Collen Stryder, Distrito 11. Desafio 10 (Final)
_ Ta bom, isso não esta dando certo._ Me jogo no chão.
O sol já estava quase a pino quando decidi parar. Depois de analisarmos o machucado em minha perna_ um vermelhão na lateral na coxa sem um pedaço de pele ao qual eu mal tinha conseguido olhar, e que agora estava enrolado no pedaço inútil de calça que havia ficado pendurado no resto utilizável da mesma_ e de várias tentativas frustradas de andar, Leo havia praticamente me carregado por ai pendurada em suas costas. Sei que pra ele o meu peso não deveria ser grande coisa, mas não chegaríamos nunca no rio se continuássemos nesse ritmo.
_ Eu quero tentar de novo.
_Collen...
_Me deixe tentar de novo.
Ele suspira e posso quase senti-lo revirando os olhos, e então me solta, o peso do meu corpo apoiado apenas na perna esquerda. Mordo meu lábio inferior quando transfiro o peso para a perna machucada e tento esconder a dor enquanto começo a caminhar, Leo me espreitando por trás, como se eu pudesse cair a qualquer momento, o que eu também não duvidava muito.
***
Devia ser quase final da tarde quando chegamos perto do rio, e eu me sentei na grama, minha perna latejando. Helena não estava ali, o que me deixou preocupada. Eu não tinha ouvido nenhum canhão ontem, mas com todo aquele fogo caindo do céu, tenho certeza de que ninguém ouviria.
Leo se senta do meu lado, onde partilhamos a sombra e a tranquilidade em silêncio. Os minutos pareciam passar mais lentamente sem Helena ali.
Eu já havia quase perdido as esperanças de encontra-la quando vejo alguém andando em direção da margem. E conforme se aproximava, mais inquieta eu ficava.
Sim, definitivamente era ela. Aparentemente cansada e um pouco diferente, mas era ela. Me levanto e vou andando o mais depressa que consigo até a margem do rio, deixando o garoto do 1 sentado logo atrás de uma árvore onde, por alguma razão, ele havia se “escondido”.
_Helena, você está..._ Minha frase é interrompida quando sinto os meus pés tremerem.
Olho para o chão, tentando entender o que havia de errado, quando acontece de novo. E depois de novo. Caio no chão, o que não era uma boa quando ele está se mexendo cada vez mais forte.
Logo Leo esta perto de mim, tentando me puxar para longe do rio quando cai também. Escondo o rosto atrás das mãos, evitando que os pedaços de cimento e terra que vinham em minha direção atingissem aquela parte do meu corpo.
“É isso o que as idealizadoras planejam? Matar todos em um terremoto?”
Mas o terremoto se foi tão rápido quanto havia chegado. Abro os olhos lentamente, e vejo Helena correndo em minha direção. Logo atrás dela, um buraco seco estava no lugar onde antes era o rio.
Antes que eu posso pensar em me levantar, Helena me puxa, levantando-me do chão e envolvendo um de seus braços protetoramente à minha volta, ao mesmo tempo que pressiona o tridente no peito de Leo, impedindo-o de levantar.
_ Achou que fosse aproveitar o terremoto e matar mais alguém? Minha irmã? Desculpe-me desapontá-lo, mas quem vai morrer aqui é você.
Me solto do abraço de Helena e retiro o tridente de sua mão. A expressão de raiva em seu rosto é substituída por confusão e surpresa.
_ Ele está comigo Helena. Não posso deixar que o mate. Além disso, tenho uma divida com o carreirista aqui. Ele salvou minha vida durante a chuva de meteoros.
Ela estreita os olhos, desconfiada, ressentida. Vejo a força que ela estava tendo que fazer para não matar Leo ali mesmo, seu cérebro trabalhando desesperadamente para arranjar uma desculpa para fazê-lo.
_ Ok. Mas não tente bancar o espertinho.
Ela pega minha mão e se vira, me puxando para perto dela e começando a andar, comigo aos tropeços. Tento acompanha-la na caminhada rápida até o momento em que a dor começa realmente a aumentar.
