Neo Labs: Chris + Clara
Ser um pilantra é muito, muito cansativo.
Descobri isso depois do meu encontro com Aimée, e quando tive que traçar todos aqueles planos mirabolantes pra conseguir o que eu queria, no meu tempo e do meu jeito.
— Não acha… Bizarro a galera estrela dos times deles terem se acidentado antes de hoje? — Meu colega de equipe de natação solta no ar de repente, depois de nós dois termos ultrapassado as outras equipes sem problemas nos 200 metros livres. — Eles estavam bem na semana passada, os caras eram até legais.
Antes deles se depararem com um chão super escorregadio pós treino e terem ganhado umas tantas contusões e lesões, assim, do nada.
— Na verdade, não. — Digo, abrindo um sorriso pequeno enquanto saio da piscina, como alguém que NÃO TINHA feito aquilo. — E eles não são legais, são seus rivais. E é melhor tratar todos eles como tal.
Mas ganhar e estar frente, compensava todo o esforço em ser uma pedra no meio do caminho daquela gente.
Não é que eu não me garantia nas coisas que eu me propunha, eu só queria ter certeza, que mesmo com a menor das ameaças, tinha chegado antes de todos eles. Ia ser eu recebendo o maior prêmio, eu fazendo qualquer discurso sobre vencer. Com um troféu em um braço e minha namorada sempre no outro, pronto pra estampar todas as páginas do anuário e murais da escola.
— Alguém viu a Brenda por ai? — Pergunto aos meninos em volta de mim, me sentindo um tanto sozinho ali, mesmo que meus pais estivessem nas arquibancadas segurando cartazes e gritando por mim. Mas ela não estava lá, e ninguém sabia dela. — Tudo bem, Chris. É só sorrir e aproveitar o momento.
Eu nunca realmente lembrava o quanto aquilo era desconfortável, até me ocorrer de novo.
Estava ajoelhado contra a beirada da cama de Brenda, os cotovelos apoiados no colchão e as mãos unidas debaixo do queixo, imitando seu ursinho cristão e a posição da minha namorada, que pedia perdão e clamava por Jesus Cristo. Nua, descabelada e se sentindo muito, muito mal por ter dado pra mim.
— Peço perdão, porque pecamos mais uma vez essa noite… Mais vezes do que realmente me orgulho de dizer, mas tudo bem, porque sei que o Senhor nos ama e não vai nos deixar ir pro inferno. — E eu sei lá como funcionava essa contagem, mas se tínhamos passado ilesos o último ano inteiro… — Obrigada por me dar um namorado incrível como o Christian e por fazer de nós um belo casal, e por ter abençoado ele com um pênis incrível.
— Não acha melhor poupar Ele dos detalhes mais íntimos? — Resolvi interferir, abrindo um olho na direção dela, desesperado por estar também nu e ainda meio duro e tendo um episódio daqueles.
— Deus é onipresente, e esteve aqui o tempo todo, mesmo que a gente não tenha visto. — Brenda me deixa saber, cantarolando a música do Hillsong que ainda tocava ao fundo, antes de continuar. — Ele estava aqui e com certeza reconheceu o presente divino que ele te deu.
Ah, pronto. Agora estava, definitivamente, desconfortável e assustado, olhando pra todos os lados e pensando que porra, como é que eu ia fazer sexo com aquela garota de novo? Já não bastasse todos seus ursos de pelúcia que oravam quando apertava a barriga, agora eu ia ter que lidar com Deus também?
— Queria que tivesse ido na competição, hoje. — Falo depois de me levantar e começar a procurar minhas roupas, tentando soar despreocupado. — Você disse que ia, e depois…
— Tive um contratempo, eu precisava estudar pra essa prova de espanhol e não tinha como evitar. — Ela se justifica me jogando minha camisa, nem se batendo pro fato de que eu também fazia aquela aula. E sabia que não tinha nem um teste chegando. — Mas eu fiz as pazes com você, não fiz? — E eu sabia que era retórico, quando ela olhou em volta do quarto, as três embalagens de camisinha jogadas ali como se fosse uma prova.
Queria dizer pra ela que sexo era bom e eu gostava, não, amava fazer aquilo com ela, mas que era mais importante ter ela lá. Eu só queria confrontar ela sobre aquela outra mentira, sobre a falta dela, mas…
— Eu amo você, Christian, e me sinto muito orgulhosa.
