A Geometria do Desastre
Capítulo 1: Ângulos de incidência
O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada e estática. A única luz vinha da televisão ligada, quase no mudo, uma sucessão frenética de imagens que lavavam as paredes descascadas e a tua pele com um brilho pálido e elétrico. O som do mundo tinha sido devorado pelo chiado quase inaudível dos alto-falantes e pelo estalo ocasional do cigarro que eu segurava entre os dedos.
Eu estava sentado no chão, encostado na lateral da cama, as pernas esticadas sobre o carpete gasto. Você estava sentada na beira do colchão, logo acima de mim, com uma garrafa de cerveja pendurada entre os joelhos, observando as imagens mudas da TV como se tentasse ler o futuro nelas.
A paz que você me traz é uma desgraça. É o tipo de silêncio que faz o barulho do mundo lá fora parecer uma piada de mau gosto. Mas, ao mesmo tempo, ficar aqui, nesse raio de alcance dos teus braços, é como brincar de roleta-russa com o tambor cheio.
Eu dei um trago longo, a brasa do cigarro iluminando meu rosto por um segundo antes de eu soltar a fumaça na direção da tela.
— Você me olha como se eu fosse um acidente de carro — você disse, batendo no vidro com um dos anéis dos seus dedos. — Com horror, mas sem conseguir desviar o olho.
— É pior que isso — respondi, e minha voz saiu como um lamento seco, arranhando o silêncio do quarto. — Eu olho para você e sinto uma paz que me dá nojo de tão profunda. É o tipo de calma que um condenado sente quando vê a corda. Eu finalmente parei de lutar
Você soltou uma risada curta, sem ponta de alegria, os olhos ainda fixos no brilho azul da televisão.
— E isso te assusta? Sentir-se seguro comigo?
— Me apavora. Porque a segurança que você me dá é a de uma cela trancada por dentro. Eu sei que nada do mundo lá fora pode me tocar enquanto eu estiver aqui, mas eu também sei que, se você decidir me destruir, eu não tenho para onde correr. O que eu sinto por você tem dentes, e eles estão cravados no meu peito agora mesmo, mastigando devagar.
Inclinei a cabeça pra trás, batendo-a levemente no colchão.
— A paz é um pântano — continuei, as palavras saindo arrastadas, pesadas. — E eu estou afundando. O problema é que eu gosto do cheiro do lodo.
Você se moveu. Escorregou da cama para o chão, ficando de joelhos na minha frente, bloqueando a luz da TV. Sua silhueta ficou escura, contornada por aquele brilho fantasmagórico. O cheiro do seu perfume e fumaça me atropelou. Você tocou meu rosto com os dedos frios e eu fechei os olhos por um segundo. Derrotado.
— E o que esses dentes querem, então? — você sussurrou. A tua voz era a única coisa real no mundo.
Eu abri os olhos. Você estava perto demais. Bonita demais. Perigosa demais.
— Eles querem tudo. Querem rasgar essa tua blusa… marcar tua pele… ter certeza de que você é real e não um delírio desse uísque que tomei mais cedo.
Aproximei meu rosto do teu pescoço, sentindo o calor da tua pele.
— O meu desejo por você não é poesia bonitinha. Não é para ser lido em voz alta num sarau. É uma carnificina. Quero te desmontar peça por peça até encontrar a linha exata onde a tua calma de vitrine quebra e o meu instinto primitivo assume o controle.
Seu olhar brilhou. Não de medo. De desafio. De fome.
— Então por que você ainda está aí… falando? Por que está tentando colocar nomes em coisas que não têm nome?
— Porque estou decidindo se te beijo ou se te peço pra ir embora antes que não sobre nada de mim que eu reconheça no espelho.
— Você fala demais para quem está com tanta fome — você sussurrou, e eu senti a ponta dos teus dedos cravando de leve na pele do meu braço, um aviso silencioso. — Me diz, o que te assusta mais? A possibilidade de eu te destruir ou o fato de que você não vai mover um dedo para me impedir?
Você largou a garrafa de cerveja no carpete e eu apaguei o cigarro, sem tirar os olhos dos teus.
— O fato de que eu já aceitei a destruição. O meu desejo por você não é humano, é animal. É uma fome de osso, de tendão, de suor. Eu olho para você e não vejo uma pessoa, vejo o meu fim. E eu nunca quis tanto morrer quanto agora.
Eu segurei o teu rosto com as mãos brutas, sentindo a linha dura da tua mandíbula sob os meus dedos. Eu queria apertar até quebrar ou até que a gente se fundisse em uma coisa só.
— Eu te odeio por ser o único lugar onde eu consigo respirar — eu disse, a voz trêmula de ódio e necessidade. — E eu me odeio por querer que você me sufoque.
Você sorriu, e no reflexo da luz azulada, eu vi que o teu bicho também estava acordado. Um espelho da minha própria ruína.
— Então para de lutar — você murmurou, puxando minha nuca. — E aceita que nascemos pra nos devorar.
Eu te puxei para baixo, com a urgência de quem sabe que não tem salvação, sentindo o peso do teu corpo como se fosse a tampa de um caixão que eu mesmo ajudei a fechar. Não havia mais nada além daquele som de carne contra carne e da tua voz rouca no meu ouvido. No limite do que é humano, entre o gosto da cerveja e o cheiro do teu pescoço, eu deixei que você me desmantelasse, que me abrisse ao meio. Naquele instante, eu entendi que a paz era apenas o nome que a gente dava para o momento em que parava de resistir à queda.
E eu finalmente parei de tentar sobreviver.