Bright Leaf, Distrito 6. Desafio 7, parte 2
A corrida dos três só perdeu ritmo quando ao longe quase não mais se ouvia os gritos e sons de outros tributos duelando na cornucópia. Ruby liderava o trio que seguia o farfalhar de sua capa vermelha de perto. A garota instruiu com urgência: “Precisamos sair daqui o mais rápido possível. Sigam-me!”. Avançaram por uma rua deserta o mais silenciosamente que podiam. Ruby à frente mostrando aonde ir, Annabeth no meio vasculhando possibilidades e abrigos e Bright fechando o cortejo com armas em punho, pronto para usá-las.
O cenário era cinzento, prédios aparentemente vazios, ruas desertas, não havia nada para procurar ou que fosse útil aos três. Nem sinal de água ou comida. Bright estava aos poucos vendo a adrenalina deixar seu corpo e começou novamente a racionalizar. Acenou para as duas companheiras e sussurrou: “Vamos parar um pouco. Estamos há uma boa distancia de todos...”. O garoto sentou-se no chão, reposicionando as facas no estojo olhando Ruby e Annabeth, que se sentavam ao seu lado. Estavam visivelmente abaladas pela corrida e por tudo o que havia seguido. Ruby arfava com uma respiração pesada com o rosto parcialmente oculto em sua capa escarlate. Annabeth tentava controlar sua ofegância, a bochecha marcada com um filete de sangue já em coagulo. Ruby ainda estava no comando e perguntou pelos regalos que havíamos conseguido no banho de sangue. Bright esvazia a pequena mochila em frente as garotas exibindo seu conteúdo e em seguida menciona o estojo de facas que estava seguramente preso a seu corpo, pronto se assim fosse necessário. Annabeth parecia constrangida ao mostrar o que tinha pegado um kit de primeiros socorros, que viria muito a calhar. Ruby saiu de mãos vazias da cornucópia, mas Bright só conseguia pensar que era muito bom ter as duas ali com ele, seguras. Ruby começara a falar novamente, mas suas atenções foram roubadas quando os canhões que indicavam os caídos começaram sua apresentação. Nove vezes o estrondo bélico foi ouvido por toda arena. O garoto pode perceber no olhar de suas aliadas que elas pensam o mesmo que ele. A pequena Giovanna estaria entre esses nove? Onde ela estaria?
Ruby reunião o grupo novamente, juntando as coisas que haviam arduamente recolhido e recomeçaram a caminhar. A corrida estava cobrando seu preço. O sol estava brilhando imponente e o calor começava a se fazer presente. Bright podia sentir a boca seca e não conseguiu evitar pensar no cantil cheio de água fresca em sua mochila. Logo Ruby menciona a necessidade de localizar um abrigo, o que seria muito bom de fato. Bright olhou em volta, a única coisa existente ali com exceção de seu pequeno grupo e as ruas eternas, eram os prédios. Por que não? Não parecia haver nada com o que se preocupar e os tributos estavam muito longe. Annabeth revirou os olhos, com sua familiar expressão impaciente, como se a proposta de Bright fosse absurdamente inviável: “As GMakers não colocariam prédios sem nada dentro! provavelmente terá um bestante ou alguma coisa pior... Precisamos de armas para todos e alguma coisa para caçar.”. O garoto sorriu para ela, abrindo a jaqueta e deixando as facas à mostra, satisfeito em finalmente poder fazer algo que agradasse Annabeth, mas não pareceu convencê-la muito. Acompanhou de perto a expressão pensativa da garota que pouco depois, já estava dando instruções. Annabeth era brilhante, Bright nunca havia conhecido ninguém tão racional e esperto como ela. Seguindo obediente, o garoto caminhou até a arvore mais próxima e com habilidade começou os trabalhos manuais, esculpindo com uma das facas uma espécie de estaca com um galho grande e firme. Não demorou muito e Annabeth tinha em mãos duas lanças improvisadas e afiadas, mesmo assim, Bright insistiu que ela levasse uma das facas. Ruby também acabou cedendo a sua teimosia e ficou com uma das facas. Bright não queria que elas chegassem a usar nenhum tipo de arma, sabia que era sua função ali, mas se sentia melhor sabendo que as garotas tinham com o que se defender. Annabeth não o deixou ficar animado por muito tempo, lembrando