom amigo preocupado. — Você e a Marjorie como vão?
— Não vamos.
— Não me diga que voltaram à estaca zero. O que foi agora?
— Mariana está grávida – digo simplesmente.
— Ué?! – estranha. — Não era apenas uma suposição?
— É. Era o que pensava, mas contra um exame
— Não há como negar. – Ele completa meu raciocínio. Ficamos em silêncio, até que Emilio questiona novamente. — E a Marjorie, ela certamente não aprovou isso.
— Eu tentei explicar, mas ela saiu sem me dar ouvidos. Fui atrás dela...
— Você foi ou não foi atrás dela? – Odeio como o Emilio é capaz de perceber quando estou mentindo.
— É não... – confesso envergonhado. — A Mariana estava lá. Eu achei melhor não insistir. Ela está gravida – repito para mim mesmo para me convencer de que é verdade. — Eu tô tão feliz. Vou ser pai de una menina, de uma menininha linda.
— Meus parabéns, meu amigo. – Aceno com a cabeça em agradecimento. — Então quer dizer que você e a Marjorie terminaram?
— Não. – Altero o tom de voz. — Fala baixo. Não diz isso nem de brincadeira. Eu tentei ligar, mandei mensagem, até tuitar, eu tuitei.
— Hã!? Tuitou o quê!?
— Vou sentir muita saudade de #Lado a lado. Quero ver tuitar quem compartilha desse sentimento. – Mostro o twitter para ele. — É não ri, não, eu estava desesperado...
— E funcionou?
— Bom, pelo menos ela retuitou.
— Cê vai tentar falar com ela hoje?
— Eu acho difícil conseguir falar com ela hoje no meio dessa multidão toda, mas eu vou tentar
— Tentar não, você vai consegui, essa é a palavra, e vai com calma. Se ela não quiser falar não insiste, afinal quem tá se sentindo perdida é ela não você.
— Ah, eu não estou perdido?
— Que eu saiba, não, você tem duas mulheres interessadas em você.
— Queria ter essa sua certeza.
Olho para Marjorie e a vejo me encarando. Não consigo descrever sua expressão. Raiva? Surpresa? Um pouco de ambos? Há um fogo em seu olhar que faz com que eu pense que ela não está totalmente infeliz em me ver, e hesito em decidir se isso é bom ou não. Se devo ir até ela ou não.
Que se dane. De um modo ou de outro, vamos conversar hoje. A adrenalina corre pelas minhas veias quando decido ir ao seu encontro.
— Oi - cumprimenta ela, enquanto me perco em sua aparência. Cada gota de saliva em minha boca seca.
— Oi - respondo com a voz vacilante. Ela parece estar com o problema oposto. — Desculpe. Oi. - Minha voz vacila de novo. Droga. Eu me sinto como um adolescente. — Você está…- Balanço a cabeça, em seguida, limpo a boca tentando não perder o foco da conversa. — Na verdade, Marjorie, você vai me ignorar até quando?
— Não estou te ignorando.
— Ah, sim, está sim.
— Não, ignorar você seria ignorar sua presença. Notei você. Só preferi não falar com você.
— Isso é melhor ou pior do que me ignorar completamente?
— Levemente melhor.
— Bem, graças a Deus. Então não vou me ofender.
— Bom para você.
— Eu estava sendo sarcástico, Marjorie, por que você é sempre tão rabugenta? Está de tpm?
— Quê?! Estou de... quê?! tpm?! Você é tão... - Ela se afasta, mas mantenho o passo junto dela.
— Por que está me seguindo?!
— Não estou te seguindo. Estou andando ao seu lado.
— O que você quer? Ela gira o calcanhar bruscamente. Fica de frente pra mim.
— Conversar sobre... Ah... deixa pra lá. - Me sinto como um cachorrinho barulhento ao lado dela. — Eu só queria saber se você quer passar o texto.
