Grace tremia como uma folha, sentada no banco gelado do campo de paintball ao ar livre. Os dentes batiam tão forte que ela temia partir um molar. O vapor saía de sua boca em nuvens rápidas, denunciando o quanto seu corpo tentava desesperadamente gerar calor.
Era inverno. Ela continuava se perguntando por que diabos estavam fazendo o tradicional jogo anual da equipe agora, se sempre faziam no verão. Melissa havia dito que talvez não tivessem outra chance depois da guerra contra Apokolips.
Grace, enfiada em cinco camadas de roupa, bufou alto.
— Isso não faz o menor sentido… todos vão sair vivos, a gente podia fazer isso em junho… — murmurou para si mesma, enfiando o rosto dentro da gola do casaco.
Enquanto massageava os braços, ela ouviu passos pesados na neve endurecida. Maximus passou por ela, trajando apenas uma camisa preta justa e uma calça de moletom vermelho-escura. Seus ombros largos nem sequer estremeciam. Ele segurava a arma de paintball com uma expressão concentrada, a estudando antes da partida.
— Você não tá com frio?
— Meu anel cria uma camada de calor ao redor do meu corpo. — Maximus ergueu o anel vermelho que brilhava em seu dedo.
Grace não pensou duas vezes antes de levantar do banco e pular em cima dele, o agarrando como um coala se agarra a um tronco de árvore. O contraste foi tão maravilhoso que ela soltou um suspiro de alívio.
Maximus parou no ato, sem tropeçar ou cambalear. Apenas ficou imóvel, sustentando o peso dela como se fosse nada, e então a encarou com uma sobrancelha erguida.
— Por favor, eu vou morrer! — ela implorou, fazendo seus melhores olhos de cachorrinho pidão.
O Lanterna apenas revirou os olhos e continuou andando, a levando consigo como uma mochila. Eles se aproximaram do ponto de partida, onde Melissa ajustava o restante do equipamento: Máscara, colete, granadas de tinta extras.
— Eu vou querer saber? — a Wayne perguntou, encarando os dois.
— Ele tá quentinho. — Grace respondeu, agora sem se tremer.
Melissa lhe concedeu exatamente um segundo de atenção antes de se voltar para Maximus.
— Você precisa de ajuda com essa arma?
— Isso é primitivo demais para eu não entender. — Max respondeu, com desdém.
— Vou te mostrar exatamente o quão primitivas essas armas podem ser.
— Mas vocês estão no mesmo time — Grace lembrou, não entendendo aquela rivalidade entre eles logo agora.
Melissa virou de costas e saiu a passos pesados e irritados. Grace olhou para Maximus, que observava a morena se afastar com um pequeno sorriso de canto. Aquilo a fez soltar uma risadinha contida.
— Cara, você tá super apaixonado.
Maximus segurou o capuz do casaco dela entre dois dedos e, em um movimento fluido, a ergueu para longe de si, deixando Grace flutuar por um instante como um gatinho levado pela nuca. O calor sumiu imediatamente e a loira entrou em desespero.
— Não, não, Max! Por favor, tenha piedade da minha alma!
Mas antes que pudesse terminar, ele a soltou sobre uma pilha de neve, a fazendo aterrissar com um som surpreso alto. Depois disso, Max apenas seguiu em direção ao campo. Grace ficou ali, enterrada no gelo, levantando um braço trêmulo para o céu em um pedido silencioso de ajuda.
Ainda estava caída na neve quando ouviu passos leves se aproximando. Ergueu o olhar e encontrou Malik parada ali, com as mãos nos bolsos do casaco fino demais para aquele frio assassino que estava acabando com a velocista. Grace sabia que a atlante era bem mais resistente à baixas temperaturas, mas aquilo era um exagero.
— Vem sempre aqui, gatinha? — Malik brincou, sorrindo.
Ela se abaixou com um movimento elegante e ajudou a namorada a levantar, a envolvendo num abraço firme que deveria aquecer, mas, para Grace, parecia que seu corpo havia decidido sentir duas vezes mais frio.
— Eu tô morrendo… Acho que talvez eu nem jogue. — murmurou, com voz trêmula, fungando forte.
— Não fala bobagem. — Malik ajeitou o cachecol de Grace com carinho. — Se quiser, posso pedir pro Joe comprar um chocolate quente pra você.
Grace seguiu o olhar da namorada até Joe, que estava do lado de dentro da sala de equipamentos, apoiado na janela aberta, observando todos com sua aura calma de sempre. Ela assentiu, derrotada, e Malik deu um beijo suave em sua testa antes de ir falar com o Lanterna Azul.
