Helena K. Steve, Distrito 11. Desafio 10 (Final)
Fim dos jogos, início de tarde. Helena venceu. Já pode comemorar, Capital!
A grama se movia rápida á sua frente, alguns metros á frente em torno da cornucópia e o cimento abaixo desta e antes do verde parecia tão frio quanto o gelo. Tinha a antiga adaga de Collen em suas mãos, suja com o próprio sangue da pequena. Aos poucos sentiu o ar se tornar mais rápido á sua volta, como se forças sobrenaturais o fizessem se movimentar assim.
— Que seja um bestante voador ou um tributo mutante, por favor. — Helena Katherine Steve implorou num sussurro, sua voz soando fraca e rouca, num tom de quem esconde a dor que está sentindo.
Tudo que queria era morrer finalmente. Como fora capaz de fazer aquilo? Que tipo de monstro era? Porque diabos a morte não chegava logo?, afinal ela merecia, não? Seria tão mais fácil se fosse assim, simples. Imaginou como seria a sensação obtida ao morrer. Torturante? Indolor? Rápido? Não se importou, pois já havia chegado á conclusão de que pior do que já estava não ficaria. Era impossível. Agora só faltava fazer o que mais queria... Ou mais corretamente dizendo, faltava a coragem para fazê-lo.
De que importava existir Katherine ou Helena se agora o único ser que as mantinha separadas - ou não - estava morto?
Assim como Helena sabia que Katherine não havia voltado á ser parte de seu corpo, conseguia notar que ser uma só ou não na situação atual não era lá algo urgente, afinal pensavam de modo quase igual e tinham um desejo único e mútuo.
Levantou o olhar para o céu e ouviu um som sair de sua garganta. Algo que poderia ser qualquer coisa e ao mesmo tempo, nada. Fechou os olhos por alguns segundos, apenas para abri-los em seguida e mostrar a mesma expressão que havia obtido minutos antes, no fim dos jogos: Algo vazio e sem sentido. Nem a ingenuidade sentimental de Helena ou a crueldade insana de Katherine. Muito menos a inteligência cautelosa de Steve. Era distante e enevoado. Tentou de novo e dessa vez conseguiu pronunciar o desejado.
— Covarde. — Direcionado á si mesma, seguido do anterior som novamente, que agora podia ser identificado como um riso daqueles um tanto psicóticos de quem já não tem motivos parar rir e exatamente por isso o faz para ironizar com amargura o sentido da coisa.
Não era o tributo e muito menos o bestante o que agitava o vento, tal agora podia ser visto claramente, automaticamente acabando com as esperanças de Helena Katherine. O aerodeslizador se aproximava lentamente para tirar-lhe daquela arena pútrida e suja do sangue de tanto aqueles que mais amou em sua vida quanto daqueles que mais desejou a morte.
— Covarde. — Repetiu, vendo se aquilo lhe incentivava á fazer o que achava necessário. "Faça. Ainda dá tempo." Ordenou Katherine, tanto á Helena quanto á si mesma. "Faça.", reiterou, num tom mais autoritário.
Não tinham mais nada á perder mesmo.
"Por que não?" Perguntou-se Helena, ganhando coragem de realizar logo o ato.
"É, Helena. Por que não?" Disse Katherine, numa conversa única das duas.
E então, apenas se viu em todas as TV's de Panem o momento em que Helena Katherine Steve, a tributo do 11 que perdera a irmã e o amante nos jogos, empunhou novamente a adaga do modo correto, como que para uma nova batalha, para em seguida fazer á mesma atravessar a própria barriga, pouco ao lado da cintura, em algum ponto no meio das costelas. A arma já tendo sua ponta á mostra em suas costas.
Seus olhos se fecharam lenta e gradativamente e apenas por achar que aquilo não era certo de se fazer, não gritou no momento em que a dor re-apareceu. Seu corpo desabou no chão antes mesmo que o aerodeslizador impulsionasse sua escada para fora do transporte aéreo.
Dia anterior. "Senti sua falta, Katherine."
Seus gritos talvez pudessem ser ouvidos por toda a arena e sua voz perdera toda a força e orgulho que algum dia já ousara possuir.