— Por que quer saber? - Ela olha para mim por mais alguns segundos antes de fechar a cara. Então, sem dizer outra palavra ela se vira e vai embora.
— Ah, tá, então terminamos aqui? — Falo com as costas dela. — Bem, valeu por se esforçar. Seu talento para conversa é realmente estimulante!
Nós separamos. Ela vai para um lado da capela e eu para outro.
— Eu sei, eu sei. - Eles levantam o olhar e cessam a conversa quando eu me aproximo. — Sinto muito - digo, soltando minha sacola no banco, sentando-me ao lado em seguida.
— Tudo bem, meu caro - Marco responde com um tapinha no ombro. — Ainda estamos cuidando dos detalhes da produção. Relaxe, tome uma água. Vamos começar daqui a pouco.
— Bacana. - Reviro a mochila atrás do meu tablet. Raissa senta-se ao meu lado e puxa um assunto qualquer. Ela está animada com o dia de hoje. Aliás, todos parecem contagiados pelo clima de final de novela. Para onde quer que eu olhe a sempre um celular com a câmera pronta para registrar uma pose ou outra.
Eu tento prestar atenção ao que ela diz, mas finjo um maior interesse, com sorrisos alegres quando flagro Marjorie algumas vezes nós observando. Raissa e eu conversamos um com o outro, e ela tem o mesmo olhar otimista que a Mariana usa sempre que tenta me converter ao veganismo.
— Ah droga... Thiago você pode me ajudar aqui, por favor – Ergo o olhar e então me apresso em ajuda-la. Seu vestido estava com o feixe emperrado. Dou meu paletó para ela se cobrir. — Não, está muito quente. - Ela recusa, posicionando minhas mãos em suas costas.
Droga, minha situação só piora.
— Não acho que provocar ciúmes na Marjorie seja uma boa opção pra mim no momento, Rhaisa
— Então por que você está se dando ao trabalho? - Ela se aproxima e olha mim. — Mesmo assim, obrigada, Marjorie tem razão quando diz que você é um homem muito gentil.
— Ela disse isso?
— Não - Ela se inclina e beija meu rosto. —, mas tenho certeza que ela está pensando nisso enquanto nos observa.
— Tá, vamos lá. — Vinícius bate palmas, chamando atenção para si. — Vamos começar falando da sequência de eventos. - Ele repassa a cena. Nós nos apresentamos aos ensaios, dizemos nossas falas, agimos como se nos amássemos.
— Tia Celinha me chamou para ser madrinha.
— Guerra também me convidou para ser padrinho.
— Não vão chorar, vocês foram convidados e desconvidados depois. Vocês são divorciados. Não podem ser padrinhos de nada, nem de casamento, nem de batizado, nem de aniversário, de nada.
— É... Eu sei, eu sei... já passei por isso antes.
— É mas, eu acho que esse problema tem solução.
Então, quando o ensaio termina e temos a oportunidade de falar: nada. Nós nos estranhamos demais para conversar. Isso está me enlouquecendo.
Não ajuda que quando ela se aproxima eu fique tão excitado que mal consiga respirar. Talvez por isso me agrade passar grande parte do tempo próximo a porta. Passei os últimos dias num estado de tesão totalmente debilitante, e hoje temos de passar a cena em Laura pede Edgar em casamento.
Não sei o porquê, mas estou nervoso, agitado e ansioso por esta cena.
~*~
16h50, Gravação
Por Marjorie
Vou para a gravação, faço meu trabalho e tento ficar o mais longe possível de Thiago no tempo em que estamos fora de cena. Ele continua tentando me pegar para uma conversa, mas antes que Thiago tivesse tempo para uma nova tentativa, Vinicius chama atenção para o nosso posicionamento em cena, dando ênfase ao estado de euforia dos personagens.