Eu não conseguia.
— Você vai mesmo? — Ela me questiona, tentando soar interessada enquanto olha pra tela do celular.
— Minha irmã precisa de mim onde ela trabalha. A pessoa que cuida da ala de espera infantil ficou doente e ela acha que eu e um violão somos um bom entretenimento. — Explico colocando meu moletom, ao passo que ela concordou com um hmm. E mesmo quando eu sai, ela não me deu mais atenção.
— Eu não sou pedagogo, e nem psicólogo…
— Mas você é fofo, ama crianças e elas amam você.
— Sana, são pacientes. E se alguém achar que pode me contar sobre o espírito morto da avó que vem a noite contar histórias?
— Aí a gente chama o Constantine e se livra desse problemão, mas até lá você vai servir entretenimento.
E antes que eu pudesse dizer mais qualquer coisa, estava sendo empurrado pra dentro de uma sala muito barulhenta, ouvindo a porta sendo trancada logo depois, quando estava prestes a me apresentar pra todas aquelas criaturas curiosas, todas as cabeças se voltaram pra porta mais uma vez.
Uma série de barulhos abafados foram ouvidos, então uma discussão em espanhol, a porta sendo destrancada, e outra pessoa sendo arrastada pro meu lado.
★
— Eu não sou pedagoga, e nem psicóloga.
— Mas gosta de crianças, e elas incrivelmente gostam de você.
— A senhora sabe que se um deles disser qualquer coisa pra mim, vou incitar a violência em primeiro lugar, não sabe?
— Sim, e é por isso que você vai entrar e só ajudar ele a se organizar enquanto ele canta.
Ele?
Não era a primeira vez que me faziam ser babá, e se posso mesmo dizer, era a única coisa que eu não fazia por obrigação e não tinha problemas com passar horas no mesmo lugar. Desde que Hope tinha nascido, vivia pelas visitas a casa dos meus tios pra ficar apertando suas bochechas e deixar ela pintar meu rosto com guache, eram os momentos que me deixava ser eu mesma e não ter mais preocupações.
O que queria dizer que não gostava de companhia, e nem de me sentir exposta, ainda mais na frente de pessoas que eu não conhecia.
— Vai ficar tudo bem. — Tia Liana diz como se pudesse ler meus pensamentos, me rebocando pelo braço e me empurrando na direção da porta.
— Não!
— Ele é muito doce e gentil e você pode fazer um amigo.
— Não, não!
— Ele é irmão da Sana…
— E desde quando isso garante alguma coisa? Ela é maluca!
Por isso não fiquei nem um pouco surpresa quando me deparei com ele, junto com todas as crianças, observando minha entrada dramática. De todas as pessoas no mundo.
Enquanto eu batia os punhos na porta, implorando pra ser tirada dali, ouvi passos atrás de mim, e quando me virei, pronta pra acertar um soco naquele nariz enorme dele, me deparei com um Chris Seo… risonho? Olhando pra mim de cima, tão perto que conseguia sentir o cheiro de seu perfume misturado com cloro de piscina, e conseguiria contar cada um de seus cílios se eu quisesse.
— Já acabou? — Ele me pergunta, as sobrancelhas se franzindo de uma forma quase paternal, como se eu fosse uma criança emburrada.
— Na verdade… Sim. — E quem era eu pra contrariar aquele cara com aquela aura de mandão e muito maior do que eu? Me encontrei torcendo minhas duas tranças porque me sentia fraca só de estar ali, o que tinha acontecido com minha raiva generalizada e ódio? Não sabemos.
— Então que tal a gente começar isso logo?
Levei um segundo pra entender que ele estava falando das crianças, agora muito curiosas com a nossa situação, porque até então, minha boca tinha secado e minhas pernas pareciam que iam ceder.
— Claro, claro. Vamos falar com as crianças, por que é pra isso que estamos aqui, não é? As crianças. — Digo, nervosa e rindo de desespero, passando pelo lado dele tão rápido quanto eu podia.
Culpava aquelas minhas reações ao fato de que além de virgem, nunca tinha ficado tão perto de um garoto daquele jeito, se não pra chamar ele pra brigar. Ok, uns dias atrás, tinha jurado que um dia ia arrancar o sorriso arrogante de Chris Seo, mas agora, tudo era muito diferente.
