Dias escuros
Dias escuros...
Eram dias escuros, dias difíceis, mesmo naqueles dias era difícil matar o velho errante. O mundo estava em chamas e ele já não era o mesmo homem de antes. Já não via esperança na terra, não via saída, não encontrava uma luz, eram mais de vinte anos de batalhas impiedosas, muitos anos no lombo de seu cavalo esperando a morte certa.
Mas naqueles dias fatídicos, já no fim da era dos errantes, o cavaleiro errante já não era o mesmo homem de antes, estava cansado no que lhe dizia as batalhas, a armadura pesava em suas costas, a espada parecia-lhe mais pesada que antes e já não mais a força de antes.
Mas a coragem dos errantes ainda habitava seu coração, a força dos homens da era média ainda estava nele.
Era uma manhã cinzenta, ventava muito, o levante trazia a chuva para o campo de batalha, a nuvem negra vinha do sul, dos reinos latinos, cobriam todo o descampado desde o firmamento, o cavaleiro estava de pé com sua espada em punho, sentindo o cheiro da chuva, ele não era aquele errante, sua armadura era nobre com um tigre desenhado no peitoral, no cabo de sua espada tinha pequenas pedras preciosas, eram opalas colocadas ali artesanalmente.
Ele já não tinha aquele olhar jovem de antes e sua barba rala e castanha já não era totalmente castanha, era branca também, seus cabelos castanhos estavam quase que a metade branca, mas seus olhos verdes ainda eram os mesmos, ferozes e velhos olhos verdes, olhos de tigre.
O errante a essa altura já era um homem de meia idade, sentindo sua barriga maior e apertada dentro de sua armadura.
Seu oponente era sombrio, dentro de uma armadura sombria, espada de lamina negra e uma coruja como estandarte, uma coruja negra, uma rasga mortalha.
Era alto e forte, jovem e talvez ainda inexperiente.
A guerra amigos era a estrada para a ruina, a batalha era o mesmo local na derradeira hora e não importa quem ganhasse os dois sempre perderiam o vencedor sempre deixaria um pedaço do homem que já foi um dia no campo de batalha.
São mentes incompreendidas além do nosso tempo, ou muito atrás no nosso tempo, a ideia de honra está além do que podemos imaginar sobre o que é honra.
A honra para alguns homens medievos está no bom combate, na batalha campal, está em alimentar suas famílias, sobreviver, seja ele um rei, um plebeu, um cavaleiro, um escravo ou um mendigo, pois no final na derradeira hora todos são iguais, todos morrem e nada levam.
E naquele momento o bom combate era lutar e vencer ou morrer com honra.
O cavaleiro negro avançou para cima do errante com sua espada negra, rápido e mortal, dando seus golpes pesados e certeiros, e o errante defendia-se como podia e como a idade lhe permitia recuando e desviando.
Esperando... Recuando e desviando se defendendo dos golpes esperando o momento certo, enquanto o outro gritava palavrões, desrespeitoso, chamando-o de velho, provocando, e atacando com a força de um bisonte.
Até que ele deu uma ombreada e derrubou o errante no chão, o cavaleiro negro teve a chance de acabar com aquele combate singular ali naquele momento, mas resolveu contar vantagem, gritar seus gritos de guerra e uma parte da grande multidão que estava em volta no campo de batalha gritavam.
Devagar o errante se levantou, pegou sua coroa que havia caído e colocou sobre sua cabeça cansada, olhou para trás e viu seu grande exercito ali calado e apreensivo, sabia que aquela luta pouparia centenas. Um era um velho guerreiro, um antigo cavaleiro errante que se tornara rei, já não era o mesmo de antes no que dizia fisicamente.
Mas ele era o Cavaleiro Errante que conheceu e lutou contra o fogo do dragão.
O Errante se levantou e empunhou sua espada, o cavaleiro negro avançou e antes que pudesse desferir seu terceiro golpe o errante rápido como na juventude já tinha mudado de posição e acertou seu flanco esquerdo, o cavaleiro negro caiu de joelhos e o errante o golpeou sobre o pescoço assim cortando uma parte do seu pescoço com gorjal e tudo, a cabeça do cavaleiro ficou pendurada numa pelanca de couro e seu sangue jorrando.
O errante se virou para o exercito inimigo, que se ajoelhou, e ali ele viu muitas mortes serem evitadas, sentiu os primeiros pingos da chuva em seu rosto velho, lembrou-se da sua mulher que o aguardava em casa, em seu castelo, não era aquela donzela do sul de antes, mas para ele ainda era a donzela.
Ele sobreviveu só para outro dia lhe trazer mais outra batalha, sim, os dias só poderiam lhe trazer outra batalha, pois sempre haveria outra batalha para lutar.
É o que resta ao cavaleiro errante...
Por Cristiano Silva











