Escadarias sem fim.
O dia não importa.
O horário também não.
Quem sou eu? Eu sou você.
Chegando em casa depois de um dia fatigante em meus afazeres chego em casa, trôpego de
cansaço vou me arrastando passo a passo em direção a meu lar; abro o portão principal de
onde moro, vejo que por infelicidade está sem energia elétrica, são nove andares de escadas.
Ao abrir a porta corta-fogo vejo as escadarias, frias e escuras, iluminadas somente por uma luz
de emergência muito falha, ligo a lanterna do celular e o prendo em um bolso na alça da
mochila e assim ilumino o caminho.
Subindo os primeiros degraus de concreto frio e pintado de um vermelho terra vou subindo
passo a passo, ouvindo o som melancólico e cadenciado de meus sapatos ao chão, apoiando a
minha mão direita no vão central e subindo lentamente em sentido horário vou pensando
no que me aguarda em minha casa, um bom banho, comida de ontem na geladeira, alguns
programas de televisão e uma noite de descanso.
Chegando no primeiro andar, vejo a porta branca e pesada com um imenso número 1 pintado
em azul, continuo a subir cada vez mais, o ambiente gélido e solitário destas escadas não
costumam me amedrontar, mas neste dia a sensação claustrofóbica começou a me afetar.
Por volta do terceiro andar, vejo um homem sentado aos degraus, ele parece triste e abatido,
soluçando e gemendo por algum tipo de dor, não que eu seja um bom vizinho ou ao menos me
importe muito com eles, mas já que estamos subindo as escadas decidi ser solícito.
-Olá vizinho boa noite, está tudo bem com você?
Grande erro meu, ao olhar para seu rosto qualquer um ficaria muito espantado,
principalmente pois nele não havia rosto, apenas a sua cabeça de face lisa, com sombras onde
deveriam ficar seus olhos e boca, sem sobrancelhas nem barba, uma coisa tinha, gemidos de
onde deveria ter sua boca e lagrimas de onde deveriam ter seus olhos, ele me viu, ele me
reconheceu, ele esticou seus braços e tentou me alcançar enquanto eu corria pelas escadas
subindo o mais rápido que podia.
Suando e arfando olho pelo vão do meio das escadarias para ver se ele estava me alcançando
ou se mantivera no mesmo lugar, entro por um corredor escuro, com som metálico ao chão,
canos velhos e enferrujados no teto e goteiras por todo o canto.
-Corredor?
-Canos enferrujados?
-Goteiras?
Não deveria haver corredor algum no quinto andar, somente o hall para os apartamentos!
Onde eu estou? Eu não sei, me sinto compelido a sentar e descansar, mas não posso, não com
o homem sem rosto a alguns andares abaixo, ouço passos, ouço gemidos ele está chegando!
Me ponho a correr sem mais tentar entender o que está acontecendo.
Passos inúmeros passos, sons de crianças brincando, olho em volta, paredes de pedra, chão
imundo e molhado, tudo escuro, somente a luz de meu celular para me mostrar o caminho,
vultos se criam a minha volta pelos cantos como mendigos deitados invisíveis em suas
calçadas, mais passos, eles estão se aproximando, corro mais rápido.
Quando menos percebo estou correndo entre crianças, o número não sei dizer, todas sujas e
maltrapilhas, cabelos desgrenhados e narizes escorrendo, sorrindo apesar de tudo, pareciam
se divertir, quando uma delas me disse.
-Tio é melhor correr, ou ele vai te pegar!
No momento que a criança termina de dizer isso, meu coração gela como o vento mais gélido
do ártico, um urro gigantesco, vindo de todos os lados, um barulho ensurdecedor e opressor,
ao me deparar com tal vil criatura, impossível de se descrever de forma diferente a uma bola
de garras e dentes com suas patas enormes começa a trotar em nossa direção, a lanterna mal
iluminava o caminho, eu podia sentir seu bafo quente em meus cabelos e nuca, sentia o peso
de seus passos atrás de mim, deveria pesar ao menos uma tonelada, as crianças corriam ao
meu lado fugindo da criatura, elas sorriam, provocavam, gritavam de alvoroço, até que uma
delas é pega, esta estava particularmente próxima a minha direita, não tive coragem de olhar
para trás mas ouvia carne sendo rasgada e os gritos dela se calando enquanto seu crânio era
esmagados por imensa bocarra, poucos segundos depois sentia novamente o monstro a correr
atrás de todos, parecia com mais vontade, com mais sanguinolência em seu frenesi alimentar,
ao longe eu podia ver grades e balanços semelhantes a um playground, me pus a correr em
direção ao trepa-trepa, com uma agilidade que desconhecia até então me enfiei entre os
canos, ouvi as garras daquele monstro se bater contra as grades e sua bufada de frustração em
seguida, não tinha coragem de encara-lo mas sabia que ele estava rodeando e procurando um
meio de entrar.
Fecho os olhos, eu rezo, peço para todos os deuses que conheço para me tirar dali e quando
abro os olhos a última coisa que vejo são seus dentes se cravando em minha face.
Tudo escuro, a dor que não sinto é bem estranha, meu corpo flutua em uma imensidão vazia,
não sinto peso algum, sem sons a volta, meu corpo não dói.
Um som alto rompe o silêncio, um alarme toca, estridente, machucando os ouvidos me
compelindo a levantar, abro os olhos, olhando confuso em volta, vejo meu relógio de
cabeceira marcando 6:15, seus gritos ensurdecedores tentando me acordar me dizendo que
um novo dia acabara de começar.
Um sonho, começo a rir, coçando a cabeça, aliviado de tudo isso ter sido um sonho me levanto
para ir ao banheiro e ao olhar o espelho o maior espanto, estou sem rosto.