— Lembre-se Laura e Edgar estão feliz, animados pelo casamento, então o que quer que esteja acontecendo entre vocês dois esqueçam e, por favor, concentrassem-se - Ele nos chama para as posições e eu viro a cabeça, estendendo a mão com um a sombra de incerteza no rosto, mas pronta.
Vinicius grita “gravando” e, quando ele aperta a minha mão e começamos a caminhar pelo cenário percebo o quanto este “pedido de casamento” será difícil.
— Esses casamentos, esses noivos tão confiantes.
— Tão certos do que querem, do que sentem – eu o rebato sorrindo e ele questiona determinado.
— Não é estranho?
— Não pode ser normal?
— Por que com a gente não foi assim?
— Não, com a gente foi tudo ao contrário. – Paro e o encaro por alguns segundos. Ele ri, o seu “riso protocolar” Está nervoso.
— Foi do jeito que tinha que ser: dúvidas, mal-entendidos, angustias. A gente foi praticamente obrigada a se casar, mas bastou morar na mesma casa pra... pra acontecer.
— O que?
— Isso, nós dois – Seus olhos desviam dos meus ao apontar para si e em seguida para mim. Abaixo a cabeça, suspiro e volto a olha-lo. Preciso manter meu sorriso confiante e alegre enquanto ele prossegue:
— Quase que a gente não se casa.
— Quase.
— A gente ia conseguir não ser casado, Edgar?
— Eu não sei, mas você quis assim por seis anos.
— Casa comigo? - Sorrimos juntos e o mundo para. Eu flutuo, as palavras fluem e outra vez preciso lembrar que Laura quem está ali, não eu. — É isso mesmo tô te pedindo em casamento. Casa comigo?
— Mas a gente já é casado. – Ele sorri ao falar. Não o protocolar, mas o meu sorriso. Deus, que sorriso.
— Não – Tento falar, mas a voz falha. —, não nós...reatamos, mas continuamos divorciados. - Engasgo.
Sinto meus olhos lagrimejam quando Thiago se aproxima e toca de leve minha mão. Ele não deveria fazer isso, mas faz. Sem dizer nada, aperta mais seus dedos contra os meus. Seus olhos questionam-me se estou bem e eu assinto. Ele sabe tanto quando eu que não podemos parar, não queremos errar agora.
— A gente não pode se casar de novo.
— Tá recusando o meu pedido, Sr. Advogado? – Arqueio as sobrancelhas com graça.
— Nã-não, é isso... – protesta sorridente - eu tô dizendo que pela lei a gente não pode se casar mais.
— Sim, eu sei, porque eu sou uma moça bem informada, a gente não pode se casar, mas a gente...
— A gente pode revogar o divórcio – completa ele, boquiaberto.
— Você ainda não me respondeu.
— Repete o pedido. – Edgar... Edgar Vieira, repito mentalmente.
— Edgar Vieira aceita se casar comigo? – Enquanto o coração grita outro nome, o seu. Thiago... Thiago Fragoso
— Deixa eu pensar? - Graceja, mordendo o lábio. Posso ouvir meu coração bater em expectativa. — Sim!
Suspiro.
— Meu marido. – Seus lábios finalmente encontram os meus.
E eu não contenho mais as lágrimas.
Como esperei por este beijo.
~*~
20h, Camarim
Por Thiago
Eu estou ouvido atrás da porta. Eu sei... eu sei é um hábito horrível, mas não é minha culpa se eles deixam brechas para isso. Além do mais, eu não tenho escolha, não depois da Marjorie ter deixado o estúdio com lagrimas nos olhos sem deixar que eu me explicasse.
— Mas eu tirei a foto... Tudo bem não foi ao lado do Thiago, como vocês planejaram, mas eu tirei a foto.
— Do lado do Claudio, Marjorie – debocha George. — Cê podia ter se parado do meu lado, ao menos eu seria um galã a sua altura.
— Sai daqui, George, sai. – Marjorie balança a cabeça veementemente, arremessa um objeto em direção a sua cabeça, obrigando-o a sair.