os aliados de que apesar das armas, um abrigo ainda era necessário. Novamente com sua expressão pensante, Annabeth sugeriu que se o interior dos prédios era perigoso, o telhado podia ser perfeitamente seguro e, uma de suas habilidades era escalada. Bright não concorda de inicio, duvidando que talvez todos consigam escalar prédios tão altos, mas acaba por concordar, imaginando obviamente que Annabeth saberia dizer se algo é certou ou errado, com mais precisão que ele. A garota o entregou seu kit de primeiro socorros e a faca que havia pegado emprestado antes, subindo o prédio mais facilmente do que ele poderia supor, levando consigo as estacas de madeira. Bright acompanha cada movimento da aliada, próximo o suficiente para agir, ladeado por Ruby que aparentemente o segue na mesma linha de pensamento. Annabeth era admirável em sua escalada, os pés habilmente sabendo onde e quando ir. A garota se apoiava num grande buraco na parede do prédio, procurando pelo próximo passo quando foi puxada para dentro. Ruby e Bright não se atreveram a pensar e foram o mais rápido que puderam em seu encalço, subindo o mais agilmente que podiam, seguindo o caminho de Annabeth até o buraco e nele entrando sem saber o que encontrar lá dentro, a única coisa que importava era salva-la.
Bright entrou primeiro, seguido muito de perto por Ruby que gritava o nome de Anna, os dois ofegantes com a escalada até a fenda na parede do prédio abandonado. Ambos agora se viam numa espécie de galpão abandonado. Janelas lacradas pelo lado de dentro, não havia portas, apenas corredores. Tudo muito escuro, exceto por algumas finas frestas de luz pelo local, e o buraco ainda maior por ente tinham acabado de passar. A sala larga e escura onde agora estavam tinha uma movimentação bastante estranha, mas nada do que Bright ou Ruby pudessem imaginar se comparava com a verdade. Um grupo de 15 bestantes fechava um cerco apertado em volta de Annabeth que permanecia encolhida e tremula no chão, provavelmente esperando pelo pior. O que aconteceria, caso os outros dois não tivessem interrompido com tamanha rapidez. Os monstros eram humanóides pálidos, com uma expressão voraz e um olhar selvagem. As mãos estavam mais para garras e alguma coisa no modo como se posicionavam indicava a Bright que era melhor se prepararem rapido. Bright avançou um passo e ouviu os dentes das criaturas rangendo, enquanto se armava movimentava os lábios o suficiente para que Ruby entendesse: “Pegue a Anna, e saiam daqui...”. Bright estava estrategicamente posicionado para começar a enfrentar as criaturas imaginando que talvez pudesse pelo menos dar tempo para as meninas fugirem mas não sabia o que esperar, nunca tinha visto nada como aquilo antes. Novamente com um movimento rápido, Bright mirou e lançou a faca certeira entre os olhos do bestante mais a frente. A expressão de fúria ficou vazia enquanto o monstro tombava. De uma forma estranha Bright pode perceber que a lamina penetrou o crânio mais fundo do que faria em uma pessoa normal, mas não houve sangramento como seria comum. Não importava, sabia que para derrubá-los, precisava acertar na cabeça. A resposta do grupo foi imediata. Assim que o primeiro monstro caiu, o grupo de bestantes partiu rápido em direção do garoto que correu para a esquerda enquanto pode ver Ruby se esgueirando pela direita, e em seguida em direção a Annabeth. Bright pode perceber que eram rápidos e não demonstravam nenhuma espécie de cansaço. As criaturas corriam e não o alcançavam por muito pouco, mas seria questão de tempo se ele não fizesse algo além de correr. Bright desviava por entre colunas de concreto, aproveitando o momento para se virar parcialmente e preparar um novo arremesso. Dessa vez, com dois alvos simultâneos. Um deles caiu pelo caminho, atrasando algumas das feras enquanto o outro continuava a perseguição com uma faca atravessada no pescoço. Enquanto servia de isca para os monstros, Ruby alcançava Annabeth que se recuperava do susto repentino e se colocando de pé, se armava com as estacas de madeira olhando em volta. Ruby segurava firmemente