Tradução dos resumos, presentes no final de cada capítulo, do livro “Gender Trauma: Healing Cultural, Social, and Historical Gendered Trauma” de Alex Iantaffi.
Capítulo 1: Como chegamos até aqui?
• Gênero é uma ampla construção biopsicossocial que engloba aspectos de experiência, expressão, identidade e papel de gênero.
• Colonização de povoamento é um projeto colonial contínuo, no qual o objetivo des colones é criar estruturas que ao longo do tempo lhes permitam substituir as populações indígenas que antes habitavam o mesmo espaço.
• Nossa compreensão atual de gênero é impactada de modo profundo pelas práticas coloniais de povoamento, uma vez que historicamente, em muitas culturas indígenas, esse conceito estava mais relacionado à expressão, à identidade e ao papel de gênero do que à biologia.
• Controlar corpos, cultura, espiritualidade, gênero, linguagem e relacionamentos é essencial nos estados coloniais.
• Uma dicotomia de gênero rígida é um aspecto do trauma histórico, com o impacto do apagamento de pessoas com expressões de gênero expansivas sendo sentido por indivíduos de todos os gêneros, apesar do jeito como somos afetades não ser o mesmo.
• Essencialismo de gênero é a ideologia que afirma que “homens” e “mulheres" têm certas características inerentes ao seu sexo, atribuído ao nascimento.
• A ideia central do essencialismo de gênero repousa sobre um conceito mais amplo, chamado determinismo biológico, que caracteriza a crença de que nossos comportamentos estão conectados a traços biológicos específicos (como fisiologia, genética e assim por diante).
• Grande parte da ciência ocidental vigente acerca de gênero ou é construída sobre as bases do essencialismo de gênero e do determinismo biológico ou desafia essas mesmas bases.
• A descolonização não pode ser tratada só como uma metáfora. Ela é um processo de desmantelamento sistêmico – com a libertação de gênero podendo ser compreendida como parte de um processo de neurodescolonização.
• Para participar da descolonização de gênero, aquelus de nós que não são indígenas precisam ser cúmplices na desmontagem de uma dicotomia de gênero rígida, que é uma forma de ideologia colonial.
Capítulo 2: O que está acontecendo agora?
• Nossa compreensão de gênero está situada no tempo e no espaço. Isso significa que é importante prestar atenção à nossa posicionalidade.
• A posicionalidade é um conceito que surge da teoria feminista pós-moderna e que destaca a importância de declarar de maneira explícita nossa localização, dado que não há ume escritore ou ume leitore descorporificade e objetive.
• Um dos impactos da binariedade de gênero rígida nas comunidades indígenas da América do Norte tem sido a perda de cultura e de língua, incluindo termos para uma gama mais ampla de expressões, identidades e papéis de gênero – além da ausência de papéis culturais, espirituais e sociais para sujeitos de gênero expansivo dentro delas.
• Indivíduos LGBTQ2 indígenas, bem como populações indígenas mais amplas, enfrentam taxas mais altas de disparidades de saúde, problemas de saúde mental, tabagismo e uso de substâncias. Eles também apresentam maior risco de se infectar com HIV.
• Jovens LGBTQ2 indígenas, assim como jovens não-bináries, queer e trans, detêm mais probabilidade de sofrerem assédio ou bullying e de ficarem sem-teto.
• Meninas, mulheres e pessoas LGBTQ2 indígenas possuem mais probabilidade de serem assassinadas – o que inclui morrer devido à brutalidade policial e sob custódia policial – e de desaparecerem. Esses casos são subnotificados e são noticiados pela mídia com o uso de uma linguagem que culpabiliza as vítimas.
• O deslocamento do território é entendido como fator fundamental que contribui para as disparidades de saúde vivenciadas pelas comunidades aborígenes na Austrália na contemporaneidade, dado que o gênero nessa cultura está profundamente conectado à relação com a terra.
• “Alterizações" e divisões internas dentro das comunidades não-binárias e/ou trans têm raízes no trauma intergeracional, sendo impactadas, dessa forma, pela longa história de patologização experienciadas nas mãos do complexo médico-industrial.
• Pessoas não-binárias e/ou trans possuem dez vezes mais probabilidade do que a população geral de lidar com ideação suicida e de morrer por suicídio.
• Pessoas não-binárias e/ou trans experimentam taxas mais altas de agressão física e sexual, assédio, bullying e discriminação na escola, bem como recusa de cuidados por profissionais de saúde.
• Sujeitos não-binários e/ou trans experimentam mais chances de estar envolvidos em economias subterrâneas, como o trabalho sexual, têm maior risco de se infectarem com HIV e são mais propensos a serem HIV positivos. Eles também estão subempregados e/ou vivem na pobreza com frequência.
