Growing Pains: Claudia Wu, our newbie.
O garoto na minha frente tinha o dobro do meu tamanho e com certeza o triplo do meu peso, mas o que fazia ele ser igual a todos os meninos que eu já vi em tatames de competição, não tinha a ver em nada com como ele se parecia, mas sim como ele se comportava.
O garoto na minha frente, achava que eu não era capaz de derrotar ele, então usava sua aparência pra me intimidar também. O problema era só que… Como também nas vezes anteriores, ninguém contou pra ele que eu comia meninos assim na porrada, no café da manhã, no almoço e no jantar.
Por isso, quando ele não me cumprimentou antes da luta e ignorou meu sorriso, como alguém animada por ter aquela experiência com ele naquele estadual, não fiquei sentida. Não fiquei triste e nem me senti desrespeitada por causa das regras do Kung Fu.
Eu fiz minha cara de mau, que meu treinador e mãe diziam parecer mais como um urso de pelúcia meio puto depois que roubaram o algodão doce dele, e fiz coisas ruins pra esse menino.
Nos primeiros segundos do primeiro round, fiz ele sentir a alma descolando do corpo dele depois de virar seu braço todo para trás do corpo e prender sua cabeça debaixo da minha perna, no meio do segundo, vi ele chorar igual um bebezinho e jurar estar vendo sua avó pela gretinha quando o chutei várias vezes, igual meus ídolos dos filmes de luta chineses. E eu derrotei ele no último, mesmo que já tivesse ganhado os outros dois rounds, e ele caiu meio desacordado no chão.
O locutor da liga Júnior dizia que, pela terceira vez, eu tinha derrotado todos os meus adversários da temporada e estava triando meu caminho pra ser campeã Nacional de novo. Meu rosto estampava todas as televisões e telões no ginásio, Claudia Wu, mais uma vez, construindo um legado e orgulhando todos em Seattle com quinze anos.
— Você é o momento. — Meu treinador me dizia, jogando minha jaqueta em cima dos meus ombros, enquanto me puxava da cena médica no tatame.
— Ele… Ele vai ficar bem? — Perguntava um tanto curiosa, meio assustada também, olhando por cima do branco a equipe de paramédicos colocar uma máscara de oxigênio no rosto daquele garoto.
— Talvez ele precise de um doador de órgãos, quem sabe usar cadeira de rodas o resto da vida? — O homem mais velho dizia, como se fizesse contas depois das porradas que eu dei, então concluindo no final, olhando para a eu minúscula debaixo daquela jaqueta, segurando um troféu quase do meu tamanho. — Quem se importa?
Eu, definitivamente, não me importava. Não tanto quanto as outras pessoas. Ser menina naquele meio queria dizer que sempre iam me subestimar, é quando se é tão baixa e magra e parece tão frágil quanto eu, as pessoas desacreditavam ainda mais que eu pudesse ser algo além da menininha que todo mundo tem dó de machucar e ver chorar.
E no geral, eu tinha preocupações maiores, como convencer a assistente social que não, eu não estava morando sozinha e sem supervisão nos últimos meses, e que sim, eu sabia onde minha mãe estava.
— O trabalho dela… Exige muito do tempo dela e é por isso que a gente quase não se vê. — Digo com cuidado, rolando minha caixinha de suco de maçã nas mãos, enquanto a mulher mais velha na minha frente parece no mínimo preocupada. — Ela sai antes de acordar e volta quando estou dormindo… Por isso é tão difícil.
Bem. Ela saiu mesmo antes de eu acordar, e não voltou mais, depois de me dizer que tinha arranjado um emprego como garçonete em um cruzeiro e que se eu não me metesse com a Polícia e deixasse os vizinhos fora dos nossos negócios, eu ia ficar bem e não passaria por aquela visita do Conselho tutelar na nossa casa.
— Pedi ajuda pra senhora da casa do lado porque eu realmente não sabia o que fazer quando… Quando começou a sair fumaça do nosso micro-ondas. — O plano era fazer jantar quando se tem quinze anos e não sabe cozinhar direito e tem medo do fogão, não sabia que ia rolar aquilo tudo! — Mas eu tinha tudo sob controle.
— Quem tem que ter tudo sob controle, é a sua mãe, Claudia. Você podia ter morrido sufocada com a fumaça, até queimada dentro de casa. — Ela faz menção a parte da cozinha preta e ainda cheirando a lasanha vegetariana carbonizada, enquanto sugo meu suco com cara de choro. — Um homem de quarenta anos gerencia sua carreira como lutadora, você é uma figura pública e não aparece na escola a menos que ameacem te expulsar. Agora não tem uma figura parental pra te aconselhar, alguém que possa cozinhar pra você e te ajude com dever de casa. Qual foi a última vez que falou com alguém da sua idade ou foi convidada pra uma festa de aniversário, que não fosse pra bater em alguém ou um evento de Kung Fu?