Katherine se contraía no chão da cidade, com o fato de que parte de sua blusa já ter sido consumida pelas chamas fazendo com que seus ferimentos em carne viva apenas ralassem no chão causando ainda mais dor já não importando mais. Estava acordada á alguns minutos e seus olhos ainda não conseguiam focalizar imagem alguma. Tudo que via eram as imagens turvas, borradas e nubladas de algo completamente cinza que identificou como a cidade á sua direita e o vermelho das chamas queimando o que outrora fora o verde das árvores á sua esquerda. Podia sentir que o fogo estava bem próximo de si, mas não se importou, afinal já estava queimando.
Cimento e terra antes e cimento e fogo agora. Seu mundo físico se resumia á isso e á um rio de água mortal. O lado de sua blusa que faltava havia sido queimado ao tentar - e conseguir - matar o bestante vampiro, deixando á mostra o resultado e consequência de tal feito: Uma queimadura longa que começava no lado esquerdo de seu pescoço, seguia pela lateral de seu seio também esquerdo e descia pela barriga até pouco acima de seu quadril, seu braço esquerdo também estava envolvido por completo naquilo. O sol começava á nascer.
**
"Collen, esteja bem. Por favor, só esteja bem." Pensou naquilo com todas as suas forças, mesmo que Helena teimasse em tentar acalmar Katherine, dizendo-lhe que não haviam ouvido nenhum canhão, o que significava que pelo menos viva Collen estava.
— Seu otimismo me enoja. — Resmungou Katherine, num mau-humor claro causado pela dor, talvez, em um tom ríspido.
A parte esquerda de sua blusa infelizmente não era capaz de se regenerar magicamente, deixando a barriga da garota á mostra e á mercê do vento rápido, porém quente, que açoitava a arena, mas a dor já havia em parte sumido, ajudando a tributo no quesito andar. O fogo no bosque já havia se dissipado quase que completamente, restando apenas as cinzas como lembrança da destruição se espalhando por toda a parte. Katherine havia optado por se aproximar do rio pelo caminho da ex-floresta, sabendo que a mesma aproximação pela cidade poderia demorar ainda mais devido á distância e ao ritmo não tão rápido usado pela garota ao andar, afinal... Bem, a situação não fica nada simples quando metade de seu corpo está tentando se recuperar e você continua á andar, sem dar chance de descanso. A solidão não lhe incomodava, apenas a preocupação era aparente em seu psicológico. Sentia saudades de Damen pois seu corpo o queria, mesmo que Katherine estivesse convencida de que não sentia nada por ele. Não que não quisesse sentir... Na verdade, desejava internamente sentir aquilo que Helena sentia por Damen por alguém, mas é que já gostava de Collen. Amar Damen seria como tentar ter a vida de Helena. E por mais aceitável que estivesse a relação das duas entre si, Katherine não conseguia suportar a ideia de desejar ter a vida de Helena. "Argh. Helena." Pensou, com certo ódio. Odiava aquilo que estava acontecendo consigo mesma. Afinal, na opinião que costuma mostrar, sentimentos são tão... Inúteis.
***
Se perguntava se não estava ficando louca ao pensar ter visto mais alguém com Collen assim que avistou a pequena do outro lado do rio, novamente. Conseguiu sorrir antes do mesmo sorriso sumir de seus lábios ao sentir o chão tremer abaixo de seus pés antes que pudesse sequer falar com a irmã, que agora havia caído no chão de modo frágil, o que Katherine estranhou, afinal o tremor nem fora tão grande no início.
O que parecia ser um terremoto aumentou, arrancando um grito baixo e abafado de Katherine, assim que algumas partes do chão começaram á rachar. O ar ganhou um tom amarronzado que rapidamente se intensificou e o solo começou á se mover mais rápido.
Cinzas e terra atrapalhando sua respiração. Uma tontura lhe atingiu, fazendo tudo girar ainda mais á seus olhos. Tossiu e colocou as mãos no rosto, numa tentativa falha de proteger os olhos da poeira.
Não via mais o rio quando os tremores e rachaduras deram sinais de que iam diminuir. Caminhou para trás tentando se manter de pé, procurando algo em quê se apoiar. Continuou á tossir.
Quase tão rapidamente quanto surgiu, o terremoto parou e a poeira começou á baixar. Antes mesmo que já pudesse distinguir uma coisa da outra, um fato ficou claro: O rio já não existia mais, mesmo.
