Um dia/noite em que Zoe e Miles perderam completamente a noção do tempo juntos.
um dia/noite em que eles perderam completamente a noção do tempo juntos
O céu da noite estava fresco, cheio do cheiro de grama e terra molhada. Miles estava deitado de costas, com a nuca apoiada no tronco de árvore seco e áspero que servia de travesseiro. Zoe estava deitada sobre ele, com a cabeça apoiada confortavelmente no seu peito. Ele adorava sentir o peso quente e familiar do corpo dela, o movimento suave de sua respiração. Uma de suas mãos estava apoiada nas costas dela, traçando círculos preguiçosos no tecido da jaqueta de couro que ela usava
Acima deles, o céu era uma explosão de estrelas, um manto salpicado de pontos de luz que pareciam tão infinitos quanto o tempo que ele passava ali.
— Você acha que elas têm nomes? — Zoe perguntou. — Quer dizer, a gente dá nomes pra elas, mas será que elas têm nomes próprios?
— Eu acho que elas não são conscientes o suficiente para criar nomes para si. — Miles deu uma risada. — Mas se elas preferirem ser chamadas de outra coisa, podemos perguntar pro namorado novo da Mel.
Ela girou ligeiramente a cabeça, virando o rosto para cima, para o rosto dele. O brilho nos olhos azuis sendo muito mais perfeitos para ele do que qualquer estrela.
— E se uma delas se chamar Shirley?
Miles soltou uma risada com o comentário e depositou um beijo no topo da cabeça dela.
— Eu te amo.
— Eu tô falando sério! — ela também riu, o abraçando com mais força, apontando para as estrelas que ela pensava qeu tinham certos nomes.
Alguns minutos se passaram, até que Zoe voltou a encará-lo.
— Ei, você acha que eu tenho te deixado de lado?
A pergunta pairou no ar por um segundo. Ele franziu o cenho, tentando processar o que ela queria dizer.
— Como assim?
— A gente nunca mais fez isso. Só a gente, sem missões, sem problemas pra resolver. A maior parte do tempo, quando estamos juntos, é porque tem algo acontecendo.
Um sorriso lento e genuíno se espalhou por seu rosto. Ele apertou a mão dela de volta e usou a outra para acariciar suavemente seu braço.
— Minha linda, perfeita e maravilhosa namorada, — ele a encheu de beijos pelo rosto a fazendo soltar um gritinho surpreso e empurrá-lo levemente, porém sem intenção real. — Você é a líder da equipe, isso é uma tonelada de responsabilidade. Além disso, geralmente sou eu quem coloca a equipe em problemas. É meu lado Constantine de ser, então se não temos tempo juntos fora da equipe, é culpa minha.
— Não é algo ruim pra mim, você sabe. Essa coisa dentro de mim me faz querer ação e caos o tempo todo — Zoe se ergueu levemente para encará-lo melhor. — Eu só não quero te deixar de lado por causa disso.
— Para a sua sorte, eu sou um agente do caos. Não somos um casal normal, então acho que matar vampiros e exorcizar demônios é o que podemos considerar romântico no nosso ramo.
Os olhos dela se suavizaram, a preocupação dando lugar a algo mais apaixonado. Miles se inclinou para frente e pressionou os lábios contra os dela, sentindo a mesma conexão que sempre sentia quando estavam próximos assim. Desde que eram crianças, ele sabia que ela era sua alma gêmea, alguém que viveria e morreria com ele. Tinha sorte de tê-la encontrado em um mundo tão cheio de pessoas que jamais conheceriam aquela sensação de completude.
Então, um grito rasgou o silêncio da noite, cheio de pavor. Depois outro, e outro. Miles interrompeu o beijo, a expressão relaxada se transformando em alerta em um instante.
A cerca de duzentos metros dali, no fim do campo, ficava a pequena igreja da cidade, uma construção antiga de pedra, com um pequeno campanário e vitrais que agora brilhavam com uma luz interna que não era natural.
— Parece que o padre possuído tá surtando, como você disse que aconteceria. — Zoe comentou, nem um pouco surpresa.
Eles haviam ido até aquela pequena cidade no meio do nada quando Hope usou o medalhão de Jasper Winters, percebendo uma atividade sobrenatural maligna nela. Os dois tentaram convencer os cidadãos a deixá-lo exorcizar o espírito que vivia ali, porém foram taxados de pagãos e expulsos da igreja.
— Acho que perdemos a noção do tempo. Estamos aqui há duas horas — Miles riu, encarando seu relógio. — Vamos ver se você estava certa, e estamos lidando com um demônio.
Ele se levantou, limpando sua própria jaqueta de couro que estava com vários pedaços de grama nela.
— Eu sei que é um demônio. E quando você perder a aposta, vai ficar me devendo um item mágico raro.
Ele bagunçou o cabelo dela, logo em seguida correndo em direção a igreja para fugir da tentativa de chute que ela deu na direção da bunda dele.
— Preciso de ajuda? — Zoe gritou ao fundo.
— Não preciso, em dez minutos resolvo!
Ele alcançou a porta de madeira da igreja, ouviu o som abafado de mais gritos e objetos sendo derrubados lá dentro. Colocou a mão no bolso, sentindo o peso de alguns dos seus pequenos artefatos, e empurrou a porta pesada. O interior estava banhado por aquela luz laranja, que agora via ser emitida por velas negras espalhadas pelo altar e pelos bancos.
No ar, flutuando a uns dois metros do chão, estavam seis moradores da cidade. Homens e mulheres, com os olhos arregalados e bocas abertas em gritos silenciosos de terror. E no centro de tudo, diante do altar, estava o padre.
Só que não era mais o padre. A criatura devia ter uns três metros de altura. Sua pele era de um vermelho escuro, craquelada como lava resfriada. Tinha quatro braços, cada um terminando em garras longas e curvas, e sua cabeça era uma massa disforme de chifres retorcidos que se projetavam em todas as direções. Dos olhos, dois buracos negros e profundos, emanava uma fumaça espessa e escura. A coisa estava com a boca aberta, murmurando em uma língua antiga que doía nos ouvidos de Miles.
Ele se virou lentamente, ainda segurando a porta, e viu Zoe parada a alguns metros, o observando com uma sobrancelha arqueada.
— Talvez meia hora.
Zoe balançou a cabeça, um sorriso divertido surgindo em seus lábios. Ela já estava andando em sua direção, os punhos cerrados e a energia mágica começando a crepitar ao redor deles.
— Você perdeu — ela disse ao passar por ele, entrando na igreja.
Miles sorriu, pois não havia nada melhor que destruir demônios com a mulher que amava.