a faca, as duas agora observando a bizarra cena de Bright derrubando mais um monstro. Ainda havia muitos, ele não conseguiria sozinho. “Temos que ajudar... Mas como?” Ruby sussurrou anciosa enquanto Annabeth assumia novamente sua expressão racionalizando o problema. Annabeth se lembrou de uma versão dos jogos que assistiu onde bestantes iguais a esses foram também usados pelos gmakers. Eram conhecidos como vampiros. Muito fortes e com fome de sangue, praticamente indestrutíveis numa batalha corpo a corpo, mas vulneráveis a luz do sol. “É por isso que não pularam na gente simplesmente! É por isso que me puxaram da parede! São vampiros Ruby, não podem sair no sol! Bright! Bright! O sol! Temos que sair!”. Annabeth tinha se empolgado com sua descoberta e acenava eufórica enquanto Ruby tentava puxa-la, correndo com ela de volta ao buraco. Não só o garoto como também os bestantes ouviram a algazarra. Enquanto Bright mudava seu curso, de volta para as aliadas, os bestantes o seguiam cada vez mais de perto, prontos para agarrá-lo e o devorarem inteiro.
Ruby e Annabeth pareceram compreender bem rápido a urgência de Bright em correr de volta para elas e sem muita demora, começaram a se colocar para fora do prédio. Bright ainda conseguiu alcançar a saída e começar sua escapada quando uma garra começou a puxa-lo para dentro de volta, o prendendo em seus dedos fortes pela jaqueta. Annabeth que ainda estava na arvore golpeou o peito do bestante com sua lança improvisada, e após um urro seco o monstro soltou Bright, que conseguiu descer com e chegar ao chão novamente, junto com suas aliadas. Ruby estava novamente arfando por baixo da capa, Annabeth parecia incrivelmente bem para quem tinha acabado de ser arrastada para a morte por um bando de monstros sanguinários. Bright respirava com mais dificuldade, sentia o peito doendo com os lábios secos e o arrependimento de ter perdido duas facas com os bestantes, mas nada o faria voltar lá para recuperá-las. O garoto tirou o cantiu cheio da mochila e tomou fôlego antes de abri-lo e tocá-lo nos lábios. O fez de maneira que sentisse a língua voltar ao normal e parou antes mesmo de sentir um gole inteiro na boca. Em seguida, passou o cantil para Annabeth, que fez cara feia, mas preferiu não discutir quando Bright usou uma expressão ainda mais séria que a dela. Ruby fez a mesma coisa, devolvendo o cantil para Bright logo em seguida, que tornou a guarda-lo seguro na mochila quando averiguou que as meninas tivessem realmente bebido a água. Se mantiverem parados, respirando e tomando decisões mentais de maneira tão concentrada que não se deram conta da mudança de tempo, cada vez mais repentina. O céu tinha se nublado e o vento ficava cada vez mais forte e instável.
"Temos que sair daqui rápido. Essa tempestade deve estar vindo para cá!". Annabeth também tinha percebido. Não havia sido uma mudança climática. A arena estava mudando e muito mais rapido do que poderiam supor, os Gmakers estavam lançando sobre eles uma tempestade forte. Bright foi o primeiro a perceber o perigo que se aproximava e ordenou veemente que as garotas corressem. O mais rápido que pode, recolheu as armas e a mochila, tentando manter o ritmo da fuga igual ao das parceiras, mas as instigando a irem o mais apressado que conseguissem. Ruby indagou o porquê então o garoto mostrou a ela o motivo pelo qual suas pernas agora eram suas melhores aliadas. Um enorme furacão começava a se formar atrás deles, ainda razoavelmente distante, mas seus efeitos já facilmente perceptíveis. “Não adianta correr! Ele vai nos pegar!”. Annabeth tentou argumentar sem diminuir o passo. “Eu não entro em prédio de novamente!” Exclamou Ruby, pela primeira vez parecendo assustada. “Não vamos entrar em prédio nenhum, o furacão vai derrubar tudo! Temos que ficar embaixo do chão!”. Annabeth estava maquinando mais um plano, e antes que alguém mais perguntasse sobre como poderiam se esconder embaixo do chão, a garota fez uma mudança repentina no trajeto de fuga e seguida de perto por Bright e Ruby, indicou histérica: “Os bueiros! Precisamos achar um bueiro!”