Nem se preocupou em chamar Collen, apenas começando á correr na direção da irmã, saltando uma pequena fenda deixada no lugar onde outrora fora o centro do rio. Assim que á alcançou, jogou os braços em torno da pequena, se controlando para não pegá-la logo no colo. Ficaram abraçadas por algum tempo que não parecia passar, Collen com a cabeça no ombro da irmã mais velha, sem necessidade de falar.
Isso até que Katherine viu alguém se aproximar por trás de Collen. Rapidamente e com agilidade, se levantou e ajudou Collen á fazer o mesmo, colocando a mão na frente do corpo da pequena, enquanto apontava o tridente exatamente na direção do coração do estranho, a ponta da arma tocando a roupa do mesmo.
Era bonito, tinha de confessar. Cabelos negros e uma pele incrivelmente clara. Olhos verdes e um físico de dar inveja á qualquer carreirista - se é que ele não era um. A expressão arrogante era a mesma; -, mesmo sob aquela roupa toda. "Ficaria melhor sem ela, hm."
Mas voltando ao que interessa, Katherine forçou mais o tridente no peito do garoto, falando com uma rudez que escondia o interesse:
— Achou que fosse aproveitar o terremoto e matar mais alguém? Minha irmã? Desculpe-me desapontá-lo, mas quem vai morrer aqui é você. — Primeiro os deveres; depois saber quem era ele. O que não esperava é que Collen fosse, ridiculamente, protegê-lo ao tirar o tridente de sua mão e sair da proteção de Katherine, logo respondendo pelo garoto.
— Ele está comigo, Helena. — Mordeu o lábio inferior, tentando não demonstrar que Helena não estava ali. — Não posso deixar que o mate. Ele salvou minha vida durante a chuva de meteoros. — Não confiou muito naquilo. Por algum motivo começou á se lembrar dele na entrevista dos tributos, no treinamento e no baile. Todas memórias de Helena, mas ainda assim memórias. Não era a melhor das pessoas, porque diabos salvaria a vida de Collen?
— Leo, não é? Distrito 1. Se tentar qualquer coisa, morre. Sabe disso, não é? — Avisou, direcionando-se diretamente á ele, seguido de um sorrisinho de ironia no canto dos lábios. Pegando o tridente novamente, segurei a mão de Collen, já começando á caminhar rápido. O rio não havia sumido para nada, isso era certeza.
— Helena... Mais devagar... Por favor... — Diz Collen, fazendo com que Katherine parasse e olhasse para a garota com a testa franzida e uma expressão de "O quê?", até que viu que a garota observava a própria perna. Collen estava sorrindo, como quem pede desculpas. Desculpas? Sério?
— Uou. — Apenas responde Katherine, sem saber muito o que dizer. O ferimento na perna da pequena era feio e parecia que logo ia infeccionar. — Tudo bem. — Comentou, mais para si mesma que para os outros ali, respirando fundo.
Começam á caminhar novamente, mais lentamente, agora apenas querendo encontrar um lugar onde pudessem se encostar e descansar um pouco, mesmo que o objetivo de Katherine nesse lugar fosse claramente ajudar a irmã.
A noite chega rápido, e Katherine decide que seria melhor parar perto de algumas árvores que haviam sobrevivido ao incêndio. Se senta, encostando as costas numa das árvores. A situação atual fazia com que até mesmo aquilo fosse confortável.
— Deixe-me ver seu machucado. — Falou, tentando não parecer muito autoritária. "Ela pensa que sou Helena. É melhor assim."
— Melhor não.
— Não seja desobediente, garotinha. Venha aqui.
— Você vai ficar preocupada demais.
— Collen. — Agora o tom de ordem era óbvio, já que se esqueceu de escondê-lo dessa vez.
Collen se senta á seu lado e após um sinal de Katherine, estende a perna machucada sobre o colo da irmã mais velha. Retirou o curativo improvisado da garota, com uma careta ao ver o péssimo trabalho que Leo e Collen haviam feito. Não sabia direito o que sentia. Raiva? Pena? Susto?
— Mas que droga, Collen. Você não limpou isso? — Resmunga, analisando o ferimento, mal notando a rispidez que usara ao falar.
— Não... Eu não tinha água, Katherine. — Katherine levanta o olhar, assustada. Não, não e não. Como ela sabia? Arregalou os olhos e abriu a boca, como se tentasse dizer algo, mesmo não sabendo o que. Quase que sem querer apertou a mão em torno do ferimento de Collen, arrancando um suspiro baixo de dor da garota, que Katherine ia pedir desculpas por fazer tê-la dado, porém vendo que não parecia ter exatamente o controle de sua voz. Não era Helena dando as caras nem nada assim, apenas receio. Como?