— Thi-a – ele murmura surpreso. Tapo sua boca, impedindo-o de me acusar. Olho pra ele e peço silêncio com o dedo indicador em riste. George assente, continuamos a ouvir a conversa.
— O que custava tirar uma foto ao lado do Thiago, Marjorie?
— Tudo, Juliana, se você quer saber... custa a minha vida, a minha integridade física e moral. Eu não posso me dar um luxo desse mesmo que eu queira. Além do mais, porque eu alimentaria falsas expectativas?
— Mas você passou o dia se esquivando dele, sequer deixou ele se explicar... E não, não finja que não. Vocês precisam conversar, anda, Marjorie, admita! – Não consigo evitar um sorriso ao ouvir tais palavras.
— Juliana, espera aí, me ajuda com a porcaria desse vestido. Juliana, Ai droga!
— Marjorie, você precisa de ajuda aí
— Não, obrigada - agradece sem me encarar.
— Olha, eu posso ajudar adquiri certa experiência nisso hoje. – Me aproximo, mantendo uma distância segura. Não quero ser o responsável por mais um objeto jogado aos ares.
— Ah sim, eu sei, sei bem da sua experiência, eu vi. Rhaisa me contou os detalhes.
— De-talhes... Que detalhes não tem detalhes para contar, Marjorie. Eu só estava ajudando uma colega de trabalho.
— Deixe isso para lá — diz ela, enquanto tenta abrir o zíper do vestido. — Esqueça. - O corpete do vestido parece comprimir seu corpo, apertando-a até quase asfixiar. — Tire essa coisa maldita de mim. - Ela vira pra mim para que eu possa abrir o zíper, e assim que o faço, ela volta para o provador.
Silêncio. Permaneço parado até que ela abra as cortinas e saia, vestindo a mesma camisa de hoje cedo, porém a saia marcando os quadris é novidade.
— Será que nós podemos conversar agora? – peço educadamente.
— Amanhã, Thiago, eu preciso ir – Eu a vejo vasculhar a bolsa. Sei o que ela procura e hesito em dizer que as chaves do seu carro estão comigo.
— Eu sei...
— Hum
— Marjorie - Aproximo-me e tomo seu rosto. — Talvez você não tenha que ir embora agora.
— Preciso sim, de verdade. - Quase posso ouvir cada batida do seu coração acelerado. — Ou talvez você possa simplesmente ficar aí bem quieta por mais alguns minutos e me deixar fazer isso.
Paro de respirar quando, com delicadeza, cobro meus lábios com os dela.
~*~
20h32, Estacionamento Projac
Por Marjorie
— Eu acho que você está procurando por isso, não? – ele balança as chaves no ar e depois as joga em minha direção. Eu as pego, erguendo as sobrancelhas.
— Como você...
— Você deixou cair no...
— Não importa. – Ignoro-o, abrindo a porta do carro. Preciso fazer algo. Qualquer coisa apenas para não ficar parada o observando. Jogo minha bolsa no banco de trás.
— Escuta, Marjorie, nós podemos conversar? Ele põe a mão sobre a porta, me impedindo de fecha-la. Está nervoso. Suando um pouco.
— Amanhã, hoje não vai dar, eu já te disse isso, eu tô exausta. - Entre mim e ele há a porta. O que é bom, nos impede de nós aproximarmos.
— Eu sei... Nós podemos conversar amanhã então, você promete? - Ele se aproxima em minha direção sem realmente olhar para mim.
— Humm.
— Marjorie... - Inspiro. Estremeço. Expiro. Resisto ao impulso de observá-lo. — Você está bem? — pergunta ele ao se aproximar, cortando a distância mínima que ainda existia entre nós.
— Ótima. – Inspiro de novo.