• Faz sentido que nosso feminismo não seja independente da nossa posicionalidade, que, por sua vez, compreende as identidades como dinâmicas e relacionais. Estudioses deficientes, marrons, negres e trans já abordaram o movimento criticamente e destacaram lugares onde ele historicamente foi excludente.
• A pobreza sistêmica devido a fatores históricos, como à escravidão e ao racismo contínuo, contribuiu para disparidades de saúde em torno de condições específicas, como asma, diabetes e doenças cardíacas, para sujeitos negros nos EUA. Eles também enfrentam taxas mais altas de câncer e de derrame, sendo essas, em conjunto com as doenças cardíacas, suas principais causas de morte.
• Mulheres negras têm duas a seis vezes mais probabilidade de morrer de complicações no parto, independentemente da sua educação ou da sua renda.
• O gênero das mulheres negras é mais propenso a ser escrutinado e questionado, o que pode levar a taxas mais altas de assédio e de violência.
• Indivíduos negros, incluindo mulheres, especialmente mulheres trans, têm mais probabilidade de serem assassinados pela polícia e de morrerem devido à brutalidade policial ou sob à custódia policial.
• A islamomisia contribui de modo significativo para a violência global contra pessoas muçulmanas (ou pessoas percebidas como tal). Mulheres muçulmanas têm mais probabilidade de serem assediadas ou atacadas por usarem sinais visíveis de sua afiliação cultural e/ou religiosa, como o hijab.
• Corpos marrons, negros e indígenas são hipersexualizados com frequência, ao mesmo tempo que são examinados de perto por ambiguidades e por discrepâncias de gênero.
• Vários estudos concluíram que a conformidade de gênero – que muitas vezes envolve a necessidade de aprovação e de validação des outres – pode afetar de maneira negativa a autonomia sexual e o bem-estar psicológico.
• A masculinidade tóxica leva os homens cis a terem uma saúde mais precária. Por exemplo, pesquisas mostraram que eles têm menos probabilidade de acessar e de buscar cuidados de saúde, mesmo quando necessário.
Capítulo 3: Tudo em família
• A principal distinção entre trauma histórico e trauma intergeracional é que o primeiro é coletivo, envolvendo eventos históricos específicos e uma grande quantidade de pessoas, de forma a ir para além da linha familiar individual.
• Uma das razões pelas quais estamos analisando a complexidade da binariedade de gênero rígida como um trauma é que ela não é transmitida apenas por padrões históricos e sociais mais amplos, mas também pelas interações cotidianas que vivenciamos desde o primeiro dia de nossas vidas – ou, como algumas pesquisas diriam, até mesmo desde o útero.
• Em particular, o campo da epigenética tentou documentar como o trauma histórico e intergeracional não é transmitido de progenitóries para filhes somente por meio de comportamentos e de relacionamentos, mas também por meio dos genes.
• O termo "transgeracional" indica a transmissão do trauma de uma geração para a próxima, enquanto o termo “intergeracional” considera os efeitos da terceira geração adiante.
• A Dra. Degruy-Leary identificou um fenômeno, nomeado de “Síndrome de Escrave Pós-Traumática” (PTSS na sigla em inglês), que caracteriza o trauma emocional e psicológico proveniente da escravidão. Ele delineia claramente como o passado tem um impacto contínuo no presente das pessoas negras nos EUA.
• Não carregamos só as histórias de nosses genitóries biológiques em nossos ossos. Se formos adotades, por exemplo, somos impactades de jeito profundo pelas histórias e pelos traumas de nosses responsáveis adotives e de suas linhas familiares, que absorvemos à medida que crescemos.
• A transmissão de crenças, dinâmicas, ideias, mensagens e papéis de gênero pode ser explícita ou implícita – ou uma mistura das duas.
• O trauma pode ser transmitido horizontalmente ou verticalmente. A transmissão vertical ocorre de uma geração para a próxima, enquanto a transmissão horizontal (ou lateral) ocorre entre membres da mesma família, ou dentro de um grupo, ao mesmo tempo. Ambas também podem ocorrer de maneira simultânea.
• A dissociação é um padrão importante a ser observado, porque pode afetar a capacidade de ume cuidadore tanto de proteger uma criança quanto de transmitir pistas saudáveis a ela, para que possa aprender a identificar uma sensação de perigo ou de segurança.
• Uma narrativa cisheterossexual comum e dominante é incentivar as mulheres a se dissociarem ao ter relações sexuais com seus parceiros, mesmo quando não desejam, para que estes não procurem-nas em outro lugar.
• Se a dissociação for entendida como uma estratégia de sobrevivência válida em um nível estrutural da sociedade, para que as mulheres consigam sobreviver em um sistema patriarcal, é provável que experimentem uma transmissão de trauma tanto horizontal quanto vertical.