O jeito que ele sorria pras crianças, não estava nem um pouco perto do jeito que ele sorria durante as competições que eu estava lá como sua rival, ou só assistia torcendo pela minha escola; era fofo e quase inocente, nem um pouco arrogante e presunçoso, e eu percebi, três covers da Colbie Caillat e uma historia depois, que talvez, só depois… Ele fosse tão ruim assim.
— Quem te vê assim, nem imagina que você é um pé no saco só porque consegue alcançar notas altas, sabia? — Comento por cima da mesinha que estava sentada desenhando com as criancinhas, ele do outro lado. — Você até parece gente.
— Mas você acha que eu sou um pé no saco, só por que alcanço notas altas? — Chris quis saber, os lábios se franziam em confusão, antes de soltar uma risada. — Eu agradeço o elogio, E.F.
A forma como aquele nome soou na voz dele parecia tão irritante, mas ao invés de achar ruim, só lhe ofereci um sorriso.
— De nada, Hackley.
No final do dia, eu acho que até podia considerar o Chris um cara suportável. Ele tinha me ajudado a levar cada criança pra consulta na sala ao lado, catar todos os brinquedos e lápis de cor, e achei que o mínimo que eu podia fazer, era arrumar as coisas dele enquanto ele organizava as caixas mais pesadas de livros. E minha mão, sem querer, encostou na tela do celular dele, uma foto sua com uma garota brilhando um segundo depois.
Era a Brenda? A Brenda que deu pra todo mundo de Seattle até Nova York…?
— Sua namorada é bem bonita. — Arrisquei, mordendo meu lábio inferior enquanto uma mensagem dela aparecia e ele se aproximou pra olhar, parecendo meio desanimado pra alguém que tinha uma namorada que mandava tanto A emojis de coração.
— Ela é, não é? — Ele concorda soltando um suspiro, guardando o aparelho no bolso, e eu concordo na minha cabeça. Tão bonita que nem parece que traiu todos os ex namorados, incluindo, muito provavelmente, ele.
Ficamos em silêncio por um tempo, o Chris contemplando os próprios pensamentos enquanto recolhia umas folhas, e eu olhando ao redor da sala, procurando o que fazer.
— Faltou uma. — Comento indo na direção de uma última caixa de livro, achando que ele nem ia prestar a atenção, quando ouvi mais uma vez seus passos atrás de mim, e quando me virei, ele estava super perto de novo.
Tão perto que eu conseguia sentir a respiração dele, é o calor dele, e a maneira como seu rosto estava quase encostando no meu.
— Deixa que eu faço.
— Mas eu posso…
Não podia mais respirar, quando senti os lábios dele contra os meus, num toque muito sutil, sua mão direita ainda segurando a caixa por cima da minha, então subindo pelo meu braço até chegar no meu ombro, e depois no meu pescoço.
Nos afastamos por um segundo, antes de eu mesma avançar na direção dele, apoiando minhas mãos em seus ombros largos e o beijando com mais força dessa vez. E a próxima coisa que eu sei, é que estou sendo pressionada contra a estante de brinquedos da sala, o corpo dele contra o meu, tão perto que conseguia sentir seu coração bater. Eu não lembrava de onde estava, do que tinha ido fazer ali, e muito menos sobre a conversa estranha que tínhamos tido sobre sua namorada. Eu só conseguia pensar nos lábios macios dele, e como era bom e como era bom sentir os dedos dele em volta da minha garganta e…
— Que bom que vocês arrumaram tudo, ah, porra!
O Chris tirou a mão de debaixo do meu vestido e eu soltei o cabelo dele, então nos afastamos, eu tão atordoada quanto ele, se não mais, e sua irmã parecia.
— Mas que porra foi essa? — Traumatizada. Os olhos dela estavam tão arregalados, que pensei que iam saltar do rosto dela. — Fizeram isso na frente das crianças?
— O que? Não!
— Não, claro que não!
E antes que ela pudesse fazer mais perguntas, vi minha tia passando pelo corredor atrás dela, e corri em sua direção, nem me despedindo ou dando satisfações.
— Foi um prazer, Clara! — Sana grita pelo corredor, parecendo segurar o riso.
— Você está bem? — Tia Liana pergunta, apertando meu braço no seu.
— Ótima. — Só beijei um cara comprometido, estou com a calcinha encharcada e sem fôlego. — Ótima.