O campo começava a se encher. O time de Daerys tinha Apolo, Nicolle, Malik, Damian e Cassandra, enquanto o de Grace tinha Maximus, Melissa, Yuki, Duela e Tony. Ela não se importava muito com quem venceria, só queria que acabasse logo, mas tinha certeza de que a competitividade absurda de Melissa e Maximus complicaria tudo.
Alguns minutos depois, Malik voltou segurando uma caneca térmica e estendeu para a namorada. Assim que o aroma quente e achocolatado chegou até Grace, ela quase chorou de felicidade. O calor se espalhou por dentro dela ao primeiro gole, derretendo parte da miséria.
— Obrigada, meu amor! Minha vida! Mulher perfeita!
— Boa sorte, querida. — Malik sorriu, deu um selinho rápido em seus lábios e colocou a máscara protetora.
Grace a observou se juntar ao time adversário enquanto caminhava devagar para não escorregar em direção ao seu lado do campo. O resto do seu time a encarava enquanto ela bebia seu chocolate quente com cuidado e gosto.
Duela era a visão do caos encarnado, com várias granadas de tinta presas no torso, o rosto pintado com pinceladas agressivas de azul e rosa. Parecia uma guerreira tribal prestes a invadir uma fortaleza inimiga. Era o primeiro paintball dela, que Deus tivesse piedade de todos.
— Pessoal, eu amo vocês, mas não tô em condições de liderar.
— É bom você não fraquejar só porque a Malik tá no outro time — Melissa disse, estreitando os olhos.
— Eu tô congelando nesse inferno! — Grace inflou as bochechas, emburrada.
Melissa assumiu o comando da equipe, o que permitiu que a loira terminasse sua bebida quente enquanto planejavam uma estratégia.
— Tony vai ficar na parte alta, como sniper, Duela vai ser a distração e Yuki vai ser a agente furtiva para pegar aqueles que estiverem desprevenidos. O Pimentinha Cósmica e eu vamos focar na Daerys e no Apolo, que são os mais fortes, mantendo eles ocupados.
— Eu posso ficar escondida numa daquelas caixas até acabar? — Grace perguntou, levantando a mão.
— Não. — Melissa respondeu. — Você é quem vai mudar os planos caso tudo dê errado. Seu raciocínio é mais rápido que o nosso.
Grace gemeu como se estivesse sendo torturada e colocou a máscara de proteção. Se posicionou atrás de uma árvore, agarrando sua arma contra o peito e fazendo o possível para se concentrar.
A única regra era que não podiam usar poderes, o motivo para Scott ter sido banido dessa edição, já que ele, mais de uma vez, trapaceou fazendo a neve agarrar os pés do time adversário. Apesar disso, qualquer outra habilidade que tivessem poderia ser utilizada, o que tornava o jogo bem mais sério do que deveria ser.
Quando o apito soou, ela espiou seu time, colocando apenas parte da cabeça para fora da cobertura. Melissa e Maximus avançaram primeiro, tomando uma posição atrás de alguns barris de metal vazios. Yuki desapareceu entre as caixas de madeira e Grace ficou assustada com a velocidade que ela conseguiu sumir de sua vista. Duela esperou antes de correr em direção ao campo inimigo como um tanque de guerra colorido e já lançou duas granadas em direção ao nada. Tony subiu em uma árvore mais para dentro do campo deles, camuflado em meio às folhas restantes.
O primeiro confronto foi, para a surpresa de ninguém, entre Tony e Damian, já que o ex assassino conseguiu ver o detetive em seu ponto escondido facilmente. O primeiro disparo que ele fez cruzou o campo com um estalo elástico cortando o ar, uma linha que passou de raspão pela orelha de Tony antes de explodir em um tronco atrás dele.
Por causa de sua noção de tempo mais acelerada, Grace viu tudo em câmera lenta e engoliu seco. Um pouco mais e Tony teria despencado da árvore, e provavelmente essa foi a intenção de Damian.
Ele continuou atirando, sem deixar Tony ter chance de revidar, até que um movimento atravessou a lateral da visão de Grace, um borrão que mais parecia uma ilusão de ótica. Yuki surgiu sem emitir qualquer ruído e disparou três tiros contra Damian, que conseguiu desviar de dois, porém o terceiro atingiu seu ponto cego na lateral do torso e ele estava fora.
Grace desviou o olhar para a esquerda, onde Nicolle e Duela haviam se encontrado no centro do campo. Nic atirava contra a outra, que corria em zigzag e pulava sem disparar um único tiro de volta. Duela, então, atirou duas granadas e a morena precisou pular para fora do caminho, mas ainda recebeu respingos de tinta azul e rosa.
Ela pareceu levar aquilo como um desafio, pois pegou suas próprias granadas e jogou em direção a Duela, que atirou mais uma com precisão contra elas. As três explodiram no meio do caminho, criando uma nuvem enorme de cores verde, azul e roxa.