• A masculinidade tóxica exige que os sujeitos masculinos se dissociem das emoções, das expressões emocionais e das necessidades (como chorar; expressar tristeza e vulnerabilidade; precisar de intimidade emocional, de ternura e de toque saudável).
• Além do trauma intergeracional, podemos experimentar a resiliência intergeracional. Essa ideia tem raízes no conhecimento indígena e foi explorada por estudioses e por escritóries latines/negres.
• Se a binariedade de gênero rígida é tanto um trauma estrutural, intergeracional e social do colonialismo de povoamento quanto um aspecto do trauma histórico dele, então parte do seu antídoto precisa estar enraizado no conhecimento indígena e nas práticas indígenas.
• Se parte do legado e do trauma do colonialismo de povoamento é o deslocamento, de várias maneiras dependente de nossa própria posicionalidade, então a conexão, incluindo a conexão ancestral, faz parte da cura.
• A teoria da objetificação oferece um meio para entender como meninas e mulheres frequentemente são tanto aculturadas para se verem como objetos oferecidos ao olhar masculino quanto avaliadas por seus valores.
• A objetificação de meninas e de mulheres também desumaniza e impacta meninos e homens, porque eles não são entendidos como agentes autônomos, mas sim como seres descontrolados, guiados acima de tudo por suas necessidades sexuais.
• Não podemos analisar o gênero separado das outras facetas de nossas experiências e de nossas identidades. Isso significa que relacionamentos e sexualidades queer também são afetados por ideias dominantes de gênero.
• A combinação da objetificação e da ideia dominante de que a sexualidade pertence apenas à juventude ou à metade da idade adulta significa que pessoas com deficiência são infantilizadas na cultura dominante. Elas são percebidas ou como vulneráveis e, portanto, como potenciais vítimas sexuais ou como portadoras de sexualidades "desviantes/perversas".
• Dinâmicas e identidades racializadas são essenciais ao discutir ideias dominantes de gênero em relacionamentos, pois discursos de gênero dominantes também são discursos brancos dominantes. Isso significa que os corpos não são apenas racializados neles, mas também sexualizados e enquadrados de acordo com o colonialismo de povoamento e a supremacia branca.
• A objetificação está entrelaçada com a ideia de posse. Se a feminilidade e as mulheres existem para e dependem do olhar masculino, este último, cuja agência é muitas vezes expressa por meio da implicação de dominância, é inerentemente atuante e superior.
• Ês responsáveis em geral são encorajades na cultura dominante a verem ês filhes como uma extensão de si mesmes, o que acaba incluindo as próprias expectativas de gênero.
• A masculinidade tóxica não é inerente ao homem ou ao sujeito masculino. Ela caracteriza um conjunto de normas que contribuem para uma mentalidade cultural que perpetua binarismos de gênero rígidos e estereótipos prejudiciais.
• A masculinidade tóxica não é mantida automaticamente e apenas por homens. Enquanto eles são incentivados a aderir a ideais tóxicos de masculinidade na cultura dominante, todes nós somos convidades a participar da sua dança por meio de roteiros sociais.
• O cissexismo tóxico não é inerente às pessoas cis; é uma "ideologia preconceituosa" que assume experiências e identidades cisgênero como inerentemente desejáveis, naturais e superiores a qualquer outra experiência e/ou identidade de gênero.
• O cissexismo também interage com todas as outras facetas de nossas expressões e de nossas identidades. Por exemplo, é mais seguro para pessoas brancas expressarem seu gênero de maneiras expansivas, enquanto é menos seguro para corpos indígenas, negros e pardos fazerem o mesmo por serem mais examinados, policiados e punidos por transgredir normas de gênero.
• O capacitismo se entrelaça com o cissexismo, pois qualquer desvio do último pode ser entendido como uma resposta a ter deficiência, ao invés de uma expressão e/ou uma identidade autêntica.
• A violência entre parceires íntimes é um termo abrangente que cobre tanto comportamentos abusivos nos âmbitos emocionais, físicos, sexuais, psicológicos e verbais quanto perseguição em relacionamentos.
• A violência entre parceires íntimes é muito comum e é responsável por quase metade do número de mulheres mortas por homicídio nos Estados Unidos. Além disso, apesar de ser descrita como uma preocupação de saúde pública por agências como o CDC (Centro de Controle de Doenças), muites educadóries e terapeutas não recebem treinamento suficiente para lidar com esse tipo de agressão, especialmente em relacionamentos entre adolescentes, que também é recorrente.
• O número de indivíduos afetados pela violência entre parceires íntimes aumenta quando consideramos experiências e identidades racializadas, com indivíduos latinos e negros relatando níveis mais altos dela – o que inclui um número maior de assassinatos de mulheres latinas.