Collen provavelmente gritaria para Katherine sair dali e deixar sua tão querida Helena voltar. Iria brigar com Katherine e dizer que ninguém nunca á amaria. A moça sabia que sim, e apenas por isso foi pega de surpresa ao ouvir o que Collen disse em seguida, ignorando o olhar confuso de Leo sobre si.
— Senti sua falta, Katherine. — E então ela á abraçou, e dessa vez foi um abraço para Katherine, mesmo. A maior não sabia se ria, ou chorava. Estava estática ao receber o beijo em sua bochecha, vindo da irmã. E meio que riu e chorou ao mesmo tempo, abraçando-a de novo.
Apenas para em seguida se lembrar da perna de Collen e com uma super-proteção meio exagerada, pegar a garrafa de água que tinha na mochila para limpar o ferimento de Collen, mesmo que todos ali aparentassem mais sede do que necessidade de limpeza num ferimento.
— O que aconteceu? — Pergunta Collen, tocando o ombro de Helena, na queimadura que descia até sua cintura. Katherine se controlou para não estremecer ao toque, pois aquilo ainda ardia.
— Fui atingida. Não foi nada. — Respondeu, num tom que dizia "Não foi importante, ignore.", mesmo que fosse mentira.
***
Collen estava dormindo com a cabeça no colo de Katherine, com esta ainda sentada no mesmo lugar. Leo estava ao lado, e os dois conversavam num tom de amizade - ou algo mais? - á horas, de modo que a madrugada já desse as caras. Leo já sabia da condição mental de Helena agora.
— Eu tenho como se fosse vontade de proteger sua irmã. Não sei, mas... Deve ser porque tentei matá-la no banho de sangue. — Não, aquela não fora a coisa mais esperta á se dizer da parte dele. Porém Katherine não demonstrou. — Mas tem algo em você, Helena, que me chamou a atenção. Só queria que você soubesse disso. Acho que não temos muito tempo de paz.
"Helena, ótimo." Pensou, afastando o olhar que antes estava no rosto do garoto.
— Desculpe. — Ele falou, apenas agora notando o que dissera.
— Tudo bem. É sempre Helena, já me acostumei. — Tinha esperanças de ter algum sentimento apenas para si mesma... Mas sentimentos verdadeiros não costumam existir se ambas as partes não concordavam ou não acreditavam nele. Leo não parecia acreditar. Não conversaram mais depois disso, naquele dia. Ouviu-se o ronco suave de Leo e tanto ele quanto Katherine mal notaram que, quando esta dormiu, tinha a cabeça no ombro do garoto.
***
1ª pessoa á partir de agora, é.
— Collen. Vamos, Collen! Acorda logo. Tem algo errado. — Anunciei, movendo os ombros da pequena sem tentar parecer violenta demais. Agora estávamos numa clareira, e isso não era bom. Como havíamos ido parar ali? Collen abriu os olhos, mas não prestei muita atenção. Leo havia voltado. Leo...
— Estranho. — Diz ele, voltando da checagem de perímetro que dissera ir fazer. — É como se a arena tivesse encolhido. — Afirma, olhando em volta. Me levanto, ajudando Collen á fazer o mesmo. Apoio as mãos na cintura, vasculhando o local com o olhar. Collen avisa ter visto algum animal por perto e sai de perto, mesmo que Leo parecesse quase prestes á se ajoelhar e pedir para que não fosse. Ela não podia ir. Eu também sentia isso, mas ela sorria como se caçar coelhinhos fosse a melhor atividade que pudesse ter. Resmunguei alguma coisa do tipo "Deixa ela.", o que me deu vontade de enfiar a droga do tridente na porcaria do corpo sexy de Leo quando ele ousou relutar. Argh.
Collen sai e algo muda em mim. Não sei o que é, nem o porquê daquilo, mas sinto. Olho para Leo e tenho um quê de desejo aparente em minha expressão. Ele me olha um tanto confuso, como se perguntasse o porque daquilo.
— É... O quê foi? — Ele pergunta, franzindo as sobrancelhas.