_ Helena, será que... Da pra ir um pouco mais devagar?_ digo, olhando para a perna machucada e depois para ela, dando um sorrisinho de desculpas.
_ Uou_ Toda a raiva restante em seus olhos desaparece._ Tudo bem.
Eu conseguia sentir a alegria crescendo dentro de mim por estar perto dela novamente enquanto observo os nós de seus dedos segurando os meus. Estou ciente da presença de Leo andando silenciosamente atrás de nós enquanto seguimos a caminhada até o anoitecer, que é quando Helena decide que deveríamos parar e descansar.
_ Deixe-me ver seu machucado._ Ela diz, se sentando.
_ Melhor não.
_ Não seja desobediente garotinha, vem aqui.
_ Você vai ficar preocupada demais.
_ Collen._ Ela diz meu nome como se fosse uma ordem.
Faço uma careta, mas faço o que ela pede mesmo assim. Me sento ao seu lado, e ela bate uma das mãos no próprio colo, um sinal de que eu deveria colocar minha perna ali. Observo-a tirar a atadura improvisada e assisto seu rosto passar de susto para raiva, de raiva para pena. Uma das coisas que eu nunca entenderia era como minha irmã conseguia sentir tantas coisas ao mesmo tempo.
_ Mas que droga Collen, você não limpou isso?_ Ela diz enquanto analisa o ferimento, mas mesmo assim consigo sentir a nota de hostilidade em sua voz. E só então percebo que Helena não estava ali.
_ Não. Eu não tinha água... Katherine.
Sua cabeça se levanta rapidamente, os olhos arregalados e a boca aberta, como se estivesse tentando encontrar algo para dizer, mas não conseguisse. Leo nos olha confuso enquanto continuo a encará-la. A preocupação da garota era aparente, como se eu pudesse rejeitá-la como havia feito antes. Mas aquele sentimento não estava ali agora. E eu continuava amando a menina, sendo ela Helena ou Katherine.
Me arrasto para mais perto dela, me aninhando em seu colo e deitando a cabeça em seu peito. Sinto seus braços me envolverem e resisto à tentação de levantar o rosto, pois sabia que ela estava prestes a chorar.
_ Senti sua falta, Katherine.
Ela solta uma risada em meio à um soluço enquanto eu dou um beijo rápido em sua bochecha, e então tira um cantil mochila. Sinto minha garganta queimar de sede quando ela joga a água restante em meu machucado. Solto um suspiro quando sinto a ardência, e escondo meu rosto em seu cabelo, quando noto a pele exposta de seu ombro, e o quão estranhamente avermelhada estava.
_ O que aconteceu? _ Passo a ponta dos dedos levemente em seu ombro, acompanhando a pele queimada que descia pelo braço e tomava uma parte da cintura.
_ Por um momento, fui atingida. Não foi nada.
Dentre todas as coisas que eu havia passado na arena até agora, ver minha irmã machucada foi a pior. Tudo o que eu queria agora era que ela estivesse em casa, sã e salva.
***
Acordo com o som das vozes de Katherine e Leo falando baixinho. Eu continuava perto dela, que agora estava deitada, e com a minha cabeça apoiada em sua barriga. Seja lá o tipo de conversa que os dois estivessem tendo, não pareciam querer se olhar.
_ Eu tenho como se fosse uma vontade de proteger sua irmã. Não sei, mas... Deve ser porque eu tentei mata-la no banho de sangue._ Sinto Katherine se mexer, incomodada._ Mas tem algo em você Helena, algo que me chamou atenção.
Faz-se um momento de silêncio, e então ele complementa.
_ Só queria deixar que você soubesse disso, porque tenho a impressão de que temos pouco tempo de paz.
E então ele se cala. Alguns minutos depois, consigo ouvir o som de seu ronco suave. Katherine passa o braço em volta de meu ombro e se aconchega para dormir. Logo, eu também pego no sono.
***
_ Collen, acorde. Tem alguma coisa errada.
A voz de minha irmã me chama. Abro os olhos e descubro o que estava diferente imediatamente. Nós estávamos na clareira perto do rio, o que era praticamente impossível. Com toda certeza havíamos andado o suficiente ontem para estar pelo menos a um quilômetro dali.