• A violência entre parceires íntimes não pode ser abordada puramente no nível de um relacionamento individual; ela precisa ser enfrentada em um nível sistêmico em campus universitários, em clínicas de atenção primária, em comunidades religiosas, em escolas, em hospitais, na mídia, na terapia familiar, em tribunais criminais e assim por diante.
• A pergunta de quem precisa de proteção é central para a questão da violência entre parceires íntimes. Quais são os corpos que são entendidos como dignos de proteção pela polícia e pelo sistema judiciário? A resposta parece estar nas estatísticas alarmantes já mencionadas. Corpos deficientes, femininos, imigrantes, indígenas, negros, pardos, queer, trans e de trabalhadóries do sexo parecem ser os mais descartáveis na cultura dominante.
• A cultura do estupro pode ser definida como uma cultura dominante que minimiza, trivializa e tolera agressões e violência sexuais. A ideia tem encontrado críticas, o que contribuiu para o surgimento de um movimento que contesta a natureza pervasiva e ubíqua da violência sexual em relações íntimas e além.
• O movimento #MeToo nasceu, entre outras coisas, do desejo de se conectar e de encontrar a intimidade da experiência compartilhada com outres sobreviventes. Ele também nasceu da realidade da violência contra meninas e mulheres racializadas – em especial negras.
• A combinação de cissexismo e de racismo, incluindo preconceitos implícitos, cria uma cultura dominante na qual corpos femininos indígenas e negros são compreendidos como menos valiosos.
• Frequentemente, jovens com deficiência, indígenas, negres, não-bináries, surdes, trans e queer experimentam níveis mais altos de violência sistêmica nas suas comunidades, nas suas famílias e no sistema educacional.
• Uma das formas mais básicas pelas quais a lei pode reproduzir uma rígida dicotomia de gênero é a definição legal de termos como “gênero” e “sexo”. Isso é crucial porque muitas legislações sobre discriminação em tais âmbitos, dependendo do país e da redação escolhides, podem ou não proteger pessoas trans.
• Muitas das questões legais históricas sobre quem pode votar, possuir propriedade e ser reconhecide como de uma determinada nação tribal ou de uma determinada nacionalidade não estão somente ligadas ao gênero, mas também à forma como somos racializades.
• Um dos exemplos mais hediondos de como o sistema legal perpetua opressão e violência com base no gênero é a esterilização legal de meninas e de mulheres com deficiência.
• Homens cis dominam o campo da política, ocupando cerca de três quartos de todas as posições representativas do governo, em uma escala praticamente global.
• Em muitos países, indivíduos são criminalizados e presos de maneiras que continuam a penalizar corpos de pessoas com deficiência, imigrantes, indígenas, negras, pardas, queer, queer e de trabalhadóries do sexo.
• Construções de feminilidade que prejudicam mulheres no sistema penal e nos tribunais são aquelas que veem-nas como "naturalmente" cuidadosas e maternais ou como loucas, manipuladoras e não-confiáveis.
• O jeito como os espaços são concebidos, projetados, implementados e organizados conta as histórias dos discursos dominantes.
• O design arquitetônico é frequentemente impulsionado por preconceitos inerentes por ser projetado para quem é cisgênero, homem e não-deficiente. Isso não é surpreendente dada a predominância masculina tanto no campo quanto na encomenda de trabalhos.
• A referência na medicina é o homem branco cisgênero, como evidenciado pelo menor nível de conhecimento e/ou de investimento em saúde pública nas áreas de: questões cardíacas nas mulheres, em especial negras; saúde reprodutiva e sexual; saúde dos indivíduos trans.
• Disparidades em torno de gênero e de raça indicam quem o sistema médico está deixando de atender: mulheres, PCDs, pessoas trans, pessoas queer, sujeitos indígenas, sujeitos negros, pessoas de origens econômicas e educacionais mais baixas.
• Parece haver uma qualidade inerente de masculinidade hegemônica cisgênero na construção da saúde, no que diz respeito ao estado atual da medicina. Isso não é surpreendente dada a prevalência da andronormatividade nesse campo.
• A educação nunca pode ser neutra sob regimes coloniais em andamento. Seu papel histórico é tanto substituir a cultura, a comunidade, o idioma e os valores quanto invadir – além de suas terras – os corpos, a mente e os sentimentos das pessoas indígenas.
• No campo da saúde mental, há uma pressuposição não dita de que comportamentos e pensamentos "racionais", que são preferidos, são sempre moralmente superiores.
• Pressupostos binários rígidos de gênero são fundamentais para muitas abordagens e para muiras teorias no campo da saúde mental.
• Mesmo no campo da terapia familiar, no qual o pensamento sistêmico poderia abrir uma conversa diferente acerca de gênero, frequentemente voltamos a estereótipos estabelecidos e à pseudociência sobre o tema.