Manifesto contra a moda de se falar mal do Brasil
Sim, o Brasil tem problemas, são medonhos e não são um exemplo de desenvolvimento e justiça social, mas, com perdão da má palavra, já ando de saco cheio desse negócio de tudo aqui ser o pior do mundo, ninguém aqui prestar e nada aqui funcionar e sermos culpados de tudo o que de ruim acontece na Terra. Saco cheiíssimo de sair do Brasil e enfrentar ares de superioridade e desprezo por parte da gringalhada, todos nos olhando como traficantes de cocaína, assassinos de índios e crianças, corruptos natos e mais uma vasta coleção de outras coisas, a depender do país e da platéia. [...] Não nego os problemas brasileiros, mas me recuso a aceitar que sejamos os únicos vilões e que não se veja em nós nenhuma qualidade positiva.
Um jornal noticiou que matam 200.000 crianças por ano no Brasil. Isso é uma barbaridade! O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Não sei o número certo, mas matam-se crianças no Brasil, é verdade. E concordo, é uma barbaridade! Mesmo que fosse uma só criança, já seria demais. Entretanto, aqui mesmo em seu país, não faz tanto tempo assim, esse número que o senhor citou talvez fosse uma estimativa conservadora não por anos, mas por dia. Sei que o senhor é de uma geração pós-guerra, não tenha nada com isso, nada disso reflete sobre seu povo e, se formos cavoucar muito, é capaz de vocês descobrirem que Hitler tinha uma avó alagoana e é por isso que deu naquilo. As coisas não são tão simples e, a depender das circunstâncias, qualquer povo é capaz de matar criancinhas, seja apertando botões de bombas, o que não fazemos no Brasil, seja dando no gatilho mesmo, o que, como vocês, também fazemos no Brasil.
Como se explica o extermínio dos índios brasileiros?, pergunta um americano.
Do mesmo jeito que o extermínio dos índios americanos. Por causa da ganância, brutalidade, arrogância, ignorância que são encontradas em nossos povos. Devo dizer, contudo, que o exército brasileiro nunca saiu tocando corneta a cavalo para metralhar índios, índias, indiazinhas em suas aldeias, nem enforcou índios, nem escalpelou índios (o costume de escapelar foi aprendido pelos índios de vocês), nem mandou cobertores contaminados por sarampo e catapora de presente para os índios.
Como é que o senhor pode ser escritor em um país de analfabetos?
Porque, ainda que mal e porcamente, é a única coisa que sei fazer. E porque todo o povo tem sua literatura. Me fazem muito essa pergunta e fico pensando que, por sermos pobres, não temos direito a nossos romances, nossas fantasias, nossos artistas, o que parece estar implícito na pergunta. Só podemos ter pintores de parede, bailarinos folclóricos, escultores de cerâmica, redatores de relatórios, compositores de música didática e assim por diante, ou seja, devemos ser mais pobres ainda. Mas, de minha parte, vou continuar escrevendo.
E tem muito, muito mais: não fomos nós os devastadores das bombas de Hiroxima e Dresden, não fomos nós os opressores da maior parte do globo terrestre, não fomos nós os massacradores dos hindús, árabes, judeus, muçulmanos, curdos, armênios, chineses, indonésios, vietnamitas, zulus e uma lista que não acaba nunca. Não somos nós os queimadores de quase todo o combustível fóssil do planeta, não somos nós... Chega desse negócio, eu não sou bandido, nós não somos bandidos, nós somos brasileiros, eles que vão se catar, enfurnados lá no frio escuro e triste deles.