Sobre homens e cães: resumos, exemplos e retratos.
Provavelmente alguém já ouviu falar de uma explicação mais ou menos assim: Num espaço onde reside um, desenhe um círculo e insira-o no centro, junto de seus pertences e símbolos de seus anseios e medos: temos um resumo da existência humana. Pareado a este universo particular, insira diversos círculos com existências únicas no centro de cada um destes círculos e deixe que se vejam, que se cruzem e que se esbarrem, e assim, interajam. Algumas existências acusarão as outras de "invadirem seu espaço" , enquanto outras tomarão a decisão de convidarem os demais a visitarem e participarem esporadicamente dentro do seu espaço, pois hora ele aparentará ser pequeno e claustrofóbico, ou enorme e frio: temos a sociedade e um exemplo de cultura. Envolvendo estes círculos, desenhe e levante uma redoma de topo abobadado - para que a luz entre e os cheiros e sensações não se extinguam -, emparede todos os círculos menores, deixando que se visitem, mas que não façam novos trajetos e vejam outras paisagens, e trate de alimenta-los com informações convenientes, dê-lhes pão e circo, para que se sintam completamente cientes sobre o que se passa fora de seus círculos. Condicione-os a crer que todo muro erguido ao seu redor é para sua proteção, e terá um resumo sobre o que é a mídia. Uns acreditarão e outros questionarão. Temos a identidade, opinião e alienação. Entregue marretas a todos, para que derrubem as paredes, junto de informações do que pode existir fora desse círculo protegido, confortável. Mostre o que irão perder ao derruba-lo, mas mencio e de forma crua e aem detalhes o que podem provavelmente ganhar se a parede cair. E assim temos um retrato da crença e do esquecimento. Eles crescerão e se multiplicarão, hora freneticamente, hora morbidamente, hora dentro e hora fora de regras que venham a ser impostas, objetiva ou subjetivamente, e permanecerão assim, replicando, sorrindo, chorando, culpando, reconhecendo e julgando. Será perceptível que algo incomoda hora maioria, hora minoria, mas nunca o incômodo é debatido, pois os incomodados se alternam, hora como incomodados, hora como acomodados. Na condição de acomodados, consideram seu pensamento como uno e sua condiçãocaso agradável, resumida como agradável para todos, suprimindo a opinião dos incomodados. Nesse momento, temos o exemplo das massas, minorias e facções. Debates viram discussões, discussões se tornam ameaças, e as marretas vão contra as paredes, e desencadeiam-se conflitos. A existência dos muros garante a sua liberdade de gritar o quanto e como quiser, enquanto os demais fazem o mesmo. Temos o exemplo das revoluções virtuais. Finalmente, mas não sendo o fim propriamente dito, os gritos e marretadas no muro aumentam e os conflitos vibram, reverberam, fazendo com que as paredes venham a estremecer, o que desencadeia a redução de algumas paredes a escombros, expondo aqueles que levantaram a voz - o motivo do grito sequer vem ao caso, pois a informação não é tida nem como certa e nem como incerta, nem como parcial e muito menos como completa -. Temos um início dos embates. Esse é o princípio da intolerância. Então, como se fosse uma cereja enfeitando um bolo, o momento nos mostra dois cães que se ameaçavam e ladravam um para o outro colericamente, finalmente cara a cara, sem barreiras. Um encara o outro e ambos calculam, durante o choque da exposição, a probabilidade de se arremessar de boca aberta e dentes à mostra e sair vitorioso. Ambos enfiam seus rabos entre as pernas e se recolhem, pois "esse ainda não é o momento". As proximas gerações receberão esta história, mas seu final será alterado - afinal, quem é que se lembra dos primórdios, quando sequer os primeiros se lembram de como era o mundo deles antes dos muros? - e os próximos receberão a doutrina de que aqueles que ergueram a voz um contra o outro, um era o certo e outro era o errado, e nós somos o "certo", afinal. Os dois cães que se encararam não tiveram coragem de se atracar, mas ambos os cães ensinarão sua prole a fazer aquilo que não foi feito, mas na história, foi dito que fora feito. E assim temos o retrato da cultura da vingança. Conveniência, influência e jogo de interesses: essa é parte da dinâmica do conflito e da guerra. Não se preocupe, sem haverá um grande irmão a olhar por ti.