— O que foi? O que foi é que estou prestes á morrer. Você sabe disso, não sabe? Você não quer mesmo se divertir um pouco? Por mim? — Eu estava mesmo prestes á morrer. Eu sabia disso.
— Collen esta sozinha. Não devíamos deixá-la assim, ela pode se machucar.
— Bobagem, a garota sabe se cuidar. — Revirei os olhos ao falar, me aproximando. Ele hesita, mas se afasta ainda mais. — Por favor, qual é! Estou morrendo, posso sentir isso. Helena está me matando, cada vez que Collen se aproxima, uma parte de mim some. Além disso, Collen precisa vencer. Vou morrer de qualquer jeito. Você vai morrer também, se for preciso. — Por que dizer isso me fez engolir á seco, fechando os olhos por alguns segundos? — Eu só quero uma chance. Pelo menos, quero morrer feliz. Você pode me dar isso.
— Não, Katherine. Eu não... Não posso. — E eu ia perguntar o porquê, até ver o que eu estava fazendo. O que eu estava fazendo? Não sei. Um grito ecoou pela floresta, e senti todo meu corpo congelar. Era Collen. Eu poderia reconhecer aquela voz em qualquer lugar. O grito que antes eu desejava ganhar para sorrir, me fez simplesmente querer morrer. Os bestantes e o fogo não eram nada, pois ela estava em perigo. O que poderia doer mais que isso? Senti que me odiaria eternamente por pensar assim. Saí do transe e comecei á correr, como se minha vida dependesse disso, estando completamente ciente dos passos de Leo atrás de mim. Ignorei o barulho que eu fazia ao correr e os galhos das árvores batendo diretamente contra minha barrigas, que ainda não havia se recuperado. Na verdade, estava longe disso.
— COLLEN! COLLEN... COLLEN, CADÊ VOCÊ? — Gritei. Eu podia ser um alarme ambulante que indicava minha posição, mas não importou. Collen estava em perigo. Uma nova clareira apareceu, e vi minha irmãzinha com uma adaga atravessada diretamente no coração. A mesma adaga que tinha antes consigo. A adaga que havia conseguido lutando com Leo no banho de sangue. Em frente á Collen, com a adaga em punho, uma figura de cabelo moreno, pouco mais alta que eu, ria.
Ria junto de um outro filho da puta qualquer que eu não me lembrava quem era. Senti minha respiração acelerar e meus dedos apertarem ainda mais o metal que parecia mais frio que nunca do tridente em minha mão. Por algum motivo ridículo eles ainda não haviam notado minha presença. Abri a boca, querendo pronunciar um xingamento qualquer, mas nada saiu. Collen. Apenas Collen rondava minha mente. Seu sangue escorria, sujando a mão da garota alta e a adaga. Não... Sujando não. Nunca. Seu sangue era o mais puro que poderia existir. Porque ela? Ela não podia estar morrendo. Talvez eu esteja tendo um pesadelo do qual vou acordar á qualquer momento. Só pode ser isso. Tem de ser.
Se for, vou acordar sabendo que pelo menos fiz o que era preciso. Soltei um urro ridículo que poderia ser considerado um grito de guerra qualquer, correndo em direção á garota, deixando que Leo se preocupasse com Bright. Leo o venceria facilmente, eu sabia disso. Ao correr, meu tridente já estava pronto para atravessar a cabeça daquela desgraçada á qual eu não queria ter o desprazer de lembrar o nome.
Ela não fora pega de surpresa graças á mim, mas consegui fazer uma das pontas do tridente atravessar seu braço, fazendo seu sangue pútrido cair, molhando a pobre terra.
— É melhor que não tenha medo de sentir dor, querida. — Sussurrei, me sentindo como no começo de tudo. Eu queria sua morte. Seu sangue. Eu queria vê-la gritando e pedindo desculpas. Ela havia ousado rir? Iria ouvir minha risada agora. Ela havia matado Collen? Pois agora iria ter de assistir enquanto eu á matava.
Ignorando o ferimento no braço, a garota puxou uma espada da bainha na cintura, e avançou contra mim. Parei seu golpe em pleno ar com o tridente, os dois se chocando um contra o outro enquanto eu andava para trás de propósito, deixando que ela imaginasse que seria capaz de vencer. Ao ver o corpo de Collen á meu lado, senti apenas adrenalina. A mais pura adrenalina invadindo meu sangue e atravessando meus ossos. Ela havia feito Collen sofrer? Pois agora ia sofrer também. E ia sofrer algo pior. Ela puxou a espada para trás, se preparando para dar mais força em outro golpe, notando tarde demais o que eu ia fazer. Idiota.