— Você parece... quente. - Eu me viro para ele. Ele pisca e olha para o outro lado. — Estou falando da temperatura, está quente hoje, não... — ele balança a cabeça. — Não importa. - Ele aperta a mão contra a nuca com mais força, deslizando os dedos no cabelo. Ele não sabe como agir e eu muito menos.
Fecho os olhos para evitar olhar para suas mãos. Ou queixo. Ou lábios. Droga, eu sou um desastre completo, porque quero beijar sua boca e estou prestes a ceder a isso quando deveria estar dentro do carro sem se quer olhar para trás.
— Então... eu acho que isso é um adeus. - Ele respira com força, e suas mãos me apertam, uma a minha bochecha, a outra a minha nuca. — Até amanhã - diz soltando um leve som da garganta, e o calor me invade. Meu corpo está contra o dele, minhas mãos estão em seu cabelo. E cada motivo pelo qual eu deveria ficar longe dele perde o sentido quando nossas bocas se encontram.
O beijo é rude e desesperado e cheio de uma paixão que não quero sentir. Mas é aí... aí onde moram todas as melhores lembranças dele.
Era isso o que deveríamos ter sido. Sempre. Bocas e mãos umas nas outras, respirar o ar um do outro. Aproveitando nossa conexão de almas, não fugindo dela.
Suas mãos roçam sobre um corpo trêmulo que não se incendeia desse jeito há tempo demais.
Liberto minha boca e consigo suspirar um “Thiago” antes que ele murmure um “Deus... Marjorie” e me beije novamente Meu corpo ainda não está satisfeito, mesmo que meu cérebro saiba que isso é errado. Cada parte de mim anseia por ele.
Mãos me puxam mais para perto. Braços me envolvem em um segundo, meus pés vacilam contra a porta do carro e no outro estamos juntos no banco do carona.
— Você quer mesmo fazer isso? - Solto os lábios dos dele e me afasto. Sua boca está aberta e é macia, e eu o beijo novamente, com um pouco mais de força como resposta à sua pergunta. Ele expira contra minha pele, e não sei que diabos estou fazendo, mas sugo suavemente seus lábios. O calor me percorre. Cada centímetro de mim queima, e apesar disso não posso deixar que ele continue.
— Ai, Thiago... - Perco o ar quando ele avança para meu pescoço, sua boca aberta e sugando. Me enlouquecendo. — Eu pedi para você ser sincero comigo, Thiago, mas... você não foi. Porque você não me disse a verdade sobre a Mariana?
— Eu não sabia.
— Não sabia o que? Que ela estava grávida?
— Que ela estava falando a verdade. - Ele suspira. E quando fala outra vez, sua voz é mais suave, porém ainda firme. — Para mim era mentira, invenção, maluquice da cabeça dela.
—Como... Se ela veio até aqui te contar?
— E você deu ouvidos a ela.
— Claro... Como se eu tivesse outra escolha. Ela fez questão de vir aqui pessoalmente me contar e esfregar o exame na minha cara, e você queria que eu não ouvisse? O problema não é você ter outro filho... a ideia não me agrada, eu não vou mentir. Mas eu posso conviver com isso. O que eu não posso aceita e não consigo suporta é essa sensação.
— Sensação, que sensação, Marjorie? - Ele pega minha mão e alisa a pele. Um gesto tão doce e simples, mas que eu sinto em todo o corpo.
— A de que você ainda ama ela, que ainda nutri um sentimento, como se na verdade tudo que a gente viveu não passe um caso para você.
— Não fala isso. Eu fui sincero com você antes. E estou sendo agora - ele afirma, absolutamente sério. — Eu prometi que vou dar um jeito. Que vou conseguir conciliar a minha vida com a Mariana.
—Vida. Sua vida com a... Você não está conseguindo Thiago. Não está. Dá pra ver isso. Ah... porque eu me deixei levar. Eu sabia, no fundo eu sabia, que iria acabar assim.
— Assim como?
