O fogo e a raiz
A aldeia ficou deserta. Poiso tudo o que tenho no chão, aqui junto ao coreto, junto à velha oliveira na praça central. A minha identificação, o meu dinheiro. Cubro a minha cara com a minha t-shirt molhada. O fumo não me deixa ver longe. Alguém vem aí, um grupo de pessoas? Um vulto… Vou na sua direcção? Começo a caminhar. Hesito. Não, não. Volto para trás. Não posso deixar este lugar onde estou. Hesito. Sim, claro que sim, tenho que me juntar a alguém! Vou novamente na sua direcção. Hesito. Não, não, tenho que voltar para trás. JOANA! Grito pela minha amiga. Onde estás? Estou sozinho. O céu ilumina-se com mais fagulhas, parecem bolas de fogo em turbilhões de vento. Caem à minha volta. Do tamanho de bolas de futebol, uma cai nos ramos da velha oliveira. Os velhos ainda estão dentro das casas. Sinto a minha respiração presa. Os avós da Joana estão aqui na casa ao lado, a casa que construíram, a terra que revolveram. A avó acamada, o avô dizia que nunca vira uma coisa assim, como era estranho este fogo. A bola de fogo lateja sobre a velha oliveira. Vêm aí uma pessoa! Corre na minha direcção. Urra! Geme. As mãos na cara. A cara. Aquela cara. Desfigurada na expressão. Inumana. Não é pessoa. Passa por mim, não me vê. Continua, corre para nenhures. O meu corpo estremece. A veia estala.
O grupo de pessoas surge mudo. São 4 ou 5, seguem em passos seguros. Têm sachos para combater o fogo. Onde vão? - pergunto. Para casa – responde o homem. Fazer o quê para casa? Não respondem, continuam. Desistem – penso. A bola de fogo lateja em cima da velha oliveira.
A bruma brilha mas o fogo não se espalha. O calor não está cá, só o aviso. Os incêndios que senti antes sempre se anunciavam na pele, no calor. A noite está cálida, mas o ar não está quente. O brilho na bruma não pode esconder labaredas, penso. Quero ver, onde está o fogo? Penso no plural, temos que proteger os avós, encontrar pessoas, encontrar guarida. Avanço finalmente. Pelo meio. O meu corpo sozinho pela estrada entra no fumo.
Nessa noite encontrei muita gente. Pessoas. A Joana voltou. Ninguém mais desistiu. A velha oliveira não ardeu. A carrinha militar chegou. Os militares ajudaram a evacuar a gente. Rápido! - diziam. O fogo está próximo! Pegámos na avó pela cadeira de rodas e pusemo-la na carrinha. Voltei junto à velha oliveira e apanhei as minhas moedas e o meu cartão de cidadão. No caminho desta carrinha ardia tudo à volta. Pequenos fogos e algumas grandes labaredas. Ajudámos mais pessoas a subir. Crianças e velhos primeiro. Duas pessoas com as mãos no ar no povoamento vizinho. Que se passa? - Pergunta o militar. Achamos que há pessoas presas ali em cima, apontam. Somos só nós – diz o militar. Somos só nós – repetem. Temos que ir para o centro de evacuação de Carregal do Sal. Se sabem de alguém isolado vão lá! Rápido!
Os dias seguintes acordaram lentos, atentos. A bruma manteve-se, o cheiro a queimado no ar. Sem telefones. Sem internet. Fora do Mundo, as pessoas visitaram-se. Amigos, famílias reencontraram-se. Informaram-se. Formaram-se. Do fumo, das cinzas, do negro. Encontrei na manhã a seguir ao fogo a minha família na estrada. Por acaso. Eu andava, ela conduzia um carro. Fomos à minha antiga velha casa, onde brincava quando era menino. O céu nublado choveu. A terra, o tijolo, a adega, o lagar, o forno, a eira, as figueiras, as hortas, o castanheiro, a casa. Tudo num esqueleto negro. Carvão e pó. No retorno, vivemos juntos na casa da Joana. Os amigos que fugiram retornaram. As estórias cruzaram-se. Passámos todos a noite do fogo a tirar os velhos das suas casas. Eles, isolados, refugiaram uma aldeia inteira numa casa cercada pelas chamas. Deitaram-se no chão e ali ficaram. Esperaram. Aguardaram. Alguns choraram, outros riram, despediram-se em gritos e sussurros, para mais tarde, muito mais tarde acordarem. Uns aqui, outros ali. Lentamente retornaram. Juntos. A velha oliveira continua de pé e ali ficou um bocado de mim. Vejo no meu sonho aquele meu gesto do dia do fogo. Ali poisadas sobre as raízes da oliveira, bem enraizadas na terra, algumas moedas e o meu cartão de cidadão.
Ensaio publicado a 15 de Junho de 2018 no jornal local ‘Defesa da Beira’. Um ano depois da tragédia de Pedrogão, este texto foi escrito a propósito dos incêndios de 16 e 17 de Outubro de 2017 que assomaram os concelhos de Carregal do Sal e Santa Comba Dão.