Me abaixei e girei sobre meu próprio pé, indo para o lado. Com o impulso, a vadia havia conseguido enfiar a espada na terra, e agora começava á puxar de volta, eu estava ao lado do corpo de Collen, ainda. A pequena tinha seus olhos ainda abertos, vazios. Olhando para o nada. Aquilo me atingiu como nenhuma espada faria, mas apenas me incentivou á matar. Peguei a segunda adaga que ainda pairava em sua cintura, fechei seus olhos com delicadeza e dei um beijo em sua testa.
E então, o canhão soou. Mas antes disso, eu pude ouvir. Um murmúrio baixo vindo de minha pequena. Uma palavra. Um nome. Meu nome.
— Katherine. — Ela dissera, para partir então para sempre.
Senti meus olhos se umedecerem, e apertei com ainda mais força a adaga em meu punho. Annabeth - infelizmente eu me lembrava - havia puxado a adaga de volta, e se preparava para se virar e me atacar novamente, mas eu fora mais rápida. Eu sempre era mais rápida. Eu sempre vencia. Dessa vez o contrário não iria mesmo acontecer. Dei um chute com toda a força que encontrei na parte contrária de seu joelho, fazendo-a gritar e cair para frente, tendo inteligência o suficiente para soltar a espada antes que acabasse enfiando-a em si mesma ao desabar. Com um segundo olhei em volta e notei Bright e Leo rolando no chão. Leo estava vencendo, tive certeza.
Voltei o olhar para Annabeth, com alguns passos quase calmos indo parar á sua frente. Chutei a espada para longe de suas mãos e me ajoelhei á sua frente, puxando com rudez seu braço machucado. Ela parecia prestes á gemer de dor, mas escondeu isso. Movi a cabeça para o lado, com um sorrisinho inocente nos lábios, olhando diretamente em seus olhos ao pressionar um dedo contra o furo que o tridente havia feito. Vi um filete de sangue escorrendo sua boca, demonstrando ainda mais que ela se controlava para não gritar. Soltei o tridente á meu lado, ficando apenas com a adaga, enquanto usava a mão livre para puxar sua cabeça para trás pelos cabelos, aproximando a faca de seu olho. Lentamente, cortei sua pálpebra esquerda, que logo se soltou completando o trabalho ao cair no chão. Seu rosto estava sendo molhado com o próprio sangue. Sangue, sangue e mais sangue. O que mais eu podia querer? Aproximei a adaga de seu pescoço, sem soltar seu cabelo. Fiz um pequeno corte na lateral, infelizmente notando meio tarde que alguma artéria havia se rompido. Ela gritou mais e mais e aquilo era música para meus ouvidos. Fiz outro corte mais profundo, pensando em alguma frase de efeito bonitinha para dizer antes de matá-la, mas não pensei em nada. Não havia necessidade de dizer algo. Ela continuava gritando e vi como sua boca ficava horrível gritando. Quem sabe um sorriso para animar a coisa, além do meu?
Cortei a pele de seus lábios, forçando-a á ter um sorriso eterno. Subi o corte pela bochecha, dando-a uma aparência de lendas de terror. Pena que ela não era a parte da lenda. Ela gritava como uma idiota, mesmo sabendo que aquilo pioraria a dor. E então, um tridente atravessou sua barriga, quase chegando á mim. Além de mim, apenas Leo tinha um tridente ali.
— Mas que merda é es... — Comecei, vendo o corpo de Annabeth desabar com Leo logo atrás. — EU IA MATAR ELA, TÁ OK? — Gritei, me levantando. Logo fechando a boca e dando um passo atrás. Leo. Por que eu sentia que devia morrer? Collen já havia morrido, o que eu tinha mais na vida? Ele. Ele não me tinha, mas eu queria tê-lo, e isso era o suficiente. — LEO! — Gritei, vendo Bright se aproximar por trás. Eu achava que o filho da puta estivesse morto, mas tudo bem. Leo se virou, tarde demais para ver a lança improvisada de galhos de árvore atravessando sua cintura, pouco abaixo do umbigo. No momento em que isso aconteceu, eu já havia corrido até parar atrás de Bright e movido a adaga com tanta velocidade e força que até me surpreendi comigo mesma ao ver seu corpo caindo e sua cabeça rolando ao lado de meus pés. Em situações normais, eu chutaria á mesma para longe e sairia rindo.