— Você não vê - devolvo, incapaz de suportar que ele pense que o nosso final feliz vai vir tão fácil assim. — Não percebeu que se rever a Mariana como parte da sua vida? - Seus olhos se turvam, e a conhecida atração que sinto por ele deixa o ar entre nós pesado.
— A Mariana faz parte da minha vida, sim, Marjorie, mas não é como você imagina.
— Não!? Então me esclarece como é, eu estou tentando ver a lógica desse seu raciocínio, mas não estou conseguindo.
— Ela é a mãe dos meus filhos, é por isso que ela faz parte da minha vida e só... Só por isso que ela continuará na minha vida. Porque infelizmente eu não posso mudar essa parte da história. Assim como, eu não posso obrigar que você aceite o pedido que eu tenho para te fazer.
— Pedido. - O medo ainda está nos seus olhos, à espreita, mas ele o atravessa. Suas mãos vêm para meu rosto. Ele me toca gentilmente, mas minha reação é intensa. Ele pisca quando toca minha bochecha. Há calor sob minha pele, que aumenta com cada toque suave de seus dedos. Seu medo aumenta um pouco, vacilando atrás de sua decisão. Sua atenção está fixa na minha boca e ele pigarreia antes de murmurar.
— Fica comigo- ele sussurra enquanto se inclina, tão próximo que posso sentir sua respiração ofegar. — Me dá uma chance, só uma chance de provar que o amor que eu sinto por você é intenso. Verdadeiro. Real. - Ele olha para meus lábios e é preciso cada grama do meu minguante senso de autopreservação para desviar o olhar.
— Você quer uma chance?
— Quero... – ele diz baixinho. — Quero muito. – Com os lábios próximos ao meu ouvido, Thiago escorrega os dedos até a minha bunda e me levanta, encaixando o seu quadril entre minhas pernas. Minha saia sobe enquanto ele pressiona o corpo e o volume saliente na sua calça contra mim deixando claro as suas intenções, o quanto ele quer essa chance.
— Eu te dou essa chance. – Vacilo por um segundo apenas. Seus dedos voltam na minha bochecha quando ele se inclina, tão lentamente que mal reparo que ele está se movendo.
Nós nos beijamos, nos amassamos e nos emaranhamos, desesperados por mais. Há muito tecido e pouco ar. Seu corpo enrijecido pressiona meu corpo macio.
— Mah - ele geme, deslizando uma mão no meu cabelo enquanto usa a outra para achar meu seio. — Isso é... Meu Deus, Tô muito fodido.
— Somos dois. — Agarro a cabeça dele e o faço me beijar mais, porque estou viciada no gosto desses lábios e língua.
Mas minhas mãos precisam de mais, então elas vão para baixo da camisa dele e encontram seu abdômen, quente, tremendo sob meu toque.
Ele geme na minha boca e me beija com mais intensidade. Então suas mãos estão sob minha saia e sobre meu sutiã, me acariciando e me apalpando. E me deixando tão ávida que chega a doer.
— Não podemos. — Ele arfa deixando meus lábios e me beija atrás da orelha, sua respiração é quente e fraca em minha pele. — Isso é uma loucura tremenda. Fala pra eu parar.
— Não posso. Ele suga fundo onde meu ombro e pescoço se encontram. Sei que vai ficar marcado, mas a dor não vai importar tanto quando ele me possuir dessa forma. Quero ele dentro de mim, silenciando minha ânsia. Saciando minha fome.
— Marjorie. - Ele move o quadril mais rápido enquanto agarra minha bunda. — Meu bem, se você não me disser para parar agora, juro por Deus que vou te foder nesse carro. Você é tão gostosa. Eu sabia. Sabia que seria. E olha... Isso não é nem de longe o que eu sonhei para nós dois.