Eu não tinha uma resposta, por isso comecei a chorar. Ruidosamente e desesperadamente, não só porque me sentia pressionada naquela conversa, mas porque me sentia pressionada e oprimida sobre tudo. Sobre estar sozinha por todos aqueles meses sem notícias, sobre não conseguir responder uma prova na escola sem me sentir idiota porque não assisti as aulas por estar muito ocupada treinando, sobre não ter com quem falar, conversar, e pedir conselhos. Sobre não ter alguém me esperando em casa, ter que cuidar das finanças sozinha, e sempre ser só eu e minhas pelúcias e bonecas morando naquele pedaço de casa.
— Você merece um lar, uma pessoa que cuide de você e puxe sua orelha pra fazer o dever de casa. Merece ter uma vida normal e tirar todo esse peso das suas costas. — A outra dizia, alcançando minha mão em cima da mesa, me confortando como ela podia. — E eu sei que recomeçar a vida aos quinze pode ser meio absurdo, mas pensei que ia ser o melhor pra você… Começar de novo, bem longe daqui.
No mesmo instante, como se fosse um sinal, o farol de um carro passou pelas janelas da cozinha, avisando que tinha alguém chegando. Eu corri pra ver quem era pelo vidro, mas não porque esperava ser minha mãe. Naquele estado, estava pronta e desesperada pra me agarrar a qualquer coisa e não me deixar afundar naquela confusão que não tinha sido culpa minha.
Do lado de fora, sentada no capô de um carro estiloso mas meio antigo, estava minha tia, que eu conhecia por Elodie, ou desgraça da família, e exilada também.
— Sua tia foi a única parente que conseguimos contatar, pelo menos aqui nos Estados Unidos. — A assistente começa a me explicar, antes de prosseguir. — Seus avós estão na China, e no e-mail…
— Provavelmente disseram que eu tenho que me criar sozinha, como todos os nossos ancestrais em tempo de guerra. — Suspirei com o nariz grudado no vidro da janela, porque tia Elodie conhecia bem aquilo, depois de se assumir e ser expulsa de casa quando tinha minha idade, segundo minha mãe. — Eles não vão sair de Pequim mesmo se eu estiver morrendo de fome.
— Sua tia parece ser mais, gentil, eu acho. Ela veio assim que chamamos ela. Pareceu bem preocupada.
Só não parecia de verdade, pelo menos no rosto dela. Ela ainda me ajudou a separar minhas roupas e colocar nas minhas malas, e até deixou eu pegar minhas pelúcias favoritas e me ajudou a carregar meus troféus pro porta malas dela. Tudo sem dizer uma palavra, nem me questionar, só falando uma vez ou outra que era muito pesado e ela não queria que eu me machucasse.
Só dei uma boa olhada na minha tia Elodie, quando fechados a porta do porta malas e suspiramos juntas.
Metade do cabelo dela tinha sido raspado, a maquiagem dela era super artística e parecia o trabalho de uma profissional, mas as roupas dela… Parecia um monte de peças super largas e gastas da sessão masculina de um brechó feio.
— Achou isso no lixo? — Disse sem mais nem menos, mais rápido do que pensei, olhando pras minhas próprias roupas, que consistiam em um vestidinho rosa de alcinha cheio de margaridas e uma bota branca. E a gente assinava mesmo o mesmo sobrenome?
— Olha… Que tal a gente jogar um jogo? — Elodie diz batendo palmas, depois de me julgar um tanto com o olhar. — Você fica calada até a gente chegar em Los Angeles, pra eu processar essa situação toda sobre adotar uma garota de quinze anos, e ai a gente se conhece depois de eu beber.
— Mas eu não sou cachorro pra você ter que aprender…
— Claudia, o jogo já começou.
Nada sobre perguntar sobre o clima, como meu quarto novo ia ser, onde ela pretendia me matricular e quais eram os gostos dela. Pelas próximas horas, eu ia ser um pedaço de gente, emburrado e encolhido no banco do passageiro.
— Ouvi dizer que você curte competir em lutas… — Elodie parece interessada olhando o retrovisor quando da partida, antes de se voltar a mim. — Teu treinador sabe que agora ele ta desempregado?
Eu tinha esquecido dele. Puta que pariu. Existia Kung Fu em Los Angeles?











