Todas as famílias felizes – Carlos Fuentes
Um livro de contos bastante diversos uns dos outros. Assim, por exemplo, começa com uma família em que a jovem é viciada em programas tipo BBB, enquanto seu irmão se acha o máximo (mas não o é), o pai passou a vida “piscando o olho” (e tendo honestidade, a seus próprios olhos, mas sendo o meio para o cometimento de maus feitos). Já em outro, é a mãe de uma moça assassinada que se corresponde com o assassino tentando mostrar-lhe quem era sua filha. Em alguns casos, parece que falta um desfecho, que cabe ao leitor inventá-lo. Há muito boas passagens como, por exemplo:
“A memória deveria ser dotada de pequenos espelhos suplementares capazes de sobrepor, camada após camada de pele, os rostos anteriores ao rosto atual, até se revelar o rosto final da morte. Este processo, de igual modo, deveria se repetir retrospectivamente, até exibir, por seu turno, o primeiro perfil, o da saudosa juventude, juntamente com o sentimento irrenunciável de termos sido jovens e, por sê-lo, de termos sido felizes, fortes, atraentes, singulares...”
“Somos livres porque nos movemos. Saímos de uma ferida que se chama solidão e viajamos para outra ferida que se chama morte. Há um cruzamento de caminhos entre o ponto de partida e o porto de chegada. Nesse carrefour, minha menina adorada, encontramos sempre o outro, o que não é como nós, e nos vemos obrigados a entender que, se nos movemos e nos encontramos, devemos nos amar a partir do contraste. ..”
“Atualmente havia um déficit de ingenuidade, como ontem houvera excesso de confiança. Marcelino Miles pensou nisso com amargura, por se ele, Marcelino Miles, oferecesse anistia ao filho Andrés em troca de sua rendição, o filho veria algum tipo de armação na generosidade paterna. O filho não confiaria no pai. O filho sabia que o pai era obrigado a captura-lo e fuzilá-lo.”