Eu me contorço contra ele. Não poderia dizer para ele parar agora nem que eu tivesse uma arma apontada para minha cabeça. Ele se esfrega em mim, e só posso me segurar e rezar para que ele continue se movendo. Estou transbordando, me contraindo, me revirando com um prazer inacreditável. É diferente de qualquer coisa que eu tenha sentido antes, e não quero que termine nunca.
— Mah, não posso... não devo. Eu preciso... Eu tenho que voltar. - Ele está ofegando no mesmo ritmo dos movimentos do quadril. Ele tem que continuar. Tem que. Enfio minha cabeça em seu pescoço e chupo a pele doce, deixando a mesma marca que ele deixou em mim. A essência do seu perfume atiça minha língua enquanto nós dois grunhimos e xingamos. Seguro a respiração.
— Thiago...
— Deus, Marjorie...
— Sr. Fragoso? Srta. Estiano? - Ficamos paralisados ao ouvir a voz de Márcia. Ele para de se mover. Para de respirar. A tensão dentro de mim se libera e se esvai. Não, não, não, não, não! Escuto batidas no vidro, então sua voz. — Aí estão vocês. Eu me perguntava se havia perdido meus protagonistas, mas parece que vocês já estão trabalhando os seus personagens. Que dedicação.
Eu me solto do pescoço de Thiago e ele olha para mim, com o pânico tomando conta dos olhos. Estamos ambos pulsando, ofegantes. Nossos lábios estão inchados e vermelhos.
Marcia pigarreia e eu solto as pernas da cintura de Thiago, caindo sobre o banco do motorista para que ele possa se recompor e sair do carro. Ajeito minhas roupas e saio também.
Vejo Thiago passar a mão no cabelo antes de enfiá-las nos bolsos e suspirar. Olho para Marcia. Ela está nos avaliando calmamente.
— Então, parece que vocês dois tiveram uma interessante... discussão. Posso supor que tenha trabalhado suas questões, sr. Fragoso? - Thiago pigarreia.
— Bem, eu já estava chegando ao... cerne da questão quando você nos encontrou. -Marcia faz uma careta.
— Foi o que pensei. Uma risada nervosa escapa de mim e cubro minha boca porque acho que estou prestes a surtar feio. Meu corpo está pulsando e latejando, meu coração vai sair pela boca. — Então posso supor que você não vai abandonar a gravação? — Marcia pergunta.
— Parece que não. - Marcia assente e sorri.
— Excelente. Nesse caso temos muito trabalho a fazer. Vejo você no estúdio em cinco minutos. - Ela se vira e deixa o estacionamento. Somos apenas Thiago e eu novamente.
— Você quer que eu te espere... - Avalio o perigo por cerca de três segundos antes de colocar meus braços ao redor do pescoço dele e abraçá-lo. — Eu posso... - Ele passa os braços ao meu redor enquanto encaixa a cabeça no meu pescoço e solta um suspiro estremecido.
— Não... Eu adoraria, mas não. É melhor não. Não sei se vou me conter ou me concentrar em cena, sabendo que você está por aí, em dos corredores, me esperando.
— Thiago.
— O que foi? - Enterro meu rosto em seu pescoço e apenas respiro, e de repente cada célula do meu corpo estremece.
— Eu... queria saber
— Marjorie... sério, eu estou atrasadíssimo e você ainda bagunçou o meu cabelo para ajudar - Ele solta um gemido e me abraça mais forte. —, fala logo.
— Qual o seu sonho?
— Meu sonho?
— Humm... o seu sonho. - Passo meus dedos no seu cabelo e massageio seu couro cabeludo.
— Ah... você quer saber... – ele sussurra em meu ouvido. — Ter você toda nua dizendo que é só minha, esse é o meu sonho.
— Algum lugar em específico?
— Hã... você ainda quer detalhes? - Ele me aperta mais forte e eu me impressiono com o nosso encaixe perfeito. Ele sabe como me abraçar e eu realmente sei como atiça-lo.