Mas Leo estava morto. Não entendo... Mas eu me sentia quebrada, como se alguém houvesse pegado cada parte de meu corpo e cortado em várias menores e ainda assim, eu estivesse viva, apenas assistindo aquilo e sentindo a dor. Talvez fosse isso. Leo e Collen eram partes de mim. Puxei a lança do corpo dele e me abaixei rápido para segurá-lo antes que seu corpo caísse por completo. Seu peso era muito, mas não importava. Larguei a adaga e tracei uma linha imaginária com meu dedo pela lateral do rosto de Leo, acariciando seu cabelo.
— Leo... — Sussurrei, sabendo que ele ainda me ouvia.
— Katherine. — Ele disse e tinha um sorriso tarado nos lábios que nunca imaginei que alguém á beira da morte pudesse ter. — Eu te amo. — Ele disse, e ao mesmo tempo que meu coração disparou, ele parou.
— Não. Você ama Helena... — Comecei, mas ele me calou, levantando um dedo até meus lábios, os parando. Aproximou os dedos até meu cabelo, e puxou-os até atrás de minha orelha.
— Não, eu amo você. Eu não conhecia Helena. Eu conheço você.
— Leo... — Eu não tinha muito o que dizer. Ou não sabia.
— Sh... — Ele continuou, ainda sorrindo. Levou a mão com uma fragilidade que me torturou mais que mil facas poderiam torturar até a parte de trás de minha cabeça, empurrando-a até próxima de si até que nossos lábios estivessem colados. — Eu te amo.
— Eu também te amo. — Sussurrei, calando-o, agora com um beijo. Não importava mais. Nada importava. Eu não importava. Que Helena voltasse. Poderia viver com seu namoradinho no distrito 11 por quanto tempo fosse, eu deixaria. Ela, pelo menos, poderia ter o que eu não tive. Senti sua língua pedindo passagem e logo nos beijávamos em sincronia, como se aquilo fosse hábito. — Leo... — Sussurrei de novo, em meio ao beijo, me afastando apenas alguns centímetros. Senti algo se misturar á saliva e percebi ser seu sangue. Agora sim, ele estava morrendo. Eu já estava morta, por dentro.
— Katherine?
— Sim..
— Minha irmã, Elen... — Começou, e prestei toda atenção possível, mesmo que as próximas palavras dele não não tivessem sido nunca mais pronunciadas.
Bum. E ele estava morto. E Collen estava morta. E eu estava morta. E eu estava chorando. E a grama começou á se mover mais rapidamente á minha frente.
Aerodeslizador, os jogos acabaram. Ela está viva?
— Ela está viva? — Era a pergunta que era repetida em cada canto do aerodeslizador, enquanto os melhores médicos da capital usavam dos mais diversos modos possíveis já inventados pela medicina para "reviver" Helena. Sim, ela estava viva. Katherine continuava lá. Helena e Katherine estavam vivas. Helena Katherine Steve estava viva. Três, ou uma só? Inimigas, ou irmãs?
Vivas. Vivas por completo, mesmo que o que mais quisessem fosse estar mortas. Longe dali. Num lugar melhor.
"Estamos te esperando." Dissera Leo e Collen no sonho que tivera. Sonho, apenas? Não sabia. Mas queria morrer, apenas para saber se era verdade ou não. Desejou com todas as suas forças sumir dali, mas não conseguiu. Estava viva em Helena, porém morta por completo. Não queria viver. Para quê a vida servia, aliás?
O único sinônimo que conseguia pensar para 'vida', era simplesmente sofrer. E o único sinônimo que lhe vinha á mente quando pensava em 'morte', era simplesmente libertação. "Porque não posso, enfim ser libertada?"
— ELA ESTÁ VIVA! — Gritou um dos médicos, animando o resto da "tripulação" do aerodeslizador. Viva e á caminho da Capital. Viva, preferindo á morte, mesmo que agora soubesse que não podia morrer. A capital não deixaria, pois a Capital era isso: Não deixar. Não deixar ninguém feliz. Não deixar a vida ter algum sinônimo além do sofrimento. Não deixar, jamais, o amor existir e prevalecer...
