Quando a poeira colorida assentou, as duas estavam estiradas no chão, completamente cobertas de tinta, só dava para ver o formato dos corpos sobre a neve. Elas começaram a rir sem parar enquanto Duela berrava:
— De novo!
Melissa passa pelas duas, as ignorando conforme continuava seu confronto de tiros contra Malik, que estava arrasando, na opinião de Grace. Sua namorada desviava dos tiros facilmente e, com seu casaco branco, se camuflava facilmente na neve, sem medo de deitar nela por não sentí-la queimar como outras pessoas.
Observar sua namorada a fez esquecer por um segundo o que estava acontecendo, mas ela logo foi trazida de volta à realidade quando Melissa acabou pisando em um buraco no meio do campo e caiu, com o tornozelo preso. O local sem cobertura alguma a tornava um alvo fácil, e Grace saiu de onde estava para tentar ajudar.
Maximus chega primeiro e, deslizando sobre a neve, usa seu corpo como um escudo para impedir que os tiros de Daerys e Malik acertem Melissa. Ele ficou com as costas do colete completamente pintadas de azul, mas Mel continuava intacta.
— Você é estúpido?! Por que fez isso? — a Wayne questionou, se colocando de pé.
— De nada, Cupcake. Na próxima, vê se presta mais atenção — ele tirou o capacete e andou para fora do campo.
— Que romântico! — Cassy berrou do outro lado do campo e Melissa, sem olhar, acertou um tiro no meio do visor dela, que apenas soltou um gritinho e caiu sentada no chão.
Grace aproveita que saiu de sua posição para procurar algum lugar onde o vento não estivesse tão forte. Mesmo sem usar seus poderes, sua mente ainda funcionava muito mais rápido do que a da maioria, então, conseguiu atravessar o campo andando sem ser atingida, esperando o momento certo para deixar as balas de tinta passarem para chegar ao outro lado.
Melissa coordenava os membros restantes do time, direcionando eles para lidar com Apolo e Daerys. Enquanto ela fazia isso, Tony foi atingido por Apolo, que havia subido em outra árvore para vê-lo. Agora, restavam apenas três pessoas em cada time, e Grace estava torcendo para acabar logo e ela poder tomar outro chocolate quente.
Felizmente, a batalha parecia acirrada mais a frente e o outro time esqueceu que Grace estava sentada atrás de um dos barris de metal. Ou, pelo menos, foi o que ela pensou.
Ouviu um barulho vindo de um amontoado de neve a alguns metros, mas não enxergou nada de suspeito ali, até Malik pular para fora, sem sua máscara preta de proteção e sem colete. Grace ficou tão surpresa que só percebeu segundos depois que havia sido atingida.
— Há quanto tempo você tava ali dentro? — Grace perguntou, aceitando a ajuda da namorada para se levantar.
— Menos de um minuto — Malik sorriu ao ver a expressão de descrença da loira.
Ela não aguentava ficar naquela neve sem proteção por cinco segundos, quem dirá um minuto!
— Agora vai lá pra dentro se aquecer — ela piscou, beijando o topo da cabeça de Grace e dando um leve tapa em sua bunda para que ela andasse logo.
Grace deveria estar triste por ter perdido, mas estava quase se ajoelhando aos pés de sua namorada e a agradecendo por acabar com seu sofrimento.
Dentro da cabine, os outros assistiam ao resto do jogo. Eventualmente, Malik também levou um tiro de Yuki, mas ela e Melissa não foram o suficiente para parar Apolo e Daerys, que conseguiram derrubá-las, vencendo aquele round.
Quando eles voltaram, Grace já estava com um cobertor térmico ao seu redor, bebendo seu terceiro chocolate quente e completamente confortável em um banquinho perto do aquecedor.
— Ok, vamos de novo. Dessa vez, quero estar no time oposto desse idiota — Melissa anunciou, apontando para Max.
— O idiota aqui impediu que sua falta de coordenação te matasse.
— Eu não precisava de ajuda!
Os dois continuaram a discutir conforme Grace choramingava, não querendo deixar o calor por nada. Percebendo isso, Malik se vira para Scott, que está entediado mexendo em algumas armas.
— Vai substituir a Grace no próximo round.
— Vão me deixar voltar? — o Atlante perguntou, animado.
— Se tentar trapacear, vou acertar sua bunda grande com uma granada de tinta — ela alertou.
— Isso é jeito de falar com o seu rei?
— Perdão, vossa alteza. Sua grande bunda real.
— Acho bom mesmo — ele sorriu, bagunçando o cabelo dela conforme passava.
Então, Malik se aproxima de Grace, que a puxa para um beijo e agradece mil vezes. Ela iria casar com aquela mulher algum dia, disso ela tinha certeza.


