_ Estranho_ Leo aparece de dentre as árvores_ é como se... A arena tivesse encolhido.
Assim que ele termina a frase, uma espada se projeta pela barriga dele, e o garoto do 1 cai de joelhos no chão, os olhos fora de foco. Annabeth aparece com um sorriso no rosto, e Bright logo atrás. Katherine me puxa para correr, mas os outros dois são mais rápidos. Eu rolo no chão com Annabeth enquanto Katherine é arrastada por Bright para longe.
_ Você e sua irmã estarem vivas até agora foi pura sorte. Sorte que eu e meu aliado não achamos vocês antes. Aliado, aliás, que vai matar sua querida irmã._ Annabeth agora esta em cima de mim, com todo seu peso apoiado em meu flanco. Ela pega meu rosto e o vira bruscamente, apenas para me fazer ver Helena lutando com Bright, com o corpo imóvel de Leo perto deles.
Volto a olhá-la com desprezo, e ela me analisa dos pés a cabeça. Seu olhar para em minha perna.
_ O que é isso?_ Ela corta o curativo e sorri._ Será que se eu fizer isso_ então coloca o cabo da faca em cima do músculo quase exposto_ dói?
Um grito, meu grito. Tudo em que eu consigo pensar é na dor da faca pressionada em cima do meu machucado e em como qualquer coisa parecia ser menos dolorido do que aquilo.
_ NÃO! COLLEN!_ Ouço Katherine gritar meu nome, e abro os olhos. O segundo de distração dela foi suficiente para Bright derrubá-la no chão e mantê-la ali.
Eu não deixaria que ele matasse minha irmã. Eu não daria a ele esse prazer, e nem a ninguém. Pego a adaga que ainda estava presa no meu cinto e a enfio em algum lugar em Annabeth, sem me dar o trabalho de ver onde.
Me levanto e pego a outra adaga que tinha sido jogada longe enquanto eu rolava no chão, a dor agora entorpecida pela adrenalina e a necessidade de chegar até os dois a tempo. Corro até o menino cujo único erro foi ter ficado de costas.
_ O que..._ Katherine evita me olhar até que eu já esteja pendurada nas costas de Bright, minhas pernas em sua cintura. O garoto do 6 se vira e bate várias vezes no meu flanco, tentando me tirar de cima dele. Mas antes que eu mesma possa perceber, minha adaga já está em seu pescoço, e ele despenca no chão.
Uma mão agarra meu ombro, Annabeth. Me viro bruscamente, tomada pelo susto, e enfio a adaga em seu estomago.
Mas não era Annabeth. Era Katherine. Annabeth jazia morta a alguns metros dali, com minha outra adaga em seu peito.
Seguro minha irmã antes que ela possa bater a cabeça no chão, chocada demais até para chorar.
_ Não, não não não...
_ Shh, estou orgulhosa de você.
_ Orgu...Orgulhosa do que? Olha o que eu fiz. Me perdoe Katherine, me perdoe.
_ É a Helena. Katherine deixou eu me despedir de você._ Ela sorri, e eu começo a chorar ainda mais, as lágrimas misturadas aos soluços._ De qualquer jeito, isso ia terminar assim. Eu iria fazer de tudo pra que você voltasse pra casa Collen.
_ Não é justo que você tenha que morrer. Eu simplesmente não posso viver em um mundo onde você não exista.
Helena segura minha mão e a aperta de leve.
_ Vai ter que fazer um esforço. Por mim.
Deito-me ao seu lado, deixando a cabeça dela apoiada em meu braço. Sinto raiva da capital, mas principalmente sinto raiva de mim. E, deitada ali, desejo desesperadamente morrer com Helena, fazendo uma promessa de que nunca a esqueceria.
_ Obrigada por ser minha irmã, Helena. Obrigada.
Ouço sua risada baixa e quase imperceptível e o som do canhão. Logo em seguida, o aerodeslizador.
“Acabou Collen, você vai voltar pra casa”.