Bright sentia o corpo fraquejando, era sua terceira corrida. Sentia a adrenalina de antes deixar suas veias, a boca ficando seca novamente e algumas dores começavam a surgir por suas articulações. Já tinham ido longe demais? Dar de cara com bestantes e matar um tributo no primeiro dia não era suficiente, tinham que lidar com um fenômeno natural e ainda assim, localizar o membro que faltava em sua nova família/time/aliança. O garoto estava novamente sendo tomado por confusão quando a voz de Annabeth se espalhou mais uma vez pela ventania, os conduzindo para uma entrada de esgoto. A garota bem que tentou, mas a tampa estava presa. Bright veio logo atrás dela e disse que tentaria. Cravou os dedos onde podia e sentiu os músculos do braço flexionando firmes. Não sabia se o peso daquilo era pior de aguentar do que o furacão feroz se aproximando ainda mais. Conseguiu mover a tampa bem a tempo e a segurou rangendo os dentes enquanto as meninas se jogavam no poço escuro. A batalha contra seu próprio organismo continuou até que ele finalmente entrou e selou o breu total fechando o bueiro novamente, deixando de fora até mesmo o barulho do desastre que acontecia bem acima de suas cabeças. Estava arfando, exausto e dolorido. Se pudessem enxergar, veriam seu rosto vermelho com suor escorrendo pelas têmporas. Muito tempo se passou no qual Bright se permitiu relaxar e respirar fundo enquanto o furacão passava destruindo tudo. Quando enfim havia se findado, novamente colocou os braços em ação e destampou seu esconderijo, inundando o bueiro de luz. Numa conversa entre as meninas, ficou resolvida que a prioridade agora era comida. Bright decidiu sair do bueiro e próximo ao que achou mais viável, montou algumas armadilhas, aprendidas no treinamento da capital, esperando capturar um pássaro qualquer. Olhando em volta podia ver que Annabeth realizava um trabalho mais engenhoso que o seu como era de se esperar. Mas Ruby tinha um talento natural. Sua companheira de distrito poderia fazer aquilo com as mãos amarradas, e se sairia melhor que qualquer outro. Se algum animal tolo passasse por ali, seria na armadilha de Ruby que ele cairia. O garoto voltou a se reunir com as meninas, então Ruby mostrou a eles o que tinha. Uma chave prateada ornamentada. Não significava nada para Bright, mas aquilo não estaria simplesmente enfeitando a arena. Mais uma vez, se manteve apenas como ouvinte, confiando nas decisões tomadas e concordou que a chave deveria ser guardada. Bright resolveu finalmente descansar as pernas e se sentou como uma criança em volta de uma fogueira quando pôde ouvir claramente o hino da capital. Não queria ver, mas olhou de relance para cada rosto que aparecia no céu. Ao fim daquele espetáculo macabro promovido pelas Gmakers, ele apenas sorriu, feliz por não ter visto Giovanna entre os caídos. A pequena era forte, ia aguentar firme até que a encontrassem. Tudo parecia ter se acalmado com a noite, então decidiram dormir onde parecia mais seguro e voltaram ao bueiro, quando decidiram a ordem de guarda. Bright se voluntariou como o primeiro, mas em seu interior sabia que ficaria de vigia até amanhecer outra vez, e só então descansaria o suficiente, poucas horas durante o dia, enquanto as meninas recolhiam as armadilhas. Empunhou mais uma vez suas facas e se colocou confortavelmente numa posição de fácil vigia, enquanto podia perceber de relance suas aliadas se aconchegando para dormir. Fim do primeiro dia. Quantos mais ele teria?















